Eminente
1 Capítulo 1
Um dia cansado de duras rajadas de vento.O som gotejante batia solo com tanta força que o solo parecia estar tomando uma bela surra. Eu estava no sofá um pouco desconfortável, não podia reclamar eu havia ganhado praticante de graça junto com a casa e mais alguns móveis. Meu novo lar, tinha as paredes um pouco descascada, o chão rangia em certos pontos da casa, talvez mais no corredor dos quartos no andar de cima.
A lâmpada que iluminava a sala piscava e o vento corria com um uivo de filhote de lobo pelos corredores. Parecia um ser lobo melancólico e amedrontado. Eu estava só, era eu e a TV que fazia um som chato transmitindo alguma notícia do estado local. Tentava prestar atenção e ignorar o mal tempo. Por fim apertei no botão grosso e redondo da daquela caixa imprestável e a desliguei. O silêncio pairou e aos poucos os som da voz fina da âncora do jornal já se desfazia no ar.
Eu estava só mas não me sentia só. E sim em paz. Era a coisa certa. Tinha que ser. Aquilo não era para mim, eu estava completamente incapaz de assumir essa responsabilidade. Pronto, ponto final. Era isso.
Meus olhos corriam pelo cômodo mediano que continha um ar envelhecido e confortável. Era minha casa e eu estava tão surpresa comigo mesma.
Essa casa era quase perfeita. Meus olhos estavam um pouco fundos. E a dor na coluna me fazia parecer um idoso resmungona. Contudo ainda sim a satisfação me fez no final do dia me preparar um projeto de almôndegas e o macarrão.
A cozinha era a parte mais bonita da casa. Como, se, quem morasse aqui, tivesse dinheiro apenas para deixar ela bem arejada e equipada. Os armários pareciam antigos, a madeira tinha um tom escuro os vidros grossos, o chão era de madeira acompanhado o tom dos armários um lustre estava no meio da cozinha pendurado no teto esbranquiçado.
A longa bancada era de madeira, parecia ser feita pela árvores do fundo do quintal, talvez não. Porém tinha algo de semelhante. Tudo dava a entender que todo resto da casa estivesse sido desligado e se deteriora-se aos poucos. E somente aquele comodo estivesse vivo. Pelo menos era assim até esse momento.
Mesmo assim me sentia a vontade em todos os cômodos. Os dois quartos de hóspedes e uma suíte. A lavanderia a sala os corredores a varanda a balança presa na árvore da frente de casa. No gramado meio opaco e descuidado, me sentia bem na lareira e no sofá que mesmo sendo empedrado, eu me acostumaria e não seria tão ruim.
Com o tempo as coisas laceiam e eu acabei esquecendo do desconforto. As vezes você se apega a algumas dores ou elas se apegam a você, não interessa muito a ordem no final das contas.
Era meu lar, era meu fusca meio barulhento amarelado fosco, com o parabrisa incomum ele tinha vontade própria. Por momento tudo caminhava tranquilo, estava na estrada que aos poucos era engolida pela floresta densa ao redor. A música tocava baixa e um mosquito fazia um solo no banco de trás.
10 minutos de trilha de terra e mais 15 minutos de estrada até a cidade mais próxima. Parecia um vilarejo pacato e gentil. Tinha cheiro de terra e grama molhada independente se chovia ou não. Eu gostava, e foi quando fui na farmácia andava até o corredor e pegava uma caixa de tinta violeta, um analgésico e pedia uns comprimidos com a receita de um médico dos arredores do tipo honesto que precisava de uma grana como todo cidadão bom e trabalhador.
A minha dor na coluna havia passado só o que doía era minha cabeça. Tinha a insônia também que me ameaçava durante algumas horas. Tinha um passarinho voando e depois caindo ele piava alto e depois parava me olhava e era isso no fim dos sonhos. Uma grande besteira.
A moça sorriu com um sorriso plástico. Era seu dever e ela parecia estar feliz por ter um sorriso plástico um crachá de gerente numa cidade com nome de ''Fish''. E eu retribuía jogando o dinheiro no balcão enquanto visualizava o pote de balas carameladas. Odiava balas caramelizadas.
A caixa de tinta violeta foi analisada e quando ela olhou para o meu cabelo desidratado e descolorido, totalmente esbranquiçado, foi algo nada sutil da parte dela, mas, claro, não era como se eu ligasse, com um olhar daqueles que você aprende ignorar por ser pobre em educação.
Foi isso apenas, até que ela não pudesse mais me encarar com um sorriso plástico, desprovido de sinceridade que preencheu aquela cara de sabidona. Quando bati a porta, pode ter dado entender que não gostei daquilo e quando ela resmungou algo alto, eu não ouvi. Mas o fato é, que quando sai a calçada algo me fez parar e puxar com força aquela porta molenga.
Era um gatinho, ele estava no meio da rua e uma bicicleta quase o atropelou. Estava encolhido como um bolinha preta ou um pingo no meio chão. Então sem perceber ele já estava nos meus braços. As íris verdes dilatadas seus pequenos pelinhos arrepiados, mudo, apenas se sustentou em mim. Percebi que agora eu era a única coisa que ele tinha.
