Emo-ções - Por Todos Os Motivos Errados

21 Capítulo 21: E eu achava que nós éramos os loucos!


Notas iniciais
Geeeente, mais um capítulo divido em dois! Por isso a demora, mas eu parti porque estava muito grande... Eu sei que tem gente que vai dizer "eu não me importo de ler um capítulo enoooorme (até porque a história é enorme)". Mas, por favor, entendam que eu tenho trauma de capítulos grandes. Eu os fazia, reclamavam e deixavam reviews muuuito pequenos. Então, realmente desculpem a decepção.
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Algumas coisas faltaram aqui, como o que eu prometei a Marii e ao Kouwolf, mas estarão na parte II (a que eu cortei).
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Espero que divirtam-se lendo! Obrigada por estarem aqui!

-Preciso falar contigo.

Sem esperar uma resposta eu puxei Matheus pelo pulso, separando-o dos outros garotos que ficaram a fitar-nos completamente confusos e surpresos. Segui a puxá-lo sem encarar nossos amigos até sairmos do campo de vista deles.

-O que aconteceu, Bryan? – ele perguntou assim que eu lhe soltei. Paramos um de frente para o outro, mas eu não consegui encará-lo. Matheus cruzou os braços e aguardou uma resposta minha.

-Eu não sei se devo te contar. Na verdade eu sei que não devo – pausei, tentando pensar antes de falar, mas aconteceu de minhas palavras saírem de meus lábios – Mas eu acho que nós somos amigos. Na verdade você é o primeiro amigo que eu fiz – pausei novamente, envergonhando-me com o que acabara de dizer. Tentei concertar – Bem, eu normalmente não considero as pessoas minhas amigas. Mas tem o Mi comi, que grudou em mim dês do início – pausei novamente, percebendo que minha frase ia de mal a pior. – Bem, eu não gosto de sair contando as coisas sobre minha vida, mas eu não consigo ver uma solução sozinho. – Me calei, sentindo o início de um desespero crescente. –Entendeu? – perguntei por fim, desistindo daquele monólogo sem sentido.

-Nem você mesmo entendeu, Bryan – ele respondeu rindo, mas parou ao perceber que eu continuava sério. –Ok, eu entendi. Você está nervoso. Se acalme. Somos amigos e temos que contar as coisas um para o outro.

Suspirei profundamente, mais aliviado. É realmente bom ter alguém como Matheus como amigo, ou melhor, ter um amigo.

-Explique-me.

-Certo – tomei fôlego e arrumei minha franja com os dedos, pensando no que dizer. Imediatamente um sorriso bobo formou-se em minha face sem que eu pudesse contê-lo. Somente a lembrança do dia era o suficiente para que eu risse. –Eu tenho um problema... Com sexo.

Ele me fitou de uma forma que eu não consegui decifrar seu olhar. Foi uma expressão extremamente simples e natural, com o cabelo negro caindo-me nos olhos verdes claros.

-Sério? Mas você se saiu tão bem na nossa vez.

Fiquei completamente envergonhado perante tal argumento. Meu coração bateu com mais força e eu me exasperei um pouco mais.

-O problema não é bem meu, ou comigo. É o Pedro!

-Ele não quer?

-Não! Quero dizer, sim, ele quer. Mas... – tentei gesticular com as mãos, procurando por uma forma de poder me expressar mais claramente.

-Broxou?

Levantei as duas mãos ao rosto, escondendo meu nariz e minha boca. Matheus não estava irritado com minha falha explicação, mas eu me exasperando em tentar fazê-lo entender.

-Não. Ele... Chegou lá... Antes... – disse envergonhado e pausadamente, já com a respiração oscilante.

-Na oral?

-Ah! Antes fosse...! – exclamei, dando-me por vencido. Minha garganta já doía, seja lá por guardar aquilo, tentar fazê-lo entender ou simplesmente nervosismo.

-Na mão?

-Eu só toquei – disse com simplicidade, erguendo as mãos e sacudindo os ombros e a cabeça.

Matheus riu de leve, movendo o rosto para o lado e apertando os olhos. Voltou-se para mim novamente com um sorriso bobo nos lábios.

-E você? O que fez?

-Tive uma crise de risos.

-Uhh – ele disse fazendo bico com uma expressão de quem vê outra pessoa se machucar perante seus olhos. –Coitadinho.

Uma música nos interrompeu. Era o toque de meu celular. Desliguei-o ontem o dia todo e quando liguei esta manhã tinha uma extensa lista de chamadas perdidas de meu pai. Hoje ele tem me ligado a manhã inteira.

