Notas iniciais
Elizabeta convence Ernesto a procurar por Ema e tentar dissuadi-la de se casar com Edmundo. Continuidade da estória - Ema e Ernesto - 01. A Separação, por Debbie Anna

Continuidade da estória — Ema e Ernesto — 01. A Separação, por Debbie Anna

— Ernesto, não acredito que você vai permitir que Ema cometa um disparate desse!

— Eu? Permitir? Quisera eu pudesse permitir ou não, alguma coisa na vida daquela teimosa metida!

— Ernesto, você sabe o que eu quis dizer! Fale com ela sobre esta besteira que vai fazer!

— Eu já falei, Elizabeta! Ela não quer me ouvir! Cismou que tem o dever de salvar sua família, de cumprir com a tal promessa que fez à mãe dela! Tonta!

— Fale com ela novamente!

— Não. Eu já disse tudo o que precisava dizer. Já disse que a amo, já disse que podemos ter um futuro maravilhoso juntos, já disse que morro sem ela! Mas Ema não quis saber. A verdade é que ela não está nem aí­ comigo. Disse que me ama, mas não ama nada! Quem ama não machuca o outro dessa forma.

— Ernesto, entenda, Ema está passando por momentos difí­ceis. Ela sempre foi rica e mimada! A decisão mais séria que ela tinha que tomar era qual a cor do vestido que iria vestir no próximo baile ou qual casal combinava mais! De repente acontece um reviravolta e ela fica decepcionada com o avô, perde a confiança no pai, perde a amizade de Jorge, perde todas as suas posses, vem morar num cortiço.... Seja compreensivo, fale com ela mais uma vez, por favor!

— Não, Elizabeta! Sua amiga já tomou a decisão dela. Ema me pisou, me estraçalhou o coração, mas se entrasse por esta porta arrependida dessa história e desistisse do casamento, eu esqueceria tudo o que me disse e voltaria com ela imediatamente. Mas não, ela me evita, não quer me encontrar.

— Ela está confusa, Ernesto!

— Confusa, que nada! Não posso ficar me arrastando aos pés dela feito um verme.

— Isso é orgulho, Ernesto!

— É orgulho mesmo! Qual o problema? Só porque sou um pobre miserável não posso ter orgulho e amor próprio, ora?

— Ernesto, olha para você! Sofrendo dessa forma e se metendo em brigas para, como você diz: "extravasar"! Está todo quebrado! Por fora e por dentro! E Ema? Ema está triste, confusa, cabisbaixa, chorando pelos cantos! Sabe aquele sorriso lindo dela? Sumiu! Aquele ar de menina faceira? Desapareceu!

Elizabeta se aproximou dele e amenizou o tom da voz, como se falasse com uma criança:

— Ernesto, você é uma das minhas pessoas preferidas nesse mundo. E Ema é como uma irmã para mim! Eu quero que sejam felizes e se não estiverem juntos, vai ser um triste e amargurado para cada lado! Imagine Ema nos braços de outro homem! Imagine os filhos dela com outra pessoa que não seja você! — Ela observou a expressão de dor no rosto dele — Dói, não é? Só de imaginar! Agora, meu querido amigo, é isso que acontecerá se você não tomar uma atitude! Você poderá se arrepender amargamente por não ter passado por cima do seu orgulho e lutado pelo amor de Ema!

— E se ela me rejeitar de novo?

— Se isso acontecer, ao menos você tentou. Não carregará a culpa por não ter tentado até os seus limites! Passe por cima de seu orgulho! Eu sei que você é a solução para a vida de Ema, que só você poderá fazê-la completamente feliz e sei que ela te ama, sim!

— Você tem um poder de convencimento incrí­vel, dona Elizabeta! — Respondeu ele com um sorriso amargurado. — Vou procura-la hoje à noite.

— Assim que se diz, Carcamano! Pode deixar que vou sair com Darcy e nem darei as caras no quarto!

À noite, Ernesto foi até o quarto de Ema e bateu. Não queria que ela o visse machucado, mas não tinha jeito. Até mesmo porque no outro dia ele iria trabalhar e provavelmente ela o veria no bar. Ao vê-lo à porta, Ema paralisou: por ele estar ali e pelo estado em que sem encontrava.

— Boa noite, Baronezinha.

— Ernesto! Está todo machucado! O que aconteceu?

— Me meti numa briga.

— Entre! — Ela viu ele que mancava, quando caminhou para dentro — Está mancando!

— O maledetto me deu um chute no joelho. Golpe baixo. Mas já que passa. O que importa é que ele também ficou quebrado! — Deu um sorriso torto, lembrando o estado em que deixara seu oponente.

