Ema e Ernesto - 03. Ema encontrada por seu pai
1 03. Ema encontrada por seu pai
Notas iniciais
Aurélio vai atrás de Ema e a encontra com Ernesto. Eles tem uma conversa sobre o futuro. Continuidade da estória — Ema e Ernesto — 02. Reencontro, por Debbie Anna
03. Ema encontrada por seu pai
Quando soube que Ema estava em segurança, seguindo viagem para São Paulo com Luccino, Aurélio se aquietou um pouco. Graças a Deus ela não estava perdida naquela mata! Ainda estava sobre o efeito da surpresa de ver sua filha, cujo sonho sempre fora se casar, fugir do altar daquela forma. Para ter chegado a este ponto, certamente Ema tinha passado por momentos de sofrimento e aflição. Culpou-se por não ter percebido o estado emocional da filha e por não ter mantido um diálogo com ela.
Estava todo desgrenhado e um filete de sangue ainda lhe corria do supercílio. Acabara de sair de uma briga com o Almirante Tibúrcio. Ao ouvir os insultos sobre Ema que ele estava bradando aos quatro ventos, não pôde se conter e partiu para cima do Almirante. Até entendia a indignação do homem, mas insultar Ema com palavras de baixo calão, era demais! O homem estava uma fera! Gritava que iria atrás de Ema até no inferno, se fosse o caso, e a traria de volta para se casar. Já o noivo abandonado estava tranquilo e sereno e até parecia feliz.
Aurélio aguardava Jorge, que estava cuidando para que o Barão se estabelecesse na casa dos pais de Elizabeta. Estava aliviado pelo amigo estar ali, cuidando disso, pois não estava com a menor paciência para aguentar os chiliques de seu pai, que fingiu estar tendo um ataque do coração ao ver Ema fugindo! O velho não se conformava por ela ter abandonado tão bom partido, que tiraria a família da lama e lhe daria de volta o conforto e regalias que ele achava que merecia. Estava assim, perdido em pensamentos, sem saber o que fazer, quando ouviu passos se aproximando e virou-se para ver quem era.
— Julieta...
— Aurélio. Imagino que esteja muito preocupado com sua filha.
— Sim. Apesar de já ter saído da mata, estou preocupado, sim.
Ficaram em silêncio por um breve instante.
— Sabe, Aurélio eu gosto muito de Ema. Ela faz-me lembrar de mim mesma, quando tinha a sua idade. Mas a coragem dela, eu já não tinha. Se o tivesse, minha vida seria muito diferente, hoje.
— Ema é realmente adorável. Mas esta coragem que demonstrou hoje, não sei de onde ela tirou.
— Ela deve ter tido um bom motivo.
— Acredito que sim. Pena que sou um pai tão relapso que não imagino qual seja!
— Não fale assim, você é um bom pai. Só que tem coisas que as filhas não contam aos pais.
— É, deve ter. Se eu tivesse uma mulher, talvez esta questão estivesse resolvida.
Julieta corou diante do olhar penetrante dele e mudou de assunto.
— Bem, o Almirante está se preparando para ir atrás de Ema amanhã de manhã. Eu penso que você deveria chegar antes dele, para proteger sua filha. — Julieta se aproximou — Meu motorista está à sua disposição para levá-lo até São Paulo, se desejar.
— Claro que sim! Estou muito preocupado, com Ema! Muito obrigado, Julieta!
— Poderá ficar hospedado em minha residência em São Paulo, pelo tempo que for necessário.
— Obrigado! Nem sei como agradecer tanta generosidade de sua parte! Partirei agora mesmo.
— Diga à Ema que eu a admiro e desejo felicidades.
— Direi. Direi, sim.
— Fratello! Fratello!
Ernesto acordou com pequenas batidas na porta e a voz baixa de Luccino. Ema dormia recostada ao seu peito. Ergueu-a gentilmente para que não acordasse e a encostou no travesseiro. Levantou-se devagar, não sem antes lhe dar um leve beijo na boca. Era linda dormindo! Mas também era linda acordada!
