Encantos & Desencontros
29 Capítulo 29
“E agora, como eu passo sem você
Se o seu nome está gravado no meu braço como um selo
Nossos nomes que tem o "N"
Como um elo.
E agora como posso te perder?
O teu corpo ainda guarda o meu prazer
E o meu corpo foi marcado pelo seu.”
Nando Reis – N
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Maria não sabia que precisava ouvir aquela palavra para despertar, até ouvi-la. Enquanto seu corpo permanecia imóvel naquela cama de hospital, sua alma zanzava num mundo totalmente desconhecido, desconexo, sem saber ao certo o que fazer, para onde ir. Porém, quando aquela palavra soou em seus ouvidos, era como se uma força maior a puxasse de volta à vida, sem dar explicações.
Do lado de cá, Miguel ainda parecia incrédulo, pensava que era algo de sua cabeça, que Maria não havia apertado sua mão. Durante alguns segundos, ele fitou o rosto da mãe, com o coração angustiado, torcendo para que não estivesse à beira da loucura. Foi então que viu, aos poucos, Maria abrir os olhos.
— Ai meu Deus, você acordou! – Suas palavras falharam em meio a alegria e a surpresa. – Enfermeira, minha mãe acordou! – Gritou da porta da quarto, atraindo muitas atenções.
Rapidamente apareceram no quarto uma enfermeira, que chegava algumas informações do monitor, e o médico, responsável pelo caso. Miguel estava enérgico com a situação, o médico também se mostrava bastante animado, só mesmo Maria que parecia não entender o acontecido.
— Maria... Digo – respirou fundo, com um sorriso bobo no rosto – mãe, eu tô tão feliz por você ter acordado, nós não víamos a hora disso acontecer.
— Onde eu estou? – Maria perguntou ainda bastante perdida. – Minha cabeça dói. – Ela levou a mão à testa, e fechou os olhos com força, indicando que a dor que sentia era aguda.
— Você está no hospital, Maria. – O médico explicava, atencioso. – E é normal essa dor de cabeça, você passou por um trauma e tanto. Bom – olhou Miguel – nós vamos levá-la pra fazer uns exames neurológicos, e ver se tá tudo em ordem, nessa cabecinha. – Brincou, ele e Miguel riram, porém Maria se mantinha séria.
...
Os dias que decorreram ao acidente de Maria foram difíceis, mas todos sabiam que não podiam sucumbir, que precisavam se unir se tornando assim mais fortes, mesmo tendo ciência que o maior obstáculo entre eles, era se unirem.
Mesmo com a tensão rondando, eles decidiram que o melhor era cada um voltar à sua rotina. Os primeiros dias foram exaustivos, mas conseguiram vencer, e assim, levavam cada dia, na esperança de receber a tão esperada ligação, com a tão esperada notícia que, por fim, ela havia acordado, e só queria vê-los. Mas isso não acontecia. Os dias passavam, e o celular de nenhum deles tocava, fazendo aumentar a tormenta, e o medo de perdê-la.
Eles não sabiam, mas aquele dia seria diferente de todos os outros que o antecederam.
Giovana ignorou a primeira ligação do irmão, por não escutar o celular tocar, mas assim que viu a chamada perdida, retornou com pressa, afinal, ela sabia que era naquele horário que ele ia ao hospital. Quando ele lhe contou a notícia, ela quase caiu para trás. A emoção foi tão grande, que ela encerrou a ligação sem querer.
— Ai meu Deus! – Disse em meio as lágrimas. – Eu não acredito nisso!
A menina entrou em estado de choque. As lágrimas rolavam desenfreadas, era tão grande a alegria que sentia, que seu corpo pequeno paralisou. A vontade de gritar, correr, invadir a sala de reuniões e contar a todos o que acabara de acontecer, existia, e era grande, mas não era ela quem tinha o comando do seu corpo, e a única coisa que ela conseguia era chorar e sorrir. Ela só voltou ao seu estado normal, quando uma mão tocou seu ombro por detrás. Era Lucas.
— Posso saber o que você faz no meio do corredor com essa cara, maluquinha? – Ele perguntou num tom descontraído.
— Eu tô muito feliz, sabia? – Declarou com um sorriso que não cabia no rosto. – Me abraça? – Pediu. – Por favor, me abraça.
Sem entender, ele a acolheu em seus braços, a deixando desconfortavelmemte segura. Desde o acidente de Maria, ambos ficaram muito próximos, Lucas se tornou o porto seguro de Giovana, era com ele que ela chorava, contava suas angústias e medos.
