Emma Mills?
15 Minha Protetora
Notas iniciais
Minha protetora
Emma se endireitou na cama, fechou os olhos, suspirando por um momento, era tão difícil voltar a esse assunto, mesmo que seja horrível ter sempre as memórias como fantasmas em sua mente, voltando o tempo todo por uma ou outra coisa, ainda assim, pareciam mais fáceis dela lidar do que enfrentar de frente, seria o mesmo que revivê-las, ela tinha tanto medo disso, mas como Regina tinha dito era o momento de confiar nela, em quem ela é, na promessa que fez, e a loirinha confiaria. Então, Emma abriu os olhos e começou a falar
– Quando eles me devolveram ao orfanato, descobri que fui deixada recém nascida, junto a um menino na beira de uma estrada qualquer havia um casal que se interessou em ficar comigo, eles me adotaram semanas depois de me encontrarem naquela estrada. – ela dizia cada palavra como se elas pesassem toneladas. Regina apertou sua mão mostrando que estava ali por ela.
– “Pareciam boas pessoas, a mulher não conseguia engravidar, tentavam a anos mas nada dava certo, se encantaram com você, no mesmo dia eu dei entrada nos papeis, não tiveram problemas com a justiça e logo você estava aos cuidados deles.” Foi o que me disse a mulher do orfanato. Mas eles nunca me amaram, sem um gesto de carinho, eram muito rígidos e paranóicos, sempre buscando a perfeição a qualquer preço em suas carreiras que eram suas vidas, viviam para serem cada vez os melhores na área deles, erros não eram permitidos, então eu estava no meio disso tudo, tinha níveis a alcançar, era inaceitável que a filha de profissionais brilhantes em tudo o que fazem fosse uma pessoa comum, com inteligência comum, desde muito cedo eu fui preparada, pois segundo eles, eu TINHA que ser a melhor, pois coisas ruins aconteceriam se eu não fosse. – ela dizia tudo com a expressão perturbada, tensa, e os olhos perdidos em memórias dolorosas. Afinal, se para um adulto tanta pressão já é ruim, imagina para alguém que mal sabia falar como ela na época.
– Eu conseguia na maioria das vezes fazer o que era necessário, só que não era sempre, eu era pequena, não conseguia acompanhar muito bem, as palavras nem sempre saíam de maneira certa, minha letra nem sempre era caprichada, minha leitura nem sempre era impecável, e os livros, eram tão grandes para minhas mãos, eles me atrapalhavam muito, tantas coisas a aprender, eu estudava minha língua, e francês praticamente juntas, mal aprendi a falar e já tinha que saber de quase tudo, teve uma época que confundia bastante as duas. – ela parou fechando os olhos, a morena a abraçou de lado ficando mais abismada a cada palavra que ela dizia.
– Foi quando entendi. – disse apenas isso, era difícil demais continuar. Mas ela corajosamente respirou profundamente, tomando coragem para continuar.
– Você quer parar? Se estiver difícil demais, podemos continuar em outra hora. – Emma apenas balançou negativamente com a cabeça, preferia falar tudo de uma vez e nunca mais tocar nesse assunto. Regina entendeu e perguntou suavemente depois de um tempo. — Entendeu o que meu amor?
– O significado das palavras que ele dizia. Coisas ruins acontecem. – ela citou e nesse momento seus olhos estavam molhados e perdidos em memórias ainda piores.
– Foi a primeira vez que aconteceu, eu não estava bem na pronuncia nem de um nem de outro, muitos erros, os educadores batiam na minha mão com o que quer que estivesse ao seu alcance sempre que errava, seja na pronuncia ou na escrita, não chore. Eles diziam: chorar é para fracos, não para a filha de pessoas tão brilhantes como seus pais, eles sentiriam vergonha de você se a vissem agora, quer que eles tenham vergonha de você? Eram sempre as mesmas palavras, as mesmas citações. E eu sempre respondia com a cabeça baixa não senhor(a).
– Então pare de chorar e haja como a filha que deve ser, que esperam que seja. Eles respondiam a mesma coisa também. Doíam tanto, as palavras, elas eram a pior parte, então eu tentava melhorar, só que não entendia algumas coisas, muitas horas para cada língua, minha mente não aguentava bem tanta informação, só via essas pessoas que deviam ser meus pais durante a noite, mas eu já ficava tão cansada de passar duas metades do dia estudando, tentando aprender para não apanhar, para não ouvir, mas não parecia o suficiente, nunca era o suficiente. Se esforce mais, ande menina, seus pais não merecem passar pela vergonha de ter uma filha burra, e sem talento, então faça bem feito. – a loirinha sempre citava as palavras que tanto a machucavam, ela sempre ouvia, elas se marcaram tão fundo que pensava não ser capaz de esquecer.
