Em tons de azul
1 Capítulo 1
THIEGO
Eu despertei com um susto ouvindo o choro agudo do bebê que deveria estar dormindo. Coloco meu ante braço em cima dos meus olhos e dou um longo suspiro. Me levanto e encaro bebê em seu berço que agitava os bracinhos nervosos enquanto continuava a abrir o berreiro.
Peguei-o e o encaixei nos meus braços, sai do meu quarto e fui em direção a cozinha do meu apartamento. Olhei o relógio, três e meia da manhã, era a segunda a segunda vez essa madrugada que ele acordava pra mamar.
Encostei ele no meu peito e falei para ele:
— Calma, calma. Papai já vai botar comida pra você
Ele pareceu entender, pois ele em seguida abriu os olhos azuis e me encarou firmemente e abriu um sorriso, eu retribuo o sorriso e o coloco em sua cadeirinha especial pra bebês perto da mesa.
Abro o armário, pego a lata de leite em pó, despejo uma colher la dentro com um medidor e coloco água, fecho a mamadeira e agito até misturar.
Benjamim começou a dar sinais de que iria começar a chora de novo. Eu rapidamente coloco a mamadeira dentro do micro-ondas, fecho a porta e adiciono a minutagem. O mais rápido que posso, pego ele e acalmo-o no meu colo.
— Shh Shh Shh…Calma – Ele como em um passe de mágica se acalma, mas não totalmente, continua reclamando com ruídos incompreensíveis de bebê.
Ouço o toque do micro-ondas me alertar que o leite estava pronto. Coloco-o de volta na cadeirinha e pego-a, testo pra ver se o leite não estava muito quente.
Coloco Benjamim encaixado nos meus braços novamente e ponho a mamadeira na sua boca. Depois que ele terminou de mamar eu o botei pra dormir de novo, com um pouco de resistência, mas sedendo no fim.
Coloquei-o no berço e o cobri com a cocha azul ao lado da minha cama. Me joguei na minha cama de casal e durmo em um sono profundo.
…
Sinto que estou dormindo menos de 4 horas por dia, agora eu entendo quando minha tia falava que ela não dormia quando cuidava de seu bebê.
Eu acordei e fiquei encarando a parede cheia de pôsteres até a fadiga que eu sentia no meu corpo diminuir e me levantar. Esse garoto estava acabando comigo.
Sentado na beirada da cama, coloquei meu braço e queixo na beirada do berço e fiquei-o admirando dormir em posição fetal de barriga pra baixo com seu body também azul.
Embora ele tivesse tornado meu tempo livre em me dedicar inteiramente a ser pai e cuidar dele, eu sou feliz.
Quando eu estava perdido em meio aos meus pensamentos o choro repentino de fome e o celular na minha cabeceira tocando, me despertaram dos meus pensamento. Olho por cima do ombro para o celular e vejo que era o despertador me avisando que eu deveria sair pra trabalhar. Desligo o despertador e pego o bebê, descobri que o choro não era de fome, e sim avisando que ele precisava ser trocado.
Troco sua fralda e coloco outra roupa nele, só aí eu percebi que eu tinha gastado 6 pacotes de fralda em 2 dias. Esse garoto está me levando a falência.
Eu o coloco no carrinho e vou para o banho. Volto para meu quarto e coloco uma camisa social branca que deixa meu peitoral marcado com os dois botões de cima abertos, deixando um pedaço do meu peito exposto, dando um ar mais sensual. Usei uma calça jeans azul e um par de botas marrons de couro.
Peguei o garoto que me encarava com aqueles olhinhos azuis cheio de curiosidades. O coloquei-o nos meus braços e fui até a sala, o coloquei na cadeirinha, apertei o cinto, e o levei pra cozinha comigo. Fiz meu rápido café da manhã e comi. Peguei meu celular e a carteira e os coloquei no bolso no meu quarto.
Voltei para a cozinha e peguei Benjamin, que já estava com cara de quem queria chorar por passar alguns poucos segundos sozinho.
— Covarde – Falei enquanto fingia ter cara de bravo e o agitava no ar o segurando pelos braços.
Vi um sorrisinho banguela se formar no rostinho gordo do bebê.
Coloquei-o na cadeirinha e tranquei todas as portas e janelas do meu apartamento. Fechei bem a porta, coloquei as chaves no meu bolso. Desci as escadas. Chegando no saguão peguei meu celular e olhei as horas 07:40. Atrasado de novo.
Ainda bem que as primeiras aulas não são minhas.
Coloquei Benjamin e cadeirinha no banco de couro preto de trás, ataquei o cinto e parti em direção ao banco do motorista. Dirigi quase como se não estivesse atrasado em direção a casa da minha mãe.
As ruas tranquilas de Recife pareciam quase desertas, era de se estranhar, a essa hora as ruas deviam estar lotadas de carros indo em direção aos seus respectivos empregos. Porém, a manhã de sexta estava realmente tranquila.
Estacionei na frente do muro vermelho e desci do carro junto de benjamim, que agora dormia profundamente na cadeirinha – Toquei a campainha e esperei até que a senhora de 64 anos com um coque frouxo e cabelos grisalhos atendesse a porta:
— Oi, mãe – Acenei com minha cara de sínico.
