Embuste
1 Embuste
Notas iniciais
Embuste: mentira ardilosa, proposital.
O sol amanheceu tranquilamente naquele pacato dia de inverno. Fírnea respirava o ar puro de Ellesméra com roncos de sono. Não havia conseguido dormir, tal qual sua amazona, que se postava sentada ao seu lado numa colina esverdeada. Com a altura mais elevada, a Rainha dos Elfos conseguia enxergar tudo o que estivesse se passando em sua terra, entretanto Arya focava a atenção num ponto distante, o qual malmente podia se enxergar, mesmo para sua visão aguçada de elfa.
O dragão ronronou tristemente e Arya tocou sua mente.
-Sei como está se sentindo!
-Idem em relação a você, Arya! Mas não entendo como consegue manter a serenidade diante dessa fagulha de sentimentos. É terrível amar e depois largar o que se ama...
-Não fale como se eu não estivesse sentindo falta dele. Ambos sabemos que estou! A diferença é que não posso, irredutivelmente, demonstrar isso.
-Estais sendo orgulhosa!
-Não! Apenas desejo manter a postura na posição em que me encontro...
-Posição em que me encontro - rugiu o dragão debochado — Como se isso fosse mais importante que seu amor por Eragon.
Embora tentasse conter aquele sentimento de perdição, Arya não conseguia deixar de pensar naquele que, mesmo sendo improvável, dominou seu coração de forma avassaladora. De primeira, sentiu-se receosa de se entregar àquele sentimento, afinal Eragon, apesar de ser parecido com um elfo, não deixava de ser um humano. E Arya, mais do que ninguém, sabia o quanto os humanos eram seres mutáveis e dotados de emoções. Emoções essas que mudavam constantemente, como a água de um rio corrente.
Aos poucos, entretanto, Eragon passou a demonstrar que seu amor pela elfa não era paixão. Arya não sabia o significado exato de amor, já que o que viveu com Faolin fora um companheirismo entre elfos. Nunca havia acreditado em amor. Não de verdade! Principalmente se esse amor era baseado entre duas espécies distintas.
Finalmente, Eragon enlaçou a elfa! E quando ela menos esperava, já o olhava de maneira diferente. Via o rapaz quase homem como um grande cavalheiro, amigo, amado... E não resistia em lhe dirigir um ligeiro sorriso, por mínimo que fosse.
Oh, céus... pensou um dia... Estou amando-o.
Porém, já era tarde demais. Mesmo depois de vê-lo ir embora para um novo mundo, ela não largou sua responsabilidade para com seu povo e agora sofria com suas próprias ações.
Adeus Eragon, Matador de Espectros!
Arya deixou-se derramar gotas de lágrimas quando se afastou de Eragon, ouvindo com pesar os sermões que Fírnea lhe dava.
-Chega! — disse Arya em voz alta quando Fírnea invadiu sua mente para lembrá-la do rosto de Eragon. Ela ergueu-se, abanando o vestido com as mãos — Vou voltar para o palácio!
E virando as costas para o dragão, Arya caminhou lentamente para sua moradia. Foi abordada por serventes dedicados, mas negou qualquer ordem. Estava cansada demais para qualquer situação que não envolvesse seus próprios pensamentos.
Entrou na sala de reunião, sentando-se na cabeceira e fechando os olhos, ouvindo apenas o martelar de seu coração. Lembrou-se do dia em que exagerou na bebida e começou a dançar ao redor de Eragon. O sorriso bobo e os olhos brilhantes do cavaleiro deixaram a elfa constrangida de início, mas depois se viu completamente entregue àquelas íris dele.
Quando estava pretes a chorar novamente e, isso era tremendamente terrível, a porta da sala abriu-se num estrondo. Um menino-gato saiu entre as pernas da bruxa Angela e se enroscou na cadeira de Arya. A Rainha dos Elfos olhou para a bruxa com uma sobrancelha erguida, deixando nítido seu aborrecimento com a interrupção de sua introspecção.
Angela não deu um único sinal de desconforto e sentou-se numa cadeira ao lado de Arya, olhando fixamente para a elfa.
-O que desejas, bruxa? — indagou Arya depois de respirar profundamente.
-Sente falta do Eragon?
A pergunta pegou a elfa desprevenida, afinal não se lembrava de ter intimidade com a bruxa para discutir seus sentimentos. Resignada, Arya suspirou e assentiu.
-Saiba que o verá novamente...
