Emerald Dream

2 Tome of the Witch


As folhas verde-esmeraldas esvoaçavam com o vento. Dançavam e rodopiavam na densa floresta, que era iluminada por feixes de luz solar. A música que ecoava pelo ambiente era orquestrada pelo som dos pássaros, pela brisa a tremular contra os ramos das árvores, pelo caminhar dos animais por entre os troncos e galhos. E ali havia, por entre as flores primaveris, a destacada cor violácea dos cabelos da elfa.

Dentre os detalhes mais sutis, era possível ver o ambiente de magia que fluía por entre o local, emanando da natureza em suas formas mais distintas e atravessando, fazendo parte da elfa tanto quanto ela fazia parte da natureza. Seu silêncio transmitia a magnitude de sua concentração, sua agitada mente que funcionava aguçadamente.

O silêncio, no entanto, encerrou-se abruptamente. No instante em que as folhas passaram a farfalhar caoticamente, e que o humano em sua cota de malha e suas dragonas majestosas adentrou a clareira ofegante, a situação acabou por modificar-se completamente. Antes concentrada, a elfa observou na direção em que o homem havia surgido, sendo esta logo atrás de si. Olhando-o atentamente, desfez o círculo mágico que a rodeava, compreendendo que não haveria como prosseguir o ritual que estava procedendo. Sussurrou algumas palavras ininteligíveis, reverenciou rapidamente quem quer que estivesse honrando, e levantou-se, fitando o homem.

– Somnium está em perigo.

A voz masculina tinha um tom de urgência, coroada com um leve desespero. Ambos se conheciam, embora houvesse muito tempo que não se viam. A elfa permanecia em silêncio, o que sugeria que perguntava-se o porquê da aparição repentina, do perigo, em qual seria o âmbito em que ela poderia ajudar. Mas nada disse, o que levou o homem a tornar a vociferar.

– Você não pode mais permanecer aqui.

– Hmm... — resmungou. — Por quê?

Seth, então, estendeu a mão, retirando da algibeira que carregava um pequeno cristal. A elfa aproximou-se, com seus olhos fixamente examinando o cristal que tinha o tamanho de uma ameixa. Ele reluzia, emanava uma luz própria, brilhava em todos os tons que os olhos dela podiam discernir. No entanto, era possível ver algumas gotas de sangue arroxeado que encobriam parte da gema.

– Este sangue jorrou de um dragão. O último.

Iris observou-o, compreendendo a importância disso. Buscou as memórias de algumas décadas atrás, quando os dragões faziam parte do cenário cotidiano do mundo. Era uma convivência pacata, que se estendia desde as tribos de centauros e dríades até as civilizações humanas. Os dragões se encontravam entre anões, trolls, elfos, até que houve a mudança.

O mundo, centrado em um continente com reinos bastante distintos — embora compartilhassem semelhanças culturais e étnicas -, possuía aproximadamente cinco reinos. Eram bastante estruturados e cada qual com suas idiossincrasias específicas. Afora estes cinco estados, haviam territórios contestados, que não pertenciam a quaisquer lideranças ou governos. Estes eram os que poucos viajantes se atreviam a viajar, por sua alta quantidade de mercenários, ladrões e outros malfeitores.

Havia um conselho de cinco dragões que lideravam cada reino. Este conselho era conhecido como Pentágono, e cada dragão era agraciado pelo poder de um elemento. Os reinos eram chamados Somnium, Aris, Glaciel, Ignídeo e Herba. Os líderes de cada um, respectivamente, eram chamados Astaroth, Chemosh, Ishtar, Sephirot e Behemoth.

No entanto, uma corrupção vil se infiltrou entre o solo dos reinos, causando que estes acabassem sendo dominados por uma única facção, conhecida como Escola Obsidiana. Esta Escola era um grupo que criava e treinava magos negros, necromantes e outros tipos de manipuladores de magia que utilizava-se da morte e do sangue inimigo para corromper e assolar os campos de batalha. Eles instalaram uma caça aos dragões, visando a subjugação de todos os reinos aos seus pés. E esta se sucedeu; sabe-se que alguns fugiram, povoando ilhas e pequenos territórios desconhecidos entre o mar. Alguns aprenderam a arte de se transformar em elfos, por sua maior ligação com esta raça, mas que podia ser facilmente descoberta caso fizessem o dragão sangrar — mesmo com o corpo diminuído na forma élfica, seu sangue nunca deixaria de possuir a coloração verde ou arroxeada. Além disto, cada dragão possuía uma pedra, uma gema conhecida como Âmago, que sempre ajudaria o dragão a invocar o elemento do qual era composto.

