Ema e Ernesto - 01. A Separação

1 Ema e Ernesto - 01. A Separação


Notas iniciais
Esta estória começa quando Ema retorna do Vale do Café, decidida a terminar com Ernesto e se casar com um homem rico. Será o pior momento de sua vida, pois ela o ama profundamente.

A Separação

Esta estória começa quando Ema retorna do Vale do Café, decidida a terminar com Ernesto e se casar com um homem rico. Será o pior momento de sua vida, pois ela o ama profundamente.

— Baronezinha! Voltou como prometido! — Ernesto caminha até Ema, feliz e aliviado por ela estar ali, pois ela já havia passado tempo demais no Vale do Café e ele temeu que não voltasse mais. Chegou até mesmo a pensar em pedir folga para o Seu Manuel e ir atrás dela, averiguar o que estava acontecendo. Quando se aproximou e pôde vê-la melhor, percebeu que havia algo errado...

— Aconteceu alguma coisa, minha Baronezinha? Parece tris...

Ema corre para ele e o cala com um beija na boca. Ele a puxa para si, erguendo-a do chão, sem descolar seus lábios do dela.

— Não sabe como ansiei por este momento. Estava morrendo de saudades de você! — Disse ele, na pausa do beijo, recostando sua testa na dela.

— E você não sabe o quanto eu quis adiá-lo!

Ele a olha sem entender, soltando-a devagar. Ela começa a falar apressadamente, para não perder a coragem de dizer o que tinha de ser dito.

— Este foi um beijo de despedida, Ernesto. Não posso mais estar com você. Vou me casar com outro. Vou voltar ao Vale do Café depois de amanhã, porque estou noiva de Edmundo Tibúrcio. Vamos nos casar brevemente.

— O... o quê?! — Respondeu ele, atordoado. — Não pode estar falando sério! É brincadeira, não é? Não brinca assim comigo, Baronezinha!

— Não é brincadeira, Ernesto. Tenho de fazer isso. Para salvar minha família, vou me casar com um homem rico. Preciso dar um final de vida digno para meu avô e prometi à minha mãe que cuidaria de meu pai...

— Às favas com esta promessa ridícula!

— Não fala assim!

— Falo, falo sim! Aposto que sua mãe, aonde quer que esteja, não está nada feliz com a sua decisão! Se sacrificar dessa forma! Se casar sem amor, por dinheiro! E os seus sonhos?

— Eu nunca tive muitos sonhos, Ernesto. Sou diferente de você e de Elizabeta. Meu sonho era só me casar. Nunca pensei em amor e paixão. Um marido gentil e educado já me bastaria.

— Não acredito no que estou ouvindo! Pois não conheceu o amor e a paixão nestes últimos meses? Ou estava fingindo o tempo todo?

— Não! Não fingi!

— Então como poderá viver sem isso? Como poderá se contentar com gentileza e educação? Coisa que Edmundo nem possui, pois sempre foi um fanfarrão!

— Eu preciso salvar minha família. É o preço que tenho a pagar...

— Vai pagar pelo erro deles? E eu? Aonde eu fico nessa história? Sim, porque seu avô está velho e logo vai bater as botas, seu pai é um frouxo que não sabe fazer nada e sua mãe está morta!

— Não fala assim da minha família!

— Falo! Você pensa em todos eles, mas não se importa de apunhalar meu coração dizendo que vai se casar com outro por dinheiro! Está me estraçalhando e nem se importa! — Ele se aproximou dela e a pegou pelos ombros. Olhando-a nos olhos, declarou — Eu te amo, Baronezinha! Eu te amo tanto que esse sentimento não se contém no meu peito, explode e sai pelos meus poros! -Encostou a testa na dela e implorou — Não faça isso comigo...

— Não posso ficar aqui no cortiço, Ernesto. — Respondeu Ema, reunindo todas as suas forças para não ceder aos apelos dele — Tenho meus compromissos e minha promessa. Meu avô está velho e doente e meu pai entrou em depressão. Se algo acontecer a um deles eu jamais me perdoaria. Não seria feliz com um peso desse me assombrando a vida toda...

Ele se afastou, tentando digerir aquilo tudo. Sentia-se completamente atordoado, como se tivesse levado socos e pontapés no estomago. Com dificuldade, perguntou, temendo a resposta dela:

— Então essa sua decisão final?

— Sim, Ernesto. Está decidido. — Respondeu ela, tentando manter a voz firme.

— Está bem! Está bem! Então me faça um último favor — Aproximou-se e a pegou pelos ombros novamente. — Olhe nos meus olhos e diga que não me ama.

Ela ficou muda.

