Embers
2 Srta. Porter e Tarzan
(Nate)
Durante a minha primeira madrugada com Charlie, era visível como ela estava alerta para qualquer movimento ou palavra estranha minha, até entendo o lado dela, a garota estava bem magra e mesmo cismando em continuar a trilha pela floresta para evitar os ataques do exercito, não era nada esperto se ela não conseguia caçar direito.
–Para onde estamos indo mesmo? — Pergunto andando um pouco atrás dela enquanto olhava para seus cabelos embaraçados.
–Se isolar, de preferência achar um lago afinal estamos imundos... Culpa minha — Diz ela se virando pra mim assim andando de ré e dando um sorriso como se fosse o vomito fosse um motivo para rir, mas era doce da parte dela então sorrio também.
–Você vai morrer de fome antes de acharmos um lago!
–Vou não, a qualquer momento podemos trombar com um coiote ou um porco selvagem, até um esquilo serve!
–Do jeito que você está, me admira estar andando, derrubar até uma mosca já parece ser demais! Vamos descer para alguma vila, vendo daqui de cima dos morros conseguimos saber se está vazia ou não.
–Me de uma hora, se não conseguirmos comer nem se limpar, fazemos do seu jeito, nós temos um trato mister Nathaniel? — Diz ela numa voz um tanto brincalhona e assento com a cabeça.
–Trato, e pelo amor de Deus me chame de Nate!
E assim continuamos caminhando por uma hora inteira e talvez até um pouco mais enquanto nos conheciamos melhor, e Charlie falava de extremamente tudo menos de qualquer um que ela conhecia antes de todo esse caos tomar conta da Terra, talvez fosse o luto por eles ou então era algo mais complicado. Eu sempre aceitei que eu e meus familiares tinhamos opiniões distintas, quando eu não quis entrar para o exercito e matar todos pelo motivo de apenas não concordarem com um massacre desses, meu pai me deu uma hora para empacotar tudo e ir embora, e me abri quanto a isso com Charlie, não tinha pra que esconder. E para quem não conversava com alguém por algumas semanas o papo estava mais que bom, porém assim que penso já ter dado o tempo da loira me provar que iríamos sair dali limpos e alimentados, logo trocamos a rota indo rumo a uma pequena cidade mais para baixo da região onde estávamos.
O tempo da descida do morro enorme demorou um pouco, até porque ambos nós éramos cautelosos e fizemos questão de descer pelo local mais escondido possível afinal apesar de quando os soldados viessem massacrar gente eles fizerem mais barulho do que uma escola de samba, ainda poderia estar acontecendo uma patrulha ou toparmos com assaltantes esfomeados. Pisar no asfalto foi uma vitória, minhas pernas estavam devoradas pelos mosquitos e minha pele incomodada com o matagal de antes, e quando olho pra Charlie percebi que ela estava três vezes pior, deveria ser a falta de nutrientes já que os que antes ela tinha, ela botou pra fora como reação aos cadáveres.
–Deve haver um mercadinho ou farmácia aqui perto com ainda comida sobrando, as pessoas tem medo de caminhar pelas cidades e é mais provável que estejam em tocas e buracos do que aqui comendo, até o governo está se tocando disso — Digo numa tentativa de tentar melhorar o otimismo dela.
–Ou em florestas e matagais, pessoas assim sofrem de fome mas além da segurança reforçada, são mais divertidas.
–Certo, Jane Porter, claro que são!
–Estou falando sério, Tarzan! — Ela dá uma risada mas logo para de andar, me viro para olha-la e percebo a garota apoiando-se em seus joelhos enquanto retomava o ar num ritmo cansado como se estivesse mais acabada do que eu pensei, e vendo-a naquele estado decido provar de uma vez por todas que ela não precisava ficar alerta quanto a mim, então me viro de costas e me inclino um pouco.
–Vamos lá, vou te dar uma carona até a farmácia antes que você morra no meio do caminho sendo que chegamos até aqui!
–Nem pensar, você está fedendo a você sabe bem o que! -Ela retruca porém não me movo — Ah, quem liga, está fedendo por minha causa mesmo! -Ela pula em minhas costas e começo a andar segurando firme em suas pernas para ela não cair.

