Encantos & Desencontros
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Encantos, na maioria da vezes, viram
desencontros. Mas desencontros, esses
jamais viram desencantos.
Letícia Bergallo
“Hoje, tudo que sei é que
Você deveria estar aqui
E que eu era um idiota sem saber amar você
E eu te perdi
E me desculpe se eu te acordei, mas hoje eu não aguentei
Perdoe-me se eu ligar para você e se eu ligar de novo
Mas você é o amor da minha vida
Mesmo se você estiver com outra pessoa.”
Río Roma – Deberías Estar Aquí
****
O grupo formado por aqueles cinco amigos estava mais uma vez reunido no galpão abandonado. Eles sempre se encontravam ali, mas era de lei toda sexta feira depois da escola eles se juntarem ali para conversar, brincar ou fazer algum tipo de jogo que, no final, algum deles se daria mal.
— Então Estêvão, você vai ou não vai fazer o combinado? – Antônio pressionava. – Se não avisa logo e cai fora.
Há alguns dias Estêvão estava sendo apertado pelos amigos a cumprir uma aposta que havia perdido e por mais que o jovem de dezesseis anos não quisesse, os companheiros de escola não davam trégua.
— Espera aí pessoal, eu não posso fazer isso com ela, será que vocês não têm coração?
— Deixa de ser frouxo Estêvão – Fabíola, que também fazia parte do grupo, foi até o rapaz, que até então estava atônito, e rodeou seus braços pelo pescoço do mesmo – é só uma brincadeirinha, não tem nada de mais nisso.
Fabíola e os outros três caíram da gargalhada.
— Ou será que é por que ele tá apaixonadinho pela cara de pastel?
Um outro amigo comentou. A risada que tinham um som ameno se tornara estrondosa.
— Que apaixonado o quê! – Estêvão se desprendeu de Fabíola num arrancão e saiu andando para o meio do cômodo largo. – Eu não estou apaixonado por Maria, só acho muita sacanagem fazer isso com ela!
— A Fabíola que é irmã não tá nem um pouco preocupada com isso, por que você estaria? – Um terceiro amigo perguntou e Fabíola deu de ombros.
— Por favor, gente, esquece essa ideia louca, isso já foi longe demais!
Antônio, o líder da turma, saiu de sua poltrona e foi até Estêvão com passos largos e pesados, e com cara de poucos amigos, disse em alto e bom som:
— Você perdeu a aposta meu caro, e sabia que esse era o único jeito de pagar, então, ou você cumpre o que foi determinado, ou tá fora do grupo, e mais, se você sair nós vamos te infernizar. Agora você escolhe: você ou a cara de pastel.
Estêvão desviou os olhos do seu amigo mandão e metido a líder, e percebeu a besteira que fez ao aceitar apostar com ele. Em sua cabeça, não tinha como ele perder, mas mal ele sabia que seus amigos tramaram para que ele perdesse e então seria obrigado a pagar a aposta.
— Ok, ok! Eu aceito fazer o que vocês querem, mas depois, vocês a deixam em paz!
Os quatro pularam em cima dele festejando a decisão tomada, ele, porém, não conseguia agir como os demais, apenas se deixava levar pela festa deles.
...
Mais tarde naquele dia, Maria estava em casa, se arrumando toda animada, com sorriso de orelha a orelha, Fabíola apenas a observava, sabendo em seu íntimo o motivo de toda aquela empolgação.
— Posso saber aonde minha irmãzinha vai?
— Vou fazer um trabalho na casa de umas colegas – olhou a irmã deitada na cama, e se sentiu um pouco mal em mentir – depois vamos ver um filme, e conversar um pouco. – Deu de ombros, e continuou se maquiando em frente ao pequeno espelho, que estava quebrado de tão velho que era.
— Hum. – Fabíola roía o canto dos dedos. – Tem certeza que é só isso? – Alfinetou.
— Sim – ficou um pouco nervosa – o que mais eu poderia fazer numa sexta à noite? – Maria tentou ser convincente na resposta, pois não fazia ideia de que sua irmã soubesse que não era verdade o que ia fazer.
— Tudo bem, eu acredito – ela se sentou na cama – só não volta muito tarde viu, senão nossa mãe vai ficar preocupada.
— Tá, eu não vou voltar. Bom – ela foi até a irmã e lhe deu um abraço, elas não se davam muito bem, mas de vez enquanto acontecia uma rara cena dessas – tô indo tá.
