Em um Canto Escuro
5 Elo
Notas iniciais
Ambos em queda livre, o uivo do ar corta os ouvidos de Requy, que tenta visualizar a Armadura dentre os estilhaços de vidro e contra a escuridão que os cerca. Sente uma energia negativa vindo de sua direita a tempo de esquivar-se de uma rajada negra, varrendo estilhaços de vidro de seu caminho. Ao recompor-se, Requy conjura mais cristais de gelo, preparando-se para atacar mais uma vez. Seguindo a direção de onde veio o disparo, ele encontra a Armadura a alguns metros a sua frente, preparando o corpo para lançar o que parece ser um soco.
— É uma brecha. — sussura Requy para si mesmo. Girando o cajado no ar e terminando por aponta-lo ao inimigo, chamas se concentram no orbe no topo do cajado e, ao comando do garoto, se direcionam em forma de esferas flamejantes contra o atacante oposto. Neste mesmo momento, a Armadura movimenta seu braço semelhantemente a um soco, desprendendo seu braço do corpo e investindo em alta velocidade contra Requy, encontrando no caminho a magia de fogo do garoto e atingindo-a, sem sofrer danos. No que o fogo se estingue no punho da Armadura, os cristais de gelo disparam contra o mesmo alvo das chamas, atingindo estrondosamente o braço do oponente.
Os cristais de gelo produzem uma névoa ao atingirem seu objetivo, cobrindo parcialmente a visão de Requy. Preparado, ele conjura novamente a magia de gelo em volta de si e, mentalmente, prepara sua próxima manobra.
— Não foi como eu pensava mas pode ter-
Antes que possa concluir a frase, o outro braço da Armadura corta a névoa, pronto para atingir o garoto em cheio. A única reação que ele consegue ter é fechar seus olhos, pronto para receber o impacto do golpe. Então, o som de metal se chocando corta o ar com força, fazendo Requy abrir os olhos. Um forte brilho está a sua frente no local onde antes estava o braço da Armadura, que se destrói em diversos pedaços com o golpe que o atingiu de surpresa. Ao olhar na direção de onde o som veio, ele não consegue acreditar em quem se encontra ali, com uma lâmina em mãos e responsável por salvar sua pele.
Mais uma vez.
Um segundo movimento, o som de ar sendo cortado e um segundo impacto faz com que o resto do braço da Armadura se desfaça em pó negro.
A imagem tão familiar de sua amiga faz Requy ficar pasmo por um momento, e Lute nota instantaneamente:
— Foco! Ele está voltando!
A Armadura se lança contra o garoto, cortando o ar com seu pé estendido à frente de seu corpo com uma velocidade assustadora para algo de seu tamanho. Com um movimento de sua arma, Requy se lança para fora do ataque inimigo, aproximando-se de Lute.Uma luz começa a surgir de baixo dos combatentes, e eles aterizam pesadamente sobre um novo vitral. Apesar do tempo pelo qual caíram, o impacto da queda foi mais leve do que deveria ser, mas ainda assim foi necessário um momento para os jovens se recomporem.
Não a Armadura.
O gigante logo se pôs de pé, e estava pronto para atacar novamente.
— Vamos nos organizar. — disse Lute por baixo de um grunhido de dor — Ele é grande, mas somos mais rápidos e mais espertos. Essas coisas parecem se moverem apenas por instinto.
Requy concordou com a cabeça.
— Você consegue distraí-la? Se eu conseguir encaixar um ataque certeiro, consigo uma brecha para você.
— Farei o possível. — assentiu a garota.
Brandindo sua estranha lâmina, Lute corre diretamente para o inimigo, que vê uma chance ótima de ataque. A menina se esquiva agilmente pelo lado de seu oponente e atinge-lhe com um rápido ataque nas sua lateral. O golpe não foi muito forte, mas fez a criatura se virar contra ela, e nesse momento Requy levantou sua arma e brada: Fire!
Uma esfera de fogo lança-se de seu cetro e atinge o inimigo na face enquanto ele está distraído com Lute. Instintivamente virando-se na direção das chamas que o atingiram, sua cabeça fica desprotegida. Lute salta o mais alto que pode e Requy, com um segundo movimento de seu cetro, lança uma esfera de gelo na direção de sua amiga, que em pleno ar pisa na magia do garoto e a usa como uma plataforma para pular mais alto, igualando a sua altura com a de seu inimigo.
Com um movimento completo do corpo, ela gira sua arma na horizontal, e com um brilho, a cabeça de seu oponente separa-se de seu corpo seguida por uma fumaça preta.
