Embrace you
1 Embrace you
Notas iniciais
O vento ululava pelas silenciosas ruas de San Fransokyo, batendo contra as árvores mais altas, cujos galhos nada podiam fazer senão recostar-se às janelas. Cansado de ouvir o barulho que perturbava seus estudos, um universitário incomodado levantou-se e se encostou ao batente de uma das portas; já estava exausto de madrugar sobre os livros e cadernos, porém, desde que se tornara órfão, não podia largar todas as responsabilidades sobre tia Cass, a proprietária do local onde residia, o Lucky cat cafe.
Suspirou e, por uma ínfima fração de tempo, permitiu-se aderir à tranquilidade emanada pela noite. Há tempos ameaçava fechar os olhos para cair em um sono profundo, mas a questão era a de não poder. Tinha muita coisa a desenvolver em seu novo projeto, pois, além de acreditar que seria um belo de um avanço no ramo da ciência, todos contavam com ele. Estava prestes a voltar para seu canto de estudos, quando...
— Tadashi? – uma voz fina, mas predominantemente masculina, chamou. Tadashi olhou por sobre os ombros bem a tempo de capturar o vislumbre de um garoto sonolento, com os cabelos bagunçados e os olhos espremidos por ter acabado de acordar. Sorriu. – O que tá fazendo acordado a essa hora, nerd? Já são 3h da manhã, sabia?
O universitário não evitou rir entredentes ao perceber a evidente preocupação de seu irmão mais novo, Hiro Hamada. O menino até podia ser um tremendo pé no saco às vezes, mas nada fazia com que Tadashi se enfurecesse pra valer. Em geral, ambos se davam bem, ao que quase nunca brigavam; Hiro podia sempre contar com a proteção do mais velho, e vice-versa.
— Hiro – sussurrou para não despertar a mulher do quarto ao lado. Então, com sua típica gentileza, alargou o sorriso e fez sinal para que se aproximasse. – Vem aqui, bebezão, senta!
O garoto crispou os lábios, incomodado com o apelido que acabara de receber, porém obedeceu. O irmão mais velho sentou-se na cadeira ao lado da escrivaninha, abrindo um pequeno espaço para que pudesse dividir o assento com o pequeno, deixando o lugar um tanto apertado para os dois. Hiro grunhiu algo em sinal de desconforto.
— Tadashi, você sabe que tem de estar na universidade às 8h, não é? – começou, inflando as bochechas enquanto olhava para o maior, que assentiu logo em seguida. – Isso quer dizer que você não vai ter horas de sono o suficiente, que também quer dizer que seu nível de serotonina estará...
Tadashi levou os dedos aos lábios do irmão, calando-o. Hiro sentiu toda a extensão do rosto arder de vergonha, ao que se impulsionou para trás, quase caindo da cadeira, e cruzou os braços sobre o peito, notavelmente emburrado. Tadashi riu um pouco mais alto desta vez.
— E eu que sou o nerd depois, né? – brincou enquanto observava Hiro baixar a cabeça, as bochechas tão vermelhas quanto a blusa que trajava. Incomodado com a hipótese de tê-lo irritado pra valer, agarrou-o sob as axilas e o puxou para o colo. – Vem cá, cabeçudo!
— E- ei! – Hiro protestou um pouco antes de receber um afago sobre a cabeça, o que bagunçou suas madeixas negras ainda mais. Tadashi o soltou segundos depois, temendo acordar tia Cass com a bagunça. Além do mais, tinha de voltar aos estudos. – T- Tadashi... V- Você não planeja ficar aí, em cima dos cadernos, pelo resto da madrugada, não é?
O rapaz girou a cadeira em direção à mesa de estudos, sobre a qual um papel cheio de desenhos e anotações jazia. “Que criação esplêndida, meu jovem!”, lembrou-se das palavras do professor Callaghan, “Esse robô será de muita ajuda à população.”.
E, de fato, Tadashi acreditava nisso; esta seria a primeira vez que confiava a si próprio algo tão pura e genuinamente complexo. Baymax seria um projeto revolucionário, senão muito além disso.
— Ei, o que é isso? – despertou dos devaneios ao ver o irmão olhar por sobre seus ombros, em uma falha tentativa de captar alguma coisa. Tadashi pousou o antebraço sobre as anotações, impedindo Hiro de descobrir do que se tratavam. – Ei, não vale! Eu quero ver!