-Ahh, é o meu pai. Vou ter de atender, se não ele me mata.

-À vontade – Matheus respondeu sorrindo simpaticamente. –Esse é o toque?

-Qual o problema? – perguntei distraidamente enquanto retirava um dos ombros da mochila e procurava desastrosamente meu celular.

-Nada. Só que está tocando a música Perfect*, do Simple Plan e é o seu pai ligando. Tem certeza de que você não vê nenhum problema aí?

Ri sem graça percebendo a situação constrangedora. Finalmente achei meu celular embaixo de alguns cadernos e livros.

-Prometo mudar – respondi para Matheus e atendi o celular. –Fala pai.

-Bryan, tens noção de quantas vezes eu te liguei?

-Aham. Eu vi as chamadas perdidas.

-E não atendeu por quê?

-‘Tava carregando.

-O dia todo?

-Pois é. A bateria anda ruim – menti.

-Hoje teremos uma séria conversa quando eu for te buscar.

-Desculpa pai, mas eu vou ir pra casa da minha mãe.

Eu conheço meu pai. Sei que ele não ficou feliz com a minha decisão. Na verdade deve estar furioso porque antes eu tinha que obedecê-lo e abaixar a cabeça para tudo, porque era somente ele a tomar as decisões de minha vida. Agora tem a minha mãe e se ele diz “não” eu posso recorrer a ela sem penalidades.

-Você vem pra casa — ele respondeu com a voz firme. Eu sorri satisfeito.

-Não pai. Eu quero sair hoje de tarde e a minha mãe deixou.

-Onde pretendes ir?

O sinal anunciando o início da aula soou. Matheus segurou minha mão que não estava com o celular e guiou-me até o prédio.

-Na sorveteria.

-Com quem?

Sabia que ele perguntaria isso. Ele anda desconfiado desde que... Ah, que eu beijei o Pedro e ele percebeu.

-Com alguns amigos.

-Com quem? – ele repetiu mais firme, irritando-se. Revirei os olhos.

-Matheus, Luke, Erick, Thiago e Mi c... Lucas.

-Então virás para casa e na hora de sair eu te levo.

-Pai... – resmunguei, desanimado. Eu não somente queria sair com meus amigos, mas também fugir daquela “conversa séria” que ele queria ter. –Eu também não quero conversar – fui sincero por não conseguir pensar em uma desculpa plausível. –Tenho que entrar para a aula.

-É assim que me agradeces? Frequento uma psicóloga para compreender meu filho, mas este me evita. Vens para casa sim! Eu te levarei e buscarei, então não há desculpas.

Matheus despediu-se baixinho e rumou para sua própria sala de aula.

-Tá bom, tá bom – resmunguei contra minha vontade somente para que ele desligasse e permitisse que eu entrasse em aula. A porta ainda estava aberta e a professora assistindo enquanto eu conversava. –Agora eu tenho que entrar se não vou ficar do lado de fora. Tchau – desliguei sem lhe dar tempo para responder, provavelmente irritando-o.

Pedi licença e entrei na sala. A professora somente conversara com a turma enquanto me aguardava.

Merda. Conversar com meu pai nunca é uma boa opção.

*

O silêncio predominava no carro. Eu fiquei completamente mudo, tentando evitar o assunto iminente. Agora eu teria de explicar a meu pai sobre o que ele percebeu aquele dia e simplesmente não sei como fazê-lo. É constrangedor demais.

Durante a manhã eu e Pedro conversamos normalmente. De início ele estava um pouco constrangido, mas eu não o tratei diferente, então acho que isso ajudou-lhe a relaxar. Eu não estou chateado, mas nós temos que resolver isso logo por quê... Merda! Porque eu quero transar com ele, oras!

-E então? Vais finalmente explicar-me ou terei de começar o assunto?

-Não sei o que você quer saber – menti descaradamente, voltando-me para a janela.

-Então eu quero que me contes a verdade do porquê de quereres passar o dia sozinho na casa de tua mãe.

-Porque eu amo a minha mãe.

-Não adianta mentir, Bryan. Ela não estava em casa nem a empregada.

-Tá! Eu queria ficar com um garoto. Satisfeito? – explodi, virando-me bruscamente para meu pai. Ele me encarou rapidamente e, logo voltou o olhar para a estrada. Meu rosto queimou de vergonha. –Qual o problema? Eu gosto dele e ele gosta de mim, mas se ficamos no colégio é um escândalo. Se leva-lo pra casa você é capaz de jogá-lo pela janela e na casa dele tem os pais que não aceitam! – parei porque percebi que estava elevando a voz. Se eu grito com ele meu pai fica furioso.

