Emo-ções - Por Todos Os Motivos Errados
15 Capítulo 15: Porque você está vivo...
Notas iniciais
Boa leitura!
Foi tudo muito rápido e, mesmo parando para pensar fora impossível raciocinar o que fazer. Em um momento eu estava bem, apressado, procurando por minhas roupas e no outro com uma dor latejante.
Meu pé prendera embaixo de uma montanha de roupa e, sem perceber girei meu corpo para ir procurar minha camiseta. Houve um momento de desequilíbrio e eu fui ao chão, caindo encima do espelho. Por reflexo coloquei os braços na frente do corpo, acarretando em desastre.
O espelho espatifou-se em vários pedaços pequenos, tendo como influência o peso de meu corpo. Machuquei meus braços, que protegeram meu tronco e meu rosto, mais precisamente o lado esquerdo.
Depois do susto ergui meu corpo e a primeira coisa que vi foram meus braços escorrendo sangue vermelho vivo. Se antes a dor era grande, agora imensa. Foi desesperador ver aqueles pedaços de vidro presos em minha carne em feridas abertas enquanto meu sangue escorria rapidamente por meus braços, já começando a pingar...
-Bryan, tudo bem?
Ouvir a voz de Amanda somente aumentou meu nervosismo. Meu coração palpitou forte e assustado, várias vezes. Lágrimas escorreram de meus olhos pelo medo e pelo susto. Fitei meus braços trêmulos e, com a mão esquerda tirei os cacos maiores de meu braço direito.
Um garoto que consta em seu histórico tentativa de suicídio e que passou o dia chorando agora aparece ensanguentado. O que as pessoas deduzem?
-Bryan?
Retirá-los somente aumentava a dor. Imaginar minha carne sendo rasgada com cada uma daquelas fincadas... Horrível. Mas eu quero tirar todos; preciso retirar todos...
A porta de meu quarto fora aberta por Amanda. Chorei enquanto ouvia o barulho de algo de metal ir de encontro ao chão e de sua boca sair uma interjeição de susto.
-Bryan, o que você fez...?
Quis respondê-la, mas somente me encolhi em meio ao choro. Eu não fiz nada...
-Seu rosto...
Meu... Rosto...? Tremendo, levei meus dedos a minha bochecha esquerda e, sem querer empurrei um pedaço de vidro milímetros para dentro de minha bochecha. Em pânico uma pancada de dor atingiu meu rosto e eu gritei.
♦
Corredores de lajotas brancas, piso antiderrapante branco... Adivinha onde estou? Num hospital... Num maldito hospital esperando minha mãe chegar porque tenho histórico suicida e acham que eu tentei me matar! Porra, eles não sabem a diferença de cortes propositais e cortes acidentais? Médicos de hospitais públicos de merda, não sabem de nada. Quando cortei meus pulsos além de me fazerem os curativos o médico já me fez uma análise psicológica e me mandou consultar com tudo que era possível!
Sério, vão se fuder! Tomara que o mundo exploda! Eu tenho mais é que me matar mesmo...
Deitei no banco pequeno e duro, observando o forro do teto. Dobrei as pernas, mantendo os joelhos juntos e continuei a fitar o nada...
Minha mãe deve estar apavorada. Pense nisso, ela levando sua visa e ligam para ela do hospital que o filho tentou se matar. Se fosse antes eu até tiraria proveito dessas feridas, mas é minha mãe, ela não tem culpa. Meu pai tem... É por ele que eu morreria, em todos os sentidos.
O que será que os garotos estão fazendo agora? Principalmente Lucas... Vai ser bom para ele me ver amanhã, perceberá que tem gente pior. Estou cheio de cicatrizes para sempre, substituído por um garoto adotado... Droga, não quero chorar em um hospital.
O corte em meu rosto só pode ser castigo de Deus. Quem me mandou cogitar a possibilidade de cortar meu rosto? Eu não quero ficar assim para sempre, droga.
-Bryan?
O susto fora tamanho que eu, literalmente pulei do banco, ficando de pé. A dois metros de mim estava meu... Eu simplesmente não acreditei. Meu coração pulou e meu corpo todo sentiu o impacto de sua presença com uma pancada forte e, logo amolecendo por completo. E eu... Sabe o que é não saber o que pensar; o que dizer? Eu simplesmente...