— Esse abraço inesperado tem um motivo, ou você só queria se aproveitar de mim? – Perguntou ao oferecer um lenço a ela.
— Ela acordou. Minha mãe acordou, Lucas! – Ela falou enérgica. Sua alegria contagiou seu amigo a sua frente.
— Que bom, Giovana! E como ela tá?
— Eu não sei, acabei desligando na cara do meu irmão sem querer – riram – mas tô indo pra lá agora. Quer vir comigo?
— Eu adoraria, mas não posso. Tô em reunião, só vim aqui fora pegar um pen drive.
— Ah sim. Bom, eu vou correndo pro hospital. Avisa ao meu pai e ao Estêvão por mim.
— Claro. Mas por que o Estevão? – Indagou, ele ainda não sabia boa parte da história mirabolante da família.
— Ah, longa história, só avisa, tá. Fui.
Giovana saiu quase correndo, quase não, ela estava mesmo correndo. Saiu empurrando tudo e todos, e nem se importou com as palavras adoráveis que foram ditas a ela, estava feliz demais para se importar.
Tomou o primeiro táxi que viu, e dentro do veículo, ligou para a irmã, que nessa altura também já sabia da novidade. As duas ficaram no celular durante o percurso até o hospital, cada uma no seu táxi, se comportando como duas adolescentes que estavam prestes a se encontrar com seus ídolos. Provavelmente, os motoristas duvidavam da sanidade delas.
Ao se encontrarem na entrada do hospital, subiram como flexa até o andar onde a mãe estava. A animação estava em alta, elas só sossegaram quando encontraram Miguel parado próximo a entrada do quarto, com uma cara nada amigável.
— Esperem! – Ele as abordou a poucos metros da porta do quarto. – Vocês têm que saber de uma coisa antes de entrarem.
...
Giovana e Juliana entraram no quarto menos animadas do que quando chegaram. Caminharam lentamente até à mãe, uma de um lado, e a outra do outro, enquanto o irmão as observava da porta. O olhar desconfiado de Maria deixava o ambiente um tanto sobrecarregado, mas não foi o suficiente para afastá-las. A mulher deitada naquela cama estava distante, muito diferente da Maria que eles conheciam.
— Oi mãe. – Juliana falou primeiro. A menina tentou segurar a mão da mãe, mas vendo sua intenção, Maria se contraiu.
— Oi mãe. – Giovana disse em seguida, mas não tentou nenhum tipo de aproximação maior.
— Engraçado, vocês duas me chamando de mãe, ele me chamou de mãe – se referia a Miguel – mas não consigo me lembrar que um dia estive grávida.
— É só questão de tempo, daqui a pouco tudo isso passa, e você vai lembrar de como a gente te dá trabalho. – Giovana tentou afastar o clima pesado do ambiente.
— Eu sou mãe de gêmeas – ela afirmou para si – eu tenho três filhos, e sequer me lembro o nome de vocês, e pior, não faço ideia quem seja o pai. Eu posso ser viúva, separada, mãe solteira, eu não sei!
— Calma mãe – Miguel se aproximou – o médico explicou que pode ser passageiro, daqui a pouco você pode recuperar a memória, e tudo volta a ser como antes.
— Pode ser passageiro – foi enfática – e pode não ser. – Ela fez questão de olhar no fundo de cada par de olhos confusos, os deixando ainda mais confusos.
— Indenpente do que acontecer daqui pra frente, vamos te dar toda a força, vamos ter muita paciência e principalmente, nós vamos estar do seu lado, vamos fazer o que não fizemos quando estava tudo bem.
Juliana falou com firmeza, com sinceridade, era o que estava em seu coração. Maria sentiu verdade na declaração simples da filha, e permitiu que ela segurasse sua mão, não só ela, como também Giovana.
— Acho que ser mãe de gêmeas deveria ter sido uma das minhas coisas preferidas. – Ela lhes sorriu, a primeira vez desde então.
— Não quero cortar seu barato, mas na verdade eu sou filho preferido. – Miguel declarou convencido.
— Há controvérsias, eu sou a preferida! – Giovana rebateu.
— Bom, eu sou a única que segui seus passos profissionalmente. – Juliana deu o xeque mate.
— Ah é? E o que eu sou? Não respondam, deixam eu adivinhar. Hum – Maria pôs-se animada pensando, fazendo o bate papo ficar cada vez mais agradável – eu sou professora? Não, sou contadora, acho que tenho cara de contadora.
