Notas iniciais
Olha só o último capítulo pae

Um burburinho, ora interrompido por cliques simultâneos, ora por batidas, chamou a atenção de Jacó que, deitado de bruços, tentava voltar a dormir. Abriu um olho por reflexo e surpreendeu-se ao ver o quarto tão claro. Deveria ter sido acordado há muito tempo. Sentou-se na cama e percebeu que não era só um burburinho do lado de fora. Fazia tanto barulho que não sabia como dormira tanto.

Puxou uma das cortinas da janela e não sabia o que era aquilo que estava vendo. Precisou olhar por um bom tempo para assimilar o quadro que se formava do lado de fora da casa grande. Correria ao longe, a casa do Mestre de Açúcar havia sido colocada abaixo, e a senzala estava em chamas. Paralisado, observava a silhueta enegrecida da fumaça que se arrastava em lufadas até o céu claro, placidamente contrastando com a algazarra no chão. Sebastião.

De pijamas, atravessou correndo o quarto, mas encontrou a porta trancada. Voltou à janela e saiu até a sacada, pendurando-se pelos parapeitos como acostumara-se a fazer. Alcançou o chão e correu até a entrada da casa, onde encontrou tudo revirado e destruído. O som de balas distantes o assustou.

Foi agarrado pelo braço quando chegou à varanda, o capataz puxando-o de volta para dentro como se os tentasse esconder. Jacó gritou e chutou até afastá-lo, conseguiu deixar a casa grande. Os pés estavam descalços e doíam contra a terra seca enquanto corria na direção dos escombros da casa do mestre, o cabelo escuro grudado na testa suada.

Parou, arfando, quando chegou às ruínas de onde deveria estar a janela de taipa que pulava todas as noites, e não havia nada lá. Mas havia um desespero instável na garganta. — Tião! — gritou para todos os lados — Sebastião!

Apesar de não ter certeza do que estava acontecendo, sabia que balas soando e a senzala em chamas significava que os negros não estavam obedecendo. E se não haviam muitos deles por ali, estavam indo embora. Seu coração apertou e quis chorar, como a criança que era. — Sebastião! — continuou gritando quando passou a correr na direção da senzala em chamas, mas foi agarrado pela cintura e derrubado no chão. Uma mão sufocou seus gritos.

— Shhh, shh! — reconheceu João, um dos escravos já velhos, sussurrando para que fizesse silêncio. Jacó ficou imóvel, os olhos inquietos tentando ver o que acontecia ao redor, até que as balas pararam e João o largou.

— O que tá acontecendo, João? — quase não entendeu a própria voz embargada.

— É uma rebelião, garoto — João o puxou pelo braço para que levantasse e se escondessem pelos escombros —, os caifazes tão aqui. Você tem que voltar pra dentro de casa, viu? Corre antes que alguém te veja.

— Cadê Sebastião?

— Ele tá bem, já deve ter ido. Vai, vai, vai — tentou empurrá-lo pelos ombros para que corresse de volta pra casa, mas a insistência de Jacó era maior.

— Eu tenho que ver ele, Jão. Eu tenho que contar a ele! Pra que lado? — levantou-se o suficiente para que pudesse ver ao redor, mas foi puxado para baixo de novo. — Só me diz o lado, João!

— Você vai ser morto!

— Eu não vou pra casa sem encontrar Sebastião — havia nele o mesmo olhar da criança que não dava outro nome a quem já tinha um, e não cederia à ideia de que era diferente de alguém.

João seguiu ofendendo-o das formas que pôde, mas levantou e o puxou pelo braço para que corressem. Atravessaram o pátio até a senzala e enfiaram-se no mato para chegar ao canavial, correndo abaixados com medo de que fossem atingidos. João, acima de tudo, temia a ofensiva dos senhores quando percebessem que ele estava com o filho do patrão.

Correram por bastante tempo, enfiando-se no mato por caminhos que pareciam não levar a lugar algum, até chegarem a um descampado.

Pararam no terreno aberto, esperando, até que o primeiro homem saiu de dentro das árvores, abaixado com uma faca na mão, e o segundo veio atrás. Logo estavam cercados pelos escravos fugidos.

— O que você está fazendo, João? — o primeiro perguntou, guardando a faca com agressividade. — Você trouxe Jacó?

— Que merda é essa?

— Sebastião! — Jacó gritou de repente, procurando entre eles — cadê Sebastião?

O som de rodas batendo contra a terra os interrompeu, a imagem de duas carroças irrompendo o mato para encontrá-los.

— Rápido, rápido! O trem já vai sair — um dos guias, com os arreios numa mão e uma espingarda longa na outra, gritou, e os negros começaram a subir. — Anda, anda, anda!

Jacó supôs que aquele fosse um caifaz. Contou os negros que subiam nas carroças, mas Sebastião não estava lá. Seu peito apertou e soluçou, desesperadamente procurando pelo amigo. Sentiu uma batida forte na nuca, a dor acentuou sua vontade de chorar, e virou-se a tempo de sentir os dois braços grandes que agarravam seus ombros. O calor do peito largo aninhou seu corpo como se fosse um pássaro, o cheiro de suor e Sebastião entre o pescoço e a clavícula. Deixou-se chorar.

Poderia ficar ali dentro pelo resto da vida, se deixassem. Mas o caifaz continuava a gritar e, antes que percebesse, Sebastião o largou. Quis protestar, mas sua boca foi tomada pelos lábios cheios dele, e ficou sem fôlego nem palavra.

— Eu vou te encontrar — Sebastião avisou antes de começar a correr para longe —, e vamos ver as lanternas de novo, viu? — havia um sorriso que poucas vezes Jacó havia visto no rosto dele, embora o suor e o barro sujassem seu rosto inteiro, e a pressa o fizesse respirar com dificuldade. A camisa, grudada no corpo, evidenciava as marcas que ele carregaria a vida inteira nas costas.

— Sebastião! — Jacó gritou, antes que não tivesse mais a oportunidade de contar, mas a carroça já se afastava e ele não o ouviria.

— Eu sei! — Sebastião respondeu, sem que ele sequer tivesse dito, e permaneceu acenando enquanto o carro descia o descampado na direção das linhas de trem.

Jacó, de pijama e descalço, o cabelo assanhado grudado na testa suada, tremia. Nem importava se estava chorando como um homem não deveria chorar. O cheiro que impregnou seu corpo era forte como o negro, e doce como ele. Quando não se via mais nem a poeira da carroça, sentou-se no chão.

As lanternas só aparecem uma vez a cada ano. Tentou contar quantos dias faltavam para que as próximas viessem.

Notas finais
Espero que tenham gostado dessa short que eu fiz super nas pressas, apenas para fugir do vasilo ♥
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!