— Está doendo? Você precisa de alguma coisa? Quer que te ajude?

— Não. Já estou bem. A Dra. Mariko me examinou.

Ao ouvir o nome da médica, Ema sentiu uma fisgada no estômago. Já tinha percebido que ela andava arrastando asas para cima de Ernesto! Como foi examina-lo, certamente o tinha tocado!

— Preciso conversar com você. — Ele a trouxe de volta de seus pensamentos.

Ela se aproximou mais dele para vê-lo melhor, pois estava preocupada.

— Meu Deus, olhe para o seu rosto! Porque fez isso, Ernesto?

— Fui extravasar minha dor. Queria sentir no meu corpo todo o estrago que tenho no coração. Mas nem de perto a dor é a mesma!

— Espera aí você vem ao meu quarto para me dizer que está assim por minha culpa?

— Se quem quebrou meu coração foi você, pode se considerar culpada pela minha cara quebrada também!

— Ernesto! Como você é infantil! Porque fica me provocando, me fazendo sofrer ainda mais? Eu preciso fazer o que precisa ser feito!

Ernesto percebeu que ela iria se manter no propósito do casamento com Edmundo e expodiu:

– E eu tenho que fazer o possí­vel para manter a sanidade! Você está me deixando louco, Baronezinha! Louco de amor, louco de raiva, louco de vontade de te matar, mas de te beijar também! Então fui ao ringue e me meti numa luta, porque dentro do meu peito tem um coração que bate, que sangra, que ferve, que explode e que está ferido, ferido de morte!

Ela ficou em silêncio. Lágrimas brotaram em seus olhos. Tremia, diante das palavras proferidas por ele, que a atingiram direto no coração, como flechas certeiras.

— Eu nunca quis te ferir, Ernesto! Nunca quis te magoar, te causar dor! — Disse com a voz embargada.

— É mesmo? Jura? Então porque raios diz que me ama, mas vai se casar com outro por dinheiro? Já sei: para manter seus perfumes franceses na penteadeira! Ou seria para comprar mais vestidos de renda inglesa? Ah, também para ter alguém para te pentear! E dar mais festas memoráveis na Fazenda Outro Verde! Ah, não espere! Estava me esquecendo: é para manter seu papaizinho no ócio e seu vovô no mais alto ní­vel da soberba! É isso!

— Não fala assim! — Ela tapou os ouvidos com as mãos — Está me ferindo!

Ele aproximou-se dela, tirou suas mãos dos ouvidos e as prendeu nas costas dela. O movimento a trouxe para bem próximo dele, podia ouvir o coração dela bater contra o seu peito, sua respiração ofegante.

— Você escolheu ser ferida, Ema! Sabe que não sou fino, nem educado, nem nobre o suficiente para ficar medindo o que vou dizer! — Ele fez uma pausa, engoliu em seco e baixou o tom de voz — Mas pensa que me agrada te falar o que falo, desferir palavras cruéis, sendo que a minha vontade era te envolver nos meus braços e te beijar até perder o fôlego? — Controlou-se ao máximo para não fazer o que gostaria, já que a proximidade dela o perturbava ainda mais: o cheiro de seu perfume, o hálito fresco de sua boca, seus lábios carnudos e rosados.... Soltou-a e deu-lhe as costas para se recuperar do efeito que ela causava nele. Ainda de costas, a ouviu dizer.

— Você não me ama, Ernesto. Se me amasse como diz me deixaria livre para fazer o que eu preciso fazer, sem me ofender dessa forma!

— Enlouqueceu, senhorita? Claro que te amo! — Respondeu voltando-se para ela.

— Não ama, Ernesto! Isso é paixão, não amor! Paixão que é assim: um sentimento louco, sem limites, sem consequência!

— Não julgue conhecer meus sentimentos! Eu te amo com toda a força do meu coração! Eu me rendo, sucumbo, me deixo arrastar e consumir por este amor! Porque sou assim, é a minha natureza! Não sou contido e nem calculista como a senhorita! Não imponho limites e nem consequências aos meus sentimentos! Vivo tudo intensamente, com paixão mesmo, é assim que sou!

— Você é um turbilhão de sentimentos, Ernesto! E você os confunde! Outro dia mesmo estava "apaixonado" por Elizabeta! E agora diz que me ama? Quem garante que amanhã não estará "amando" outra? E me deixando abandonada ao vazio, à insignificância e ao desprezo de minha famí­lia? Não posso me dar ao luxo de um relacionamento tão arriscado!

