Encantado
1 Capítulo 1
— PIETRO, SEUS DEZESSEIS ANINHOS estão chegando — disse Elza com um largo sorriso, lambendo do dedo o glacê azul-celeste. — Estou tentando fazer um bolo.
— Ótimo — disse Pietro, com um sorriso forçado.
Fazia mais ou menos uma hora que sua madrinha estava criando um caos na cozinha, espalhando copos de medidas e tigelas com massas grudentas sobre cada centímetro da superfície do balcão. O rosto de Elza estava salpicado de farinha, sua calça jeans manchada de corantes de comida em todas as cores do arco-íris. A cozinha era o cenário de um desastre — definitivamente não o melhor lugar para se sentar à mesa e ler uma peça de dar nos nervos como Wait Until Dark —, mas Pietro tinha conseguido bloquear o caos culinário que reinava a seu redor. Outras coisas ocupavam sua mente.
Seus ombros estavam encurvados, como se ocultassem sua culpa. Seu cabelo continuava caindo nos seus olhos, cobrindo as palavras, mas não importava: distraído que estava com seu plano, com o culminar de oito meses de fingimento, Pietro não conseguia mesmo se concentrar na história. O livro aberto era apenas para despistar o inimigo. Assim ele podia resmungar respostas monossilábicas sem que ninguém imaginasse que havia algo errado — contanto que ele se lembrasse de virar as páginas de vez em quando.
Sua outra madrinha, Belle, entrou a toda na cozinha, sua ampla saia girando de um lado para o outro como um sino. Belle era sua madrinha mais feminina: sempre com roupas cheias de babados, o cabelo em perfeitos cachos loiros e com algumas mechas prateadas.
— Elza, você está estragando a surpresa! — reclamou Belle. — Não é para preparar o bolo do Pietro bem na frente dele! Além do mais... tínhamos combinado que a cobertura seria cor-de-rosa.
— Não — retrucou Elza. — Você sugeriu que fosse cor-de-rosa. Eu optei por ignorar sua sugestão.
Belle enfiou os dedos na garganta, fingindo vomitar.
— Esse bolo vai me fazer passar mal antes mesmo de assar.
— Vamos deixar que Pie decida — disse Elza. — Pie, de que cor você quer a cobertura do bolo? Pietro deu de ombros. Ele nem estaria ali na hora da comemoração.
— Qualquer cor por mim está bom.
Mais cedo naquele dia ele havia amassado a última das cartas de amor (aquela que saíra borrada da impressora) e a enfiado no bolso. Ele agora buscava a carta para restaurar sua confiança, como se fosse um talismã da loja de Belle.
Você consegue. Você tem que ir, ou vai passar o resto da vida se lamentando
— Pietro está distraído — falou Belle, batendo de leve com uma agulha de tricô de vidro na palma da mão.
Belle nunca tricotava; apenas levava a agulha de um lado para o outro, usando-a como se fosse uma varinha quando queria provar seu ponto de vista. Belle era um pouco... excêntrica.
Elza também. As madrinhas de Pietro eram mulheres incomuns: duas amigas que acabaram virando suas “mães” quando não restava mais ninguém para cuidar dela. Belle tinha uma loja estilo New Age, cheia de amuletos, cristais, incensos e parafernálias de unicórnios. Elza era professora de literatura na universidade local. Além de uma leve ruga e um novo fio de cabelo grisalho a cada ano, as duas pareciam nunca envelhecer.
Elza e Belle viviam exclusivamente para Pietro. O que tornava ainda mais desprezível a traição que ele estava prestes a cometer.
— Pietro está sempre distraído — disse Elza, lançando um olhar carinhoso na direção dele.
Era verdade: agora suas madrinhas já estavam acostumadas a vê-lo sonhando acordado o tempo todo. Hoje, porém, Pietro não estava perdido em fantasias. Hoje o que o dominava era a culpa, e o medo de ser descoberto, e o enorme esforço para não demonstrar nada disso.