— Na verdade, você é uma estilista muito famosa. – Foi Juliana quem respondeu, com os olhos cintilantes.
Mesmo não se lembrando de quase nada, ou absolutamente nada, como o nome dos filhos, por exemplo, Maria parecia estar à vontade na presença deles. Talvez o sangue estava falando mais alto, e, mesmo não se lembrando, entendia que tinha algo dentro dela que se conectava a eles.
Os três ficaram um bom tempo com ela, até que ela adormeceu, e então, eles saíram. Por melhor que tenha sido o momento, eles não negavam o quanto estavam apreensivos com a possibilidade de sua memória não voltar. E mais uma vez, o medo pairavam no ar.
— Miguel, você é médico, então fala a verdade: existe mesmo a chance dela se lembrar da gente? – Juliana perguntou aflita. Os três se acomodaram na lanchonete do hospital.
— Não dá pra afirmar que sim nem que não. – Miguel começou a explicar. – Pode ser algo temporário, ou permanente. Nós sabíamos que isso poderia acontecer.
— As benditas sequelas. – Giovana suspirou com pesar. – A gente acabou esquecendo que poderia acontecer uma coisa dessas.
— Vamos pensar positivo, vai ser algo temporário, daqui a pouco ela vai lembrar de tudo, e vai preferir não ter lembrado de nada. – Miguel brincou, e as gêmeas acabaram rindo.
— A gente podia fazer alguma coisa pra ajudar fazer a memória dela voltar. – Juliana parecia pensativa, parecia estar bolando algo em sua mente.
— Tipo? – Giovana se ajeitou na cadeira, parecia gostar do assunto.
— Podíamos fazer uma festa de boas vindas. Sem muitas pessoas, só as mais chegadas, quem sabe isso não ajuda.
— O tiro pode sair pela culatra. Se ela acabar se assustando com um monte de estranho?
— Giovana tem razão. – Miguel atestou.
— A gente deixa os convidados de sobreaviso. Se por acaso acontecer, a gente tira ela de lá, e só volta quando tudo estiver mais calmo.
— Podemos tentar. O que você acha, Miguel?
— Clinicamente falando, acho que não tem nada de mais, então acho que é uma ideia válida.
— Ok. Vou pedir ao Jacques que organize tudo.
— Ah, avisa a ele que não pode ter nenhum tipo de jornalista ou coisa do tipo, é reservado somente aos convidados, e se ele não fizer como eu disser, eu vou fazer o mesmo que fiz com a amiguinha dele. – Giovana falou firme, com a intenção de deixá-los em alerta.
— Com certeza ele não vai estrapolar, depois do que fez com Fabíola, ele ficou com medo. – Juliana lembrou o fato entre risos.
— Não tenho culpa de ser tão adorável.
— Você é louca, isso sim. – Todos riram após o comentário de Miguel.
...
Depois de alguns dias sendo observada, os médicos decidiram que, finalmente, Maria teria alta. Para ela, foram longos cinco dias de muito tédio, além de revelações sobre sua vida antes do acidente. Ela se pôs bastante perplexa com as descobertas que fez sobre si. Jamais imaginaria estar passando por um divórcio, por, entre outras coisas, ter um caso extra conjugal com um antigo amor, além de outras coisas que lhe custava acreditar.
As gêmeas estavam sendo muito amáveis e cuidadosas, agiam como se a mãe fosse uma boneca de porcelana, sempre guiando seus passos, para que nada de errado acontecesse. Novamente os papéis se inverteram.
No caminho de volta à casa, as filhas deixaram-a de sobreaviso sobre o que encontraria ao chegar. Seus olhos assustados pouco piscavam, mas elas explicaram que eram pessoas do convívio, e que ela não tinha com o que se preocupar. Maria acabou concordando, talvez a animação das filhas tenha contagiado-a.
Quando chegaram, e saltaram do táxi, notaram que não havia muita movimentação do lado de fora, e quase não se ouvia nada. Tudo como combinado: nada de tumulto, nada de balbúrdia. O que Maria precisava era se sentir acolhida, e não mais perdida do que já estava.
— Pronto mãe, essa é a sua casa. É aqui que moramos desde que saímos dos Estados Unidos. – Juliana declarou enquanto as três admiravam o móvel por fora.
— É bem bonita, e parece ser muito luxuosa também.