Alguns passos e ele já estava debruçado no banco encapado ao meu lado. Seu rostinho me encarava, como se já tivesse me visto antes, ou era apenas um gato com fome e medo.A estrada estava mais nublada e a o mar de névoa pouco denso fluía. Nada de novo, era característico e bonito.
Ele continuava mudo. Gato que não mia apenas me encarava, oras se lambia ou rolava no banco com uma pequena bola peluda de pelos negros. Sua patinha roçou minha perna direita. E seu pequeno corpinho pulou entre minhas coxas. O motor fez um um barulho alto e ele se assustou enfiando suas pequenas unhas na minha legge dando uma pinicada.
Sorri. Era tão engraçado. Ele parecia detestavelmente um pouco eu, apavorado. Ele era meu agora. E seu nome seria Lino. Apenas porque eu gostava como aquele nome soava.
Os pneus amassaram alguns galhos e folhas secas. Era outono. Estacionei o fusca, ele fez um barulho engasgado e tudo deu um leve tremor até se firmar e o motor afogar. Lino, não miou ele se contentava em fincar suas unhas e se esfregar na minha jaqueta verde fosca.
O estrado da varanda rangia levemente com meu peso sobre elas. A porta abriu e com um jeito estranho Lino miou, saltou dos meu braço e correu pela entrada, como fumaça se misturou no breu da sala.
Pairei, fechei a porta. Com sorte o encontrei tentando furar uma lata de sardinha vencida no armário da bancada na cozinha. Derramei um pouco de leite em uma tigela de sobremesa e deixei no chão. Gatos gostam de leite, menos lino. Ele gosta é de um suco, com cor de jabuticaba e gosto duvidoso do mercado em Fish. Descobri isso quando derramei aquele líquido no chão depois de cuspir o resto.
Era nojento, mas Lino gostava e eu comprava. Aos poucos ele se adaptou aos rangidos ao fusca e a mim. Descobri que Lino não era como eu, era melhor. Mais doce e tímido, corajoso e muito dorminhoco.
Um trabalho. Varria o chão da pequena lanchonete. E Elizabete me ajudava a atender os clientes. O gerente tinha um queixo troncudo e as sobrancelhas grossas a voz era arrastada e dura e uma barriga de gelatina presa em um pano fino com botões exprimidos e grandes.Era um ogro por educação, mas, um ogro que pagava bem, e isso me fazia tolerar algumas ladainhas.
Nos intervalos eu sento no banco, que fica no pequeno parque gramado e plano a frente da lanchonete. Como de costume, escrever algumas cartas para Lilian. Em vão todas elas, eu sempre jogava no lixo e por mim tudo bem. Eu podia conviver com isso.
A noite em Fish era pálida e quieta. Conseguia pensar e só. Casa, comida, trabalho e Lino e eu. Agora era isso. Meus olhos vasculharam a gaveta e acharam um pequeno lenço e depois um embrulho e um colar. A pedra azulada, lembrava cristal pela textura.
Tentei sentir e lembrar. Tentei esquecer e quis voltar . Por fim pus no lugar. É melhor assim. Esquecer.
O outro dia, e Lino não estava ali na cama. E sim no sofá esparramádo, como estivesse sobre as próprias nuvens. E,talvez estivesse mesmo. Prossegui.
O mercado quase vazio anunciava um pequeno festival de flores no final de semana. Hambúrguer, molho, batatas, queijo e salada e leite puro, era o prato do dia. Paguei tudo, com meu próprio dinheiro, suado e lascado.
Elizabete, mulher alta, braços finos cabelos longos e castanhos claro, cara de quem já viveu até hoje com muita vontade. Forte e engraçada. Me transmitia confiança e coragem.
Na calçada ela corria, rápida. Me viu e acenei,sorriu. Parou, atravessou a rua. Estava suada e parecia pouco cansada.
Disse palavras rápidas. Avisou que o Donan saiu, se escafedeu. Viajou e não tem previsão de volta. Sem gerente até segunda instância. Foi bom e ruim. Ficou por essas até que ele se comunica avisando sua demição. Sua mãe faleceu e entrou em choque. Tristeza profunda.
Até os ogros tem coração.
Elizabete foi promovia. E as coisas melhoraram. Mais trabalho para mim até que uma jovem chamada Ana se candidatou e pronto tudo normal.
Os dias eram assim. Até certo ponto, em outros sentia que também não poderia ser assim, que estava mentindo para mim mesma. Foi em um ponto desses que eu voltei atrás. Me sentia um monstro horrendo. Uma covarde nojenta.
Da entrada, podia ver algumas crianças correndo. Umas diferentes das outras, porém, todas elas possuíam uma coisa comum. Era algo que, somente uma criança podia ter. Inocência.
Nos corredores daquelas construção bem feita, cheias de quadros. Anjos angelicais, rostos harpas e flautas. Um belo orfanato. Pelo menos ao dia enquanto o sol batia e iluminava.
Na noite só o que se via por la era escuridão. Um pouco sombrio.