— Se ele não estivesse distraída, sem dúvida escolheria cor-de-rosa — disse Belle, abrindo com violência as portas dos armários da cozinha e espiando lá dentro. — Você escondeu o corante vermelho?
— Talvez — falou Elza, antes de passar para um assunto mais delicado. Pietro já sabia qual seria a pergunta antes mesmo de ouvi-la. — Tem certeza de que não quer uma festa, Pie?
Elas já haviam falado sobre isso antes, e a recusa de Pietro em celebrar seu décimo sexto aniversário era como uma placa em néon dizendo ESTOU DEPRIMIDO. Desde sempre que ele passava mais tempo sozinho do que com os amigos, mas não deixava de ter amigos, e sempre fizera festas de aniversário. Belle e Elza davam muita importância à data. Diziam que todo ano era uma dádiva, não uma garantia, e que isso deveria ser comemorado à altura.
Pietro sempre sentira que, por baixo de tais palavras, suas madrinhas na verdade estavam se referindo à morte dos pais dele. Duas vidas encerradas quando Pietro tinha apenas três meses.
E talvez também estivessem se referindo à vida dele própria.
Porque Pietro poderia ter morrido aquela noite. Em sua festa de batismo, no salão que pegara fogo, as chamas engolindo tudo — inclusive a vida que ela poderia ter tido.
— Pie? Pietro? Está me ouvindo?
— Hã... sim — disse ele, de súbito voltando à realidade. — Vocês me desculpem, eu só estava pensando...
— Tem certeza de que não quer uma festa? — Elza se recostou no balcão, limpando as mãos com um pano de prato. — Podíamos fazer alguma coisa simples aqui em casa. Chamar alguns amigos...
Pietro odiava desapontar suas madrinhas. Concordar seria muito mais fácil. Elza e Belle teriam relaxado, parado com aqueles olhares preocupados. Mas ele não tinha coragem de dar esperanças às duas e permitir que planejassem uma festa sendo que ele nem estaria lá.
— Você está partindo nosso coração — provocou Belle, inclinando-se para dar um beijo na cabeça do menino.
Pietro inspirou fundo e depois soltou o ar devagar, para não parecer que estava chateado. Mais um dia de mentiras. Só mais um dia até ele fugir — para o único lugar aonde suas madrinhas o haviam proibido de ir — e assim partir o coração delas de verdade.
Pietro teria que se acostumar à ideia de decepcioná-las.
Na noite em que partiu, Pietro anotou às pressas a senha de seu e-mail em um post-it e o grudou à escrivaninha: o toque final. Depois, contou seu dinheiro, enfiou a bola de notas no bolso e seguiu na ponta dos pés pelo corredor, fechando a porta do quarto depois de sair.
Passava das onze da noite, e tanto Belle quanto Elza dormiam em seus respectivos quartos. A casa estava silenciosa, exceto pelos ocasionais tinidos dos sinos de vento lá fora.
Pietro seguiu sorrateiramente pelo corredor, descalço e de mãos vazias, tentando ao máximo parecer inocente.
Se uma de suas madrinhas acordasse, ela diria que estava indo lá fora contemplar as estrelas, uma desculpa sonhadora, mas na qual acreditariam. No entanto, Pietro torcia para que isso não fosse necessário. Se perdesse sua oportunidade aquela noite... talvez nunca mais tivesse coragem de tentar de novo.
Com cuidado, Pietro destrancou a porta dos fundos e a abriu, sem produzir nenhum rangido porque ela havia passado óleo nas dobradiças duas semanas antes, quando estava sozinho em casa. Então saiu para o quintal, como um ladrão às avessas: saindo à força. Roubando a si mesmo.
O ar estava úmido, fresco para o mês de junho. Chuviscava, e, ao cruzar o quintal até a casinha do cachorro, ele sentiu a grama levemente molhada lhe fazendo cócegas nos pés.
A casinha do cachorro estava lá desde que haviam ido morar na casa, e permanecia desabitada, já que não tinham um cão. Belle pintara a pequena construção com várias cores bem vibrantes, de forma que mais parecia uma casa de boneca do que de cachorro. Quando era pequeno, Pietro a usava como depósito de brinquedos.