Encolhi meu corpo no banco com raiva. Raiva dele por se meter e raiva de mim por ser tão estúpido e não aguentar. Se eu não contasse logo ele ficaria insistindo até que eu cedesse.

-Eu odeio que você se meta na minha vida! Por que faz isso? Sou eu, meus amigos, o garoto que eu gosto, meu colégio... Por que tem que se meter no meu namoro?

Ele me fitou sorrindo debochadamente para o que eu acabara de dizer. Merda. Merda, merda, merda, merda! Eu e minha boca grande! Passei a manhã toda nervoso e agora dou com a língua nos dentes. E eu sei, agora eu sei que não era o que eu queria fazer na casa de minha mãe que ele queria saber, pois já sabia. Meu pai queria ouvir-me dizendo que tenho um namorado.

-Muito bem. Quero conhece-lo.

-Por quê?

-Porque é o namorado de meu filho. Isto não é motivo suficiente?

-Ah pai... – suspirei desanimado. –Mas nós namoramos há somente dois dias...

-Mas se já ficaram sozinhos em casa podes apresenta-lo a teus pais. Não concordas? – ele disse de forma sádica e com uma pitada de raiva contida.

-Não fizemos nada de mais.

Sem coragem de fita-lo eu olhei para a rua. Levei uma das mãos ao lábio inferior e comecei a puxar um dos piercings distraidamente. Tenho certeza que se eu dissesse que não sou mais virgem ele ficaria furioso, mesmo declarando-se ciente do que eu fizera.

-Pare com isso. Se rasgares teus lábios vai ficar horrível mesmo. Eu não vou me importar.

Ri, debochado. Como se ele realmente estivesse falando sério! Aparência é algo muito importante para meu pai.

-Falando nisso você tem que dar um jeito nos meus braços. Estão horríveis.

-O cirurgião disse-te que precisaria estar bem cicatrizado. Deixe-me ver.

Estiquei o braço esquerdo, sem deixar meus piercings em paz. Meu pai examinou-os, vendo as marcas vermelhas e algumas feridas ainda abertas.

-Tem que enfaixar isto para proteger, evitando infecções. E teu rosto? Não deverias passar maquiagem para esconder e muito menos retirar o curativo. Faz poucos dias, Bryan. Tens de passar a pomada ou pode irritar a ferida e interromper a cicatrização.

-O rosto está melhor que os braços. Eu quero arrumar isso logo.

-Acalme-se criança. Tudo tem seu tempo. Ficarás com estes machucados por, no máximo um mês.

-Um mês?! É muito tempo!

-Comparado com seu tempo de vida, não.

Suspirei, irritado. Pensei em cutuca-lo com algo verbalmente doloroso, mas me calei imediatamente porque lembrei do tempo que passei sem ele. Do quanto senti sua falta e do quão amoroso ele tem sido.

Eu o amo e isso está acima de minha frustação e de tudo que ele faz ou diz que me desagrada. Meu pai faz o possível por mim e me ama acima de tudo também e, ao lembrar de suas palavras naquela noite um sorriso de felicidade surgiu em meu rosto. Meu pai me ama, minha mãe, meu namorado Pedro, meu melhor amigo Matheus, meu segundo-melhor amigo (isso faz sentido?) Lucas, mais meus amigos Erick, Thiago, Luke...

Está tudo indo perfeitamente bem... Isso não é perigoso...?

O carro parou na frente da sorveteria. Vi, pela janela que lá estavam Thiago, Erick, Matheus e Mi comi. Sorri ao vê-los em um ambiente diferente e acenei quando me viram. Eles acenaram de volta.

-Bryan, Bryan, Bryan, Bryan! – Mi comi me chamou diversas vezes enquanto corria ao meu encontro e abraçar-me pela cintura. Eu fechei a porta do carro e tentei colocar minha bolsa cruzada, mas ele não desgrudava de mim.

-Oi... Lu – completei lembrando-me que meu pai ainda estava ali. Passei uma mão pelos fios loiros de raiz escura e voltei-me para o carro. –Tchau pai – disse em uma indireta, querendo mandar-lhe embora.

Percebi que Mi comi olhara de mim para meu pai e de meu pai para mim, em dúvida se deveria, ou não se afastar. Senti um aperto no peito e uma leve risada ao perceber sua confusão, então contornei seus ombros com meus braços.

-Não esqueça de me ligar.

Maneei a cabeça em sinal afirmativo e meu pai esperou um pouco antes de partir. Revirei os olhos com sua insistência. Eu sei muito bem o que ele queria e era conhecer meus amigos. Como se eu realmente fosse apresenta-los.