— Tá. Hum – inalou o perfume floral da irmã – tá cheirosa hein, parece até que vai namorar. – Provocou.
— Que nada, tchau.
Maria era uma menina doce e sonhadora, e no auge dos seus quinze anos se apaixonou por Estêvão San Roman, um garoto que era desejado por muitas meninas onde moravam, inclusive por Fabíola, irmã de Maria.
Os sentimentos de Estêvão pela amável garota de tornara sincero depois que eles começaram se relacionar às escondidas, mesmo sendo porque perdera uma aposta. Estêvão não queria decepcionar Maria, mas a pressão dos seus colegas era mais forte, e ele não conseguia negar o que eles ordenavam. Talvez seu anseio de entrar para um dos grupos mais populares da escola era mais forte que seu sentimento por Maria.
A doce menina magricela e um pouco desengonçada saiu pela porta da sua casinha simples desejando que cada minuto passasse depressa para poder ver seu amado. Seus passos eram tão rápidos que ela praticamente corria sem perceber, e depois de alguns minutos, até então longos demais para alguém que almejava mais que tudo ver o cara para quem entregara seu coração e seu corpo, ela chegou ao local onde combinaram.
O ambiente e o clima eram perfeitos, apesar de um pouco frio. Temperatura pedia para estarem agarrados, o céu estrelado e a lua crescente abrilhantaram mais o local. Estêvão tinha combinado de levar a barraca até o lago e Maria algumas frutas. Dois minutos depois a barraca estava montada e os dois dentro dela de frente para o lago.
— Obrigada por me proporcionar momentos como esse Estêvão, eu te amo tanto sabia.
Os dois estavam deitados juntinhos, e Maria brincava com os cabelos negros de Estêvão. Ele ficava meio anestesiado quando ela fazia aquilo, pois era uma coisa que ele gostava muito.
— Eu não mereço você Maria, você e tão perfeita, e eu... – Se calou. – Eu sou um idiota. – Suas mãos grandes acariciavam o rosto delicado dela. Sua consciência a todo instante o acusava.
— Não diga isso, você não é um idiota. – Ela aproximou seu rosto ao dele e o beijou. – Você é o homem da minha vida!
A cada palavra de carinho dita por Maria, Estêvão ficava mais tenso. Seu coração se apertava, sua respiração acelerava, ele sabia que ela era a única pessoa que não merecia qualquer coisa que não fosse o melhor.
— Sabe Estêvão – continuou – eu confio muito em você, e eu só me entreguei a você porque você prometeu que se casaria comigo, eu não quero que você pense que eu sou qualquer uma que fica com o primeiro cara que encontra.
— Eu sei que você não é assim Maria – ele segurou seu queixo deixando um selinho em seu lábio rosado – você é a mulher mais incrível que eu já conheci, e aconteça o que acontecer, nunca se esqueça que eu te amo! – O pobre rapaz fora sincero em suas palavras.
— Eu tenho que te falar uma coisa. – Havia intensidade em sua voz.
— Não fala nada agora não – seu indicador foi de encontro aos seus lábios – vamos aproveitar esse momento, por favor.
Sem perder mais tempo, Estêvão pôs um fim no curto espaço que havia entre eles e beijou Maria de uma forma tão intensa como se aquela fosse a última noite deles. Maria fora recíproca em cada gesto, e demonstrava que o queria, assim como ele a ela.
O frio que se fazia há instantes se dissipara dando lugar a um fogo inenarrável. Não demorou muito e os dois eram como um só. Não existia mais Estêvão e Maria, mas uma paixão avassaladora que inundava aquelas duas almas apaixonadas.
O suor pingava, os gemidos saiam reprimidos, era como um vulcão que estivera há muito tempo adormecido e resolvera entrar em erupção naquele exato momento. Estêvão ignorou tudo o que estava perturbando sua mente, e dedicou-se inteiramente em fazer Maria feliz, mesmo que fosse só por aqueles breves minutos. Maria se deleitava de tanto prazer, Estêvão sabia muito bem como fazê-la se contorcer abaixo do seu corpo. Tamanha era a luxúria, eles eram incapazes de conter qualquer coisa que fosse, a barraca se tornara pequena diante de tanta volúpia, ele fora tão colossal que ambos chegaram ao ápice do prazer.
— Você é maravilhosa! – Ele disse ainda com a respiração ofegante.
— Eu te amo Estêvão, eu te amo mais que a mim! – Sua fala fora de uma urgência, que deixou Estêvão atordoado.
— Não diga isso Maria, eu não mereço ouvir isso de você.