-Pai...
Mas ele estava ali, com uma camisa social branca puxada acima do cotovelo e seu famoso rolex preto que sempre me irritou. Ele não me pareceu irritado, mas eu nem prestei atenção, pois minha mente não raciocinou nada direito, nem sua presença... Ali.
Cai sentado no banco atrás de mim e fitei o chão, apavorado. Ele está mesmo aqui? Não seria minha mãe? E o que ele está pensando? Por que veio? Não entendo! Levei ambas as mãos ao meu rosto, cada uma de um lado e tentei controlar minha respiração, mas a todo momento ela saia desesperada e desordenada, como se subitamente eu pudesse parar de respirar.
-Bryan...
Sua sombra me escondeu e ele se abaixou a minha frente, colocou ambas as mãos em meu rosto, substituindo as minhas. Segurei em seus braços e o fitei. Surgiu de imediato o choro.
-O que você fez... Seu cabelo, esses piercings, seu rosto...
-Eu não fiz... – Meu rosto eu não fiz, o resto eu fiz. –Me desculpe! Eu não quero ficar com cicatrizes horríveis, pai...
Não consegui fitá-lo e abaixei o olhar. Eu sei que há milhares de coisas para serem ditas, mas simplesmente saiu o que saiu. Com tanta coisa e meus pensamentos tão desorganizados eu não soube por onde começar.
-Calma Bryan, é só fazer uma cirurgia plástica.
Eu percebo que todas as pessoas passando pelo corredor olham para nós, mas não me importo nem um pouco.
-Desculpe...
Ele passou sua mão grande em meu cabelo, puxando minha franja comprida para cima, mostrando minha face. Em seguida sua mão deslizou por todo meu rosto, inclusive tocou em um de meus piercings.
-Está tudo bem filho, apenas se acalme. Estou aqui.
Filho... Filho... Ele me chamou de filho. Limpei meu nariz com a manga da camiseta e aceitei ser abraçado com força. Descansei minha cabeça em seu peito e aproximei as mãos do rosto. Era quente todo seu corpo, mas mais que isso, era um sentimento indescritível que me amansou. Era o carinho, a preocupação, a palavra “filho” dita com tanto esmero repetindo-se em minha cabeça... Eu sou paradoxal em sentir um desespero avassalador e uma felicidade emocionante ao mesmo tempo?
-Bryan? – dessa vez quem me chamou fora minha mãe, em um tom preocupado. Não soltei de meu pai, mas percebi ela se aproximando e, logo sua mão estava em meu cabelo, acariciando-lhe devagar.
Refleti de tudo um pouco até minha mente ir enfraquecendo meus pensamentos e eu me acalmar. Pensei em levar em consideração minha mãe e abraçá-la, mas finalmente estar com meu pai, de uma forma tão carinhosa era impossível desperdiçar.
Meu pai acabara por sentar-se de lado no banco e eu encolhi as pernas encima do mesmo, recostando minha cabeça e meu tronco no peitoral largo dele.
-Se sente melhor?
Observei, completamente embriagado pelo conforto, as pessoas passando pelo corredor do hospital. Passou uma moça com uma criança de uns 4 anos no colo, com a mesma chorando. Isso me lembrou de quando eu tinha a mesma idade e quebrava o braço com facilidade ou tinha ataques de asma, gripe, infecções... Durante a madrugada, sem reclamar meu pai me pegava no colo e me levava para o hospital rapidamente, sendo que na manhã seguinte tinha de trabalhar bem cedo.
-Bryan, filho, você tentou se matar? – minha mãe perguntou calmamente, porém de forma preocupada.
Não respondi. Não tentei, mas tive medo de responder e meu pai deixar de se importar.
-Estou com frio – constatei em voz alta ao sentir um arrepio percorrer meu corpo, tentando aquecer-me.
-Não trouxeram um casaco? – meu pai perguntou a minha mãe, mas nem olhei.
-Foi Amanda quem o trouxe. Ela trouxe uma camiseta e o tênis dele.