– As educadoras como me ensinaram a dizer, relataram aos meus “pais” o péssimo desempenho de sua filha, nunca vi um olhar como aquele, as palavras que eles diziam junto ao jeito que me olhavam, aquilo doía tanto ou mais que se eles tivessem me batido. – Emma não conseguiu pronunciar as palavras, mesmo que ela lembrasse cada uma delas como se tivessem sido ditas ontem. – Assim que eles foram embora, ele me pegou pelo braço e me deixou sem jantar por conta disso, me trancaram no porão durante toda a noite, era tão escuro, estava tão frio, eu senti muito medo, tanta fome, mal tinha comido no durante aquele dia, no dia seguinte, ele me disse palavras que nunca mais esqueci. Isso e muito mais acontece com quem não é a melhor.
– Eu passei a concordar com o que ele dizia, pois, mesmo que depois desse dia eu tenha melhorado muito, algumas vezes eu falhava, e coisas ruins sempre me aconteciam por conta disso. Seja a melhor, faça bem feito, sem falhas, busque sempre a perfeição e nada de ruim vai te acontecer. – ela citava a frase que sempre ouvia. – então, eu aprendi a falar e escrever as duas línguas, até melhor que as próprias educadoras, buscando a perfeição sempre, pois, era meu único modo de estar protegida, de que nada de ruim acontecesse. E os livros que antes eram motivo de dor, se tornaram meus únicos amigos, meu refugio também seguro, neles eu ia a qualquer lugar fora dessa realidade, eles eram meus aliados e me ensinavam o que eu precisava saber, ajudavam a me manter segura. – nesse momento ela se apertava a Rainha fortemente, como se tivesse medo que ela desaparecesse, como se fosse sua taboa de salvação.
– Eu sinto muito meu amor. – a morena chorava junto a Emma. Abraçada a ela.
– Eu também sinto. Muito mesmo. – ela teve de parar novamente, as lagrimas rolando abundantemente no rosto pequeno e pálido, minutos passaram até que ela voltasse a ter condições de falar.
– Meses depois ela engravidou, então eu soube que não era nada deles, eles disseram que eu já não era o suficiente antes, agora que eles teriam um filho eu era ainda menos, não mais servia para eles. Apesar de tudo, eles eram a única coisa mais parecida com família que eu tinha, doeu ouvir aquilo, mas não é como se já tivessem dito algo bom para mim. Vi então que para eles eu não era sua filha e sim era apenas um objeto a ser estudado. Por isso sei tanto. – finalizou com a voz fraquinha, agarrada a morena.
– Hey meu amor, olha para mim. – ela disse suavemente depois de quase meia hora apenas abraçada com a pequena, dividindo o peso do passado, Emma se sentia mais leve, mais tranquila, porque tinha a Rainha junto a ela, Regina queria ir atrás dessas pessoas e cuidar delas pessoalmente, mas fez uma promessa, só que não deixaria passar em branco, precisava de um plano, mas deixaria isso para depois, Emma era mais importante agora.
A loirinha olhou nos olhos de Regina, fez carinho no rosto de sua protetora, que é como vê a Rainha, e sempre veria.
– Você está segura agora, ninguém mais vai te machucar meu amor, nada que eles diziam era verdade, você é e sempre será muito mais que suficiente, por ser quem é, por ser a Emma, meu presente, eu te amo e nada de ruim vai acontecer com você. – a Rainha beijou o rosto da loirinha que sorriu feliz novamente, pois ela acreditava em cada palavra de Regina, ela estava melhor, era hora de a morena deixar tudo para trás também, assim como ela faria de agora em diante. – Mas me diz o nome deles. – pediu suavemente a morena.
– Willian, Richard e Kristine Willian. – disse num sussurro, a morena absorveu os nomes de cada um deles, depois daria um jeito nisso.
– Posso contar a historia agora? – pediu com seus olhos pidões, mesmo tendo certo receio da reação de Regina.
– Pode sim meu amor. – ela foi suave.
– Então você deita na cama. – Regina deitou achando graça da atitude da loirinha. – eu te cubro para não sentir frio, essa parte é muito importante. – a loirinha cobria a morena que achava graça por a pequena repetir os gestos feitos por ela na hora de dormir. – e aí te dou um beijinho para você prestar atenção na historia, e deito ao seu lado. – Emma então beijou sua testa deitando ao seu lado, assumindo a postura de Regina quando conta uma estória a ela.
– “Em um mundo distante, terra de reis, princesas e magos, habitava a mulher mais linda que já existiu, ela não era apenas linda, era muito importante em seu mundo, ela era uma Rainha, só que essa Rainha tinha um problema, ela possuía muita bondade em seu coração, uma bondade que já não conseguia demonstrar, pois, algo muito ruim aconteceu com ela, a partir daí ela não conseguia mais expor esse sentimento que mesmo depois disso, ainda continuava nela, a Rainha sofria por isso, talvez não tanto quanto sofria por apenas conseguir expor sentimentos ruins, que ela não queria possuir.
Regina prestava atenção em cada palavra falada, a história parecia familiar demais a ela. E Emma dizia com clareza e cuidado cada frase, observando o rosto da morena.
– E assim os dias foram passando, quanto mais eles passavam, mais a Rainha se escondia nessa escuridão, só que sem a mesma notar, uma montanha foi se formando em torno dela, essa montanha ia aumentando conforme ela colocava para fora seus sentimentos ruins, quando menos esperava, a Rainha estava presa atrás de uma montanha grande demais para ela escalar, ela estava sozinha.