O Hamada mais velho sorriu mais uma vez, apesar de nervoso. Tendo-se em mente a inteligência aguçada do menor, não suportaria desapontá-lo caso considerasse a invenção abaixo do nível esperado. Hiro, entretanto, voltou a cruzar os braços na falha tentativa de parecer um pouco mais intimidante. Após alguns segundos, ambos riram.
— Ei, Tadashi, é sério... – o mais novo tomou a iniciativa. Tadashi retraiu os músculos em resposta, surpreso com o timbre de voz usado: independente da verdadeira idade, seu irmãozinho pareceu muito mais “amadurecido” ao pronunciar a última frase. – Você tem de descansar... Se continuar assim, corre o risco de desmaiar de cansaço, até.
Tadashi, mais uma vez, relanceou um olhar apreensivo sobre seu projeto. Por mais que quisesse se entregar ao cansaço – haja vista a urgência que tinha em conseguir algumas horas de descanso-, não poderia colocar tudo a perder: algumas horas de vadiagem eram o suficiente para não atingir a conclusão do trabalho.
— Eu... Hiro... Eu não posso...
Silêncio. Toda a atmosfera pareceu aderir a uma vibe obscura, repleta de tristeza. O irmão mais velho virara-se para o lado bem a tempo de sentir o pequeno se agarrar a seu pescoço, abraçando-o com todas as forças que lhe eram permitidas. Tadashi arqueou as sobrancelhas em dúvida, não obtendo pistas sobre o que havia de errado ali.
— H- Hiro, o que...
— É pra impressionar a Honey, não é? – ele o interrompera em um quase grito, o que realmente deixara Tadashi com receio de acordar tia Cass, apesar de o conteúdo da pergunta alarmá-lo ainda mais: ele falava de Honey Lemon, sua colega de faculdade? – Diz! Você é a fim dela, não é?
Piscou. Como?! Pelo que sabia, Hiro sempre simpatizara com seus amigos, ao que nunca havia reclamado a respeito. A forma com a qual havia falado de Honey, entretanto, denunciava que nem tudo era assim, tão tranquilo. Teria a garota feito algo que o desagradasse?
— N- não, Hiro! E- ela é só uma amiga – confessou, sentindo o pequeno reforçar a pressão do abraço, o que quase o deixara sem ar. – N- não tem nada a ver com ga...
— Então é a Gogo? – como o previsto, Hiro o cortou de novo e, diferenciando-se de minutos antes, seu tom de voz já não parecia tão adulto assim; talvez pelo fato de que estava fazendo birra. – Diz, Tadashi!
Desta vez, um pouco enfurecido com a pressão, Tadashi deu um leve empurrão no irmão mais novo, o qual esboçou uma careta em resposta. Não que o maior quisesse atuar com grosseria, mas aquele tipo de comportamento o fizera “perder a linha”. O que havia dado em Hiro para agir assim tão de repente?
— Pare com isso, Hiro, por favor – suplicou, vendo-o se encolher em pose defensiva, como se Tadashi pudesse lhe causar algum mal. E foi só então que o maior, observando-o com mais atenção, percebeu que chorava. – H- Hiro? E- eu te machuquei ou algo assim?!
Tadashi, de fato, não suportava a ideia de machucar ou ofender alguém; era tão dócil e politicamente correto que, mesmo em situações mais amenas, passava horas debatendo a respeito do que – por acidente- fizera. Com Hiro, então, a culpa se redobrava, não só pelo fato de ele ser menor e notavelmente mais fraco, mas por ser a pessoa pela qual Tadashi prometera zelar.
— Hiro, diz pra mim, por favor... – pediu o maior, agachando-se em frente ao garoto. Hiro, por sua vez, permaneceu de cabeça baixa, as lágrimas correndo sem restrição alguma pelo rosto. – E- eu te machuquei, não foi? E- empurrei com muita força?
Desta vez Hiro tomou a iniciativa: sem nem se dar o trabalho de encarar Tadashi, empurrou-o para longe, apesar de não ter conseguido impulsionar a força que desejara ao fazê-lo. O mais velho permaneceu estático por alguns segundos, sem a mínima noção do que faria a seguir; afinal, o comportamento de Hiro estava estranho, o que implicava uma nova maneira de dialogar e/ou agir. O problema, entretanto, era o de Tadashi não ter a mínima consciência de como proceder perante a situação.
— H- Hiro...
— Você não entende! – Hiro parecia realmente nervoso, agora. O choro deixara sua voz um tanto embargada também, o que soara estranho para o maior. – Pode ser um gênio em robótica, Tadashi, mas é um burro pra outras coisas! VOCÊ NÃO ENTENDE!