Seth observou a elfa atentamente. Ela sacudiu a cabeça, delicadamente, afastando os pensamentos que se formavam cada vez mais caoticamente em sua mente.

– É o Âmago de Astaroth.

A urgência e a importância destas palavras podiam ser sentidas por ambos. O silêncio voltou a acometer o local, e Iris o observava. Os cabelos negros e longos do humano se agitavam, enquanto seus olhos descansavam na superfície de um lago cristalino. Se aquele era o Âmago de Astaroth, então o reino de Somnium, este que ambos agora estavam, havia caído por completo. E era comentado que o último dos dragões vivos era o líder de Somnium, por seu poder com magias arcanas, ilusionismo, a essência da pura magia.

– Você precisa ir até o Pentágono. Precisa destituir a Escola Obsidiana do poder que eles detêm agora.

– Ir até o Pentágono seria suicídio. Estão todos corrompidos.

– Iris. Você é a dragonesa dos cinco elementos. A primeira em cem anos. Agora que Astaroth decaiu, você...

– Me tornei a alta-sacerdotisa e líder de Somnium. Eu sei de minhas responsabilidades. Mas não podemos seguir por este caminho.

Iris pousou pensativa por um instante. Assentiu com a cabeça, e tornou a andar, saindo da clareira em que permanecia. Pediu a Seth que a seguisse, e então iniciou uma caminhada por entre a floresta, seguindo por uma trilha não muito visível. Os animais nada lhe faziam, apenas observavam atentamente. Algumas borboletas e pássaros voavam próximos, delicadamente. O humano caminhava logo atrás, e notou um tanto distante uma casa bastante rústica.

Aproximaram-se cada vez mais, até que Iris abriu a porta de madeira vermelha da casa, que por sua vez havia sido construída com blocos de pedra, como um castelo em miniatura — mas era notável que a casa possuía pelo menos três andares, e janelas grandes em arco. Havia muitas flores e ervas perfumando a entrada, assim como haviam plantas trepadeiras adornando as pedras acinzentadas. Ao adentrar o recinto, Seth pode observar que era repleto de livros, tanto arranjados em estantes, quanto em mesinhas ou mesmo em cantos no chão. Também era adornado com esculturas e outros artefatos bastante curiosos. Havia muito da natureza ali, tanto em estátuas, em representações de deuses ou em ervas secas penduradas em diversos locais.

– Aguarde por aqui. Eu voltarei logo. — falou Iris, virando-se em direção a um cômodo. Virou novamente a cabeça para o humano rapidamente. — Ah... fique à vontade para comer ou beber algo.

– ...Claro.

Alguns momentos após sua saída, Iris surgiu novamente na sala, dotada de uma algibeira visivelmente cheia, um cajado e com uma armadura bastante diferente. Suas ombreiras eram feitas de couro e madeira, mas adornadas com diferentes penas e cristais. Trajava um vestido longo, de cor verde-escura, sobre o qual usava também uma armadura de couro no peito, da qual pendiam diversas bolsas e algibeiras marrons, e aonde haviam embainhadas duas adagas. Trazia em mãos uma espada longa, a qual alcançou para Seth, e prosseguiu, saindo do recinto.

– Esta é a que você havia ganhado de Thanagos, não?

– Sim, aquele estúpido. Eu nunca fui boa com esta coisa. Fique com você.

– Aonde estamos indo? — Indagou Seth, mas não parecia exatamente preocupado com o destino da jornada.

– Vamos a uma taberna. — A elfa parecia bastante distante, embora prestasse atenção no que o humano dizia.

– Um pouco de hidromel não faria mal agora...

Iris deixou escapar por entre os lábios um discreto sorriso. Era o primeiro desde o encontro com Seth. A situação no reino parecia muito ruim, e Iris sentia medo do que enfrentaria. Estaria sozinha em sua jornada? Pelo que parecia, não. E sentia-se aliviada por isto.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.