A morena tinha seus olhos sem foco, apenas ouvindo as palavras que tanto sentido faziam a ela, lembrando cada acontecimento de seu passado.
– A Rainha tentou contornar essa montanha, mas nada que ela fizesse tinha sucesso nessa tarefa, tentava pedir por ajuda, mas sua voz se perdia na montanha, alta e densa demais para que alguém conseguisse enxergar-la, apenas uma pessoa conseguia ver através da montanha, mas essa pessoa não conseguia derrubá-la, ela não sabia mais o que fazer perdida nessa montanha, então, com a ajuda da pessoa que ajudou a montanha a se formar, a Rainha construiu um plano, ela iria para outro mundo, um mundo tão distante que nem a magia podia alcançar um mundo onde não houvesse a montanha, um em que ela pudesse ser feliz.
Emma acariciou o rosto da morena com amor, a Rainha percebeu que a loirinha queria dizer algo com tudo isso, mas temeu descobrir.
– Quando esse plano deu certo, ela e todos do Reino, foram para um novo mundo, e nesse não havia magia, nessa nova vida não haveria Rainha, e ela poderia ser apenas ela mesma. Tudo parecia estar indo muito bem, mas depois de um tempo ela percebeu algo, a montanha ainda estava lá. Que nem mesmo um mundo sem magia foi capaz de libertá-la dessa montanha, e tirar sua solidão.” – Emma terminou a historia olhando nos olhos dela, a deixando confusa e suavemente a loirinha perguntou: — Sabe porque eu contei essa historia?
– Não. – Regina realmente não sabia.
– Eu contei essa historia, porque essa Rainha é você. – Emma disse firme olhando nos olhos da morena. – Sei quem você foi; como era chamada e o que fez.
– Emma eu... – a Rainha não sabia como se explicar, pois, viu nos olhos dela que já não adiantava negar, não mais, então seu pesadelo se tornou real, a pessoa que mais amava sabia a verdade, iria perder o melhor presente que poderia pedir.
– Gina, olha para mim. – a morena sentiu suas mãozinhas levantando seu rosto, quando fitou os orbes da loirinha. – eu sei de tudo isso, dos meus pais, da profecia, tudo. Mas acima de qualquer coisa, eu sei quem você é, entendo o que fez, e acredito na bondade escondida em seu coração, eu vivi quase minha vida inteira ao lado de pessoas más, sei como são, e você não é uma dessas pessoas. – disse suavemente.
– Olha não me importa o que houve, o que importa é que você seja apenas a Regina, eu acredito nisso, creio que você pode, e eu vou estar aqui para te ajudar com isso. – a morena sentiu seu coração aquecer diante das palavras da loirinha. – eu disse que não te julgaria, e não irei, não apenas porque te amo e sim porque eu vejo o que outras pessoas ignoram. – foi firme e suave com a morena que já tinha lagrimas nos olhos. Ela não sabia o que dizer, então apenas abraçou forte a loirinha, embalando-a em seus braços, sentindo que finalmente podia respirar tranquilamente, pois, mais uma vez, Emma não demonstrava ter a idade que tinha.
– Mas depois, quando estiver preparada quero saber o que aconteceu Gina. – disse suavemente. – Nós faremos essa história ter um final feliz não é? – perguntou depois de um tempo.
– Nós já estamos construindo esse final feliz meu amor. E ele é graças á você. – a morena sorria com a cabeça enterrada nas madeixas loiras da criança.
– Então vou terminar a história. – disse confiante.
– É um bom plano. – disse beijando o topo da cabeça de sua pestinha.
– É claro que é Gina, fui eu quem disse. – sua voz era orgulhosa e a pose era de uma Rainha.
– “ Mas o que a Rainha precisava era de alguém capaz de ver através da montanha e derrubar essa monstruosa prisão. Foi quando surgiu na sua vida a mais nobre, linda, forte e destemida e absurdamente adorável guerreira, que com sua espada e sorriso irresistível derrubou aquela montanha tão malvada. – a loirinha dizia com voz solene, não deixando sua pose de Rainha nem por um segundo.
“ Trazendo luz aos dias da Rainha, e devolvendo a alegria a sua vida, fazendo seu enegrecido coração capaz de amar novamente. Elas ficaram juntas para sempre pois a Rainha descobriu não ser capaz de viver longe da pestinha mais convencida do mundo.” – Regina terminou a historia com o sorriso mais grande que se lembra de ter dado em toda sua vida.
– Hey, eu não sou convencida, sou apenas realista meu bem. – ela empinou o nariz toda orgulhosa. Mas logo foi atacada pelas cócegas da morena, que rindo junto sentia seu coração leve, e uma vontade de deixar verdadeiramente o passado para trás e viver sua vida em paz, com Emma é claro. O sorriso no rosto de ambas era prova mais que suficiente que nenhuma delas jamais deixaria algo afastá-las. Que deixariam o passado esquecido em algum canto de suas mentes e seriam felizes como nunca foram. Juntas.

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