Emilia

Eles estão sentados, olhando a filha brincar, estão lado a lado, ela veio para o hotel com uma vontade de se esconder mais uma vez, de ficar longe dele, mas ali estão os dois juntos a observar a filha, como se sempre tivessem feito isso, como sempre deveria ser, Bernardo se vira para ela e quebra o silêncio ao perguntar:

— Vamos conversar?- ela sabe que não adianta mais fugir, e que não poderia responder diferente .

— Sim vamos- ela também se vira, olha para ele , pensa no que tem que dizer e como vai dizer, para ela não é muita coisa, talvez ele até saiba o porque dela ter fugindo.

— Então Emília, me conte o que houve.- ele a olha, nem nos cinco anos que ficou longe dele aquele olhar distanciou-se, pois o via toda a manhã quando a filha acordava.

Mas quando ela abre a boca para falar, eles ouvem um “mamãe”, que ela reconheceria entre mil crianças.

— Lívia— ela diz, os dois se levantam juntos e correm para a filha—Oi bonequinha, o que foi?

— Caí- e mostra um joelho sangrando, Bernardo mais que depressa a pega no colo e sai dali, levando ela para o carro, correndo em desespero.

— Bernardo para onde esta indo? — pergunta Emília.

— Para o hospital, onde mais iria.- ele diz sem parar, Emília ri dele.- Do que está rindo? — ele para e pergunta surpreso, e olha confuso para ela.

— Porque é só um arranhão, vamos para o quarto.

— Mas…- ele pergunta mais confuso com a calma que ela está.

— Vamos. —ela põe a mão nas costas dele e o direciona para voltarem ao hotel.

Eles vão ao quarto, como sempre prevenida, tem uma bolsinha para esse tipo de situação, Emília estanca o fraco sangramento, dá um banho na filha, faz um curativo, coloca um desenho para a menina que se distrai e nem lembra mais do machucado, ela vai até a salinha Bernardo esta sentando.

— Como ela esta?—ele pergunta ansioso.

— Esta bem, só um joelho ralado nada demais.

— Não é melhor levá-la ao hospital?

— Não. .

— E se ela bateu a cabeça..

— Não precisa…

— Como você tem tanta certeza Emília.

— Porque ela esta bem, ela não tem dor em nenhum outro lugar, ela caiu de joelhos, não de cabeça, examinei cada pedacinho dela no banho, nenhum outro arranhão ou hematoma, ela esta bem.

— Como consegue ter calma.- ele pergunta e ela ri.

— Quando ela era bebê toda semana levava ela ao médico, eram inúmeras as causa, quente demais, fria demais, tossia demais, demorava a rir, a vomitar, fazia xixi demais, enfim todo mundo no hospital já me conhecia, até que o médico pegou e me disse que isso tudo o que ela tinha era normal, que nem tudo eu deveria levar ela ao hospital que logo mais seria eu a ser internada, que eu estava perdendo uma fase importante da vida dela por medo, que eu deveria ir para a casa, eu tinha medo, por não querer perdê-la.

— E porque você não permitiu que eu estivesse presente, porque fugiu?

— Direto no ponto — ela diz olhando para ele.

— Sem rodeios, não mais, me diga de uma vez.

— Bom vamos lá, —ela levanta caminha e senta de novo ao lado dele.—Lembra quado Lia levou Miguel ?- ele faz que sim— Eu recebi uma ligação que meu pai estava precisando de mim, mas foi um golpe, pois depois de ver que meu pai estava bem, recebi um bilhete dela, com hora e local onde deveria estar…

— Porque não me avisou?

— Eu não podia, seria a única chance de ela entregar Miguel…

— Ela não faria nenhum mal a ele- Bernardo a interrompe.

— Você mesmo disse que não a reconhecia mais, e não confiava mais nela, eu precisava arriscar...— ela faz um breve resumo do encontro —...quando estava saindo com Miguel ela atirou, eu a distrai e mandei ele correr, consegui fazer com que ela solta-se a arma, nós brigamos, até que ela pega a arma e aponta para mim —Emília respira fundo, ele tentar segurar a mão dela, que não deixa— Ela ia atirar, sei que ela ia, ela estava louca, completamente louca…

— O quê aconteceu?, porque ela não atirou?

— Miguel, ele saiu de onde estava a chamando, ela se distraiu, eu alcancei uma madeira que tinha por perto e a bati nela com toda a força que me restava, ela ficou desacordada eu peguei a arma, sabe eu cheguei a mirar, eu queria atirar, mas Miguel me chamou, se eu tivesse feito, se tivesse a matado ele não ia conseguir viver com aquilo, eu também não ia conseguir, tirei a arma da mira dela, dei a mão a ele e fomos até o carro, ia ligar pra você, pra polícia, mas me virei e ela já não estava mais lá no chão, tinha desaparecido, eu não queria e nem podia ficar um minuto ali, coloquei Miguel no carro, quando estava fora do local, meu telefone toca, atendi sem ver, ela era, dizendo saber do meu segredo, e que voltaria para se vingar, enquanto eu estivesse com você ela estaria por perto e queria vingança e sabia bem como conseguir..

— Que segredo?

— Ela, ..nem sei como, mas ela sabia que eu estava grávida, ela me ameaçou usando meu bebê, usando Lívia que ainda estava dentro de mim, e não podia correr riscos outra vez, de perder um filho para ela.