— Mas por que você fala isso Estêvão?
Antes mesmo que Estêvão abrisse sua boca para mais uma desculpa, Antônio e seus amigos derrubaram a barraca expondo os dois, que estavam completamente nus.
Maria arregalou os olhos ao deparar com toda aquela plateia, já que não se tratava apenas dos amigos mais íntimos de Estêvão, e sim da escola toda. Ela puxou um pequeno lençol cobrindo seu corpo.
— Parabéns Estêvão – Antônio, sem pudor nenhum, se aproximou ainda mais, para humilhar Maria – conseguiu pagar a aposta, finalmente levou essazinha – encarou Maria com desprezo – pra cama. Muito bem irmão, agora você está oficialmente no grupo. Enquanto a você – fitou Maria novamente – não passou de um brinquedinho.
Todos os presentes começaram a dar altas gargalhadas. Para cada pessoa que Maria olhava, via o riso aberto, inclusive de sua irmã. Como se não bastasse os risos de deboche, eles ainda começaram dizer palavras escarnecedoras a ela.
— Vadia!
— Biscate!
— Perdida!
Cada um fez questão de falar xingá-la como podiam. Sentindo-se um lixo, a pior das pessoas, ela recolheu suas coisas e saiu correndo dali, enrolada no lençol, e ainda escutava a zombaria atrás de si.
Maria correu o mais rápido que pôde. Queria sumir, desaparecer, morrer. Correra tanto que perdera suas forças, e se jogou no chão de uma estradinha deserta, humilhada, desmoralizada, feita em pedaços.
A jovem moça acabara de perder seu chão, e não somente isso, sua dignidade, sua honra. Ela seria lembrada para sempre como a mundana, sem decoros. Suas lágrimas secaram por terem caído com tanta força. Tinha perdido até mesmo a vontade de chorar. Definitivamente, tinha perdido a vontade de viver.
— Maria, por Deus, o que você tá fazendo aqui, dessa forma?
Seu amigo tinha aparecido, e como um anjo pôs-se a ajudá-la a se vestir sem criticá-la, como tinham feito anteriormente.
— Eu quero morrer Cláudio! – Devidamente vestida, ele se jogou em seus braços aos prantos, e aos poucos foi lhe contando a história. Parte dela ele conhecia.
— Eu vou matar esse sujeito! – Ele socou o chão enraivecido. – Me diga Maria, me diga quem é esse desgraçado!
— Não importa mais Cláudio, ele não vai devolver minha dignidade.
— Eu te disse que você não deveria ser envolver com esse tipo de moleque, eles só sabem agir desse jeito.
Cláudio e Maria eram bons amigos apesar de não se conhecerem há tanto tempo. Ele conhecia alguma coisa da relação entre Estêvão e Maria, mas não conhecia o dito cujo, já que não morava naquela cidade.
Cláudio era de outro estado e conhecera Maria enquanto ela fazia um bico na cidade vizinha, onde ele estava passando uns dias.
— Eu confiava nele Cláudio, ele me jurou que não era como os outros. – A doce menina era só choro.
— Calma Maria – ele a trouxe para si num abraço amigo – tudo vai se resolver.
— Como Cláudio – ela se levantou transtornada andando de um lado para o outro – quem vai me levar a sério depois disso? Nem um emprego decente eu vou conseguir mais!
— Eu vou Maria!
Cláudio foi até Maria e segurando-a pelos cotovelos a olhou nos olhos.
— Se case comigo e todos seus problemas estarão resolvidos!
— Você ficou louco Cláudio – se desvencilhou dele – eu não posso me casar com você – sua voz se reduziu em algumas oitavas – eu não amo você.
— Escuta Maria – ele tocou sua mão com delicadeza – eu não me importo se você não sente por mim o mesmo que sente por aquele imbecil, eu só quero te ajudar. Eu só tô esperando terminar o ensino médio pra ir para os Estados Unidos e trabalhar com meu pai. Se casando comigo, você pode terminar os estudos lá, e vai ter a chance de crescer fazendo o que você tanto sonha. Pensa bem. – Com todo carinho do mundo, ele colocou uma mexa sua atrás da orelha olhando-a profundamente, enxergando a angústia que a afligia.
Maria respirou fundo procurando as melhores palavras para dizer ao amigo.
— Eu não posso fazer isso com você, eu sei que você gosta de mim, mas eu não sinto o mesmo por você, não dessa forma. – Explicou de uma forma graciosa, bem o seu jeito.