-E onde ela está agora?
-Eu a mandei embora – intrometi-me, contando a verdade – E a ameacei. Não brigue com ela mãe, é uma boa pessoa, – fofoqueira e intrometida. Se vissem o modo como ela tentou me consolar concordariam comigo.
-Tem tomado os remédios, Bryan? – meu pai perguntou preocupado, pois ele sempre controlava as doses e os horários.
-Ele tomou uma grande dose de um deles e desmaiou. Eu os retirei – felizmente minha mãe respondeu em meu lugar. Assim posso só descansar em plena paz.
-Qual?
-Não sei...
-Como não sabes? Sabe que há alguns que, se ingerido em grande dose mata? Não sabes que pode ser uma tentativa de suicídio? Quando foi isso?
-Depois que você falou com ele no telefone. – Pronto. Foi minha mãe dizer isso que meu pai se calou.
-Estou com frio – repeti para que o assunto não parasse em algo que os fizesse refletir sobre um momento o qual não quero lembrar.
Meu braço começou a ser afagado, indo de cima a baixo.
-Meu casaco está no carro, posso ir lá buscá-lo. Não está com fome, Bryan?
Remexi-me, feliz em ouvir meu nome dos lábios daquele quem o dera. Fechei os olhos e suspirei satisfeito.
-Estou. Não terminei nem meu almoço.
Minha mãe se aproximou mais, afagando meu cabelo. Suspirei novamente, em êxtase. Sabe quando dizem que gostariam de parar o tempo? Ou quando dizem para aproveitar cada segundo e que os melhores momentos duram pouco? Agora eu entendo.
Sendo mimado no colo do pai e tendo a atenção da mãe, sendo filho único eu me sinto um garotinho novamente. Sei que não sou adulto, mas sou adolescente e isto não é normal de adolescentes, mas nunca foi tão bom fugir do normal...
-Não quer ir lá pra casa, filho? Posso comprar algo para o jantar no caminho e você dorme lá.
Minha casa... Minha verdadeira casa... Meu quarto, minha cama, meu guarda-roupa, minha parede, meu computador, os armários da cozinha cheios com as minhas besteiras...
-Faz macarrão, pai? – pedi pela minha comida favorita, principalmente quando feita por meu pai.
-Claro filho. Venha, vamos para casa.
Casa... Casa... Casa... Minha verdadeira casa, onde tudo está em seu lugar, onde tenho minhas coisas...
Sentei no banco para que meu pai levantasse. Minha mãe sentou ao meu lado e beijou-me o topo de minha cabeça, bagunçando meu cabelo.
-Melhore e depois conversamos, certo? – disse docemente, sorrindo e ajeitando os óculos. –E não se esqueça que ele tem aula amanhã, Michael. Vai levá-lo?
-Obviamente.
-Certo. Depois volte para casa, Bryan. Vou tentar almoçar em casa. Se quiser levar um amigo...
-Tá mãe.
Mais uma vez ela me deu um beijo na testa a saiu, indo embora. Eu coloquei meu all star branco e me levantei, ficando ao lado de meu pai. Ele contornou meus ombros com o braço esquerdo e seguimos até a saída. Senti-me envergonhado, sem saber como agir. Acontece que isso não é uma atitude normal de meu pai.
Ele nem falou com as moças da recepção. Foi embora direto. Tremi quando passei pela porta, saindo na noite fria e gélida. O carro estava próximo, camuflado pela noite por ser preto e molhado pelo sereno. Esperei ele destrancar para abrir a porta do carona. Peguei o casaco de cima do banco do passageiro, entrei e fechei a porta, um pouco mais aliviado por estar menos frio dentro do carro.
-Quer que ligue o aquecedor?
-Sim.
Ele ligou o carro, em seguida o aquecedor e começou a andar. Eu vesti seu casaco, um sobretudo preto que ficou grande em mim, principalmente na manga. Coloquei o sinto e me encolhi no banco, com frio.
Passaram-se alguns minutos de silêncio. Fiquei me perguntando repetidas vezes por que meu pai foi me ver, por que estava se importando, quando ia adotar...