Tadashi arregalou os olhos castanhos. Agora tinha certeza de que tia Cass acordaria, bronqueando com os dois por terem-na acordado após tanto esforço para dormir. O mais novo, porém, pareceu nem se importar com isso, voltando a cruzar os braços sobre o peito, enraivecido com a ingenuidade do outro.
— Hiro, shhhh! – e voltou a empalmar os ombros do pequeno, cujo bico era tão grande que, se calhasse, poderia chegar ao chão. Ambos se entreolharam em seguida, como se compartilhassem o mesmo pensamento. Tadashi resolveu prosseguir: — O que eu não entendo? O que está te fazendo tão triste?
Hiro voltou-se aos próprios pés, ao que permaneceu em silêncio por algum tempo. Tadashi franziu o cenho em resposta, preocupado com o famoso “tratamento do silêncio” que recebia, porém não voltou a questionar o que estava havendo; talvez o sono o deixasse birrento, mesmo. Após mais alguns segundos, sentiu-se estranhamente diferente quando, sem mais nem menos, o irmãozinho voltou a abraçá-lo, puxando- sem querer- a gola de sua camiseta para baixo.
— Tadashi, e- eu... – soluços. Hiro voltara a chorar? – E- eu me p- preocupo... Eu te amo, Tadashi!
Uma onda de choque pareceu percorrer toda a extensão do corpo de Tadashi. Estava certo que o cansaço tinha sua parcela de culpa ali, mas ele nem sequer havia considerado a hipótese de Hiro lhe proferir a última frase. Pelo que se recordava, a última vez em que a tinha ouvido fora há uns nove anos, quando o menor completava cinco. Na época, Tadashi também estava pelos seus 12 anos, mas nada o impedia de já inventar coisas incríveis, as quais, mais tarde, lhe atribuiriam a ingressão em uma das melhores universidades do país. Hiro havia ganhado uma mochila a jato, pela qual se apaixonara instantaneamente. “Eu te amo, Dashi” fora, então, sua forma de agradecimento.
— H- Hiro... – disse momentos antes de sentir os lábios do mais novo contra os seus, unificando-os em um beijo. Mas o que...?! -!!!!
Mais do que depressa, Tadashi se distanciou, quebrando aquela ligação. Agora tinha certeza de tudo: Hiro não estava apenas sonolento, mas enlouquecido também! Um filete de saliva escorreu pelo queixo do menor, em apenas um breve resquício do que acabara de ocorrer.
— H- Hiro! – o mais velho sentia-se ir à loucura. O que dera no mais novo, sem dúvidas, estava fora de seu entendimento; e vê-lo ali, sem nem se preocupar com a atitude tomada por si, deixava-o a ponto de entrar em combustão. – E- eu sou seu irmão! A- a gente não...
Hiro riu entredentes, parecendo amargurado. Era lógico que o puritano Tadashi não aceitaria seus verdadeiros sentimentos assim, de cara. Não; tudo tinha de estar dentro dos princípios impostos pela sociedade. Sociedade cujas ideias morais não incluíam uma relação incestuosa na lista de “As 10 melhores relações a se aceitar”.
— Ah, claro – debochou com a maior ironia. Tadashi, entretanto, continuava ali, fitando-o de cima a baixo, convencido de que acabara por adormecer e tudo não passava de um mero sonho. – Você, obviamente, vai fingir que não entendeu o que eu quis dizer pelo “Eu te amo”, né?!
Tadashi grunhiu em resposta, ainda na tentativa de se convencer de que tudo era uma ilusão: Hiro ainda dormia feito um anjinho em sua cama. Nada daquele diálogo maluco e sem noção tinha ocorrido.
Inconformado com a falta de atitude do maior, Hiro suspirou e, sem nem aguardar o término do choque, avançou em seus lábios mais uma vez, dando-lhe um breve selinho. Tadashi, enfim, pareceu adquirir um pouco mais de consciência ao piscar algumas vezes, logo após sentir a boca do irmão contra a sua.
— Você consegue entender agora, nerd?! – Hiro soltava as palavras como se fossem uma espécie de praga. Tadashi conseguira, pelo menos, arquear as sobrancelhas em sinal de compreensão, apesar de nem sequer mover um músculo. – E- eu... Eu te amo, Tadashi! Não tente arranjar lógica no por quê!
O universitário suspirou com a cabeça baixa. Então, ainda imerso naquela confissão bizarra, aproximou-se de Hiro, tomou-o nos braços e o ergueu sem muitos esforços. O menor respondera com um “Hã?!” quase afônico, tentando estabelecer algum sentido nessa ação do irmão. Tadashi o carregou até a cama, onde – embora levando socos e pontapés- colocou-o embaixo das cobertas.
