A primeira coisa que notei quando acordei foi o silêncio. A segunda foi que minhas costas não estavam doendo. A terceira foi que eu não estava no colchão inflável.

Abri os olhos devagar. A luz da manhã de Natal entrava pela janela, implacável. Virei o rosto. O quarto parecia uma zona de guerra. O edredom estava jogado no chão. Um travesseiro estava do outro lado do quarto. Minha camisa social estava pendurada no abajur (nem pergunte).

E Noah estava dormindo ao meu lado. Totalmente apagado. O lençol cobria apenas da cintura para baixo, deixando à mostra as costas e... opa, muitas marcas vermelhas.

Fiquei observando ele, tentando processar a virada de chave. De "estranhos na sala" para "isso" que aconteceu na madrugada. É engraçado quando você para pra refletir.

Noah se mexeu, resmungou algo inaudível e abriu um olho. Ele piscou, focado em mim. Um sorriso preguiçoso — e muito, muito satisfeito — surgiu no rosto dele.

— Bom dia — ele disse. A voz matinal dele estava destruída. Rouca. Grave. O som fez um arrepio percorrer minha espinha, lembrando exatamente o que aquela voz estava sussurrando no meu ouvido algumas horas atrás.

— Bom dia — respondi, a voz falhando um pouco. — Você tá vivo?

— Por pouco. — Ele riu, puxando meu braço para ele. — Você é um… deixa quieto.

Ele me puxou para mais perto, escondendo o rosto no meu pescoço, me dando um beijo demorado ali, bem no ponto sensível.

— Que horas são? — ele murmurou contra a minha pele, a mão descendo pelas minhas costas de um jeito possessivo que agora me parecia natural.

— Cedo. As mães ainda não começaram a gritar.

— Ótimo. — Ele começou a subir os beijos para a minha orelha. — Dá tempo de...

— MENINOS! O CAFÉ TÁ NA MESA! — O grito da minha mãe ecoou no andar de baixo, seguido pelo barulho de panelas.

Noah soltou um gemido de frustração contra o travesseiro.

— Eu vou processar a sua mãe por danos morais.

Nós rimos. A bolha estourou, mas a tensão (a boa) continuava ali. Noah levantou da cama sem a menor cerimônia. Ele estava só de cueca boxer. E, honestamente, ele não parecia ter pressa nenhuma em se vestir, desfilando pelo quarto com a confiança de quem acabou de ganhar um troféu.

— Se veste logo, exibido — joguei o travesseiro nele, tentando não olhar demais (e falhando).

Ele vestiu uma calça de moletom, ainda sorrindo aquele sorriso convencido.

— Vamos. Se a gente demorar, a Tia Karen vai subir aqui. E considerando o estado desse quarto... — ele apontou para a bagunça e para o meu pescoço (onde provavelmente tinha uma marca também) — ...é melhor a gente descer.

Vesti minha roupa, sentindo cada músculo reclamar e agradecer ao mesmo tempo. Descemos as escadas. Quando chegamos na sala, minha mãe olhou para nós dois. Ela parou com a xícara no meio do caminho.

Ela olhou para o cabelo caótico do Noah. Olhou para a minha cara de sono feliz. E olhou para a marca vermelha que a gola da camiseta do Noah não escondeu totalmente.

Ela trocou um olhar rápido com a Tia Sarah que apareceu com alguns presentes. Um olhar de eu sabia.

— Bom dia, flores do dia! — ela disse, com um tom cantarolado suspeito. — Dormiram bem?

Senti o Noah segurar o riso ao meu lado.

— Dormimos, mãe — Noah respondeu, apertando minha mão e me lançando um olhar lateral cheio de segundas intenções. — Como pedras.

No primeiro dia, minha mãe chamou essa viagem de “A Magia do Natal. Eu, por outro lado, chamei de “Emboscada”. Mas, lembrando das últimas horas eu tive que admitir.

A magia venceu. E foi muito, muito melhor do que eu esperava.

Notas finais
Ei, se você chegou até aqui, por favor, deixe um comentário! Esse é o meu primeiro livro da minha série de "Flash Book". Foi incrível escrever isso e espero que tenha sido incrível pra você ler até aqui.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!