Encostei a cabeça no vidro do carro, encolhendo-me próximo a porta e mordi um de meus piercings. Uma chuva leve começou, chuva esta que foi aumentando gradativamente.
-Vai conversar comigo, Bryan?
-Vai responder ou me ignorar? Por que se importa agora? – perguntei um tanto grosso, mas sem intenção. Somente formulei mal a frase. Na verdade, não me importo que ele não queira me ouvir, contando que continue sendo meu pai. Só quero que ele responda por que espera para se importar quando “tento me matar”.
-Você não entende... – ele respondeu junto a um suspiro, sem desviar os olhos da estrada. Fechou a pequena fresta aberta do vidro do motorista.
-Você não me entende – respondi automaticamente, prevendo a briga iminente. Se ele estivesse normal já teria me culpado por não querer ser entendido e me xingado, mas inesperadamente não foi isso o que aconteceu.
-Não entendo? – ele vincou a testa, irritado. Girou o volante para o lado, dobrando para a esquerda. –Sua mãe não contou?
-Nada – respondi curioso. –O que ela deveria ter contado?
Ele me olhou rapidamente para captar minha expressão. Voltou a olhar para as ruas e diminuiu a velocidade, pois a chuva estava aumentando. Alguns segundos angustiantes se passaram. Até cheguei a pensar que ele havia desistido da conversa, mas a resposta finalmente veio.
-Eu estou frequentando a psicóloga.
Segurei-me ao máximo para não rir, mas foi inevitável. Um pigarro escapou de minha garganta e eu escondi o rosto. Meu pai? Frequentando psicóloga? Como não rir?
-Vai rir?
Ele estava com uma expressão brava, então engoli o riso.
-Por quê? – perguntei ainda não levando fé em suas palavras.
-Porque meu filho único, que eu criei praticamente sozinho cresceu e se tornou emo e gay.
Essa doeu. Não somente no sentido figurado. Senti um aperto em meu coração. O que posso fazer se é isso quem sou?
-Desculpe.
Abaixei o rosto, desviando o olhar. Agora é fato que só sirvo para estragar a vida de meu pai.
-Então eu o mandei parar morar com a mãe dele porque não o aguentava mais. Eu disse que, depois de tudo que fiz por ele não iria aceitar que se tornasse gay. Não queria vê-lo nem ouvir falar dele.
Coloquei os pés no banco. Ele odeia quando faço isso, mas desta vez foi por frio. Segurei o nó que se formou em minha garganta e me impedi de chorar, pois só pioraria as coisas. Infelizmente as lágrimas estavam se acumulando em meus olhos. Eu sou um lixo; uma decepção.
-Mas eu te amo Bryan e você é meu único filho. Tudo que eu fazia eu pensava em você, como estava, o que fazia, se estava bem, triste... Tudo. Estava preocupado, mas não sabia dizer se sentia raiva, ódio, nojo... Eu só sabia que era meu filho, independente de como fosse eu o queria de volta, mas não conseguia aceitar o que você se tornou, por isso fui a Rita, a psicóloga que sabia de tudo sobre ti e que poderia me ajudar.
Me engasguei com meu próprio ar quando ouvi a última frase. Meu pai? Frequentando a psicóloga? É brincadeira, certo?! Isso é...
-Do que está rindo?
Muito, muito engraçado!
-Sério que você conversou com a Rita, pai?
Ele franziu o cenho, fitando a mim de forma furiosa e indignada, em seguida mirava a estrada para não perder o foco.
-Não pode levar a sério nossa conversa, criança?
-Esse sim é meu pai – constatei em voz alta deixando-o ouvir para, logo depois me arrepender. A graça encerrara.
Meu pai suspirou pesarosamente. Recostou-se mais no banco e quando finalmente olhou para mim tive de desviar o olhar para a janela. Puxei os punhos do casaco e observei a chuva fria do lado de fora. Agora está mais quente dentro do carro por conta do aquecedor, mas minha mente se força a imaginar o quão gélida deveria estar a chuva fina caindo do lado de fora do carro, batendo as gotas no vidro e escorrendo...