— Você vai se atrasar de novo – Ela falou brava batendo em mim com toda sua força. Para uma mulher de idade minha mãe, parecia estar no auge dos 30 anos, apesar dos cabelos grisalhos minha mãe não aparentava ter mais do que 30.
Mamãe já foi tirando benjamim de mim e mandando eu ir trabalhar – Dei um beijo na testa de Benjamim e uma abraço apertado na minha mãe e me virei pra ir de volta ao meu carro – Dou as costas pra minha mãe e ouço ela falar.
— Eu não posso mais ficar com ele – Ela fala com uma voz baixa e entristecida.
— O que? – Eu pergunto incrédulo.
Minha mãe suspira e volta a falar.
— Vá trabalhar, querido. Não se preocupe, depois conversamos – Ela responde com uma voz baixa.
— Mãe – Eu me viro e ela me encara – Ele ainda não comeu
Voltei pra meu carro e parti pra escola. O dia se seguiu normalmente, mas fiquei com uma rotineira inquietação para descobri oquê minha mãe queria
…
As 18:30 quando fui liberado do trabalho estacionei o carro em frente da casa de mamãe e desci do carro.
O choro de Benjamin podia ser ouvido do lado de fora. Já era de se esperar, ele sempre começa a chorar a esse horário.
Toquei a campainha e escutei o agudo choro se aproximar do portão. Minha mãe surge com ele nos braços.
— Oi – Eu digo com um sorriso mais cínico possível enquanto ela me observa com um profundo e sério olhar.
Pego Benjamin nos meus braços, que quase imediatamente se acalma e se segura com toda sua pouquíssima força na gola da minha camisa, adentro a casa da minha mãe, o segurando.
Ela não diz uma palavra desde que eu cheguei até o momento que se senta com as pernas juntas para a direita e as mãos juntas sobre os joelho. Se eu conheço bem minha mãe, como eu tenho plena certeza que conheço, isso nunca é um bom sinal.
Coloquei Benjamin sentado na minha cintura e o encostrei no meu abdômen. Dei uma profunda olhada em volta e apenas esperei que ela começasse a falar a trágica noticia que Patrícia tivesse morrido. De fato eu torcia que fosse isso, mas minha mãe sabia que eu não me importaria. Então não seria preciso todo esse drama. Nem sequer sei oque ela está fazendo agora e nem pretendo descobrir.
— Então – Eu falei a encarando – o que a senhora queria falar?
Ela dá uma longa suspirada e começa a falar.
— Eu vou ter que viajar – Ela falou da forma mais dramática possível
— Ah, tudo bem. Eu posso deixar ele com Amanda. Ela pode ficar com ele por um tempo, quanto tempo vai ser? Uma, duas semanas?
— Três meses, no mínimo.
— Espera, o que?
— A sua tia está doente, eu vou ter que passar um bom tempo em salvador. O médico falou que ela precisa de alguém pra cuidar dela, no mínimo por três meses.
— E com quem eu vou deixa lo quando eu for trabalhar?
— Você ganha bem, pode pagar uma babá.
— A senhora sabe que eu não vou deixar meu filho com uma desconhecida.
— Eu sei, querido. Mas eu preciso ir.
— Tudo bem, eu entendo. Pode me ajudar a achar uma babá – Eu e Benjamim nos encaramos entre os diferentes tons de azul de nossos olhos.
— Claro, amanhã mesmo vou começar a procurar. Mas já tenho em mente alguém.
— Mãe, alguém conhecido, e com – Fui interrompido pela minha mãe
— Claro – Ela se levantou e foi em direção a cozinha e continuou falando – Eu me lembro que quando você era adolescente você vivia falando “qual é, mãe? Droga, quando eu crescer eu não vou ser esses pais que super protegem os filhos” Hoje você está fazendo exatamente isso com seu filho. Não confia em ninguém para ficar com seu precioso filho – Ela falou dando uma melosa enfase no “precioso filho”
Eu apenas dei uma revirada de olhos em resposta. Ergui Benjamim por debaixo do braços e os encarei com um sorriso bobo no rosto. Observei suas perninhas se agitarem e suas mãos gordinhas tentarem agarrar meu rosto enquanto o mesmo dava gargalhadas.
— Filho, você quer comer alguma coisa?
— Acho que não, mãe – Falei arrumando benjamin nos meus braços e me levantei pegando a bolsa de alça azul claro com um leão na frente e aplumando nos meus ombros. Joguei a minha mochila por cima do ombro e agarrei a outra alça com meu outro braço – Eu vou pra casa.
— Certo – Ela deu um beijo na minha bochecha e na de Benjamim – Até logo, querido.
Ela nos acompanhou até a porta e quando eu colocava benjamim na cadeirinha ela recomeçou a falar
— Que tal eu ir almoçar por lá amanhã?
— Claro, por que não?
Ataquei o cinto dele e fui para o banco do motorista.
Fechei a porta e apertei o meu cinto. Quando eu ia dar partida, olhei pela janela e vi que mamãe estava encostada na porta e falei
— Mãe, quando que você vai?
Ela deu um suspiro
— Sábado
Não falei nada, apenas me virei para a frente e parti para casa.
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