"Tem... Tem um monstro..."

Foi o que Carlos ouviu vindo do quarto da menina de pijama listrado. Ele repousou a mão na maçaneta e abriu a porta calmamente, a luz do corredor invadiu o quarto da menina que se assustou.

— ... um monstro... tem um monstro. — Ela repetia olhando para ele.

— ... Embaixo da cama? — Sorriu Carlos gentilmente e acariciou ao topo da cabeça da menina quando parou na frente dela e foi aos poucos agachando-se para olhar embaixo da cama.

Ela pareceu surtir um pequeno susto com aquilo, não tanto o susto que ele teria... Mas não teve... Quando viu o corpo embaixo da cama, o corpo de um homem com os olhos abertos em arregalo e que pareciam congelados, a pele que aos poucos parecia se repuxar pra dentro com o interior devorado pelo tempo e, provavelmente, por larvas que ainda não se deram no exterior.

— Um monstro... — A menina de olhos arregalados ainda olhava para o homem que riu.

— É apenas um cadáver. — Levantou-se Carlos que ainda sorria gentilmente. — Logo se acostuma.

Carlos logo sentiu algo pesado bater com força em seu couro cabeludo que o fez perder os sentidos e cair para dentro do armário aberto da menina, que correu segurando uma rocha e fechou as portas do armário. Correu pelas escadas para ligar para a polícia.

— Tem um monstro no meu armário! — Disse atropelando as palavras quando discou 190 e logo ouviu as portas do armário, lá em cima, se abrindo com força e o homem a chamando.

Ela correu, aos tropeços, para a porta de entrada que o homem deixou destrancada e ela atravessou a rua para a casa da frente, abandonada, que ela ia lá para brincar sozinha de vez em quando, pois não tinha amigos. Subiu as velhas escadas empoeiradas que rangiam e delatou sua posição quando Carlos também entrou na casa abandonada.

Ela entrou em um dos quartos e jogou-se em uma cama velha, agarrou-se a um livro que sempre deixara ali e cobriu-se com o cobertor embolorado.

Passos. Passos pelo chão de madeira. Passos cada vez mais próximos.

Silêncio.

Agitação repentina, ela fora descoberta pelo homem cuja cabeça sangrava e o sorriso gentil continuava em sua face.

— Um monstro... ! — Exclamou a menina aterrorizada.

Não mais aterrorizado do que o grito que Carlos deu ao ser puxado para baixo da cama por duas garras pretas que o consumaram e seus gritos... Morreu...?

— ... Embaixo da cama.

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