A pior tragédia moderna aconteceu às 14h30: o Wi-Fi da cabana morreu. Simplesmente desistiu de viver.

Eu estava no sofá da sala, atualizando o feed do Instagram que não carregava. Noah estava na poltrona oposta, lendo um livro físico (claro, porque ele é evoluído).

— A internet caiu — anunciei, em pânico leve.

Ele nem levantou os olhos da página. — É uma nevasca, Oliver. Acontece.

— Mas eu estava no meio de um vídeo.

— Você vai sobreviver.

Revirei os olhos e me joguei no encosto do sofá, encarando o teto de madeira. O silêncio na sala era apenas interrompido pelo virar de páginas dele. Shhh. Shhh. Irritante.

— Você não sente falta? — perguntei, incapaz de ficar quieto.

— De quê? Da internet?

— De civilização. De jogos. De... sei lá, fazer algo que não seja cortar lenha ou ler sobre — estiquei o pescoço pra ver a capa do livro dele — economia política? O Noah de doze anos estaria profundamente decepcionado com você.

Ele baixou o livro lentamente, me olhando por cima dos óculos de leitura (sim, ele usava óculos pra ler agora). — O Noah de doze anos era um idiota hiperativo.

— O Noah de doze anos tinha prioridades! — retruquei, sentando direito no sofá. — Tipo passar a tarde inteira minerando diamante e gritando com a TV.

Noah bufou, voltando a atenção para o livro. — Eu não gritava.

— Ah, não? — Um sorriso maldoso surgiu no meu rosto. — Eu tenho uma memória muito vívida de 2016. Um certo Creeper... uma certa explosão... e um certo alguém jogando o controle no sofá e jurando vingança contra um bicho de pixels.

Noah parou. A mão dele congelou na página. Ele tentou manter a cara de sério, mordendo o canto da bochecha, mas a armadura rachou. Ele soltou uma risada. Curta, grave, pelo nariz. Mas foi uma risada.

— Não foi só "uma explosão" — ele murmurou, sem me olhar, mas com um sorriso de canto. — Aquilo foi um atentado terrorista. Levou metade do meu telhado.

— Telhado de terra, vale lembrar.

Ele finalmente fechou o livro e me encarou. O olhar gelado tinha derretido.

— Era madeira de carvalho, Oliver. E tinha vidro temperado. Era um projeto arquitetônico complexo.

— Era uma caixa de sapato marrom. Aceita.

— E você roubou meus diamantes pra fazer uma enxada. — Ele apontou o dedo pra mim, indignado como se fosse ontem. — Quem faz uma enxada de diamante? É desperdício de recurso.

Eu ri alto. — Eu precisava cultivar minhas batatas com estilo!

Noah balançou a cabeça, negando, mas o sorriso dele agora era real. Por cinco segundos, a cabana chique, o frio e os cinco anos de distância sumiram. Éramos só nós dois discutindo estratégia de jogo.

— Bons tempos — ele disse, jogando o livro na mesa de centro. — A vida era mais simples quando o maior problema era um monstro verde explodindo sua casa.

— É — concordei, sentindo uma pontada de saudade no peito. — Definitivamente mais simples.

Ficamos em silêncio, mas dessa vez não era aquele silêncio pesado e constrangedor. Era um silêncio confortável. Até que minha mãe entrou na sala gritando: "A internet voltou!"

Noah pegou o celular imediatamente, a postura relaxada sumindo num piscar de olhos. O muro subiu de volta. Mas tudo bem. Agora eu sabia que ele ainda estava lá. Eu só precisava continuar cavando.