A escuridão em volta dos dois se dissipa, e os céus de Planetary se revelam, porém, a luz que os recebe não lhes é familiar.
O que antes era um céu metade estrelado e metade escuro, agora brilhava com duas gigantescas luas, uma em cada metade. Os dois jovens olham para o céu, e logo depois, um para o outro.
Requy é o primeiro a falar.
— Então… — ele não sabe por onde começar realmente — O que está acontecendo?
— Gostaria que você pudesse me responder, — apesar de visivelmente confusa, Lute mantém seu habitual sorriso, provavelmente encontrando alguma graça na situação — você que é o que gosta de fazer teorias aqui.
— Hehe, tem razão… mas estou completamente perdido. Eu sei que deveria estar deitado em minha cama agora, e isso parece um sonho, mas… — ele olha para a amiga, confuso — você está aqui. Realmente aqui. Posso sentir que você não faz parte de um sonho meu, algo me diz que você é você.
— Ok, isso tá parecendo os discursos sobre livros do professor Mathew. E assim como eles, esta explicação não ajuda em nada em entender o que está acontecendo aqui.
— Bem, é um começo pelo menos. Mas, eu realmente sinto como se estivesse sonhando, mas ao mesmo tempo que isso não é apenas um sonho
— Woah! — Requy exclama assustado. Ambos notam, ao olhar para baixo, que não estão mais sobre o piso de vitrais.
Estão, na verdade, flutuando diversos metros acima das casas e prédios de sua cidade. De onde estão podem ver o Observatório, a Escola, as casas de ambos os jovens. Todas iluminadas pela luz das duas luas, descansando tranquilamente, como se os conflitos dos últimos minutos não tivessem ocorrido.
— Mas o que? — Lute nem tenta terminar a frase e move seu pé e sente tocar em algo firme, ainda que transparente. É como se ela estivesse ali e não estivesse ao mesmo tempo. Como se fizesse parte daquele lugar mas também não deveria estar ali. Ela começa a andar na direção de Requy. Apoiando seu dedo indicador em seu queixo, ela continua com a divagação. — Sabe, eu fico com a sua teoria do sonho, Requy. Eu sinto como se não pudesse estar aqui, e esse lugar… Ele não me passa a mesma sensação de quando sonho normalmente, e muito menos a sensação que tive a alguns minutos atrás, andando sobre aqueles vitrais.
— Peraí. — interrompeu o amigo — Você também estava naquele lugar?
— Sim, eu fiquei andando por diversas portas e plataformas enfrentando sombras que me atacavam. Elas possuíam formas diversas, mas com a arma que eu achei, foi fácil dar conta delas.
— Arma? Aquela lâmina esquisita?
— Essa mesma. — E estendendo o braço, a estranha lâmina se materializa na mão de Lute, surgindo de um forte brilho azul. — Ela estava encravada em um dos vitrais pelo qual passei, e uma voz em minha cabeça me falou para empunhá-la.
Requy cruza os braços.
— E você foi fazendo o que uma voz estranha na sua cabeça disse para você fazer?
—Não que eu tivesse muita escolha. — Defendeu-se a menina. — E você? Como conseguiu sobreviver até eu aparecer?
— Bem… — Requy pigarreia, notando a ironia da situação — Voz estranha. Cetro.
Ele mostra à Lute o cetro que está em suas mãos desde o momento que a estranha voz falou com ele. O orbe na ponte emite um leve brilho no que ele o levanta.
— Eu acordei no meu quarto. Havia uma daquelas criaturas lá. Eu escapei pelo corredor e no fim dele havia uma escada levando até uma porta no céu. Quando cheguei lá, estava com isto em minha mão.
A sua amiga coça a cabeça, pensativa.
— Sabe, — começa — foi bem isso que aconteceu. Eu acordei em meu quarto e subi até uma porta no céu enquanto fugia dessas sombras. E também havia-
— Algo gigante ao horizonte? — pergunta Requy, sua preocupação aparente em sua voz.
Lute olha fundo nos olhos do amigo, seu rosto tomado por um semblante sério, e acena positivamente com a cabeça.
Os dois amigos ficam em silêncio. As luzes vindas de baixo, da cidade, começam a sumir, e o ambiente agora é somente iluminado pelas duas luas acima. “Algo está vindo”, pensam os dois ao mesmo tempo e, instintivamente, viram-se um de costas para o outro, armas em punho e olhos atentos para qualquer sinal de perigo.