— Eu não me importo em amar por mim e por você.
— Cláudio...
— Não me responda agora – segurou seu queixo – pensa com carinho tá. – Ela confirmou com a cabeça.
— Eu vou pra casa tá, tá ficando tarde.
— Eu te levo.
— Não precisa.
— Claro que sim! Não vou deixar você ir sozinha pra casa a essa hora da noite, e não se discute!
Os dois foram a caminho da casa de Maria em silêncio, como ela havia proposto.
Quando ela entrou, segurou seu choro para que sua mãe, adoentada, não suspeitasse, mas foi em vão, o coração de mãe falou mais alto.
— Maria, aconteceu alguma coisa?
— Não mãe – engoliu o choro – não foi nada.
— Maria! – Chamou sua atenção.
— Não é nada não mãe, só tô cansada, não precisa se preocupar não.
Maria foi até a mãe, deu um beijo nos seus cabelos e foi para os seus aposentos.
...
Os dias que seguiram foram bastante pesados para Maria, ter que lidar com o olhar maldoso das pessoas. Ela fez o máximo para que a notícia não chegasse aos ouvidos de sua mãe, e estava dando certo, sua mãe não descobrira até então o ocorrido.
A pobre moça era alvo de zombaria na escola, não passava um dia sequer em que não fosse motivo de chacota. Maria começou a faltar com frequência, saía de casa, mas não ia para escola, para sua sorte, as aulas estavam quase no fim, então não seria muito prejudicada, já que suas notas sempre foram altíssimas. Sua relação com Fabíola, que já não era boa, tornou-se pior. Talvez a pior das humilhações fosse ver Estêvão bem, sem sofrer o mesmo, levando a vida numa boa.
— Não vai pra formatura? – Fabíola perguntou enquanto se arrumava.
— Não sou formando. – Respondeu sem dar muita importância a irmã.
— Eu também não sou, mas tenho amigos que são, e fui convidada. – Falou convencida como se isso fosse algo realmente importante.
— Grande coisa.
A conversa animada das irmãs fora interrompida por batidas na porta.
— Abre lá, por favor. – Pediu a irmã mais velha.
A contragosto, Maria foi até porta e abrindo deu de cara com Estêvão.
— Estêvão. – Maria virou-se, mas Estêvão a segurou pelo braço.
— Eu preciso falar com você.
— Eu não tenho nada pra falar com você, me solta! – Ela se soltou dele, mas ainda o olhava. – Seus amigos sabem que você tá agora falando com a perdida? – Perguntou com ironia. – Eu pensei que você fosse diferente, mas me enganei, você é igualzinho a todos seus amigos que você tanto critica.
— Por favor, Maria... Me perdoa.
— O que você fez é imperdoável, eu não quero mais olhar na sua cara! – Ela estava exaltada, mas não falava muito alto.
— Maria...
— Esquece que eu existo, eu nunca, escuta bem, nunca vou te perdoar, eu te odeio Estêvão San Roman.
Maria deixou-o falando sozinho, mas logo Fabíola chegou e os dois foram pra festa de formatura do terceiro ano.
...
Faltava pouco para aquele ano acabar, e parecia que nada mais poderia acontecer. Foi o que Maria tinha pensado, mas a vida ainda a surpreendeu.
A doença de sua mãe a levou a óbito, e mais uma vez Maria havia perdido seu chão. Foi um momento muito doloroso, mas ela teria que ser forte, pois mais uma vez se encontrara sozinha.
Sem chão mais uma vez, Maria tinha que encontrar uma maneira de recomeçar. Sem sua mãe, sem algum parente em quem confiar, era ela e ela mesma. Não contava de maneira nenhuma com sua irmã, pois não confiava nela, e mais, não desejava estar perto, conviver com sua ela, pois, além de nunca terem uma relação sadia, ela havia sido cúmplice do que fizeram com ela.
Sozinha, desamparada, solitária, Maria seguia indefesa, como um peixe fora d'água, e sem perspectiva de voltar para algum lugar de refúgio. No entanto, ela se recordou de uma conversa de meses atrás, e começou a pensar nos prós e contras da proposta de que seu amigo fizera.
— O que foi Maria? Você chamou com pressa, tô aqui.
Os dois estavam numa praça, que estava vazia, pois a maioria dos moradores tinham saído de férias.
— Eu pensei no que você me disse.
— E o que eu te disse? – Perguntou sem saber do que ela falava.
— Eu pensei muito na sua proposta, e decidi que aceito me casar com você e sair do país.
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