Assim começo a andar com a minha nova amiga, se é que podia chama-la assim, em minhas costas e vou olhando em volta procurando qualquer indicio de local com comida, porém já que precisávamos de um banho, vou caminhando rumo ao subúrbio daquela miniatura de cidade para invadirmos uma casa e realizar os afazeres que tinhamos. E quando dobro a esquina já avisto uma pequena casa amarelada e sem muros, a porta estava aberta e provavelmente porque foi arrombada então simplesmente vamos entrando enquanto ficávamos alertas para qualquer morador.
Charlie desce de minhas costas e fecha a porta lentamente, conseguia ver em seus olhos como ela estava aliviada, algo que eu adorava nela era como seu rosto era expressivo. Sem muita demora achamos a cozinha e lá ainda haviam alguns salgadinhos no fundo do armário, abrimos dois do tamanho extra-large para comemorar e nos sentamos no sofá para nos deliciarmos como já faziam eras que não fazíamos antes. Depois cada um de nós toma um banho longo com a agua fria e limpa que havia ali apreciando literalmente a cada segundo e depois com roupas dos antigos moradores nós nos trocamos.
As camas daquela casa eram tudo e mais um pouco que nossos corpos cansados mais desejavam, e por causa disso apesar do risco de uma patrulha, decidimos ficar por ali durante uma noite só, para isso voltamos a deixar a porta aberta como se tivesse sido arrombada, quebramos as janelas da frente e obviamente depois de tudo fomos comer mais um saco de salgadinhos e dessa vez sentados na janela do único quarto que havia ali.
Ficamos discutindo sobre que rumo tomar, onde ir, o que dessa casa poderíamos levar, quantas comidas vindas de fábrica caberiam numa mochila, quais armas eram mais úteis, quem sabia mais sobre arapucas, como ambos nossos rostos eram mais agradáveis sem a sujeira neles, como Charlie sentia falta de seus seriados preferidos e se preocupava com o que houve com os atores e personagens e a partir dai a conversa voltava a tomar um rumo divertido. Ela tinha um dom de fazer graça de tudo, era minha certeza que apesar de nossa situação não teria mais um dia tristonho, Charlotte Francis não deixaria isso acontecer.
–Dave, eu estou maluca ou aquilo ali são duas pessoas? — Dizia ela apontando para o vulto escuro de duas ou talvez três pessoas.
–Maluca você é, mas sim, eram alguém, e por isso vamos ficar bem quietos e sem cócegas ou ataques de riso irmos dormir... Pode ficar com a cama -Falo num tom parecido com um cochicho e saio dali de cima da janela, ela faz o mesmo.
–Nananinanão! Sem você nem um Cheetos eu teria comido, vamos dividir essa cama, não vejo problema — Disse ela num tom mandão e sorri como se tivesse adicionado um "por favor" nessa frase.
–Ta bom, partimos amanhã cedo! — Digo bagunçando o cabelo dela e então me deitando na cama, logo nós dois pegamos no sono dormindo cada um para um lado da cama.
Juro, foi o melhor dia que eu havia tido em anos, porém de manhã a cruel realidade veio entrando na casa juntamente com vários passos intrusos, Charlie ainda dormia esparramada na cama como se nada estivesse acontecendo, então pego um dos facões que havia separado para levar na nossa tragetória e seguro o mantendo escondido por baixo dos travesseiros. E os passos se aproximavam cada vez mais.
–Tomara que aqui tenham roupas do meu tamanho, a ultima calça que levamos me fez parecer um membro de boyband para garotinhas! — Dizia uma das vozes enquanto adentravam no quarto, talvez se fossem só fazer uma limpa não teríamos problemas então apenas finjo estar dormindo.
–Ah sério como as pessoas fazem isso? Em plena Terceira Guerra mundial tem um cara na cama com uma menina pra lá de gata! Qual é o segredo pra isso?! -Diz o outro retrucando como se estivesse indignado.
–Aposto que ele não usa calças afeminadas, bundão!
E quando ele diz isso num tom alto demais, Charlie acorda e dá um pulo na cama, recuando pra trás ainda deitada ali com uma cara de espanto, me ergo também mas ainda com a faca de baixo da cama, e logo percebo que os dois irmãos estavam tão chocados quanto a garota que haviam acabado de despertar.
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