Emoção - o Caminho para a Jaula
5 Salve o mundo!
4. SALVE O MUNDO!
Enquanto eu me arrastava pelo chão da escura caverna, vários morcegos azuis passavam por cima da minha cabeça, alguns chupando meu sangue de vez em quando e outros deixando cair carretéis envoltos por medonhas linhas de costura sobre meus ombros. Não era à toa que poucos aventureiros sobreviviam. Então cheguei num grande salão, que abusava-se de seu piso brilhante de madeira e com várias coisas espalhadas pelo local, ornamentando-o. Sentei-me sobre a privada que havia ali para raciocinar melhor. Havia seis corredores e eu tinha que decidir em qual deles entrar primeiro. Acionei a descarga e comecei a fuçar pelas gavetas das paredes do salão. Peguei várias ferramentas e construi uma moto. Com a moto eu fui pelo primeiro corredor da esquerda, andando sempre de ré pra ter certeza de que nada vinha por trás de mim. Quanto tempo eu não pilotava uma moto! A ultima vez que me lembro de ter feito tamanho ato, foi quando eu estava no cinema e, durante o filme, uma moto caiu do teto e cada pessoa do cinema usou-a uma vez, de diversas maneiras. No fim um cara acabou a engolindo. Era uma moto boa, mas tudo que é bom acaba. É por isso que as coisas ruins nunca tem fim e nunca terão. Até na visão de um louco as coisas são bem claras e evidentemente perceptíveis.
Sem querer acabei atropelando um hipopótamo enquanto viajava nos meus flashbacks. Cheguei num lugar onde tinha um vão no meio da sala, me impedindo de continuar o trajeto. Eu olhei por ele e, no fundo do buraco, pude ver várias abelhas, prontas para um ataque mortal para o infeliz que caísse em tal inferno. Vários esqueletos jazidos no fundo do buraco comprovava a voracidade assassina das abelhas, que agora monstruosamente devoravam o néctar das flores sem piedade. Como iria eu chegar ao outro lado? Ora, do jeito mais fácil e óbvio, não? Esperei por uns momentos e quando eu já estava quase impaciente, um meteoro caiu em cima do buraco, fazendo-se como minha ponte. Atravessei rapidamente com medo de que alguma vaca louca saísse de dentro do meteoro. Essa teoria das vacas loucas vindas de meteoros marcianos foi comprovada pelo meu tio Inácio. Eu nunca o vi pessoalmente, mas ele sempre me mandava fotos suas, vestido como bailarinas ou com fantasias de vacas, seu animal predileto, desde que um meteoro caiu na sua cabeça. Mas depois que um carteiro me entregou um convite para uma festa num cemitério, que não pude comparecer, tio Inácio nunca mais mandou-me fotos suas. Não que eu realmente as quisesse, mas o papel higiênico está ficando cada vez mais caro.
Uma esfinge estava deitada de barriga pra cima roncando quando eu cheguei na sala adiante à do inferno de abelhas. Ela acordou ao perceber minha presença e me disse que eu só passaria se eu respondesse uma pergunta. Caso eu errasse ela me devoraria. Ela me perguntou então: “Quantos centímetros teria a Torre Eiffel, se ela fosse destruída parcialmente por um caminhão com 500 toneladas de massa numa velocidade de duzentos quilômetros por hora, caindo dos céus com um ângulo de setenta e seis graus bem na ponta da torre?”. Eu não sabia o que aquela esfinge tinha na cabeça de achar que alguém poderia responder-lhe aquilo corretamente. Ao pensar nisso, lembrei-me da chave que me permitiria continuar! A Pedra Verde! Nela estaria a resposta. Alcancei a pedra no meu bolso e percebi que havia um número gravado nela. Não que isso importasse! Joguei a pedra na cabeça da esfinge com bastante força e ela desabou no chão, sangrando. Passei por cima dela e percebi que estava na sala mais profunda da caverna agora! A sala final, onde estaria o sei-lá-o-quê que vovó queria que eu destruísse para salvar o mundo de um fim cruel e interminável.