Abriu a porta para o irmão.
— Boun giorno! Entra.
— Boun giorno Ernesto! O Sr. Aurélio está aqui no cortiço!
— Que droga, ele já chegou?!
— Sabia que viria?
— Suspeitei, ora! Afinal a filha dele fugiu!
— É... Ele está procurando por Ema na casa de Elizabeta. Então corri para cá para avisar, porque você e Ema estão sozinhos, e...
— ...E não aconteceu nada. Só conversamos e dormimos. Dormimos, entendeu?
— Sim, sim! Imaginei que iria mesmo respeitar a moça.
— A muito custo, mas respeitei. Bom, vou acordá-la para enfrentarmos o Sr. Aurélio.
Foi até a cama e sentou-se na beirada.
— Ema. Ema, acorda — Beijou-lhe o rosto. Ela resmungou.
— Nãããooo... deita aqui comigo, Ernesto. — Respondeu com a voz rouca.
— Não, posso. — Ele riu das caretas dela — Acorda, Baronezinha, vamos...
Finalmente ela abriu os olhos, mas fez um biquinho porque ainda estava com sono.
— Boun giorno, Principessa! — Disse ele, beijando-lhe o "bico".
— Muito cedo para "Boun giorno"! Deixa eu dormir só mais um pouquinho...
— Não pode, Baronezinha. Seu pai está aqui no cortiço.
— Meu pai?! — Ela respondeu, se erguendo.
Neste momento Aurélio entrou pela porta, que Luccino havia esquecido entreaberta. Como ninguém atendesse no quarto de Elizabeta, alguém lhe tinha falado para procurar por Ernesto e lhe indicara o quarto.
— Ema! Ema, minha filha! Você... vocês...
— Não, papai! Não é nada disso que está pensando! — Respondeu ela, se levantando rapidamente.
— Você está na cama do Carcamano! — Virou-se furioso para Ernesto — Seu, seu!
— Calma, Sr. Aurélio! Calma! Nós só dormimos, não fizemos nada! Sua filha permanece intacta e pura, pode ficar tranquilo!
— Ele está falando a verdade, Ema? Se não estiver eu mato ele!
— Sim, papai! Ele está falando a verdade, sim!
— Eu não sou mentiroso! — Respondeu Ernesto indignado.
— Acho bom, acho bom, Italiano! E porque Ema está aqui? Porque não está na casa de Elizabeta?
— Porque eu não tenho mais a chave, papai.
— E eu não a deixaria na rua, não é? — Respondeu Ernesto.
— Pelo jeito não, não é Italiano? Espero mesmo que não tenha se aproveitado da minha filha!
— Senhor, eu já disse que não desrespeitei Ema. Jamais o faria. Mas acho mesmo muito bom que esteja aqui e que a tenha encontrado comigo, porque assim fica mais fácil de eu dizer — Fez uma pausa, se aproximou de Aurélio e o olhou nos olhos — Eu amo a sua filha. E ela me ama. Vamos ficar juntos. Peço seu consentimento, por respeito ao senhor e também para começarmos uma família em paz, mas se não o der, vou me casar com ela da mesma forma.
— Seu insolente! Como se dirige a mim desse jeito? Já vou falar com você sobre isso, mas antes quero falar com Ema!
— Está bem. Vou tomar um banho e depois comprar pão e café para nós — Pegou algumas roupas para ele e para Luccino. Antes de sair foi até Ema e a beijou levemente nos lábios — Se cuida, minha Baronezinha, eu já volto. Vamos Luccino.
Aurélio fechou a porta e se dirigiu à filha:
— Ema, minha filha, o que está acontecendo? Porque você fugiu do seu casamento e veio parar aqui, com o Italiano?
— Porque eu amo Ernesto, papai.
— Meus Deus! Então é verdade mesmo?