Panos e mais pano cobriam toda aquela mulher de estatura baixa. Do tipo simpática,seus olhos derreteram em admiração e um sorriso grande preencheu os lábios. Essa reação foi ao ver o bebê. Quando tomou eles dos meus braços e acariciou o rosto tranquilo. O rosto de um bebê enquanto dorme.
Palavras de conforto ela me lançou e no fim só o que eu conseguia ver,era o quanto ela estava feliz por eu ter deixado aquela serzinho em seus braços.
Não era culpa dela. E,vê la assim me fazia tolerar o que eu estava fazendo, era o certo. E que ela estaria bem, longe de mim.
Algo mudou. E seus olhos não eram brilhantes nem seu rosto compreensível. Era frio, duro, incompreensível.-Não pode fazer isso.-Foi o que ela disse. E, no primeiro tempo só o que pude ver foi alguém reta e indiferente. Mas, quando eu disse que eu era a mãe, sua voz ficou grossa e amarga.
A paz e inocência daquela freira se foi como o pávil.Quando sai pelos corredores,correndo indo até a ala do berçário, sua mão pouco trêmula segurou meu braço.
Era engraçado. O seu rosto era mais sensível e toda sua dor estava estampada como num autdoor.
Por fim ela apenas me soltou. Não soltou nenhuma lágrima, mesmo que parece que estava a ponto disso. Ela reteu tudo na garganta e engoliu. Não pareceu patético ou digna de pena, apenas uma mulher madura e cansada de algo que eu não sabia ao certo.
Meus pés saíram rápidos. E ela mesma me disse aonde estava e como a chamava. Era Savana.
Era linda. Branca tinha os olhos escuros como os de Elena e os pequenos fios escuros como os de Tony.
Era minha. E isso doía.
Tão quieta e atenta. Sua mãozinha tocou meu rosto e só conseguia segura-la.
E pronto. Eu amava aquela ser. E era parte minha também.
A pontos em que você apenas quer jogar tudo. Odiar tudo. Mas eu não odiava ela, eu entendi isso agora. E,sim, a mim que pude deixa-la, tão egoísta.
Foi o suficiente. Logo estava balançando ela na varanda enquanto cantava uma canção de ninar. Estranho, era completamente estranho. E completamente bom.
Agora era eu, ela e Lino. Felizes para sempre.
Era o que queria dizer. Nada é para sempre e isso é um ponto negativo.
Savana, mesmo que seu nome original, dado por sua mãe fosse Marjorie, resolvi adotar o que foi dado carinhosamente por aquela meiga freira. Crescia. Esperta e bonita. Dedicada e tão atenciosa. E Lino a acompanhava. Uma dupla impagável.
Todos seus choramingos, e momentos que eu não conseguia pensar direito. Apenas parava respirava e seguia. Era isso para resumir todas as minhas crises de nervos.
Elizabete a amava também. E logo com seus 5 aninhos aprendeu a recitar poesia.
Eu chorei, chorei rios.-A! uma mocinha.- pensava como eles ficariam felizes em vê la assim tão dotada. Não doía mais,era apenas orgulho de mim mesma e dela. Acho que tinha jeito para a coisa.
Então, promovida a um cargo de responsabilidade. Administração da lanchonete que cresceu, assim como a cidade.
Mais pessoas. Mais pessoas diferentes, e simpáticas. Mais perigo. Cuidado foi o que eu tive em todos esses anos. Sempre existe aquele tipo de homem mal no final da história. Eu cuido para que isso não ocorra.
O tempo passou e bateu bem na minha cintura. Alguns quilinhos o suficiente para me fazer caminhar durante as quintas com Elizabete.
Savana e Lino ficavam com Ana. Aquela ajudante se tornou uma amiga e eu confiava nela.
Reaprendi e aprendi muita coisa. A dar e receber. Eu dou o amor que recebo de Savana e a confiança que tive de Elizabete.
Fish ficava mais luminosa e bonita. Ainda tinha o cheiro de chuva e grama e terra. E isso era o que eu precisava nos dias mais quentes e preguiçosos.
A farmácia continuava lá. E, a moça do sorriso de plástico também. Comprava a tinta violeta todo mês e todo mês ela me olhava do mesmo jeito.
Quando Savana entrou lá foi o que trouxe algo átona. O sorriso de plástico de desfez e abriu a boca com um ar sem jeito.
-Você é mãe solteira?. -Falou e acho que todo seu sorriso e aquela cara de sabidona foi embora.
Devia a satisfação a ela? Não, nenhuma. Foi por isso que empurrei a caixa de tinta e algumas balas carameladas no caixa. Apenas assenti.
Eu era uma mãe solteira. E isso pareceu mexer com ela, a pergunta não era prepotente, apenas resentida. No que, eu não sei. Talvez o coração dela não fosse de plástico afinal.
-Algum problema?. Enfim disse sem muito ânimo.
Kenny, esse era o nome dela. E Kenny sorriu, não um sorriso de plástico apenas um sorriso.
— Sou mãe solteira, o pai dele não quis assumir o papel.- Completou.
Ela passou o produto e entregou na sacola. Não queria puxar conversa por isso apenas peguei as sacolas e agradeci.
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