Ele ajoelhou em frente à casinha e enfiou o braço inteiro pela abertura, tateando lá dentro até que seus dedos roçaram o náilon da sua bolsa de viagem lotada. Pegando-a pelas alças, foi uma dificuldade puxá-la para fora pela pequena porta da casinha, mas, resmungando um pouco, conseguiu arrancá-la dali.
Não era uma bolsa muito grande, mas estava quase estourando de tão cheia; até seus sapatos ele enfiara ali.
Tinha escondido a bolsa lá naquele mesmo dia, pela manhã, quando Elza estava fora resolvendo alguns assuntos cotidianos e Belle estava em sua loja; e passara o dia inteiro aterrorizado com a possibilidade de que uma delas a encontrasse.
Tremendo sob a chuva que atingia seu braço como se fossem agulhas, Pietro se pôs de pé. Jogou a tira mais longa da bolsa sobre o ombro, inspirou fundo... e lançou-se correndo pelo quintal até a rua. E continuou correndo até a esquina, seus pés descalços batendo na calçada, para só então diminuir a marcha para um caminhar rápido. Mantinha a cabeça baixa — e rezava para que uma viatura policial não passasse por ali.
Assim prosseguiu até chegar à casa de Selina, que fazia aulas de teatro com ele. Já tinham feito algumas cenas juntos, mas Selina era mais uma conhecida do que uma amiga. Ela não gostava de Pietro o suficiente a ponto de tentar persuadi-lo a não fazer o que ele faria, e nem mesmo se importava em saber para onde ele estava indo.
Ou seja: era a cúmplice perfeita. Selina a estava esperando na garagem com seu namorado, Carl. Os dois pareciam gêmeos, ambos de calça jeans escura e camiseta.
Pietro apressou o passo para alcançá-los logo, sentindo um peso sair de sobre seus ombros agora que estava avançando em seu plano.
— E aí — disse Pietro, sem fôlego e sorrindo, suas roupas encharcadas pela chuva.
Selina o olhou intrigada; jogou a franja para trás com um movimento de cabeça e perguntou:
— Pietro, você não precisa de sapatos?
— Estão na minha bolsa — respondeu ele. — Eu estava com pressa.
— Fugindo da prisão — disse Carl, assentindo como quem compreendia.
O que não estava muito longe da verdade. Não que suas madrinhas o mantivessem trancafiado em casa: eram apenas insanamente rígidas. Protegiam-no de tudo, até mesmo de coisas de que nenhuma pessoa normal precisa ser protegida.
Pietro só podia andar de carro se fosse um adulto dirigindo, tinha de usar um creme depilatório com cheiro insalubre porque raspar a barba com gilete era proibido, não tinha permissão para namorar, tinha de voltar para casa às dez da noite nos fins de semana, não podia furar as orelhas nem ter um celular... A lista não tinha fim.
Pietro não gostava dessas regras todas, mas as seguia. Em parte, por respeito: ele sentia que devia ser obediente a suas madrinhas depois de tudo que as duas haviam feito por ele. E elas eram tão carinhosas, mesmo quando rígidas, que Pietro odiava deixá-las preocupadas ou chateadas. Porém havia uma restrição que ela não conseguia aceitar: suas madrinhas se recusavam a deixá-lo visitar a cidade em que nascera.
Depois do incêndio, elas o haviam levado embora de lá e se mudado para Indiana, no norte, para uma cidadezinha que girava em torno da universidade e de mais nada, e não tinham intenção alguma de deixá-lo voltar a sua cidade natal. Pietro batia nessa mesma tecla algumas vezes por ano, e sempre no dia de seu aniversário; e todas as vezes elas diziam “não”. Não um “quando você for mais velho”, não um “talvez um dia”... apenas um consistente e resoluto não. Muitas recordações ruins, era o que alegavam.