Ele pensou sobre o que ela dizia. De certo modo tinha razão em temer, pois ele era mesmo um turbilhão, sempre o fora e ela era contida e calculista. Tentou se explicar.

— Eu sempre fui impulsivo.... Desde pequeno ficava confuso entre meus sentimentos. Então corria para a barra da saia da minha mamma e ficava amuado no colo dela até melhorar. — Sorriu, lembrando-se com saudades de sua mãe — Muitas vezes confundi meus afetos e desafetos também. Foi assim com seu avô, eu o odiava, mas depois passei a gostar dele; foi assim com Camilo, eu o achava um burguesinho mimado, hoje é meu melhor amigo; foi assim com Darcy e também foi assim com Elizabeta, achei que estava apaixonado por ela, mas tinha paixão pelos sonhos dela, que são semelhantes aos meus. Somos espí­ritos livres e incompreendidos, é natural nos identificarmos um com o outro. — Se aproximou de Ema — Mas com você, Baronezinha... com você é tudo diferente! Às vezes eu te odeio pela eternidade de um segundo, porque você é muito, muito diferente de mim! Mas no segundo seguinte, justamente pelos mesmo motivo, te amo muito mais; meu amor se multiplica!

— Ernesto, pare... — Ela murmurou. O que ele dizia a estava torturando, a confundia.

— Baronezinha, meu amor por você não cabe no meu peito! Por isso eu luto! Eu luto por este amor!

— Pare de lutar! Não quero que lute!

— Luto sim! Não sou covarde e nem tenho limites, principalmente quando se trata de você! Não posso permitir que se case com outro! Que tenha filhos com outro! Que envelheça ao lado de outro! Eu te amo, Ema e vou lutar por você até o fim porque você também me ama!

— Pare! Essa sua luta está me destruindo! Sinto-me a pior das criaturas! Por favor, me deixa em paz! Não quero saber desse amor! — Ela gritou, desesperada.

Ele a olhou estupefato. As palavras que ela proferira lançadas como socos e pontapés em seu coração! Como espada atravessando sua alma! Relutou contra as lagrimas que lhe brotaram nos olhos, mas elas caí­ram, livremente, assim como caia sua esperança de ter Ema de volta. Deu-lhe as costas novamente. Para dizer o que diria, não poderia olhar para ela. Com a voz embargada, proferiu as palavras:

— Está bem, Ema. Eu já entendi, não sou tão burro quanto pareço: é você quem não me ama, embora diga o contrário. Nocaute, você venceu! Eu saio do ringue, paro de lutar. Não vou mais te incomodar, está livre para se casar com Edmundo, o rico! Volte para a sua vida de ordem e beleza e eu fico aqui na minha, cheia de caos e confusão. — Sem se voltar para ela, andou em direção à porta. — Adeus, Ema! — Saiu, sem olhar para trás.

Ema caiu na cama e chorou como nunca havia chorado em toda a sua vida. Os soluços chacoalhavam seu corpo. Não podia ver nada à sua frente, de tantas lágrimas que lhe vinham aos olhos. Sua alma estava em agonia. Ver Ernesto fisicamente ferido a fazia sofrer, mas nem perto do que estava sofrendo ao vê-lo chorar diante dela — chorar uma dor que ela havia causado, mas que infelizmente não poderia remediar. Melhor que Ernesto achasse mesmo que ela não o amava. Como ele tinha dito outro dia, seria menos doloroso para ele. Seu casamento estava marcado, dentro de uma semana, seria a Sra. Edmundo Tibúrcio, sua família estaria salva, sua mãe descansaria em paz e ela seguiria com sua vida, em direção ao abismo de dor e sofrimento que a aguardava.

Ernesto saiu tropeçando pelo corredor do cortiço. Nem os socos e pontapés que levou no ringue o fizeram perder tanto o equilí­brio como aquela conversa. Era definitivo, Elizabeta estava errada! Como quis que a amiga tivesse razão! Como quis que Ema caí­sse em si e deixasse essa loucura de casamento por conveniência! Se ela assim o fizesse, ele a receberia de braços e coração aberto! Mas sua Baronezinha pedira para ele a deixar em paz, exigiu que ele desistisse dela! Então era isso que faria. Deixaria Ema viver a vida dela e seguiria com a sua, em direção ao abismo de dor e sofrimento que o aguardava.

Ema e Ernesto, um sem o outro, estavam fadados ao mesmo destino, caminhavam para o mesmo lugar: um abismo repleto de dor e sofrimento.

Notas finais
Espero que tenham gostado! Comentários serão muito benvindos!
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!