— Sim, sim. Eu o amo mais do que tudo na vida! Até tentei ser sensata e me casar com Edmundo, mas não consegui... — Os olhos de Ema marejaram — Perdão papai, eu tentei, mas não consegui me casar por interesse, porque eu amo Ernesto! Não consegui me sacrificar pelo senhor e pelo vovô!
— Filha, mas porque ia se sacrificar dessa forma? Eu nunca pedi que fizesse, isso! Quero dizer, uma vez eu mencionei que você deveria se casar com alguém à sua altura e que isso seria conveniente, mas jamais imaginei que estivesse apaixonada por alguém, então não vi mal algum em sugerir um casamento por interesse, como a maioria que acontecem em nossa classe social... como foi o de seus avós e o meu com sua mãe... Mas foi só uma sugestão, não quis te pressionar a nada!
— Ah, papai, só que eu me senti na obrigação de cuidar de vocês; de cumprir com a promessa que fiz à mamãe em seu leito de morte...
— Ema, você era só uma menina! Sua mãe te disse aquilo mais para fazer você se sentir importante e não esmorecer tanto com a morte dela. Não era para ter levado essa promessa a sério, filha.
— Será, papai?
— Claro, filha! Sua mãe iria querer que você fosse feliz e não que ficasse presa a uma promessa, feita num momento de extrema emoção!
— O senhor me alivia, falando assim. Sim, porque, me custa muito peso na consciência ter deixado a promessa que fiz; faz-me sentir egoísta.
— Ô, filha! Pois sinta-se livre!
Ela sorriu, aliviada.
— Você ama mesmo Ernesto?
— Sim, papai! Amo muito!
— Tem certeza? Veja, não será fácil para você viver a vida que ele pode te oferecer. Tem certeza de que foi só a promessa à sua mãe que te motivou a casar com Edmundo? Não pensou que ele poderia manter o padrão de vida que você sempre teve?
— Papai!
— Filha, eu sou seu pai, te amo e preciso que seja sincera comigo!
— Não foi só pela promessa, papai. Foi também por você e pelo vovô! Ele tem problema de saúde e já está velho... e o senhor estava tão triste na ocasião em que visitei o Vale. Eu nunca o tinha visto tão abatido e recolhido. Entendi que estava depressivo por conta da perda da fazenda e de todos os nossos bens e queria fazer algo para te animar, para te devolver o gosto pela vida!
— Não, filha! Não era isso! Quer dizer, eu fiquei triste sim pela perda da fazenda, mas o que realmente me abateu foi... foi um amor não correspondido, ou melhor, renegado!
— Um amor, papai?! Por quem? Me diga!
— Julieta Bittencourt. — Respondeu com um suspiro.
— A Rainha do Café? Está apaixonado por ela?
— Sim. Muito apaixonado!
— Que maravilha, papai! — Respondeu sorrindo.
— Maravilha? — Aurélio sorriu amargurado — Ela tem o coração fechado, Ema. Até acho que gosta de mim, mas carrega tanta amargura do coração, que não abre brecha. E agora que estou pobre, temo que pense que me aproximo pelo dinheiro dela.
— Oh, papai. — Ema se comoveu com a situação do pai.
Aurélio se inclinou em direção da filha e pegou suas mãos.
— Mas sabe que a sua fuga me aproximou dela?
— É mesmo? Como assim, papai?
— Assim que soubemos que você não estava mais na mata e que tinha vindo para São Paulo, ela me encontrou e me incentivou a vir te procurar, pediu ao seu motorista que me trouxesse e permitiu que me hospedasse em sua casa. Assim eu poderia chegar antes do almirante Tibúrcio.
— O almirante vem me procurar?
— Vem sim, filha. Ele ficou furioso! Edmundo nem se importou, mas o pai dele! Achei que fosse ter um enfarto! Esbravejou horrores a respeito de você. Eu até avancei para cima dele!
— Nossa, papai!