— É ainda mais bonita por dentro. Você sempre teve muito bom gosto pra decoração. – Juliana olhou a mãe com os olhos meigos que tinha, que trazia como brinde um sorriso encantador.
— Vamos entrar? Já estão a nossa espera. – Giovana tratou de trazer a atenção das duas para si, tirando-as do pequeno delírio.
— Tem muita gente? Eu tô com pouco de medo.
— Calma, mãe. Meu pai vai estar lá, além de Miguel, Estêvão, e algumas outras que pessoas que eram próximas a você. – Giovana tentou acalenta-la, massageando o dorso de sua mão.
— Fica tranquila, mas se você não se sentir bem, podemos sair, eles vão entender.
As três caminharam em silêncio, Maria precisava disso. Dava para notar um aumento significativo dos seus batimentos. Sua respiração já estava descompassada, sua boca seca e suas mãos suando frio, indicava o quanto aquele momento estava sendo difícil. Porém ela sabia que não estava passando por aquilo sozinha. Ela tinha de cada lado, suas filhas, que seguravam suas mãos, indicando que, independente de qualquer coisa, elas estariam ali, como porto seguro, assim como ela fora por diversas vezes para elas.
E enfim, lá estavam elas, frente àquele objeto de madeira que as separava de um mundo totalmente desconhecido para Maria, que estava disposta a encará-lo de cara, como sempre fizera.
— É agora, mãe. – Juliana a encarou, porém ela seguia olhando a porta à sua frente.
— Nós estamos aqui, tá. E não vamos sair do seu lado. – Giovana imitou o gesto da irmã, procurando fazer com que a mãe se sentisse o mais relaxada possível.
Bastou uma respirada funda da parte de Maria, para que as meninas entendessem que ela estava pronta. Elas deram mais dois passos, e, finalmente, abriram a porta. Giovana e Juliana esperavam o silêncio do lado de dentro, já que fazia parte da supresa, mas via-se de longe que aquele clima só lhe causava ainda mais tensão.
Elas andaram mais um pouco, e chegaram, então, a sala de estar, onde as luzes foram acesas, revelando pouco mais de uma dúzia de convidados, e de repente, todos gritaram em uníssono:
— Surpresa!
Os convidados jogaram confetes e serpentinas por todo o cômodo. Ouvia-se barulho de apitos e buzinas, os outros, sopravam língua de sogra, além de todos estarem usando chapéu de aniversário. Nas paredes tinham cartazes, com dizeres do tipo: Seja bem vinda, Maria; Você é muito especial; Nós amamos você. Algumas fotos também faziam parte da decoração.
— Seja muito bem vinda, mãe. – Miguel saiu do meio da pequena multidão, e, indo até ela, colocou um chapéu em sua cabeça.
— Por acaso hoje seria meu aniversário? Porque, pelo o que ainda me lembre, toda essa decoração é feita em festas de aniversários. – Seu comentário fez todos rirem.
— Nós pensamos em algo bem alegre, e saiu isso. Ficou tão ruim assim? – Miguel perguntou divertido.
— Não, claro que não! Tá tudo lindo!
— Então vamos andando, vamos logo encher a barriguinha, porque meu estômago não para de reclamar, e depois, vou te apresentar algumas pessoas que você ainda não conhece. – Juliana disse tomada pela animação.
A música agradável deixava o ambiente ainda mais acolhedor. Maria se sentia à vontade na presença daqueles estranhos, apesar de muitos ainda se mostrarem tímidos a uma reaproximação.
Juliana fez questão de passear com a mãe pela grande sala, e apresentá-la aos amigos. A grande maioria estava cheio de dedos quanto a forma que a tratava, mas Maria estava encarando aquilo da melhor forma possível.
— Mãe, esse aqui é o Jacques, diretor de marketing da Casa de Modas, e seu fã número dois.
— Dois? – Os dois perguntaram ao mesmo tempo.
— Eu sou a número um. – A menina respondeu convencida, tirando um revirar de olhos de Jacques.
— Minha deusa master, eu fiquei tão preocupado com você. Eu pedi aos céus que me levasse e te deixasse aqui, o mundo ainda precisa de venerar por muitos anos, e graça a nossa senhora dos croquis, você tá aqui, bem e esplêndida, pra variar.
— Eu acho que você deve ter me feito rir muitas vezes.
— Minha rainha, eu acordava de manhã, contanto os minutos pra ver seu sorriso. Era o meu céu.
— Eu não sou tudo isso.