Seria pesado demais para você
. Mas as únicas “recordações” que Pietro tinha eram as histórias cuidadosamente escolhidas pelas duas. De que seus pais o vestiram com rendas e uma delicada coroa de botões de rosas para seu batismo. De que dançaram juntos na cerimônia de casamento deles, como se estivessem flutuando. Elza e Belle nunca lhe contavam nada de novo. Era como se muito antes tivessem decidido reunir um punhado de respostas seguras, e assim todo o resto permaneceria um mistério.
— Preparado? — quis saber Selina.
Pietro assentiu e lhe entregou o dinheiro para que ela não tivesse de pedir.
— Por me levar até lá — disse Pietro, em referência ao acordo que haviam feito.
— E por manter segredo — acrescentou Selina, com um largo sorriso.
Não que ela fosse contar alguma coisa às madrinhas de Pietro. Selina não se importava com regras, só lhe interessava ter seu tanque de gasolina reabastecido e seu tempo recompensado.
— Cara. Eu nunca ia imaginar que você era esse tipo de garoto — disse Carl.
— Eu tento manter segredo — disse Pietro, tirando seus chinelos da bolsa e calçando-os.
Selina revirou os olhos.
— Uau, como vocês são maus. Entrem no carro. Todos assumiram seus lugares no carro, Selina deu partida no motor — e então lá se foram eles.
Havia muita coisa que Pietro mantinha em segredo. Por exemplo, a saudade imensa que sentia dos pais. Admitir que ainda sentia saudade deles seria embaraçoso, então ele não falava nisso. Era mais fácil se refugiar em seus devaneios quando a dor da perda era intensa demais, imaginar como seria sua vida se seus pais estivessem vivos.
Ele os recriara a partir do que suas madrinhas lhe contavam, preenchendo as lacunas com traços de personagens de filmes antigos, elementos da própria personalidade e da pessoa que ele gostaria de ser — a pessoa que seria se os tivesse conhecido. Se fosse pensar racionalmente, Pietro sabia que já deveria ter superado a morte deles havia muito tempo. Tinha sorte de ter sobrevivido, e deveria se concentrar nessa parte de sua história, ser grato por isso.
No entanto, a dor da perda de seus pais, de nunca os ter conhecido, estava sempre em primeiro plano em seu coração. Pietro queria visitar o túmulo deles. Queria contar a seus fantasmas quem ele havia se tornado. Ver a cidade que costumavam chamar de lar e, assim, conseguir um encerramento emocional para aquele evento difícil de sua vida. Para então — talvez — poder ser uma pessoa normal.
Ele não podia mais continuar daquele jeito. Selina dirigia com o rádio sintonizado em uma estação de rock, cantando junto sempre que tocava alguma música de que gostava. Carl se virou para abraçar o banco do passageiro, seu cabelo longo demais caindo em seu rosto.
— Então, aonde você está indo? — ele quis saber.
—San Francisco. Vou encontrar um cara.
Pietro não se importava com os rumores que estariam circulando quando voltasse. Seriam melhores que a imagem que ele já tinha: um órfão encalhado que vivia com duas madrinhas esquisitonas e que passava mais tempo vivendo dentro da própria cabeça do que na vida real.
—Namoro a distância, sabe — disse ele, complementando a mentira.
— Legal — comentou Carl.
— Está mais para bizarro — ponderou Selina. — São horas e horas de ônibus até lá. É bom que esse cara seja gato.
Pietro deu de ombros.
Se Selina achava que um relacionamento a distância era algo bizarro, acharia muito mais bizarro se soubesse da verdade: um relacionamento a distância de mentira, com oito meses de cartas de amor que ele mesmo havia escrito para encobrir a mentira.
Lá fora eles viam passar rapidamente casas às escuras nas calmas e graciosas ruas; e então eles estavam na estrada, e Selina pediu a Carl que ele a avisasse quando estivessem chegando perto da saída que deveriam pegar, e Pietro se perdeu em seus pensamentos, deixando que os dois conversassem entre si. Cerrou os olhos e visualizou a última linha da última carta que tinha escrito: Em breve vamos nos encontrar. Eu te amo...