— Acabaram nos separando. E ele saiu esbravejando que viria à sua procura e a faria se arrepender do que fez. E mais: que a faria se casar com Edmundo. Foi por isso que vim. Temo que ele lhe faça algum mal. E quando souber que está com Ernesto, a coisa vai ficar ainda pior.
— Se alguém encostar um dedo em Ema, eu mato! — Disse Ernesto, entrando no quarto. — Desculpe, eu estava chegando e ouvi o final da conversa. Pode ficar sossegado, Sr. Aurélio, eu protejo Ema.
— Ernesto, o Almirante é um homem violento.- Respondeu Aurélio.
— Eu sei. Fui criado no quintal da casa dele. Ele sempre humilhou a mim e a meus irmãos. Sempre quis quebrar aquela cara arrogante!
— Ernesto, violência não vai resolver. Pode deixar que eu mesma falo com ele, afinal sou eu a responsável por esta confusão toda.
— Nem pensar! O Almirante não vai se aproximar da minha Baronezinha! Nem ele, nem Edmundo!
— Eu preciso falar com eles, dar uma satisfação, pedir desculpas...
— Nada disso, Ema! Ele vem para te ofender, para te insultar. Não vou permitir. Nem que eu tenha que te trancar no quarto!
— Ernesto! Eu sei me cuidar! E sei limpar as lambanças que faço!
— Sabe nada! Você só vai piorar a situação, como sempre faz!
— Como ousa dizer isso?
— Ema, isso é assunto de homens e homens devem resolver!
— De homem, coisa nenhuma! Eu sou a noiva fugida! Eu resolvo a questão! Não vou me esconder feito uma covarde!
Aurélio e Luccino acompanhavam a discussão e se entreolhavam. Seria divertido, se o assunto não fosse tão sério.
— Hummm, vejo que a senhorita mudou mesmo! Quem será que te ensinou a ser corajosa, hein? — Sorriu, piscando para dela — Seu professor está orgulhoso por tanta coragem, Baronezinha, mas não vai ser neste caso que irá usá-la! E chega de teimosia!
— Você? Falando em teimosia? Logo você que é pior do que uma mula empacada, Carcamano?
Ernesto olhou para o irmão e para o suposto sogro. Respirou fundo e se dirigiu à Ema, em tom paciente.
— Vamos parar de discutir, Baronezinha? Se não seu pai vai negar a permissão para nos casarmos antes mesmo de conversar comigo, pois achará que nos mataremos antes de chegar ao altar!
Aurélio assentiu com a cabeça, afirmativamente, mas para que parassem de discutir. Não pensou em deixar de conversar com Ernesto, pois estava evidente que se tratava de uma discussão de enamorados.
— E para encerrar a discussão — Continuou Ernesto — Você não vai conversar com Tibúrcio nenhum e vou te dizer por quê — Aproximou-se de Ema e pegou seu rosto entre as mãos — Porque se aparecer em cena e ele encostar um dedo em você... ou até mesmo se ele lhe dirigir um insulto sequer, eu não vou me controlar e vai rolar sangue, entendeu? É o que quer? Que eu perca a cabeça, surre o desgraçado e vá preso?
— Claro que não! — Respondeu ela com a voz baixa, pensativa. — Você seria capaz de fazer isso? De agir com violência dessa forma?
— Por você? Pode apostar que sim!
Ela sabia que era verdade, até porque ele nunca mentia. E se batesse no Almirante, certamente seria preso, porque Tibúrcio era um homem de influências.
— Está bem, Carcamano. Você venceu. Não vou aparecer para esta conversa.
— Assim está melhor. — Beijou-lhe levemente os lábios e soltou seu rosto.
Ernesto virou-se para Luccino e Aurélio, este último estava muito admirado pela forma como ele tinha domado Ema, pois sabia que atrás da gentileza e encanto da filha se escondia uma mulher determinada que normalmente conseguia tudo o que queria. Mas Ernesto a dominou, a trouxe para a razão. Ponto para o Italiano!