-Fiz errado? – Mi comi me perguntou com um ar infantil e um olhar de criança arrependida.

-Não. O máximo que pode acontecer é ele achar que você é meu namorado – engoli a risada ao pensar em tal ideia. Mi comi é exatamente o tipo que meu pai não me quer namorando. Engraçado, porque normalmente deveria ser mais o tipo do Alex, que só quer se aproveitar de seu “podre filhinho”.

-Veja Bryan, hoje depois do intervalo ganhei essa pulseira!

Lucas ergueu o pulso, me mostrando o acessório. Era uma pulseira de taxas. Vi que em seu pescoço ele mantinha o colar que, hoje ganhara um pingente. Era um coração prateado. Junto viera um pedaço de papel com a mensagem “pensei em lhe dar metade, mas você tem meu coração por inteiro”.

-Linda – elogiei.

Me pergunto de onde Matheus tira tanto dinheiro, porque somente eu e ele sabemos a quantidade de coisas que Mi comi está prestes a ganhar, dia após dia...

Em seguida Luke chegara e entramos na sorveteria rindo e conversando. Até mesmo Erick parecia mais sociável. Servimo-nos com diversos sabores de sorvete, calda, confetes, granulados, balas... Sentamos para comer em uma mesa onde cabiam todos.

Em determinado momento da conversa Luke comentou que, em uma mesa próxima da nossa havia dois caras que nos fitavam com desdém. Dois homofóbicos, deduzi.

-Thi, está sujo de sorvete aqui – disse Luke, inclinando o corpo na direção do moreno de beleza exótica. Ponderei que se beijariam, mas Luke somente limpou o canto do lábio de Thiago e ambos sorriram, com os rostos extremamente próximos. Quando eu pensei que o garoto do cabelo colorido se afastaria ele aproximou mais seus rostos e rapidamente beijou Thiago em um selinho.

Eu sorri perante aquela cena. Era algo bonito. Em seguida meu olhar voltou-se para Erick, ao lado de Thiago. Ele estava completamente paralisado, com os lábios entreabertos e os olhos verdes surpresos arregalados por trás do óculos de aro prateado.

Me perguntei mentalmente se ele estava assim por ser a primeira vez ao ver dois garotos se beijando ou... Ou se era porque era Thiago a ser beijado.

Luke riu e voltou a sentar normalmente, dando atenção ao seu sorvete. Contou-nos que os garotos tinham feito caretas, mas não deixaram de olhar. Logo, Mi comi ressaltou-se, pedindo para que Matheus também fizesse algo. Obviamente o moreno não desperdiçou aquela chance e pegou um pouco de sorvete com os dedos, levando aos lábios de Lucas que os lambeu com vontade.

Em pouco tempo nossa mesa se tornara um palco com cenas e brincadeiras insinuantes, homossexuais. Percebíamos que, mesmo reclamando os garotos não paravam de nos olhar. Me contive para não fazer quase nada.

-Não quer brincar, Bryan? – perguntou Mi comi, inclinando uma colherada de sorvete para mim.

-Não posso. Tenho namorado, lembra?

-Um selinho não mata – disse Luke, piscando para mim. – E nem é considerado traição!

-Te daremos a chance de escolher, Bryan. Qual quer beijar? – intrometeu-se Matheus.

Eu não tive de pensar muito.

-O Thiago! Nunca o beijei. Nem um selinho – declarei com um sorriso. Não era somente vontade de provar aquele garoto tão exótico, mas também ver a reação de Erick. Eu queria ver se ele reagia mais ao beijo gay ou ao beijo de Thiago, pois o moreno estava mais freado desde que vira que Erick ainda estava ali.

Ele se inclinou na mesa e chamou-me com um dedo para que me aproximasse. Assim o fiz, me inclinando na mesa e trocamos um selinho. Seus lábios eram macios e me peguei desejando por mais, mas me contive por causa de Pedro.

-Certo meninos, agora chega. Erick ainda está aqui, lembram?

-Ah, desculpe! – Matheus fora o primeiro a se pronunciar, surpreso.

-Também me desculp- tentou Luke, mas fora interrompido por Erick.

-Tudo bem. Sempre implicaram comigo mesmo. E agora está sendo... Engraçado.

De qualquer forma tentamos maneirar nas ações, mesmo que continuássemos com aquele “teatro”. Em pouco tempo Matheus estranhou e disse que agora alguma outra coisa chamava a atenção deles. Eu vasculhei o local com os olhos e percebi que realmente não eram somente os garotos, como todo o local estava distraído com um mesmo ponto. Segui com os olhos e entendi perfeitamente o porquê de tanta distração.