Funguei e esfreguei o nariz com a mão, de baixo para cima. Tenho a hábito nojento de limpar meu nariz no punho dos casacos quando não tem papel por perto, mas desta vez não o fiz porque não estou vestindo um casaco meu.
-Desculpe Bryan.
Ele pediu, mas fiquei sem entender. Nossas conversas estavam começando sem pé nem cabeça e explicando as coisas pela metade, sendo elas finalizadas por... Não sei bem, mas normalmente uma conversa acaba quando o assunto chega a o fim e tudo está explicado. Não é assim que tem acontecido conosco.
-Pelo quê? – perguntei, voltando minha atenção para ele.
-Por tudo. Briguei, critiquei, lhe despachei... Muitas vezes você estava errado, mas ainda sim... Eu o critiquei por quem você era e por isso peço desculpas.
-Certo...
Tentei evitar um sorriso e, ao perceber que estava falhando em meu objetivo eu tentei esconder o sorriso bobo com a mão, brincando com os dedos em meus piercings. Uma idéia surgiu em minha mente, idéia de perguntar a meu pai o que ele achou de meus piercings, mas isso com certeza acabaria em briga, pois ele nunca permitiu que eu colocasse. Se bem que ele está se desculpando por criticar quem sou...
-Gostou de meu novo visual, pai?
Ele fez uma careta e eu ri. Por um lado não queria contrariá-lo e embravecê-lo, por outro estava explícito e estampado em minha face estas minhas “novas características”.
-Quer sinceridade?
-Sim.
-Se tiveste feito isso enquanto morava comigo teria lhe arrancado com um alicate assim que chegaste em casa, pego uma tesoura e arrumado o cabelo a força, sem contar esse monte de maquiagem. Mas, tirando isso meu filho é lindo.
Quanta bondade! Com certeza meu pai teve uma conversa com a psicóloga, pois ele nunca foi assim. Se estivesse normal já teria dito que iria falar com a minha mãe para obrigar-me a tirar tudo.
-Pai... – depois de um minuto de silêncio chamei-o um tanto constrangido. Era pela pergunta... A pergunta sobre aquilo que me atormentou e ocasionou nestes montes de desastres que teve fim em um hospital... Ou talvez ainda não teve fim.
-Fala filho.
Queria aproximar-me dele e ser abraçado, ou abraçar. É uma sensação tão gostosa que brota em meu peito ao ouvi-lo chamando-me de filho... É bom ouvir “Bryan” da boca de quem me concedeu esse nome, mas mais gostoso ainda é ser chamado de filho pela voz máscula de meu pai.
-A empregada lá de casa me contou umas coisas... Umas coisas que ela ouviu em uma conversa entre você e a minha mãe...
-Conte-me, então.
-Ela disse que... Que você estava pensando em adotar um garoto...
Fiquei receoso e acabei estranhando mais ainda quando ele abriu um sorriso. Seria isso uma confirmação? E ele vai se fazer de bonzinho e dizer “você vai ganhar um irmãozinho mais novo!”? Isso dói, sabe pai? Se bem que a culpa é minha, não deveria ter perguntado.
-Então? – apressei-o, ouvindo um pequeno riso.
-Desde quando és fofoqueiro, Bryan? É a convivência com mulheres.
-Vai adotar ou não? – apressei-o, irritando-me. Estou nervoso demais para ouvi-lo debochar. –Aliás, foi você quem me mandou para uma casa só com mulheres.
Ele deixou de sorrir. Não sei se é impressão minha, mas parece que meu pai se afeta tanto com minha saída de casa quanto eu. Ok, não tanto quanto eu, menos. De uma forma cruel, isto me satisfaz.
-Não. É mentira. Eu brinquei com sua mãe, dizendo que veio defeituoso e queria troc-
-Isso não é brincadeira! Muito obrigado por dizer que sou defeituoso!
Ele riu, em um bom humor esplendido e surpreendente.
-Filho, era uma brincadeira. Acha mesmo que eu o trocaria em um orfanato?
-Não é pela troca, mas pelo defeito. Desculpe se não sou perfeito... – me encolhi, com a voz tremendo no final da frase. Eu quero descontar minhas frustrações nele e, ao mesmo tempo me desculpar. Se eu pudesse juro que me tornaria normal, mas não dá! É impossível! Eu não sou normal!
