Em pedaços
1 Rachadura
O primeiro soco. A rasteira acompanhada da dureza do chão de concreto. Finalizam com alguns chutes no estômago.
Gosto de sangue. Familiar, amargo e metálico. Nada fora do normal.
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Tiro os tênis velhos e surrados e os coloco com calma atrás da porta, sei que vou usar novamente quando sair.
Meu velho está sentado em sua poltrona de couro, gasta pelo tempo. Algumas partes do tecido estão rachadas e um pouco da espuma está pra fora. Ele olha para a televisão, acompanha o jogo de futebol sem entender muita coisa, os riscos da imagem atraem mais sua atenção do que para onde os jogadores correm com a bola. Pobre homem, lamento por seu fim de vida.
O banheiro é logo à direita, abro a torneira e lavo o rosto tirando o resto de sangue seco. Algumas partes ardem, mas nada muito relevante, já se tornou algo rotineiro.
Quando volto meu olhar para a sala, percebo que o homem continua na mesma posição, sem piscar, hipnotizado pelo visor. Dou de ombros. Subo as escadas de madeira, ao chegar no segundo andar abro a primeira porta do lado esquerdo do corredor: meu quarto.
Assim como o resto da casa, não tem nada de especial. Exceto por Daman.
Ao olhar para a cama, vejo a figura: quatro patas peludas, um rabo comprido com algumas listras escuras, o pequeno corpo marrom estarrado. Ao perceber a presença de alguém no quarto, suas orelhas triangulares se mexem, mas não faz o mínimo esforço para abrir os olhos.
"Maldito gato preguiçoso", sorri.
Me joguei em direção ao colchão, Damen deve ter pulado, pois não tive a sensação de ter esmagado ou amassado nada. Ouvi seu rosnado, virei a cabeça e pude ver o felino arqueado, quase pude sentir seus pensamentos: "Qual seu problema? Não viu que eu estava dormindo? Você é idiota?"
Retornei a rir. Logo ele voltou ao normal e pulou em cima de meu abdômen, sentando e me encarando com seus olhos alaranjados. Acariciei sua cabeça.
Somos os únicos na casa: eu, meu pai e Daman.
Adotei o pequeno haviam quatro anos. No caminho de volta pra casa uma senhora um tanto perturbada o carregava no colo pra lá e pra cá, perguntando a todos que passavam se alguém gostaria de adotar o bichano. Não me pareceu uma má ideia.
Atualmente, creio ter sido a melhor decisão que tomei nos últimos dez anos de minha vida. Dez, porque até chegar aos sete anos, ninguém realmente sabe nada. Ser um cara qualquer de dezesseis anos com um pai doente, estudante mediano e sem algum futuro decente faz de mim um ninguém. Ninguém que você deva conhecer profundamente ou manter relações por muito tempo. Chego a essa conclusão após algum tempo considerável sem qualquer existência humana a qual pudesse chegar perto de chamar de "amigo".
Porém, me recuso a aceitar o pensamento de que sou o adolescente recluso e antissocial que de algum modo tira vantagem disso e espalha sua emoções pelas redes sociais como se fossem alguma espécie de insígnia de honra que o torna diferente e superior àqueles ao seu redor.
Não, sou só o cara que apanha quatro vezes por semana e ao chegar em casa agarra seu gato como se fosse um bicho de pelúcia. Criar todo um drama não é a melhor de minhas áreas.
- Você, meu caro, parece um pedaço de chocolate — amassei suas orelhas
Voltei a pôr as mãos ao lado de meu corpo, fechei os olhos. Uma brisa moderada passava pelas venezianas da sacada, e naquela parte do dia, era uma das sete maravilhas do mundo (na minha versão).
Penso ter adormecido.
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Levanto em um pulo. Esfrego os olhos com as pontas dos dedos.
Aquele sonho, de novo.
Meu corpo dói, talvez por ter apagado na posição errada ou pelos chutes de antes. Daman me olha curiosamente, balançando sua cauda de um lado para o outro.
- Venha cá — o chamo com as mãos. Ele pula, se aconchegando em meu colo — Se você ao menos fosse uma pessoa... — lamento
O coloco próximo ao travesseiro e levanto. Tenho de averiguar se David dormiu na poltrona, em sua idade e estado, certos cuidados devem ser tomados. Desço as escadas e verifico a sala: como previsto, lá está ele.
- Pai — chamo — Acorda, você precisa ir pra cama — sem reposta. Tenho que sacudi-lo.
- Ahn? — desperta assustado — O que você quer?
- Você precisa ir pra cama, já é tarde. Vamos, não quero que tenha problemas com sua coluna.
- Ah, claro...
O velho levanta, se apoia em meu ombro e eu o levo até seu quarto, logo ao lado do banheiro. Logo deita e volta a cair no sono, apago as luzes — Boa noite pai — fecho a porta
Tiro a roupa, jogando-as no cesto de plástico. Ligo o chuveiro e entro no box. A água escorre por minhas costas, um tanto fria. Sinto que meus pelos arrepiam-se.
Contudo, não é isso que me incomoda. Um incômodo tem sua origem em um problema.
Meu problema? Eu não tenho um problema. Por que teria um problema? Não tenho porque ter. Nada me incomoda, nada me perturba.
Os gritos? São normais, não passam de memórias. São só vozes imaginárias, não há porque ter qualquer tipo de medo, seria criancice, estupidez.
Mas então... por que caem pequenas gotas de meus olhos? Ah, sim. Chuva. Há uma chuva dentro de mim, por isso as gotas. A água transborda, e em algum momento, têm de sair, não? Pequenas gotículas, doces por sinal, que se misturam à água jorrada pelo chuveiro.
Ninguém as vê. Não há porquê. Elas não deveriam estar ali pra começar, não é? Será? Não consigo mais ter certeza de nada. Ignore-as Matt. Simplesmente ignore-as. Deixe que passem pelo ralo como só mais uma gota de água.
Visto a calça cinza de tecido, volto para o quarto. Nada demais aconteceu. Deito, abraço Daman, fecho os olhos e torço para que possa ir para meu refúgio. Começo a sentir as vibrações de paz, o conforto incomum e logo posso sentir aquele a quem procuro.
Não é um anjo, não é um elfo, nenhuma espécie de santo. Não tem sexo, mas assume forma masculina: cabelos castanhos, pele clara, maduro. Veste sua túnica verde de sempre e me olha de forma que parece compreender o quanto precisava daquele momento.
"Olá de novo", ele diz. Não é uma voz que possa ser identificada, não tenho certeza de como soa. As palavras só ecoam em minha mente, consigo enxergar seus lábios executando-as.
Não sei como se chama e nem o que é, mas ultimamente era para aquela presença que eu corria quando sentia que meu mundo interior iria desabar. Ele estende seus braços, "venha".
Obedeço, aproximo-me e encosto em seu peito. Logo, fecha seus braços em torno de meu corpo, estou protegido. Nada irá me atingir.
Notas finais
Espero que alguém goste e tenha a paciência de continuar e acompanhar. ♡
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