— Bem! — Disse Ernesto — Vamos deixar esses maledettos Tibúrcios para lá e vamos comer? Trouxe pães e café e estou morrendo de fome! — Concluiu com seu sorriso largo.
Sentaram-se para comer. Depois Ema se dirigiu à casa de Jane para contar as novidades para a amiga e emprestar um vestido. Luccino foi dar uma volta pela cidade. Assim, deixaram Ernesto e Aurélio sozinhos para a tal conversa.
— Então, você ama a minha filha? — Perguntou Aurélio.
— Amo, sim senhor. Amo muito. Mais do que palavras possam expressar.
— Olha, Ernesto, vou começar a falar e não gostaria de ser interrompido até terminar, mesmo que você não goste do que eu diga, entendeu? Pretendo ser bem sincero.
— Entendi, sim senhor. E gosto de sinceridade.
— Muito bem! Bom, você sabe que Ema é uma nobre e foi criada como tal. É natural que eu, como pai, tenha imaginado um marido de igual estirpe para ela. Você é um bom rapaz, Ernesto, até me simpatizo com você. É trabalhador, honesto, ambicioso na medida certa. Mas não é, nem de longe, o homem que imaginei para meu genro. — Aurélio se levantou e começou a andar pelo quarto, tentando encontrar as palavras certas. Continuou — Mas acontecesse que Ema ama você e você a ama. O destino prega esse tipo de peça: duas pessoas completamente diferentes, apaixonadas! — Fez uma breve pausa. — Se há poucos meses atrás isso tivesse acontecido, eu certamente nem estaria aqui com você, tendo essa conversa. Eu já teria escorraçado você ou teria rompido relações com Ema, caso ela o tivesse preferido. — Sentou-se novamente — Mas acontece, Ernesto, que o destino também me pregou uma peça e hoje me vejo completamente apaixonado, coisa que nunca fui por ninguém. E isso me possibilita entender o que você e Ema sentem um pelo outro e me impulsiona a dar permissão para que sejam felizes, sabe Deus como! — Aurélio calou-se por alguns segundos.
— Posso falar, senhor?
— Não. Ainda não terminei. — Respirou fundo, levantou-se de novo e continuou — Sei que vocês se casarão de qualquer forma, como você deixou bem claro. Mas estou extremamente preocupado com o futuro de vocês, pois mal têm aonde morar e sabe-se lá se terão o que comer! E não culpo só você por isso! Eu também tenho minha grande parcela de culpa porque sempre fui um desocupado e não me preocupei com os negócios da família. Agora perdemos tudo e Ema tornou-se tão pobre quanto você. Nem o dote dela eu tenho para o casamento. — Fez outra pausa, sentou-se e continuou — Ernesto, as dificuldades financeiras que irão passar, me preocupam, mas não tanto quanto me preocupam as diferenças culturais que sempre existirão entre vocês. Embora seja adorável, Ema é mimada e cheia de caprichos e você sabe bem disso. Você, por sua vez, é um rapaz impulsivo. Então será inevitável que se confrontem constantemente. E eu até suportaria saber que ela passa privações financeiras, mas não suportaria saber que foi maltratada física ou verbalmente e não hesitaria em acabar com você se isso acontecesse. Posso parecer, mas não sou um "banana", como se diz. Portanto terá de ter muita paciência e tato com ela, Ernesto. Tratá-la como a princesa que ela é e sempre será. Se me prometer isso, terá minha permissão e benção para se casar com minha filha, apesar de todos os pesares. — Reclinou o corpo para a frente. — Acabei meu monólogo. Pode falar, agora.
— Posso fazer esse tal de "monólago" também?
— Monólogo, Ernesto. Pode sim. — Respondeu achando petulante, mas engraçada a atitude do rapaz.