-Só se eu for atrás dele e isso eu não farei — ela disse tentando sufocar a dor — Embora eu queira!
Angela sacudiu a cabeça.
-Vejo o quanto sofre. Todos podem ver, então tive que escolher entre dizer a verdade ou não para você — disse a bruxa.
-Que verdade?
-Tem medo de perdê-lo para outra? — perguntou a bruxa, o que fugia completamente à conversa. Arya piscou os olhos confusa e depois deu de ombros.
-Se isso fizer com que ele seja feliz!
-Se ele tivesse ficado, você teria dado uma chance a ele?
-Posso saber o motivo dessas inda...
-Sim ou não?
A impostação na voz da elfa foi tão forte, que Arya arregalou os olhos levemente e depois assentiu.
-Sim, eu teria sim!
Angela suspirou como se estivesse aliviada. Depois olhou para seu gato companheiro, que lhe dirigiu um sorriso bondoso.
-Quando Eragon apareceu para mim, há muito tempo atrás, eu havia previsto seu futuro. Entretanto, vi todo o seu futuro! Vi suas angústias, suas decepções, seus descontentamentos, suas glórias, seu amor...
E olhou para Arya num olhar acusador.
-E vi também que esse amor dele traria alegrias e tristezas para o rapaz. Porém, traria muito mais incertezas e incerteza é algo que ninguém gosta — a bruxa fez uma careta, como para ratificar o que acabara de dizer — Eu sabia que você ficaria caidinha por ele, mas não gostei de suas atitudes para com o menino, então fiz com que ele pensasse que nunca mais voltaria para Alagaesia.
-Como?
A bruxa sorriu diante do susto da elfa.
-Ele pensa que nunca mais voltará e nunca mais a verá! Mas não é isso que vai acontecer.
-Por que fez isso?
-Queria que você sofresse!
Arya entortou a boca, como raramente fazia.
-Não entendo! Só por que eu também tive minhas incertezas? Acha que é fácil amar alguém tão mais jovem, de outro mundo, outra espécie... E eu já havia perdido Faolin...
Angela aproximou o rosto da elfa, olhando nos olhos verdes.
-Fique calma, Majestade!
-Como posso ficar calma sabendo que Eragon pensa que nunca mais vol...
A bruxa tampou a boca da elfa de forma brusca. Com a surpresa, Arya continuou falando, fazendo sua voz sair abafada e patética.
-Ele não voltará, mas você pode fazer uma rápida visita para ele! Sei que ele ficará muito feliz. Além disso, vou preparar uma carta para Eragon, assim poderá entender por que eu fiz esse embuste para você e para ele. Desse jeito, poderão conviver felizes um com o outro, aqui ou lá. Tudo vai depender de você.
Depois disso, Angela a soltou, levantou-se e caminhou para a porta, deixando a Rainha dos Elfos abismada, fixando a atenção no pontinho minúsculo na sala. A bruxa estagnou, segurando a maçaneta.
Talvez se eu disser, ela possa tomar uma atitude mais rápida!, pensou Angela e virou-se para a elfa.
-Tem outra coisa que eu vi, Arya!
-Sim? — Arya olhou-a indiferente, mas ambas sabiam que estava borbulhando de emoções por dentro.
-Eu vi uma elfa de cabelos loiros e cacheados!
Arya empalideceu até a alma e um misto de medo a dominou. Será que ele se apaixonaria por outra? Lutando para reprimir um gemido, Arya disse:
-Espero que ele seja feliz — e abaixou a cabeça, sentindo os olhos marejados e odiando-se por isso. Ela ouviu o suspiro da bruxa.
-Ela tinha o sorriso amável de Eragon e... Os olhos tão verdes quanto os seus! — ao finalizar, Angela fechou a porta, deixando Arya novamente abismada, dessa vez com a boca aberta.
A elfa lembrou-se de seus tempos de criança, ao lado de sua mãe e seu pai. Embora não tivessem muito tempo para a filha, Arya sabia que eles a amavam e que a acolheriam com todo amor do mundo. O amor mais puro de todas as raças: o amor dos pais pelos filhos.
Então, a elfa deu um sorriso, daqueles que somente sorria quando estava sentindo-se feliz. Levantou-se de sopetão, já com uma ideia fixa na cabeça:
Garanto que sua visão não mudará de rumo, bruxa!
E correu para fora da sala, gritando por seu dragão através do pensamento.
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