Era hora do crepúsculo, e os guerreiros esperavam a chagada de seus adversários, diziam que ninguém nunca os tinha derrotado, estavam em duzentos homens, fortemente armados, com espadas, achas e arcos, conversando enquanto esperavam o soar da trombeta anunciando o início da batalha. Porém isso não foi preciso para calá-los, pouco a pouco uma notícia foi se espalhando, um som estranho estava tomando espaço e logo pode se perceber o que era, pois o silêncio era absoluto, era o tilintar de ferro batendo contra ferro, mas não em qualquer ordem desordenada, não era o som de batalha, as batidas seguiam um ritmo que em breve foi distinguido, o bater das lâminas, é o que eram, começavam a formar uma música, que fez todos pararem para ouvi-la.

No horizonte já se podia ver figuras negras que se moviam de um lado para o outro, eram dezoito vultos, seis casais em frente que dançavam entre si, e seis homens magros um pouco mais atrás, que vinham caminhando levemente

. A dança era extasiante os seis homens da frente eram mais encorpados que os seis de trás, porém não chegavam ao ponto de parecerem ameaçadores, as seis mulheres eram perigosamente belas em seus corpos esculturais. Os casais levavam cimitarras e escudos circulares não muito grandes, os seis que vinham a trás tinham arcos recurvos, tudo o que trajavam era negro como a noite, agora já manchado pela poeira que levantavam ao dançar naquela terra árida, suas armaduras eram leves, e delas pendiam sinos e moedas que tilintavam enquanto moviam-se graciosamente, seus elmos eram pontiagudos e um véu cobria-lhes a face.

Os guerreiros que estavam à espera viram então seus inimigos que agora estavam a uma distância que lhes permitiam serem observados, e eles riram ao contar os números.

Os arqueiros então um a um atiraram suas primeiras flechas, num intervalo perfeito sem prejudicar o ritmo da música que era formada pelos casais a frente, mas esses primeiros tiros foram só um aviso, pois foram atirados para o auto, um aviso que foi ouvido por todos os duzentos guerreiros formados agora a quase cem metros, aviso que os calou tão rápido quanto haviam começado a rir, as flechas eram especiais, feitas para que quando atiradas assoviassem, o som da morte traziam com elas, seis tiros, seis assovios terminados com seis baques de quando elas foram aparadas no exato centro dos escudos dos homens à frente, que ergueram o braço em meio a sua dança como se tudo tivesse sido perfeitamente planejado.

Logo que a última flecha caiu, eles começaram a cantar. O canto mais belo que algum ser poderia escutar, também o último.

Enquanto cantavam, os arqueiros correram a frente rolando no chão em meio aos seus colegas enquanto retomavam as flechas que tinham sido cravadas nos escudos, e ao se levantarem atiraram novamente, fazendo com que a própria morte juntasse voz à canção. Dessa vez o assovio parou somente na garganta da vanguarda alheia.

Mesmo com os amigos caídos, o exercito não se movia, era como se nada mais importasse somente a música, era tudo o que queriam, ouvir, apreciar aquela arte aquele encanto, enquanto os inimigos avançavam, e chegavam mais perto e finalmente dançavam entre seus corpos juntando o vermelho ao negro, colorindo o chão, mas ninguém erguia um braço contra os dançarinos, já não eram mais inimigos eram artistas, a própria morte vindo abraçá-los, e eles já abraçavam a morte com gosto, pois a vida não poderia ser vivida uma vez que a canção acabasse, uma vez que toda a arte terminasse nada mais teria sentido.

Assim dezoito passaram sobre duzentos, cantando e dançando, cortando e atirando, e ao deixarem o lugar do massacre, não restava alma viva não restava som, não restava nada, somente corpos deitados sobre o chão vermelho, deitados para nunca mais levantar.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!