“Um mundo é mais do que um aglomerado de matéria vagando em uma escuridão infinita. Um mundo, assim como vocês, meus jovens, possui corpo, alma e coração. Então, seria um mundo alguém? Alguém que, como qualquer alguém, possui problemas e necessite de ajuda?”
Uma luz lilás brilha a alguns metros ao lado dos jovens, que se viram prontos para defenderem um ao outro, uma forma revelando-se aos poucos ao centro da claridade. Ao esvair-se, a luz revela a figura de uma mulher, flutuando a poucos metros do chão.
Cabelos curtos, espetados e negros, pele branca como a luz das luas acima e feições delicadas, trajando um vestido longo branco, com detalhes prateados similares a ondas que sobem até os seus ombros, e os jovens puderam ver, quando a misteriosa mulher abriu seus olhos, que possuíam uma cor semelhante ao brilho que a envolvia. Seus pés descalços tocam no chão, seu olhar encontram-se com os olhos receosos dos jovens e ela sorri em sua direção.
— Sejam bem vindos, jovens escolhidos, ao Sonho do Mundo. Vejo que já estão armados e, permita-me a impertinência, confusos. Não temam, lhes explicarei tudo em breve, mas por hora, saibam que um grande número de inimigos, seres das trevas além de nosso mundo, está avançando contra o coração de Planetary. Inimigos estes poderosos, sim, mas não invencíveis.
A testa de Lute se enruga em raiva, e sua voz, agressiva, parece ressoar no ambiente:
— O que? Você nos chama aqui, sem saber se estamos dispostos a fazer isso e quer que a gente aceite fazer seu trabalho sujpo? Nem guerreiros nós somos!
A mulher sorri, um sorriso calmo e sincero.
— Vocês foram escolhidos por aquilo que carregam em suas almas. A batalha que vocês irão enfrentar dependerá muito mais de vossos corações do que de plena habilidade física. Suas armas estão em harmonia com o que vocês são. — ela começa a se aproximar dos dois em passos lentos e graciosos — Vocês chegaram até aqui com a força conferida a vocês. Os desafios postos à sua frente foram apenas testes se comparados ao que vocês irão enfrentar daqui para a frente. Eu sei que não errei em escolher vocês dois, meus jovens. Eu sei quem vocês são, e sei que estão dispostos a proteger aquilo que vocês mais querem.
Seus olhos focaram-se em Requy. “Requy, garoto inteligente e esperto, aquele que cuida de todos a sua volta com paixão e carinho. A você concedo o meu cetro, a Lua do Oeste, e o conhecimento arcano necessário para ser um dos Guardiões dos Aspectos desse mundo. O Guardião do Arcano está selecionado.” Sem palavras, Requy abaixa os seus olhos para o cetro em suas mãos e seus dedos se firmam ainda mais em seu cabo. Uma pequena faísca lilás percorre o orbe prateado.
Virando-se para Lute, a mulher estende a sua mão e ergue a espada nas mãos da garota até a altura de seus olhos. “Lute, menina valente e decidida, que confronta diretamente aquilo que aflige os que estão próximos de seu coração. A você entrego a chave do coração deste mundo, Umbra e Antumbra. Em suas mãos jaz a arma mais forte que posso lhe fornecer. Um presente digno da Guardiã do Coração. Esta arma ancestral é conhecida como Keyblade, uma arma especial capaz de cortar através da escuridão e abrir qualquer porta. Sempre que precisar, conte com ela, e mais importante, conte com aquele que estará a seu lado a todo momento nessa luta.”
Lute fica em silêncio, olhando para a arma em sua mão. Ela examina-a com cuidado agora. Sua guarda arredondada, a empunhadura coberta por um cordão azul escuro cuidadosamente entrelaçado, a lâmina levemente curvada para trás, metade do lado do fio da lâmina coberta por pequenas estrelas que cintilam, a outra metade negra como o céu ao Leste de Planetary. No dorso da ponta da arma, uma Lua Crescente concede à arma um aspecto de chave, “A chave”, pensa Lute, “para este mundo.” Neste momento, sua mente viaja pelos quatro cantos de seu mundo, e rostos familiares cruzam sua mente, como se ela estivesse mostrando à si mesma o porque deveria aceitar a tarefa. Quando pequena, sempre quis ser uma heroína, e agora, em suas mãos está a oportunidade de abraçar este sonho. Seus olhos se encontram aos de Requy, que lhe direciona um sorriso confiante.
Encarando a bela mulher à sua frente, ela acena decididamente com a cabeça.
— Se minha casa está em perigo, eu vou protegê-la com todas as minhas forças.
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