— Você está com muito sono, Hiro. – convenceu-se entredentes, enquanto desviava-se de mais uma manobra agressiva. O pequeno, por sua vez, debatia-se feito peixe fora d’água, querendo, a todo custo, acertar o mais velho. – Você só precisa dormir um pouco!
Tadashi fez menção de se afastar quando Hiro cessou as esperneadas, pronto a voltar para os estudos. Todavia, na hora em que foi dar as costas ao irmão, o mesmo pulou sobre seus ombros, trazendo-o para trás em um único movimento. Tadashi se desequilibrara pelo susto que havia recebido, tropeçando em seus próprios pés; ambos, portanto, se espatifaram um contra o outro, caindo sobre o colchão.
— Tá legal, Tadashi – o garoto, agora, o fitava de frente. Tadashi trancou a respiração ao perceber que ambas as mãos de Hiro lhe empalmavam o pescoço, impedindo-o de ir embora. – Se acha que é só cansaço, eu durmo! – o maior piscou, desentendido. — Mas só se você ficar aqui comigo e dormir também!
A proposta, de certo modo, soara tentadora, mas, como o próprio Tadashi havia calculado, 24h eram uma boa carga horária na conclusão de Baymax; quanto mais ele trabalhasse, mais tempo conseguiria para reparar os erros. E mais chances teria de impressionar o professor Callaghan, obtendo, assim, uma boa vaga de aprendiz na universidade. Ganharia um bom salário e, então, ajudaria tia Cass com as despesas.
Mas, por outro lado, confrontar Hiro também não lhe parecia uma boa ideia. Ele já parecia muito mais alterado que o habitual – haja vista o fato de que até o beijara-, o que era absolutamente arriscado de se contradizer. Por fim, exausto de tanto pensar e confuso sobre o que fazer, desencadeou um breve sorrisinho e respondeu:
— Tá bem, cabeçudo, eu jogo a toalha – de qualquer forma, poderia se ausentar logo ao perceber que o pequeno havia adormecido, então nem era um algo tão agravante, levando-se em conta o fato de que Hiro já lutava para não fechar os olhos. – Eu fico!
Feliz com a decisão, no mínimo, sensata, Hiro abriu um largo sorriso e se aproximou, aconchegando-se ao peito de Tadashi. Esse, por sua vez, até riu em resposta, apesar de não conseguir tirar as últimas cenas da cabeça; ao passo que o mais novo caia em um sono profundo, ele, mesmo que até quisesse acompanhá-lo, não encontrava maneiras plausíveis de fazê-lo.
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Passara-se uma hora desde que ambos haviam deitado. Tadashi sabia disso pelo pequenino relógio à cabeceira, cujo tic-toc parecia soar tão alto que chegava a incomodá-lo. A fraca – porém eficaz- luz da rua iluminava a expressão do pequeno deitado a seu lado, que mais parecia um anjinho adormecido.
Suspirou enquanto, mesmo sem querer, lhe estudava a silhueta: mesmo a contragosto, havia percebido que, sim, o corpo de seu pequeno e dócil irmãozinho já estava abandonando a aparência infantil, aderindo ao estereótipo tipicamente masculino. Seus braços, de uma hora para outra, começaram a criar músculos, bem como seu abdômen, antes liso, já detinha um leve traço dos famosos “gominhos”.
Sacudiu a cabeça ao dar-se conta do que fazia. Aquilo só o poderia enlouquecer, ainda mais depois de tudo o que havia passado aquela noite. Um tanto horrorizado, decidiu fazer o que desde o começo planejara fazer: levantou-se com extremo cuidado, sentando-se primeiro na beirada da cama e...
— Aonde você acha que vai? – a voz embargada de sono preencheu o cômodo, fazendo com que Tadashi semicerrasse as pálpebras para ameaçar toda a sua existência. Mas que droga!— Se for voltar ao que planeja fazer, saiba que eu vou ficar muito brabo, tá?
Desta vez, Hiro pegara pesado; sabia, por sinal, muito bem que o ponto fraco do irmão era o receio de decepcionar alguém, nem sequer medindo esforços para conseguir o fiel resultado com a pressão: Tadashi voltou a se jogar sobre os travesseiros, vencido, e deixou-se relaxar novamente. O menor abafou um riso ao ouvi-lo proferir algo ininteligível para si mesmo, o que atribuiu um pouco mais de comicidade à cena.