— Vamos, Ema! Olhe nos meus olhos e me diga! Vai tornar menos difícil para mim saber que você não me ama! Que você ama os seus compromissos e a sua promessa! Que ama seu piano na sala de estar! Que ama seus vestidos e perfumes caros e sua vida burguesa! Vamos diga! — A cada frase ele a chacoalhava com mais força, estava desesperado, perdendo o controle. Por fim, gritou com Ema, um grito que ecoou pela ruela do Cortiço: — Diga que não me ama, Ema! Diga!

Ema fechou os olhos para não olhar para ele. Balançando a cabeça em negativa, murmurou, quase inaudível:

— Não posso... não posso dizer essa mentira... não posso, Ernesto! Eu te amo! Você sabe que amo! — Ela tremia, lágrimas escorriam de seus olhos fechados.

Ernesto a puxou para si, arrependido de ter gritado com ela daquela forma. Mas ela o estava deixando louco!

— Desculpe. — Pediu puxando-a para si e beijando seus cabelos sedosos -Desculpe por ter gritado com você, minha Ema, minha Baronezinha...

Ficaram em silêncio por vários minutos, abraçados um ao outro. Ambos choravam. Ela, copiosamente; ele com lágrimas silenciosas que brotavam, mas teimosas, não escorriam. Se pudessem, congelariam aquele momento. Morreriam nos braços um do outro. Mas assim que os soluços de Ema diminuíram, Ernesto pegou o rosto dela entre as mãos, forçando-a a olhá-lo nos olhos.

— Ema! Ema me escuta: eu sei que você foi criada no luxo. Mas isso ficou no passado! Por favor, olhe para o futuro! Eu não posso te dar tudo o que você teve, mas posso te dar um futuro maravilhoso! Não tenho medo de trabalho e vou lutar para te dar uma vida digna! Podemos dormir e acordar juntos, dia após dia; lutar e conquistar nossa casa; ter filhos encantadores! — Neste momento ele fez uma pausa, por que percebeu que ao mencionar "filhos" ela esboçou um leve sorriso, um sorriso mínimo, mas que não lhe passou desapercebido.

Por uma fração de segundos Ema imaginou os filhos que poderia ter com Ernesto: três meninos e uma menina, todos com cabelos negros e sorriso largo, correndo pela sala. Sorriu sem querer.

Ernesto aproveitou o momento para intensificar seu discurso e continuou:

— Filhos adoráveis e lindos, correndo pela sala, Baronezinha! Felicidade completa, que não há dinheiro que possa comprar! Que só o amor pode trazer!

Ema fechou os olhos, para fugir dos de Ernesto, respirou fundo e viajou no tempo. Foi para o futuro e visualizou seu avô, velho e doente, morrendo num quarto escuro e fedorento. Também viu seu pai, bêbado, caído numa calçada e desprezado pelos transeuntes. Voltou ao passado, no leito de morte da mãe, "eu prometo cuidar deles, mamãe. Pode ir em paz" dizia entre lágrimas e soluços.

— Não, posso... não posso, Ernesto. — respondeu ela, num quase sussurro.

Então ele a soltou, um tanto quanto contrariado e enojado pela atitude dela.

— Você me enganou, Ema. Me fez acreditar que nossas diferenças não importavam, que você poderia viver no meu mundo. Me fez acreditar que o seu amor por mim havia te libertado das conveniências, futilidades e demagogias do seu mundo. Mas aí está você: a mesma burguesinha esnobe, mimada e covarde, capaz de desistir de uma vida intensa e apaixonante, por dinheiro.

— Ernesto, você não entende, Ernesto...

— Não, não entendo. Como poderia? Afinal sou um carcamano burro e ignorante, não é? Nunca vou entender que, mesmo me amando, você despreza esse sentimento e o troca por bens materiais, sob o pretexto de ajudar sua família! Se você não me amasse, eu te entenderia e até seria capaz de te perdoar. Mas você me ama e isso, isso... — Engoliu em seco, lutando contra as lágrimas que brotavam nos olhos — Você me ama, Ema e eu amo você. Isso me impede de entender nossa separação! Nunca serei capaz de entender essa troca que você está fazendo!

— Ernesto...

— Mas, tudo bem. Esta é a sua decisão, não vou insistir. Espero que, de alguma forma você seja feliz. Sinceramente não consigo imaginar como. Mas por te amar, te desejo isso. E, embora para mim a felicidade longe de você seja quase impossí­vel, ainda assim não vou desistir de busca-la, porque eu nasci para ser feliz. Adeus, Baronezinha.

Ele saiu arrasado. Ela ficou na rua por alguns minutos. Depois correu para os braços de Elizabeta, somente sua melhor amiga poderia entende-la.

Notas finais
Esta é minha primeira estória. Espero que tenham gostado!
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!