— Sr. Aurélio, eu estou muito feliz por que o senhor vai aceitar nosso casamento. Sim, porque sabe que vou prometer o que me pediu. E estou feliz não por mim, mas por Ema, que não teria a felicidade completa que eu prometi a ela, se tivesse rompido relações com o senhor e é isso que aconteceria, se não aceitasse nossa união. Eu entendo que não sou o genro que o senhor gostaria, claro que entendo. Sou um homem pobre, bruto, sem modos e analfabeto. Também entendo sua preocupação com nosso futuro. Mas saiba que eu não sou um desocupado, que não tenho medo de trabalho e prometo que três coisas nunca faltarão à sua filha: amor, teto e comida. Sem querer ofender, mas acho que isso é mais do que o senhor pode ofertar a ela, pois no momento, além do amor, não pode lhe dar mais nada. — Aurélio abaixou a cabeça, envergonhado. Ernesto se arrependeu do que disse, mas já tinha dito. Se levantou. Agora tinha entendido porque o senhor Aurélio ficou andando de um lado para o outro: não era fácil falar verdades sem se inquietar e sem causar ofensa à outra parte. Continuou — Mas quer saber, Sr. Aurélio? Acho ótimo que vocês tenham perdido tudo e que Ema seja igual a mim: sem dote, sem eira nem beira; sem nada! Sim, porque se ainda tivessem dinheiro creio que o senhor, mesmo estando apaixonado sei lá por quem, não seria tão compreensivo assim e me botaria para correr. Mas do modo como as coisas estão, o senhor e o resto do mundo podem entender que meu amor por Ema é por ela e não pelo o que ela tem. O fato de não terem nada só me beneficia. — fez uma breve pausa — Já as diferenças culturais, que de fato existem, entendo que só nos fazem aprender um com o outro. Viu como se tornou corajosa? Aprendeu comigo. E eu estou aprendendo a ser mais dócil porque ela tem me ensinado isso, mesmo sem querer. Temos muito mais a ensinar e aprender, a cada dia, ela comigo e eu com ela. — Sentou-se diante de Aurélio e o olhou nos olhos — Quanto a mal tratos verbais ou físicos , só posso lhe dizer que, embora frequentemente a deteste pela eternidade de um segundo, no segundo seguinte já a amo cem vezes mais do que amava antes. Nossas discussões são carregadas de paixão, nunca de ofensas e eu preferiria cortar a minha mão, a levantá-la para agredir Ema. Jamais a maltrataria, Sr. Aurélio, eu preferiria morrer. Portanto tem minha promessa de trata-la, não como uma princesa, mas como a mulher mais amada do mundo! — Fez uma longa pausa, pensando se tinha algo mais a dizer. Como não encontrasse mais nada, anunciou: — Acabei, o mono... mono... a minha fala, senhor. Podemos conversar agora.
Aurélio sorriu. Já gostava de Ernesto. Ele tinha um "que" de arrogância e orgulho, misturado com distinção, honestidade, garra! Ele não tinha medo de expor o que pensava; era transparente. Lutava pelo o que queria! Admirou o jovem! Entendeu porque Ema estava tão apaixonada. Como gostaria de ter sido como ele, ao invés de ter sido criado sob mimos e proteções que o fizeram um homem sem anseios e pretensões. Ficou em silêncio, pois estava desconcertado diante do futuro genro. Ernesto quebrou a tensão.
— Espero não tê-lo ofendido, senhor. Eu não tenho travas na língua e as vezes isso me causa inimizades, más compreensões...
— Não se preocupe, rapaz. Estou um pouco chocado porque não é fácil ouvir a verdade. Ainda mais quando se é bajulado por uma vida inteira. Mas aprecio sua sinceridade e creio que seremos grandes amigos. — Estendeu a mão para Ernesto.
— Assim espero, senhor. — Respondeu Ernesto, apertando a mão do sogro, com um sorriso.
Aurélio o puxou para um abraço, que foi prontamente retribuído por Ernesto.
— Deus te abençoe, meu genro! Ema está em ótimas mãos!
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