Encadeado
1 Inocência
Notas iniciais
Os pequenos pés descalços encontravam a terra úmida enquanto corria, o mato rasteiro açoitando as canelas descobertas pela calça que estava dobrada até os joelhos. O cabelo escuro balançava com o movimento, hora grudando na testa suada, hora embolando-se sujo atrás da cabeça.
— Jacó! — ouvira novamente, ao longe, a ama gritando seu nome. Apressou-se ainda mais, temendo que descobrissem que havia escapado até o rio.
Quando alcançou a casa grande, sua camisa estava imunda e desarrumada, o cabelo ensebado grudava na cabeça. Respirou fundo e, com passos firmes, entrou pela cozinha. Ana o esperava com as mãos nos quadris, o rosto suado e furioso culpando-o com o olhar. — Onde você tava, Jacó? Teu pai tá esperando pra ir na cidade, anda — com imposição, mas gentileza, a escrava o empurrou pelos ombros para que fosse tomar um banho.
Quando a criança subiu ao cavalo para acompanhar o pai, estava limpo e bem arrumado. O cabelo, que geralmente alcançava os olhos castanhos, estava penteado para trás. Usava o terninho no qual o vestiam quando tinha que ser visto, e aquilo o deixava desconfortável. Remexia-se incessantemente dentro da camisa de botões como se estivesse ficando sem ar, os pés calçados ansiando pelo contato com o barro e a bunda dolorida na sela de couro.
Levou algumas horas, mas finalmente chegaram à capital atulhada de pessoas. Ao longe se via o porto e, quando alcançavam as ruas altas, Jacó tinha a sorte de enxergar um navio ou outro. Cavalgaram devagar pelo calçamento precário e as ruas sujas até que tiveram de deixar os cavalos e, acompanhados pela comitiva do seu pai, entre funcionários e escravos, chegaram ao grande mercado.
O garoto, apertado entre bons homens brancos e negros altos, mal entendia o que estava acontecendo ao redor. O burburinho que as vozes brigando para se sobrepor causavam, misturadas ao movimento de gente indo e vindo, deixaram-no tonto. Enfiou-se pelas pernas das pessoas numa tentativa de sair dali, até ser segurado pelo braço por um dos escravos que viera com seu pai. Sentiu seu corpo leve sendo erguido e de repente pôde enxergar o salão inteiro.
Agarrou-se à cabeça do escravo que o havia posto nos ombros e observou admirado a quantidade de homens ali, entre senhores bem vestidos com longas cartolas, a negros cobertos por panos maltrapilhos. — É tão grande, Jão! — comentou com o homem que o erguia nos ombros.
— Olha lá, ó — apontou pro alto na esperança de que o garoto se interessasse pelo imenso relógio pendurado nas vigas do teto, mas não durou muito. Depois que o relógio perdeu o interesse, Jacó voltou seus olhos ao palco montado à frente, perto do qual seu pai esperava, dentro do colete elegante, sua bengala impacientemente acertando o chão.
Um bonachão de rosto vermelho gritava alguma coisa sobre o palanque, coisa que a criança não conseguia ouvir, mas o silêncio veio sutil. As pessoas calaram-se o suficiente para que Jacó ouvisse o som de quando um corpo bateu contra a madeira do piso do palco, impetuosamente jogado por um branco com uma vara nas mãos, e a zorra retornou.
O negro, contra a própria vontade, usou os imensos braços para se pôr novamente de pé, mas Jacó não viu muito além disso. Sentiu seu corpo sendo içado e novamente posto ao chão, e apesar de protestar com João, foi apenas ignorado. Tentou correr na direção em que vira o palco, confuso e curioso, mas a mão do escravo o segurava firmemente no mesmo lugar.
O processo pareceu durar horas, principalmente pra criança que não tinha ideia do que fazia ali, mas quando finalmente acabou, puderam sair daquele salão abafado. Jacó foi conduzido até uma praça próxima, onde encontrou seu pai. Ao redor dele, a comitiva que os acompanhara, e negros recém-adquiridos. — Jacó — ouviu seu nome sendo chamado.
Procurou ao redor até encontrar Afonso, mestre de açúcar da casa, e aproximou-se devagar ao ver um pequeno corpo escuro perdido em panos velhos escondendo-se atrás do funcionário.
— Veja só, Jacó, tem mais idade que tu, mas num chega ao teu tamanho — Afonso cutucou o garoto negro nas costelas, fazendo-o pular assustado.
Jacó o observou atento, as mãos unidas por uma corda que laçava também o seu pescoço. Nunca havia visto uma criança tão escura, nem tão assustada. A pele parecia ter sido tingida, desbotando-se nas palmas mais claras. Quando encontrou seus olhos, fundos no rosto magro, sentiu que não era mais criança nenhuma, nem ele, nem o escravo. Achou que infância não era coisa que cabia ali, e sequer tinha idade para pensar nesse tipo de coisa.
Soltou um sibilo baixo quando viu o mestre cutucando as costelas do garoto novamente, com o único intuito de provocá-lo, e a pertinência da juventude o deixou irritado. — Que está fazendo? — perguntou alto, mas ninguém notou sua euforia.
— Vou treinar essa criaturinha pra auxiliar no beneficiamento, disseram no leilão que era bom de trabalhos com as mãos — comentou como se o garoto entendesse qualquer uma daquelas coisas. — Escolha um nome pra ele, não deve ter.
Jacó olhou pro negrinho e procurou seus olhos. — Qual teu nome? — perguntou a ele.
O garoto ergueu o rosto cauteloso, e depois de uma longa avaliada no menino à sua frente, murmurou alguma coisa baixo demais para que pudesse ser ouvido. Levou outra cutucada nas costelas, dessa vez ridiculamente forte, que fez o corpo magrelo balançar dentro das roupas. — Responde o teu patrão direito!
— Sebastião! — respondeu o mais alto que pôde, mas ainda não era tão alto assim.
— É Sebastião o nome dele, não precisa de outro — Jacó respondeu, autoritário, ao funcionário. Afonso pigarreou e cuspiu no chão, olhou nos olhos do garoto atrevido.
— Como queira — deu as costas e arrastou o escravo pela corda.
Fale com o autor