Emily - O poder na escuridão
1 Levante!
Notas iniciais
– Meu nome é Emily, pelo menos é o que me lembro. Que dia é hoje? Bom, não sei. O horário? Muito menos.
– Tudo que vejo ao meu redor é escuridão, não há luz em qualquer lugar. Um simples feixe de claridade seria um grato fio de esperança.
– Já faz algum tempo que estou aqui... imóvel, agachada entre o canto de uma parede úmida de aspecto escorregadio e gosmento, srsrsr, não sei nem ao menos o que a cobre.
– Sinto-me sonolenta... a ultima coisa que me lembro...uma pessoa sorrindo para mim, uma sala branca, câmeras, meus olhos se fechando enquanto uma voz me dizia que estava tudo bem...
– Alguns flashs de lembranças permeiam minha mente, devo estar sonhando, deve ser isto. Imagens aleatórias surgem em meus pensamentos, são pessoas sorrindo ao meu redor, não espera, também estou sorrindo com eles, é uma ótima sensação. Uma bela casa com um belo quintal, algumas cenas em uma sala de aula e um quarto bem decorado, realmente parece ótimo...
– Isto parece fazer parte mim, quero muito isto de volta, tenho que me levantar, sair daqui, criar coragem e forças, para de alguma forma buscar a luz, o aconchego a felicidade que parece já ter feito parte de minha vida... tenho que tentar. Quem eu sou? Que lugar é este?! O que esta acontecendo?! São estas questões que me incentivam e irão me guiar.
– Vamos lá, começarei devagar, engatinhando e me esgueirando entre as paredes.
– Ouço ruídos... parecem com gemidos e grunhidos... realmente assustador, parece mesmo um sonho, não, um pesadelo.
– Sinto o batente da porta, mas ainda não enxergo nada, só tenho olhado em frente, hora de mudar o curso...
Neste momento, ao virar para o lado de fora da porta, Emily toca em algo no chão, algo com uma superfície coberta de pelos que começa a se mover lentamente. Logo um cheiro horrível consume o seu redor e olhos escarlates que brilhavam como fogo se direcionaram para ela revelando uma criatura assustadora. Era algo que ela nunca havia visto, parecia um demônio, algo saído dos mais profundos pesadelos. Possuía dentes enormes com gengivas salientes, não tinha lábios nem pálpebras, as mãos e braços eram enormes, pareciam humanos e a parte de trás parecia com um cão de grande porte com unhas extremamente afiadas, estava sentado como um animal.
A criatura levantou-se e caminhou lentamente em direção a Emily ...
– AAAAAHHHHHH! O que é isto... afaste-se de mim seu monstro!!!
Emily saiu correndo na direção contrária a criatura, o caminho, agora levemente iluminado pelos olhos do ser, revelava um lugar com aparência um tanto comum para ela, um corredor com várias portas, as paredes degradadas com uma tinta branca, descascando e envelhecida, manchas de sangue se entrelaçavam nesta decoração junto com fichas que pareciam prontuários médicos ao lado das portas.
De repente a criatura abandonou o lento caminhar e começou a correr ferozmente, gruindo e babando em direção a Emily, que correu desesperadamente até o fim do corredor, foi quando se virou para a única saída que tinha e naquele momento não sentiu o piso sob seu pé direito e veio a rolar uma enorme escada de dois lances.
Ao fim da queda ela sentia seu corpo dolorido e a visão turva, mas o primeiro movimento foi se arrastar, quase que sem forças para trás da base da escada e se encolher enquanto esperava a escuridão retornar, dando fim ao brilho escarlate dos olhos da criatura que descia as escadas lentamente...
– O que irei fazer agora, sinto uma enorme agonia. Será este o fim da minha vida sem ao menos descobrir como cheguei aqui, ou por que morri aqui?!
– Não consigo achar forças para me levantar, tsc...meu corpo inteiro dói, além de que estou muito fraca, mal consigo manter os olhos abertos.
– Não, não...o cheiro e o som dos passos estão ficando mais fortes. Aquele monstro irá me encontrar aqui, tenho que me arrastar mais a fundo nesta escuridão, talvez a fera não me encontre.