— E sim, isso e mais um pouco.
— Ok, chega dessa rasgação de seda. Vamos mãe. Bom – olhou em volta – acho que não falta mais ninguém pra te apresentar.
— Ei, ei, ei, espera! – Giovana apareceu correndo e ofegante, puxando o amigo pelo braço. – Falta um, o senhor atrasildo aqui. Mãe – tentava recuperar o fôlego enquanto falava – esse é meu amigo Lucas Máximo. Vocês não se conheceram antes do acidente, ele trabalha nas empresas San Roman.
— Senhora Maria, muito prazer. – Ele estendeu a mão, e Maria de pronto apertou a dele. – Giovana fala muito da senhora.
— O prazer é todo meu, mas nada de senhora, acho que não sou tão velha assim.
— Ok, me desculpe. Minha mãe e irmã são grandes admiradoras sua, elas adoram o seu trabalho.
— Fico feliz. Podemos marcar um chá qualquer dia, vou gostar de conhecer a família do amigo da minha filha.
Aquela tarde acabou sendo mais agradável do que pensavam. Maria não imaginava ser tão querida, e não era só pelos familiares, era por pessoas que não tinha nenhum laço sanguíneo.
Depois de algum tempo sendo receptiva a conversas e risos, ela se sentiu cansada, mas não à vontade de se retirar, então, apenas se debruçou numa janela que dava para o jardim. A vista encantadora do jardim bem cuidado, cheio de vários tipos de flores, fez seus olhos brilharem. Ali, ela descobriu o quanto amava flores.
— É muito bom te ver assim, bem. Eu sei que vai parecer repetitivo, mas você não imagina o quanto eu torci pra que você acordasse logo. – Estêvão parou ao seu lado, e logo iniciou um diálogo.
— Por quê? Por peso na consciência? – Perguntou, mantendo o seu olhar no jardim.
— Oi?
— Essa é a frase que eu mais tenho ouvido, e mesmo não sabendo exatamente o que estava acontecendo na minha vida, me atrevo a dizer que vocês não estavam sendo tão cordiais comigo.
— É verdade que eu estava com medo do pior, principalmente por ter sido um babaca com você.
— Você e todos os outros. A única pessoa que não me encheu de pedidos de desculpas, foi Giovana.
— Sabe, até que é bom você não se lembrar dos últimos acontecimentos. Você não merece ficar remoendo o quando fomos egoístas, e só pensamos em nós.
— Hum.
— O mês que passou foi ótimo pra pensar e repensar, falo por mim. Eu me coloquei no seu lugar, Maria, e você tinha razão – ele fez um pequena pausa, e logo voltou a falar com um sorriso no canto da boca – claro que tinha. Qualquer um no seu lugar faria o que você fez.
— Pois é, pena que teve que acontecer um acidente comigo pra que vocês perceberem isso.
— Nós merecemos seu desprezo. – Estêvão tornou a pausar, mas demorou uns dez segundos para que retornasse. – Eu mereço.
— Não te desprezo, Estêvão – Maria, por fim, o olhou – nem você, nem os outros. Eu fiquei em coma durante um mês, e não faço ideia do porquê, e não sei nem porque vocês me pedem tanto perdão, mas me foi dada mais uma chance, e não quero usá-la desprezando ninguém, mesmo que vocês tenham feito o pior contra mim.
— Você é mesmo uma mulher extraordinária, Maria. Você tem a coragem de enfrentar uma tempestade, sem reclamar do tamanho dela, e sempre sai muito mais forte.
— É, acho que faço o tipo da forte e destemida.
— Você é sim, e eu sempre soube disso. Também quero aproveitar essa chance que a vida nos deu.
— Como assim?
— Te conquistar de novo, mas dessa vez, sem babaquice da minha parte, quero te dar o valor que você merece.
— Estêvão, meu caro, não vamos colocar o carro na frente dos bois. Tenho muitas prioridades no momento, e me aventurar com um homem desconhecido não é uma delas. Meu foco é conhecer meus filhos, quero estar presente na vida dos três, e saber tudo sobre eles; eles são minhas prioridades. Lembre-se: vocês me conhecem, mas eu não faço ideia de quem são vocês.
Estêvão a olhou com um sorriso de quem não imaginava aquela resposta, mas não rebateu, sabia que ela tinha a razão em suas palavras. Ele ainda a encarou por alguns segundos, mas dessa vez, tinha um sorriso bobo nos lábios, Maria acabou se deixando levar pelo sorriso do acompanhante, e lhe devolveu o melhor sorriso que podia dar. Foi melhor do que ele imaginava.