Servindo-se de sorvete encontrava-se um... Um anjo! Era somente assim que poderia chama-lo. Ele tinha o cabelo castanho em um tom de chocolate formando cachos completos e perfeitamente moldados com somente alguns poucos fios dourados no meio, brilhando cada vez que ele se mexia e batia a luz. Seu rosto era de traços perfeitos, dês do nariz pequeno e bem desenhado até suas bochechas redondas rosadas e os lábios extremamente vermelhos naturalmente e carnudos. Sua pele dava a impressão de ser de porcelana, pois era pálida, levemente bronzeada e sem nenhuma mínima marca ou falha. Era de chamar a atenção de qualquer pessoa, simplesmente se o visse passando na rua.

Todos de minha mesa, ou melhor, todos da sorveteria distraíram-se cuidando seus movimentos meticulosamente.

-Nicolas! – Matheus chamou pelo nome, mas isso não me surpreendeu. O que realmente me surpreendeu foi ver aquele anjo erguer o olhar e responder aquele chamado. Ele sorriu e juro que vi qualquer beleza já conhecida se apagar. Seus lábios repuxados, deixando a mostra todos seus dentes brancos e perfeitamente alinhados.

E ele... Ele realmente veio em nossa direção! Em cada passo como se flutuasse pelo local, leve como um verdadeiro anjo. Ele veio até nos, pediu licença para a mesa ao lado, onde havia três meninas que, gentilmente deixaram ele levar a cadeira e coloca-la entre Matheus e Luke, em seguida sentando-se com seu pote de sorvete.

-Oi Matt! Estava mesmo pensando em lhe fazer uma visita – ele disse, com a voz soando perfeitamente, macia e gostosa de se escutar.

-O que faz por aqui, Nick?

-Minha semana de aniversário, ou seja, feriado no colégio.

-É feriado no dia do seu aniversário? – Luke intrometeu-se, chegando mais perto do anjo com um sorriso tenebroso nos lábios.

-Semana – corrigiu –Meu pai é o diretor e o dono – ele contou, embasbacando a todos nós.

-E acha que o filho é um anjinho – alimentou Matheus.

O anjo riu, mas não foi uma risada que soou condizente com sua aparência. Assisti, de perto enquanto aquele rosto encantador era distorcido por um sorriso cruel e malicioso. Fiquei pasmo e pisquei algumas vezes. Se somente ver que uma pessoa com tal aparência existia no mundo já me era difícil de crer, acreditar que aquele anjo poderia dar um sorriso daquele jeito era impossível de engolir.

-Você estraga com o encanto, Matt.

-Eu não, é você! –Matheus rebateu, rindo. –Aliás, esses são meus amigos. O Lucas – ele começou apontando para a direita, onde estava o loirinho.

-Olá!

-Oi – cumprimentou o anjo enquanto levava uma colherada de sorvete com balas de goma aos lábios avermelhados. –Você é tão fofinho! Me lembra alguém... – ele disse em um tom de quem lembrava perfeitamente da pessoa a quem se referia.

-O Bryan...

Seus grandes olhos azuis intensos de cílios longos e volumosos voltaram-se para mim. Engoli em seco perante aquele olhar e o sorriso transfigurado, cheio de malícia. Em seguida sorri e disse-lhe um “oi” que foi rapidamente respondido. Matheus seguiu apresentando o restante de nós e eu agradeci mentalmente por me ver livre daquele olhar penetrante.

Seguimos conversando, com todos querendo falar com aquele boneco de porcelana vivo. Resolvi mudar o modo de chama-lo porque nenhum anjo seria capaz de sorrir da mesma forma estranha que ele.

Fizemos incontáveis perguntas. Descobri que o pai dele o mima de todas as formas possíveis, desde que ele nasceu. Ele é rico, infelizmente tem um belo namorado, – com o qual vive a brigar, onde em uma destas brigas ele viera parar na sorveteria – não gosta de balas de goma verdes, se apaixonou pelo Mi comi e insistiu em mantê-lo em seu colo. O que mais? Ah, ele vira o colégio de cabeça para baixo e simplesmente manda os professores irem se foder, sem nenhuma penalidade, pois o pai dele é o dono do colégio. Aliás, o pai dele também é gay! Tem como a vida ser melhor?

-Nicolas, não quer brincar com a gente? – convidou Luke com um sorriso de segundas intenções. O moreno dos cachos perfeitamente desenhados mostrou-se interessado enquanto lambia o sorvete dos lábios. Será que ele sabe que todos aqui estão vidrados nele?