Pietro conhecia suas madrinhas muito bem, portanto sabia que, se de repente sumisse, Belle e Elza presumiriam que ela havia ido para o único lugar que ele vivia enchendo o saco das duas para poder conhecer.
Então ele tinha que deixar uma trilha falsa para as duas.
De novembro a junho, Pietro tinha escrito cartas de amor para si mesmo e para um garoto imaginário que supostamente vivia em San Francisco. Começara como um jogo, uma trama que poderia abandonar caso mudasse de ideia, mas, quanto mais próximo o momento de partir, mais determinada ele ficava a realizar seu plano. Pietro enviava as cartas por via eletrônica, de e para duas contas de e-mail; e, no dia anterior, imprimira alguns dos melhores exemplos — Nem acredito que estamos fazendo isso! Mal posso esperar para ver você! — e as “plantara” na gaveta de sua escrivaninha.
Ele sabia que Elza e Belle vasculhariam cada canto de seu quarto assim que soubessem de seu sumiço. Então encontrariam as cartas não muito bem escondidas, detalhando seus planos de fugir para San Francisco para conhecer “Dan”, e chegariam à conclusão de que era para lá que Pietro tinha ido.
Porém, mesmo que suas madrinhas suspeitassem das cartas... assim que entrassem em sua conta de e-mail (com a ajuda da senha que o próprio Pietro deixara no post-it em sua escrivaninha) e vissem oito meses de mensagens progressivamente apaixonadas... ficariam convencidas. Suas madrinhas não a tinham criado para que fosse um mentiroso — e em geral ele de fato não era.
As duas nunca suspeitariam de que ele tivesse o mínimo de ardil ou de loucura suficiente para levar até o fim tal plano tão bem elaborado. No entanto, completar dezesseis anos deveria ser uma ocasião especial. E ele estava disposto a quebrar as regras para garantir isso.
— Droga, vou ter que fazer baliza para conseguir parar ali — murmurou Selina.
Pietro abriu os olhos. Selina abaixara o volume do rádio e estava com ambas as mãos agarradas ao volante. A estrada negra e úmida reluzia sob as luzes dos postes da rua. Pietro podia ver a rodoviária bem à sua frente.
— Vá para o acostamento. Eu faço isso — disse Carl.
—Caramba, Matt, eu consigo estacionar!
Pietro se inclinou para a frente entre os assentos, ansioso para simplesmente ir agora que seu destino estava à vista.
—Não precisa estacionar. É só me deixar aqui mesmo.
—Tem certeza? — perguntou Selina.
—Absoluta.
Um instante depois, o carro deu uma parada brusca do outro lado da estrada, em frente à rodoviária. Pietro saltou, arrastando a bolsa de viagem atrás de si. Caía uma chuva pesada agora. A garoa dera lugar a um tamborilar constante, gotas encorpadas atingindo seu rosto e seus ombros. Pietro se despediu de Selina e Carl, depois esperou um intervalo no fluxo de carros para atravessar a estrada correndo, apertando os dedos dos pés para não perder os chinelos.
—Boa sorte! — gritou Carl pela janela aberta.
—Tome cuidado! — gritou Selina.
— Obrigada! — Pietro gritou em resposta.
Ele passou pela porta de vidro escura da rodoviária e foi até o guichê de passagens, onde comprou uma só de ida com um punhado de notas úmidas. Quando largou a bolsa no chão atrás da última pessoa na fila para o ônibus e se sentou em cima para esperar, estava tremendo de animação. Ficou olhando o relógio avançar lentamente por quase uma hora, até que finalmente ouviu o anúncio de que seu ônibus chegara à plataforma de embarque, e a fila começou a andar vagarosa e sonolentamente. Pietro não era o tipo de pessoa que quebrava regras, que fazia coisas que não deveria fazer, que vivia perigosamente, que corria riscos. No entanto, uma semana antes de seu aniversário ele pegou um ônibus com destino a Cross River: a cidade onde havia nascido, a cidade onde seus pais estavam enterrados.
O único local a que suas madrinhas o haviam proibido de ir.
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