Silêncio. O quarto mergulhara em uma atmosfera pura e unicamente sombria, sob a qual ambos se entreolhavam, temerosos demais para tomar iniciativa. Tadashi temia voltar àquele assunto constrangedor de minutos atrás, apesar de as palavras do irmão terem cravado em sua mente como um estigma. Embora não transparecesse – ou tentasse não transparecer-, ficou em estado de alerta; mais cedo ou mais tarde, teria de confrontá-lo a respeito daquilo.
— Hey, Tadashi? – Hiro, por fim, quebrou o clima predominantemente pesado ao olhar nos olhos do maior, cuja surpresa foi tanta que logo denunciou o quão despreparado estava para ouvi-lo. O Hamada mais novo até franziu o cenho em resposta, porém decidiu prosseguir: — V- Você não me acha uma aberração, né?
Fora a vez de Tadashi imortalizar a face em uma careta, o que, se não fosse pela tensão implicada ali, até arrancaria uma gargalhada de Hiro.
— O- o quê? – proferiu, segundos antes de o outro abraçá-lo, o incapacitando de se movimentar; o que era um grande problema ao evidenciar o fato de que Hiro chorava de novo. Agora, porém, as lágrimas lhe rolavam copiosa e insensatamente pelo rosto delicado, avermelhando-o com brutalidade. Tadashi se afastou alguns centímetros a fim de ter uma visão mais ampla da situação. – H- Hiro, o que foi isso, assim, tão de repente?
— Você não entende! – a mesma resposta lhe havia escapado. Ah, claro! Era lógico que ele não entendia, ainda mais isento de quaisquer explicações. – V- Você... Você não quer que eu volte para as robô-lutas, não é?
Tadashi piscou. Não; era óbvio que não o queria metido naquilo. Robô-lutas eram atividades ilegais, sobre as quais a polícia palestrava o tempo inteiro: O indivíduo que as praticar, com certeza, será detido!
E Hiro sabia disso. Estava ciente do quão arriscado era, mas acreditava ser a única maneira de o irmão notá-lo. Afinal, com o prazo do trabalho prestes a ser validado, Tadashi mal parava em casa; já nem comia e, se calhasse, passava horas a fio sobre anotações, desenvolvendo-as sem nem prestar atenção no ambiente ao redor. O pequeno, mesmo a contragosto, tinha de arrumar algo que o sobrepusesse àquele maldito projeto: e se aquilo implicasse mau comportamento, tanto fazia!
— N- Não, Hiro, eu não quero que você...
O garoto afastou-se, voltando a fitar aqueles orbes castanhos que também o observavam. Então, lenta e sutilmente, levou o indicador àqueles lábios, substituindo-os pela própria boca em seguida. Desta vez, Tadashi nem fez menção de se mover. Permaneceu ali, imóvel na mesmíssima posição, ao que, depois de um tempo, empalmou a cintura do mais novo, ajudando-o a aprofundar o beijo. Hiro pediu passagem com a língua, a qual logo foi gentilmente recebida pela do outro, dando início a um tipo de exploração bucal.
— V- Você... – sibilou o maior após a separação, questionando-se, em pensamento, de onde vinha tanta habilidade e experiência. – Realmente cresceu!
Hiro gargalhou com um pouco mais de entusiasmo.
— Faz parte – retribuiu em um sussurro, permitindo-se adormecer naqueles braços reconfortantes. – Faz parte...
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— Meninos! – tia Cass adentrou o quarto em passos mansos, tomando o máximo cuidado para não fazer barulho contra o chão de madeira. – Vocês não vão...
Estranhara o vazio do cômodo, tendo em vista que, divergindo da habitualidade, Tadashi não tinha adormecido em meio à papelada. Tudo estava no mais puro silêncio, deixando-a mais alarmada por não tê-los encontrado se arrumando ou algo parecido. Foi até a cama do sobrinho mais velho, vendo-a bem arrumada como sempre, ao que suspirou e foi em direção à do mais novo. Chegando lá, parou e sorriu.
Ambos, agarrados um ao outro, dormiam com toda a tranquilidade. Hiro aconchegara-se ao peito de Tadashi, envolvendo-o como se fosse o próprio travesseiro. O maior, para sua surpresa e felicidade, também descansava feito um anjo, com os braços envoltos na cintura do irmão.
— Esses dois... – deixou-se rir fraquinho, ao que se ausentou em passos ainda mais silenciosos. A cena a deixara com dó de acordá-los, fazendo-a desistir da ideia; afinal, quem a saberia informar quando os veria assim novamente?
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