-De que vamos brincar? – ele perguntou interessado, sorrindo de uma forma total e completamente maliciosa.

-Tem uns garotos nos cuidando e estávamos lhes dando um show. Que tal participar?

-Demorou! – ele exclamou mais que alegre. Pegou, com os dedos de uma textura duvidosamente perfeita e macia uma bala de goma em forma de minhoca de seu pote. Colocou metade em seus lábios carnudos, segurando com os dentes e ergueu o rosto para Mi comi em seu colo.

-Que tal, ‘fofurethe?

Mais que depressa Lucas aceitou e encostou seus lábios naqueles perfeitos, mordendo a bala e pegando um pedaço para si.

Acredito que toda a sorveteria parou para acompanhar aquele movimento em câmera lenta.

-Eu também quero! – atirou-se Luke.

O boneco de porcelana riu e pegou uma segunda bala, colocando entre os lábios. Senti grandes pontadas de inveja, mas me contive. Antes que Luke pudesse se inclinar para pegar a bala uma voz estridente, quase tão escandalosa quanto à de Mi comi ecoou por todo o local.

-NIIIIIIIIIIIIIIICK!

Uma garota pequena e extremamente baixa adentrou a sorveteria correndo, chamando a atenção de todos. Veio na nossa direção e quando ia “pular” no colo do boneco de porcelana percebeu Mi comi em seu colo e fez cara feia. Em seguida rumou até a cadeira de Mi comi e cruzou os braços, sentando-se ai.

-O que essa coisa está fazendo no seu colo? – ela perguntou agressivamente, comprimindo os lábios.

Deve ser uma criança, pensei comigo mesmo. Tinha um cabelo bonito, loiro e liso, da altura do rosto e com as pontas voltadas para o lado de dentro, emoldurando a face. Olhos azuis muito claros e traços delicados.

-Esse é o Luquinhas. Ele não é uma graça, Natrel? Lembra você – o boneco respondeu sorrindo simpaticamente e tocando nos lábios de Mi comi, o que irritou mais ainda a loira.

-Ele não pode ficar no seu colo! Só eu posso!

Hey, espere. Natrel? Natrel não é nome de garoto? Eu paralisei no lugar, sem saber o que fazer ou dizer. Passei o olhar rapidamente por todos os garotos na mesa. Por fim, percebi que eu não era o único confuso e que era só uma questão de tempo até algum deles abrir a boca.

E a bola da vez fora Mi comi.

-Espera! Você é um garoto? Ou é só o nome que é estrangeiro?

A garot- apoiou ambas as mãos na mesa e esticou seu corpo para frente, com um olhar sério de assustar, nada condizente com a face doce. Estou começando a duvidar que algum deles seja mentalmente instável... Depois sou eu quem tem que frequentar um psicólogo...

-Sou tão garoto quanto você é viado e quer dar o rabo.

Nossa mesa se dividiu. Alguns garotos se surpreenderam, mas a maioria, assim como eu, simplesmente riram da ironia daquela resposta desaforada vindo de um ser tão pequeno e aparentemente frágil.

-É por isso que tem o apelido de Mi comi – respondi automaticamente e logo me arrependi. Eu não parara para pensar nas consequências.

-E você cala a boc- Ohh, que apelido legal! Combina completamente – ele mesmo interrompeu-se no meio da frase, abrindo um largo sorriso debochado.

-Bryaaaaaaaaaan, como você é mau! – resmungou Mi comi, fazendo um grande bico com os lábios.

-“Bryaaaaaaaaaan, como eu quero dar” – resmungou o garot...o, fazendo uma voz enjoativa e melosa. -Ainda por cima tem uma voz aguda e irritante de viadinho!

Tentei não rir, mas fora impossível. Infelizmente eu tive de concordar, pois a primeira vez que vi Mi comi também me irritei com seu tom.

-Disse tudo – completei, recebendo um sorriso amigável daquele garot...o tão andrógino.

-Gostei de você... Bryyyyaaaan – ele pronunciou meu nome enquanto apertava o nariz com uma das mãos, deixando a voz mais irritante.

-Obrigado – agradeci, ainda estranhando ao fita-lo. É impossível de imaginar que entre suas pernas realmente aja um pênis. Ele é afeminado demais para isso!

-Quantos anos você tem? – perguntou Mi comi, com uma expressão mais amena. Já o loiro andrógino não suavizou a sua e fitou-o com os olhos estreitos.

-Dezesseis.

Luke engasgou com o sorvete enquanto eu me lembrava do meu. O dia estava sendo tão estranho que eu esqueci completamente que, para melhorá-lo ainda havia um delicioso sorvete! (bastante derretido, confesso.).