-Bryan, eu estou tentando ser compreensível, mas será mentir se lhe disser que adoro o fato de meu filho ser um emo homossexual.
-Desculpe – respondi sem fitá-lo.
O carro parou na frente da grade de minha casa. Minha casa; minha verdadeira casa. Meu pai acionou o controle para que o portão se abrisse.
-Não fique assim.
Um beijo fora depositado no topo de minha cabeça junto a um afago gostoso no cabelo.
-Menos Bryan. Seja mais compreensível comigo.
Assim como você foi comigo, respondi mentalmente.
-Estou com fome – respondi, passando o dedo indicador em meus lábios e piercings. Acho que é associação. Casa = comida. Colocando nesses termos me sinto um animal doméstico.
-Se está com muita fome terás de comer algo, pois ainda nem comecei o jantar.
-Certo...
Mais uma vitória: meu pai nunca me deixou comer algo antes de jantar ou almoço, pois tira o apetite.
Entramos na garagem, o carro parou e o motor fora desligado. Abri a porta e saí, sem esperar. Segui até a porta e a abri, adentrando na sala de star.
Minha casa. Sinto-me tão bem aqui... É tão confortável e aconchegante... Minha verdadeira casa.
Ouvi o “click” da luz sendo ligada e, logo, a sala ganhou brilho. Seguido veio o barulho da cortina sendo aberta e as chaves sendo largadas na mesinha próxima da porta. Andei até o sofá e respirei fundo, absorvendo aquele cheiro gostoso que só há em minha verdadeira casa. Passei a mão pelo sofá branco de couro da sala de estar. Observei uma caixa de DVD preta largada encima da mesa de vidro no centro da sala. Estranhei. É raro meu pai ver filme, principalmente na sala.
Embaixo da televisão fixa na parede havia a variedade de DVDs que conheço muito bem. O piso bem lustrado reflete os móveis, há mais plantas que lembro... Ah, tem um quadro novo na parede, pequeno. Deve ser uma foto. Aproximando-me para ver melhor percebi que era uma minha, adolescente mesmo, mas com o cabelo maior e sem piercings.
-Vou começar a preparar a comida. Se quiseres algo pegue no armário.
-Uhum.
Meu pai nunca foi fã de cozinhar, mas às vezes faz algo. Hoje, em seu ápice de bondade e compreensão resolveu ceder a um capricho meu e cozinhar. Isso é bem estranho... Fala sério, ele está virado do avesso!
Dirigi-me a escada no canto esquerdo da sala. Subi, passando a mão pelo corrimão de madeira. Segui pelo corredor e parei no meio, retornando a observar a sala de estar. Apoiei-me na sacada baixa, vendo tudo por outro ângulo... Tão maravilhoso...
Deixei a sala e me virei para o hall. Liguei a luz e vi aqueles montes de puffs coloridos espalhados ao redor de uma mesa baixinha onde eu sempre fiz meus trabalhos do colégio. Ao lado direito havia a porta do quarto de meu pai, um banheiro e a escada. Do outro há a porta de meu ex-quarto e do quarto de hóspedes. Bom, não vou entrar em meu quarto. Nostálgico demais.
Desci, esquecendo a luz acesa. Da sala de estar subi um degrau e liguei a luz da sala de jantar. Fui para a janela e observei, através da chuva, passando a varanda, a piscina e as cadeiras de praia está meu antigo “parquinho”. Tem um escorregador com uma mini-casinha encima, um balanço, uma caixa de areia e um daqueles brinquedos de se escalar que me fugiu o nome agora. Tudo bem colorido e alegre... Meu... Ainda meu. Como eu gostaria de poder ir lá... Mas a porta para o pátio fica na cozinha e meu pai nunca me deixará sair na chuva.
Foda-se.
Retirei o casaco e deixei encima da mesa. Abri a janela com cuidado para não faze barulho. O vento gelado soprou e eu tremi de frio, com todos meus pelos se eriçando. Mesmo assim pulei a janela, fazendo o mínimo de barulho que consegui.