–Tsc, que pensamento inútil. Como escapar de algo que vê além da escuridão? É impossível...
– Droga, estou realmente fraca, mal consigo me manter acordada e meu corpo não responde. Vamos lá mexa-se...
– Sinto muito frio e fome, parece que não como há dias. Realmente não dá...
Neste momento o som dos passos da criatura, que Emily ouvia se aproximando, parou e em meio ao fedor e um bafo extremamente quente, Emily com seus olhos quase fechando, estava a poucos centímetros do terrível ser, este que estava ao pé da escada, mas ainda não tinha notado a presença da frágil menina.
Em um breve momento de exaustão, mesmo não querendo, Emily fecha seus olhos e ao abrir se depara com a Criatura olhando-a com olhos famintos e saliva escorrendo dentre dentes afiados.
– Não... afaste-se. – Dizia Emily quase sem forças para falar, quase desmaiando.
– Afaste-se, não posso morrer aqui, nem mesmo sei quem eu sou ou o porquê disso tudo. Isso é injusto, por que eu? Por que eu? Socorro...
Em meio ao desespero e certeza de que morreria ali. Emily ouviu uma sirene e luzes alaranjadas começam a piscar, o barulho ficou mais alto, ensurdecedor. Neste momento os olhos da criatura já não brilhavam tanto, suas pupilas dilataram e a fera deu as costas para a garota, como se ela não estivesse ali, saindo em disparada cambaleando e trombando entre as quinas das paredes. Em fração de segundos, outros sons se misturavam aos da sirene, eram gritos, gemidos e grunhidos. E em meio a esta confusão, Emily teve um lapso de força...
– O que esta acontecendo, o que é este barulho e estas luzes...ouço vozes, não, gritos, parecem animais e gemidos de dor. Tenho que sair daqui, esta é minha chance...
– Agora consigo enxergar o lugar, macas em um corredor, uma recepção, alguns recados na parede, parecem avisos...varias cadeiras, como uma sala de espera...
– Isto deve ser um hospital ou um sanatório, não sei bem.
– As janelas e a porta principal estão seladas com um metal, parece aço, esta até um pouco enferrujado.
– Tenho que achar uma saída, que droga...
– Estes sons perturbadores não param!! O que era aquele monstro, o que esta acontecendo aqui?!
– Ali! Um telefone! ...Droga, esta mudo, foi ingenuidade pensar que estava funcionando.
– Meu corpo esta doendo muito, mal consigo andar sem me apoiar nas paredes...droga...tenho que sair deste lugar...
– Espera, o que é aquilo...
Neste momento a esperança surgiu como uma faísca para Emily. Era um pequeno letreiro, brilhando ao fundo, destacando-se em tons avermelhados que dizia: “Saída de Emergência”.
– Ali esta, deve ser por ali...droga mal consigo andar...devo conseguir escapar por ali...vamos, vamos...
Mas em fração de segundos, a faísca de esperança foi ofuscada, pois a sirene parou de tocar e as luzes se apagaram e o único som que continuou foram os gritos e grunhidos.
Emily entrou em desespero e em meio aos prantos sussurrava...
– Não, não... tenho que continuar, esta ali, a saída esta logo ali. Deve ser saída mesmo pois o letreiro não se apagou, tenho que sair daqui.
Emily em um ato desespero, cambaleando entre as pernas que mal a sustentavam, foi o mais rápido que pode em direção ao letreiro.
– Estou chegando, por favor, estou chegando. Não posso morrer aqui... o que esta acontecendo, o que é tudo isso... Alguém me ajude... por favor...alguém!
– Estou chegando, vou sair daqui, vou sair, vou sair...
Emily chega finalmente ao fim do corredor e a porta...
– O que, o que é isso, não é possível... O QUE É ISSO!!!!!!!!!!
E se depara com outra porta de metal, totalmente isolada, coberta de sangue e ferrugem. Ela então cai de joelhos, seus olhos parecem um poço de escuridão. A esperança havia acabado. Então uma leve luz em tons avermelhados ilumina suas costas. Ela lentamente se vira e se depara com vários olhos sedentos por sangue no fim do corredor...
– Acho que acabou, alguém...alguém me ajude... – Sussurra Emily.
(Continua)
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