-Não acredito! – exclamou Lucas.

-Não acredito que você está saindo para passear sem uma coleira – rebateu o andrógino, irritando-se mais ainda.

-Mas você é pequeno, fofinho, parece uma garota e ainda é mais velho que eu!

Simplesmente o loiro afeminado se atirou encima da mesa querendo bater em Lucas. Eu e Matheus, os que estavam mais próximos o seguramos.

-Natrel! Acalme-se! – repreendeu o garoto que parecia um boneco de porcelana. Fora efetivo e o loiro acalmou-se, sentando novamente.

-Desculpaaaaa, era um elogio! – resmungou Lucas, fazendo um bico maior que o anterior. –Como você consegue? Eu queria ser pequeno e fofo assim.

-Antes eu tomava remédio para conter os hormônios, mas eu parei.

-Se tomava não pode reclamar por ter essa aparência infantil e afeminada – acrescentou Luke, defendendo nosso loirinho.

-Mas eu parei ano passado! Porque eu quero ser um m-e-n-i-n-O! – exclamou irritado, apoiando-se com o cotovelo na mesa e a mão no rosto. Fiquei em prontidão, esperando para ver se ele atacaria Luke, mas não o fez. –Até porque, tinha efeitos colaterais horríveis...

-O que acontecia? – Lucas perguntou, curioso.

As bochechas do loirinho ganharam uma coloração avermelhada, combinando com sua aparência. Em seguida ele levantou-se com os lábios comprimidos e rumou para perto de Mi comi. Sussurrou algo que fez Lucas abrir a boca. Fiquei muito curioso.

-Certo... Eu não quero isso. Não vou tomar nada!

-Já que estamos matando dúvidas, eu queria saber: como você deixa o seu cabelo assim, Nicolas? – perguntou Luke.

-E a pele também – acrescentou Thiago.

-Não faço nada – o boneco explicou sorrindo, mostrando os dentes perfeitos. –O cabelo seca normal, nem uso secador. A pele... No início eram cuidados, mas não faço nada e ela nem é tão “perfeita assim”... – ele retirou uma das mãos da cintura de Mi comi e puxou a gola do moletom, mostrando várias marcas roxas e vermelhas em seu pescoço e ombro. –Meu namorado é um tanto selvagem...

-São bons genes, então? – questionou Luke.

-Não sei... Sou adotado, não conheço meu pai e minha mãe de verdade.

Uoooow, isso fica cada vez mais estranho! Por essa eu realmente não esperava... Por um lado eu estou realmente curioso, por outro não quero me meter demais na vida dele.

-Já que estamos falando sobre cabelo e tal, eu também tenho uma dúvida. Como você faz para deixar o seu cabelo assim? – o boneco fez sinal com uma mão atrás da cabeça, como se puxasse para cima; estava se referindo a Thiago.

-Sabonete. Sabonete, chapinha e um spray fixador. De preferência sabonete dove que não deixa com um cheiro forte nem uma cor estranha ou duro...

-Interessante... E você? Não fala? – o garoto perfeito perguntou para Erick, assustando-o.

-Eu acho que vocês são bizarros... Não de um jeito ruim... – ele respondeu envergonhado, abaixando o rosto para seu sorvete.

-Já que estamos tirando dúvidas eu tenho uma, bem boba... – me intrometi, chamando a atenção. Novamente fiquei desconfortável com os olhares, agora não somente do garoto perfeito, mas também daquele menino/menina. –Se sua temperatura é... Bem, quente... É que parece tanto ser feito de porcelana... – perguntei mais envergonhado ainda em ver as palavras em voz alta. Soava menos estúpido em minha mente.

-Que pergunta ridícula, Bryan. Acha que ele é um vampiro? – ralhou Erick. Eu somente revirei os olhos para ele. Se era para alguém se irritar que fosse o boneco de porcelana.

-Sem problemas. Já me perguntaram isso antes...

Ele esticou uma de suas mãos para mim, oferecendo para que eu a segurasse. Assim o fiz, constatando não somente sua temperatura, que por sinal era bem quente, mas também que sua pele era extremamente macia e agradável.

-E aí? – questionou um curioso Thiago assim que eu soltei aquela mão.

-Quente – respondi sem graça.

-Nicolas, você está me devendo um beijo – prontificou-se Luka, causando-me inveja.

O garoto de porcelana sorriu em resposta inclinou-se pelo lado esquerdo de Mi comi para poder beijar a Luke. Eu penso que era para ser somente um selinho, mas Luke levou sua mão ao cabelo dele e todos nós pudemos perceber quando o beijo aprofundou-se.