PUTA QUE PARIU! ISSO TÁ MUITO GELADO! Com certeza vou ficar doente! Daí talvez eu possa faltar à aula e ficar na minha casa com meu pai... Merda, esqueci o celular no bolso da calça. Peguei-o, meti a mão pra dentro da janela e o larguei rente ao chão. Sabe que, para um celular de touch screen ele é bem resistente.
Que gelo! Eu sou muito burro! Ou muito carente... Os dois. Corri para perto de meu antigo balanço, contornando a piscina, quase escorregando e caindo. No início lembro que ele era bem próximo do chão, mas conforme eu fui crescendo meu pai foi diminuindo as correntes.
Sentei naquele banco com uma grande poça d’água. O pior nem é a água gelada queimando minha pele – irônico, não? -, mas sim as roupas colando por toda a pele.
Fui tomado por uma nostalgia boa. Abaixei a cabeça, encostada na corrente e me embalei para trás e para frente... Meu pai não é um monstro, eu sou o errado. Ele realmente fez tudo pelo filho, mas teve de se decepcionar tanto...
Senti a chuva gelada esfriando meu corpo, fazendo-me sofrer vários calafrios. Quanto tempo é necessário para se ficar doente?
Ah pai, eu quero tanto voltar para minha casa...
-BRYAN! – estava demorando...
-Bryan não está – respondi como sempre o respondia, esquecendo por um segundo tudo que estava acontecendo e a situação atual.
-Quer se matar? Venha aqui agora!
Parei o balanço e me levantei calmamente. Normalmente quando faço algo assim meu pai vem me buscar e me pega pelos cabelos, furioso dizendo: “Quer ter cabelo comprido? Tenha, então”. Mesmo meu cabelo nunca tendo passado dos ombros.
-Fala pai – impliquei, fingindo-me de inocente.
-Como se não soubesses, criança!
Abracei meu próprio corpo, tremendo. Suas mãos foram para meu cabelo, torcendo-o com um pouco de violência. Abaixei a cabeça e passei o dedo indicador da mão esquerda embaixo dos olhos, por debaixo dos cílios, tentando limpar a maquiagem provavelmente borrada.
-Me pergunto o que tens dentro da cabeça... Iremos conversar, agora! Antes de tomares banho! Não mandei sair na chuva. Tsc, encharcou os curativos recém feitos!
Ele me puxou pelo pulso para dentro de casa. Pelo pulso, não pelos cabelos; que avanço! Na cozinha pegou uma cadeira da mesa e fez sinal para que eu me sentasse. Obedeci, tremendo de frio a todo instante.
Meu pai se abaixou na minha frente e foi só aí que eu vi que era sério mesmo. Normalmente ele senta para falar comigo.
-Bryan, olha para mim. É sério.
Eu o fitei, estranhamente tendo de olhar para baixo. Seus braços foram apoiados em minhas pernas.
-Quantas vezes tentaste te matar?
-Nenhuma.
-Bryan!
-Nenhuma! Minha mãe que me encheu de remédios, eu estava quase enlouquecendo e tomei remédio para dormir. Só!
-E os braços?
-Caí encima do espelho.
-Bryan...
-É só isso?
Ele suspirou, visivelmente transtornado. Pensei no que realmente havia por trás daquela pergunta. Observei sua face, séria com o olhar fixo em mim. Eu não consigo manter seu olhar. Abaixei o rosto e senti sua mão quente em minha bochecha machucada.
-Filho, preste atenção. Morte não tem volta. Eu não planejei ter um filho, mas sua mãe te teve e eu fiz questão de criá-lo da melhor maneira que pude, independente dela ter tido condições para te criar ou não. Não tenho namorada importante e não pretendo me casar. Não tenho paixão com teus tios e meu relacionamento com teu avô não é dos melhores. Bryan, somos eu e você. Dediquei minha vida a meu único filho e não me arrependo. Te dei tudo. Você é tudo que eu tenho filho; o mais importante.
Eu quis chorar, mas isso não é surpresa. Eu choro por tanta coisa... Repousei minhas mãos em meu colo e meu pai as segurou com as suas quentes.