Depois que Estêvão saiu, Maria não ficou sozinha mais do que vinte minutos, Cláudio apareceu, e se debruçou na janela ao seu lado, fitando o amplo espaço verde à sua frente. A casa já estava praticamente vazia.
— Apesar de ter me odiado quando comprei essa casa, você ficou apaixonada por essa vista. – Ele não fez questão de olhá-la, somente quis admirar a beleza posta a frente deles.
— É mesmo uma visão muito bonita. Acho que ficaria por horas aqui sem me cansar. Eu fazia isso? – O fitou.
— Quando tinha tempo, mas você era mulher muito ocupada.
— Hum.
O silêncio os invadiu, mas nenhum dos dois se sentiu incomodado, ou pressionado a tornar a falar, mas depois de uns dois minutos confabulando consigo mesmo, Maria retornou à conversa:
— Você acha que eu consigo voltar a ser o que era antes?
— Tá brincando? – Foi a vez dele a encarar. – Se você soubesse o quão magnífica você é, jamais me faria essa pergunta. Maria, você conquistou o mundo por méritos seus, você se tornou uma grande mulher sem ajuda de ninguém.
— Nem do meu marido?
— Digamos que eu só dei um empurrãozinho, o restante, você fez sozinha. E se não fosse eu, você conseguiria da mesma forma, talvez você não enxergue agora, mas você tem muito potencial.
— Acho que não quero minha memória de volta.
— Por quê? Não diga uma besteira dessas!
— Porque tô adorando ver vocês me paparicarem. Até agora só ouvi elogios a meu respeito.
— Você é isso tudo que estão dizendo, tem um ou outro defeito, mas é uma mulher maravilhosa.
— Tem certeza que estamos a beira de um divórcio?
— É, estamos. – Os dois riram. – Eu quero que você seja muito feliz, você merece muito, infelizmente tive que quase te perder pra entender isso.
— Mas eu tô aqui, então, pode continuar me paparicando, vou adorar.
...
Finalmente aquele longo dia estava chegando ao fim, e Maria, se sentindo mais amada do que nunca, e um tanto sufocada também. Seu deu ao luxo de um banho demorado, e ele fora revigorante. Passeou pelo quarto, buscando se lembrar das coisas, de sua vida, mas não se frustrou por não lembrar, pelo contrário, fez questão de colocar um sorriso no rosto, afinal, estava bem, estava em casa, e com sua família, bom, naquele momento, era só ela e as gêmeas.
Maria deu a entender que a história de aproveitar a chance que a vida lhe dava, não era balela, ela estava mesmo disposta a rever seus conceitos, e por fim, dar um jeito em sua vida, recomeçando do zero. Não sabia exatamente por onde ia começar, mais ia.
Após um longe tempo perdida em devaneios, Maria acabou voltando à órbita quando Giovana colocou a cabeça na porta. Maria lhe sorriu de pronto, e deu permissão para que ela entrasse.
— Eu posso falar com você? – Perguntou enquanto se acomova debaixo do edredom.
— Claro.
— Eu não queria parecer egoísta por falar disso agora, mas é que eu preciso falar isso com alguém, eu não aguento mais segurar. – Giovana era muito intensa em sua palavras.
— Pode falar, não precisa se sentir mal por isso.
— Ok, lá vai. – Giovana respirou fundo, e fechou os olhos antes de falar o que tanto lhe tirava o sono. – Eu tô apaixonada!
Maria encarou a filha supresa, não esperava que essa fosse a revelação.
— Que bom, Giovana! Quem é ele? Eu conheço?
— Ele esteve aqui mais cedo, até apresentei vocês, lembra? – Maria assentiu. – Ai mãe, acho que dessa vez é pra valer. Ele é tão carinhoso, amigo, leal. Me liga de manhã pra saber se eu dormi bem. Ele é o homem da minha vida. – Suspirou.
— Ele sabe?
— Eu nunca falei abertamente sobre isso, mas acho que sim. Só se ele for bem idiota, mas acho que não é o caso.
— Bom, eu também tenho que falar uma coisa.
— O quê? Você não tá se sentindo bem? Quer que eu ligue pra alguém, ou te leve pro médico?
— Não, calma, eu tô bem, aliás, melhor do que nunca. Eu não perdi a memória, eu me lembro de tudo, e de todos.
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