E devo acrescentar que uma catástrofe é iminente, pois acompanhei com os olhos quando dois garotos morenos – lindos, como é de se esperar – adentraram a sorveteria chamando a atenção dos clientes. O menor correu em nossa direção apressadamente.

-Nicolas!

Nicolas, o boneco de porcelana interrompeu o beijo, fitando ao moreno com algumas mechas roxas, recém-chegado.

-Opa...

-Trinta e sete minutos... – controlou a voz o moreno que vinha atrás. Tinha uma postura prepotente e uma expressão pior que a de qualquer outro deles. –Você não pode passar trinta e sete minutos sem meter a sua língua na boca de outro garoto ou esfregar seu corpo no de alguém.

-Com licença fofurethe – pediu o garoto perfeito, dando alguns tapinhas na perna de Mi comi que levantou-se, seguido por Nicolas. –Está irritado? – perguntou implicante, parando com um sorriso debochado na frente do garoto mais alto e prepotente.

-Eu diria que ele está prestes a quebrar a sorveteria – respondeu simplesmente o loiro andrógino, fazendo pouco caso do assunto e roubando um canudo do pote de Matheus.

Curioso, eu segui caminho com os olhos até as mãos do moreno. Elas realmente estavam tremendo, fechadas em forma de punho. Por um momento eu cogitei a possibilidade dele realmente destruir o lugar.

Enquanto isso o outro moreno recém chegado fitava a todos nós, mais especificamente a Luke.

-Ah não! Não, não e não! Um garoto de cabelo azul? Temos que nos mandar daqui antes que Blake o veja!

-Hum? Eu? – Luke perguntou mexendo em sua franja azul escura. –Esse pouquinho aqui?

-Vem Natrel.

-Você não me manda!

O moreno menor – que não era, nem de longe pequeno – irritou-se. Pegou o loiro andrógino pelo braço e puxou-o para fora da sorveteria enquanto empurrava os seus outros dois amigos.

Todos ficamos pasmos. Não somente nós, como toda a sorveteria permaneceu em silêncio por mais alguns longos segundos, tentando entender tudo aquilo.

-Mas... O que foi que acabou de acontecer...? – quebrei o gelo, um tanto incrédulo. A lembrança não era o suficiente para me fazer acreditar.

-Parece que acabei de ver uma outra história complicada demais – respondeu Erick, terminando seu sorvete. Ele me pareceu o único a não se abalar com a presença daqueles... Daqueles malucos!

Thiago começou a rir, logo sendo acompanhado por Luke. Em pouco tempo todos nós estávamos rindo com toda aquela situação. Eu nem ao menos me recordo o nome deles! Tudo tão complicado...

Notas finais
EXTRA: Astronaut - Emo-ções.
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Há um extra de Emo-ções intitulado "Astronaut - Emo-ções". Ela é uma oneshot sobre quando Matheus descobriu ser gay e se apaixonou pelo Lu. Para os pervertidos, não tem lemon! Mas é super fofa e talz... E tem uma música do Simple Plan o/ Bem, se quiserem ler é só ir lá encima, onde diz "Emo-ções escrita por Tassi Viebrantz". Cliquem no meu lindo nome, vai no meu perfil, "minhas histórias" e tã-dã! Se gostarem até faço mais extras...
Inclusive se quiser passar no meu ask enquanto vão na história (dou spoilers e sim, pode falar com os meninos por lá...)
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Há atualizações na galeria o/ Tem o Mi comi, o Thi... E os novos personagens do próximo capítulo. Deem uma passadinha lá quando possível!
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-Tia Tassi, como você descobriu como fazer o penteado do Thi?
Com um garoto Scene Kid chamado Jee Duff. Eis aqui o vídeo: http://www.youtube.com/watch?v=D071SQ7lnp4&feature=plcp Sim, eu tenho permissão dele pra postá-lo aqui o/ (e ele tem um namorado mega lindo <
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-Tia Tassi, quem são esses loucos que apareceram nesse cap? Eu acho que já os vi em outro lugar...
Esses são personagens que eu sinto muuuuuita saudade, então para que eu não fosse escrever sobre eles e deixasse Emo-ções parado, eles vieram o/ E serão importantes pro Bryan... Vocês podem tê-lo visto na história deles, ou em uma historia de um anjo e um demonio, ou em uma história de um orfanato... Meu Nicolas fofurethe tá em tudo e eu não abro mão dele *---------*
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-Tia Tassi, vai responder nossos reviews?
Claaaaaaaro amores! Mil perdões pela demora, eu sou um desastre *chora*. Vou responder todos com o amor e carinho de sempre!