-Agora imagine como seria se, um dia estou trabalhando e me ligam para dizer que meu filho se matou. Bryan, morte não tem volta. O que vou fazer da vida? Meu único filho é tudo para mim. Vou voltar para casa todos os dias, para a casa vazia e não ver ninguém. Observar todos os lugares que meu filho cresceu, escolheu a decoração... Os seus lugares e não haverá um mínimo resquício seu. Sabe, não é como quando alguém vai viajar, pois você sabe que ela vai e sabe que volta. Eu vou olhar para tudo dia após dia e meu filho simplesmente desapareceu. Nunca mais poderei vê-lo durante o resto de minha vida. Não haverá “bom dia Bryan” ou “o que quer comer?”. Tudo será vazio. É uma presença que some. E quando eu quiser matar a saudade? Eu vou ao cemitério, observar o lugar de seu cadáver sem vida e conversar coisas que nunca haverá respostas.
Comecei a chorar. Eram cruéis de ambas as partes. Ele dizer dessa forma mórbida e sôfrega e, ainda sim eu ter de parar para pensar que é exatamente isso que tento fazer.
-Eu vou chegar em casa todos os dias e ver o vazio de minha criança. O jardim abandonado, o quarto cheio de coisas, para nada. Bryan, não tem volta. Não importa o quanto me arrependa, o quanto te queira. Não é um momento de tristeza e depois seguir a vida em frente. Minha vida gira em torno de ti, és tudo pra mim.
Tremi, com minhas lágrimas quentes em meu rosto contrastando com a água gelada da chuva.
-Desculpa...
Tentei secar meu rosto, mas minha blusa está encharcada. Recebi um abraço e o choque de temperatura me fez tremer constantemente.
-Você só fala o lado bonito... – tentei falar em meio ao choro e suas pausas dolorosas. –Mas e o ruim? Os defeitos? Eu sou tão errado e torto...
Ele se afastou de mim para olhar em meu rosto, mas mais uma vez não consegui fitá-lo.
-Filho, não és errado. Há muitos outros como você, seja em qual característica for. A combinação dessas coisas é o que faz meu Bryan, certo? E eu sou quem tenho de me desculpar por lhe fazer acreditar que és errado. Eu fui o errado.
Eu comecei a soluçar, sem saber o que responder. Digo que o amo? Peço desculpas novamente? Falo que gostaria de ser normal? Agradeço? Tudo parece ruim de se dizer. E é triste, mas ao mesmo tempo bom masoquistamente porque eu amo machucá-lo. Eu amo a dor que ele demonstra sentir em me perder. Dói e ainda sim sua voz sai tão firme...
-Entendeu Bryan?
-Sim...
-Então olha pra mim.
Eu o fitei, mas contra minha vontade. Ele segurou meu rosto e me senti uma criança frágil.
-Promete pra mim que não tentará se matar?
-Prometo.
Ele me abraçou novamente.
-Então eu quero que sempre que te sentir mal, com vontade de se matar me procure. Seja onde eu estiver. Ligue-me, mesmo que estejamos brigados. Promete?
-Prometo.
Enfiei meu rosto gélido em seu pescoço quentinho sentindo-me bem ao fazê-lo arrepiar-se.
-Pai, posso ir tomar banho? Não sinto a ponta dos meus dedos.
-Pode.
Ele beijou minha testa e se afastou, levantando-se. Vi que sua blusa estava molhada e grudada no corpo, constatei que foi porque eu o abracei.
Notas finais
Então, eu não tenho teclado, simples assim. Meu irmão quebrou ao meio um e arrancou as teclas do outro. Por quê? Ih, vai saber... É meu irmão; louco! Mas eu sou muito amável, sensível, gente boa... Sério pessoal, vocês não estão entendendo, eu escrevi esse e o próximo capítulo (que é o mesmo, partindo em dois) em um TECLADO VIRTUAL! Gente, é muito amor por escrever! E em consideração a vocês, claro. Vocês já viram isso? Escritor em teclado virtual? Depois dessa minha demonstração de carinho nem vou pedir review, fica por vocês! (mas eu os quero, viu?? Bem enormes do jeito que eu gosto)
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