Quando vi quem me esperava naquela sala tão promissora, não pude segurar e soltei um grito agudíssimo: imóvel, com os braços cruzados e olhando furiosamente para mim estava: meu pai! Ele começou a me bronquear por eu ter fugido de casa e disse que eu merecia um castigo. Após ele me dar umas palmadas na bunda e eu perceber que vovó tinha tramado tudo aquilo pra que eu tivesse minha devida lição, ele me disse que eu ficaria trancafiado numa jaula pra que eu não fugisse de casa nunca mais...
E foi assim que eu cheguei nessa jaula, que pinga álcool etílico e escorre sabão. Enquanto eu contava tudo isso para uma pomba que me fazia companhia e que parecia estar muito entretida com a emocionante história de minha vida, papai chegou no local e disse que meu castigo acabara e eu já podia sair, mas antes eu teria que limpar cinco mil quilos de bosta de gaivota que estavam espalhados pela casa toda.
Então a pomba começou a falar: “Você me contou esse monte de besteira pra me dar uma lição de moral dessas no final?”. Eu não tinha pensado nisso, mas involuntariamente era verdade. Eu respondi que sim e a pomba me deu uma bicada no peito esquerdo e eu sofri uma parada cardíaca. Um pouco antes de perder os sentido, pude ver papai correndo pra me socorrer enquanto cantava uma música de carnaval.
Atravessamos o deserto do Saara
O Sol estava quente e queimou a nossa cara...
Quando a música cessou estava tudo escuro. Eu abri os olhos e dessa vez estava em cima de uma nuvem, que como no meu sonho era dura como diamante, só que cheirava a tomate. Será que era outro sonho? Comecei a caminhar quando de repente um monte de anjos começaram a dançar funk na minha frente. Enquanto isso uma voz dual falava de algum lugar: “Bem-vindo ao céu!”. Enquanto várias funkeiras rebolavam loucamente, ummendigo era espancado num canto de uma nuvem, por membros de uma gangue que supostamente tinha morrido cinco anos atrás, quando um touro pisoteou todos os integrantes de uma única vez. “Acomode-se, filho”. Deus só podia estar brincando. Aquilo era o paraíso? E nem depois da morte eu podia ver Deus, só ouvia sua voz. Quando questionei isso pra Ele, um homem me chamou de cima dum palanque, segurando um microfone. “Eu não sou Deus, seu idiota” disse ele. Ele veio até mim e começou a me explicar quando lhe perguntei se era aquilo o paraíso. Ele disse que as pessoas vêem o paraíso de várias formas diferentes. O céu reflete no que as pessoas gostam de fazer, no que elas vivem pra fazer. E era aquilo que as deixava felizes então era aquilo que elas teriam. Então eu pensei: o que me fazia feliz? Essência de porco congelada? Acordar pessoas com frigideiradas? Comer com talheres? Não. Só depois da morte eu pude perceber como eu vivi minha vida tão debilmente e que agora era tarde demais pra voltar atrás. Então o cara do microfone disse, no microfone, como se eu tivesse a metros de distância ou tivesse algum problema de surdez, que qualquer coisa que teria feito de mim uma pessoa feliz eu encontraria em algum lugar naqueles becos pelas favelas do paraíso.
Comecei a caminhar então, pelos becos da favela e, encontrei o que realmente me faz feliz! Dani! Ela veio correndo em minha direção. Eu estendi meus braços querendo abraçar meu objeto de felicidade e fui acertado em cheio com uma voadora de Dani, fazendo-me voar metros de distância na direção contrária. Quando ela ia me socar novamente, eu pedi que ela parasse. “Era pra eu estar viva, seu idiota!” Resmungava Dani enquanto me socava. Então eu a perguntei se eu não a fazia feliz. Ela parou de me bater e pensou por um momento. Então respondeu que sim. Então eu disse que teria morrido por ela, pra ser seu objeto de felicidade no paraíso, caso isso a fizesse feliz. Ela me olhou, os olhos lacrimejados.
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