Emundans

1 O Descampado


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Naquele enorme descampado coberto por grama seca, não se via uma viva alma. Talvez por ser madrugada, quase meia noite, ou então porque aquela era uma área relativamente deserta do Digital World. O brilho azulado da lua iluminava fracamente o lugar, e a leve brisa fazia farfalhar o capim seco e pontilhado por grandes rochas avermelhadas.


De repente, tal monotonia se quebrou. Esmagando o terreno árido ao caminhar, dois Digimons começaram a atravessar o descampado.


O primeiro tinha a aparência de um gato de médio porte. Bípede, usava apenas as patas traseiras para andar, e a maior parte de seu corpo estava coberto por pêlo alvo e macio. Nas pontas de sua orelha e de sua longa cauda, no entanto, predominava uma tonalidade roxa, assim como tinha faixas dessa cor bem distribuídas ao longo da cauda. Suas patas dianteiras estavam cobertas por luvas amarelo-esverdeadas, que deixavam expostas as grandes garras negras, e seus olhos azuis penetrantes esquadrinhavam o lugar.


O segundo Digimon era um pouco menor, mas também bípede. Tinha uma aparência humanóide, porém de sua pequena cabeça saía um par de longas orelhas, que no momento estavam erguidas. Trajava uma calça vermelha folgada, atada à cintura por um cordão branco, e o restante de seu corpo tinha cor amarela. De olhos fechados, apenas seguia a amiga, com uma expressão de terror estampada no rosto.


– Sabe... Ainda acho que não foi uma boa idéia termos vindo por este atalho. – Murmurou Neemon, sobressaltando-se ao esmagar um galho sem querer.


Tailmon espiou-o pelo canto do olho, exasperada.


– Para contornar isso aqui, levaríamos dias! Usando esse caminho, chegaremos a NewVille até a manhã.


O outro não pareceu satisfeito com a explicação, então a gata continuou tentando convencê-lo.


– Olha quantas pegadas! Qualquer pessoa usa esse atalho, ninguém contorna.


Aproximando a face do chão, farejou por poucos instantes. Erguendo-se novamente, sorriu para o amigo.


– Hoje mesmo um grupo de cinco pessoas passou por aqui. Viu? Não tem perigo!


Neemon torceu o nariz, incomodado.


– Continuo com um mal pressentimento. Esse lugar é deserto, frio e dá medo!


Tailmon deu um muxoxo de impaciência, voltando a caminhar.


– Deixa disso. Tá com medo de quê, fantasmas?

– Vai saber...


A dupla continuou avançando em silêncio por longos segundos. Subitamente, a Digimon lembrou-se de algo que tinha ouvido há poucos dias.


– Falando nisso, ficou sabendo do maníaco da motocicleta?


O outro ergueu as sobrancelhas.


– Maníaco da motocicleta? Que diabos é isso?


A gata riu.


– É uma história que eu ouvi esses dias. Parece que tem um maluco viajando de motocicleta pelo Digital World e matando quem aparece no caminho.


Neemon parou de avançar, incomodado. Tailmon espiou-o e riu, divertindo-se com o medo do amigo. Visando assustá-lo ainda mais, prosseguiu na narração.


– Ele é um Digimon alto, negro e assustador. Parece que ao ver alguém, ele estaciona a moto e faz uma pergunta.


O Digimon segurou as calças vermelhas, com medo que caíssem pela súbita tremedeira que o tinha dominado.


– E dependendo da resposta...


Ela completou a frase passando a unha pela própria garganta. Neemon deu um uivo de desespero. Tailmon gargalhou.


– Vamos voltar...! – Choramingou o digimon, assustado.

– Relaxa, isso é só uma lenda urbana. Vamos...


A travessia tornou-se ainda mais assustadora devido àquela história. Amaldiçoando a melhor amiga mentalmente, Neemon a seguiu. Cada vez que esmagava um galho, o ruído o fazia se sobressaltar violentamente, e cada vez que o vento uivava baixinho ele tinha a sensação de estar sendo espiado pelas costas. Na quarta vez que parou para checar se não havia ninguém tocando seu ombro, a gata se exasperou.


– Vamos, Neemon. Que bobagem... Desculpa por ter contado isso, não sabia que ia perturbá-lo tanto a...


Nesse instante, se calou. Sua audição aguçada tinha detectado um ruído, ao qual o outro continuava alheio.


– Não sabia?! Sabe como eu odeio histórias de terror!


Parecia uma espécie de ronco, que foi gradativamente ficando mais alto.


– Eu quero começar a ser ouvido! Você nunca dá ouvidos ao que...

– Neemon, fica quieto! – Sussurrou ela.


O Digimon calou-se, e em poucos segundos começou a ouvir o mesmo ruído. O barulho de um motor dominava agora o descampado, e gradativamente aumentava. Fosse quem fosse, estava indo na direção deles! Pela primeira vez na vida, Neemon viu a amiga com medo de verdade.


– Se abaixa! – Murmurou urgentemente, empurrando o Digimon para o chão.


Os dois ficaram ali, deitados no meio do capim seco, enquanto gradativamente o ruído aumentava. Em dado momento, ele estava tão alto que Tailmon sentiu os ouvidos doerem. Subitamente, diminuiu até cessar. Por longos segundos ficaram ali, imóveis, sem coragem de mover um músculo. Neemon tremia de medo, e a outra também. Quem seria? Por que tinha estacionado ali? Lembrou-se da lenda urbana que tinha acabado de narrar.


De repente, ouviu o barulho de dois pés esmagando o capim. Um segundo depois, passos violentos que se aproximavam deles agilmente. Tinham que correr! Mal pensou isso, e percebeu que era tarde. Um Digimon fitava-os, a menos de um metro.


Era humanóide e alto, devia ter pelo menos dois metros de altura. Seu corpo estava inteiramente coberto por uma roupa de motoqueiro feita de couro preto: jaqueta, calça e botas. Estas possuíam espinhos saindo da ponta, o que lhe conferia um visual agressivo. Suas mãos estavam cobertas por luvas feitas de um metal da mesma cor das vestes, de suas costas saía uma cauda igualmente negra, e em cada mão segurava duas grandes pistolas.


Em seu braço esquerdo, estava amarrado um lenço vermelho, usava cobrindo a face uma espécie de máscara azul-escura que só não cobria a boca, e era a única parte visível de sua pele cinzenta. Seus cabelos louro-claros e arrepiados saíam por trás dela, e seus olhos eram vermelhos. Ao invés de dois, possuía um terceiro no meio da testa, e todos estavam fixos na dupla. Tailmon e Neemon estavam imóveis: por algum motivo, a simples aproximação daquele ser tinha absorvido completamente suas forças. Só conseguiam mexer os olhos, e tremiam de medo. O recém-chegado abriu a boca, falando com uma voz fria e distante.


– Emundans?


Eles não sabiam o significado daquilo. E mesmo se soubessem, não conseguiriam responder. A força tinha abandonado seus corpos. Beelzebumon estreitou os olhos avermelhados.


– Parece que não...


Murmurando isso, apontou a pistola para os dois e puxou o gatilho.

Notas finais
Espero que tenham curtido esse começo! =)
Aguardando os comentários.
Att,
Diego N.L.