– Eu chorei de novo hoje — contei

– Chorar faz bem, limpa sua alma.

– Nessa caso, acho que não está fazendo muito efeito

O ambiente era calmo e morto ao mesmo tempo. Em volta do círculo, haviam troncos que faziam a função de um assento e ali eu estava, ao lado da presença.

– Matt — chamou

– Hm?

– Por que guarda tudo para si?

– Não há porque alguém mais saber.

– Você não tem culpa de nada, já deveria entender isso.

– Não insista, por favor. Nada que me diga irá mudar minha opinião — suspirei — Naquela noite, fui eu quem fez David perder a atenção, fui eu quem tirou seus olhos do mais importante por causa de um egoísmo babaca. Como dizem, o resultado é fruto de minhas ações — afundei o rosto na palma de minhas mãos

– O destino não espera e muito menos pede a ajuda de ninguém Matt, aconteceu porque tinha de acontecer. Perceba, você virou toda sua vida de cabeça para baixo por conta de uma culpa que não deveria carregar.

Não adiantava. Não adiantava discutir com ele.

– E como você pode entender qualquer coisa sobre isso? Emoções não podem ser simplesmente controladas, porra! — gritei — Você não pode medir o medo de algúem, ou a tristeza, nem mesmo dor, quem dirá culpa — olhei para seu rosto — Por que minha imaginação me trás até aqui? Quem é você?

– Bela interrupção de assunto — se levantou — Por razões de meu interesse, prefiro não responder suas perguntas. Posso lhe afirmar apenas uma coisa: não sou parte de sua consciência nem nada relacionado a isso

Sorriu, virou-se e saiu andando em direção à mata. Não o segui. Sabia que seu desaparecimento era sinal de que logo o despertador iria tocar e eu voltaria para a realidade.

E assim dito, o aparelho soou.

Merda. Eu realmente não queria levantar.

Daman não estava mais na cama. "Como esperado", pensei. Segui a rotina das quintas-feiras e logo já estava caminhando em direção ao Hoodlestone. Cem metros antes de chegar ao portão da escola, parei. Não queria entrar lá. Seria o mesmo de sempre, e como ninguém perceberia minha ausência, decidi mudar de caminho. Iria ao meu lugar favorito.

Haviam 12 andares. Supostamente, deveria ter sido um edifício residencial de luxo, porém ao que parece, o responsável havia falecido por culpa de um ataque cardíaco. Passaram-se seis meses desde então, e nem sinal de uma possível continuação ou uma placa de demolição. Para minha sorte, a base estava pronta.

Bastava subir as escadas para chegar ao topo e alcançar a bela vista que se tinha de Manchester. Passaria a manhã inteira sentado ali, olhando, observando, analisando.

E principalmente pensando.

Eu não levaria aquela vida pra sempre, iria pôr um fim antes. Não queria ser mais um perdedor em um mundo cheio deles, pessoas vazias que seguiam seus cronogramas lealmente, desgastando-se até seu último suspiro de ar. David era um exemplo disso: havia estudado, trabalho, dado duro na vida só pra acabar com um filho cheio de nada, uma esposa falecida e dias sentado olhando para o nada.

Me pergunto o quê aconteceria se eu simplesmente pulasse desse prédio agora. Se tudo acabasse.

Caminhei até a beirada.

Bom, pra começar, eu acho que encontraria minha mãe. Ela iria vir me abraçar com um sorriso enorme estampado no rosto, e eu diria a ela o quanto eu lamento pelo que aconteceu. Meu pai, provavelmente iria morrer sentado na cadeira a menos que alguém passasse por lá e acabasse percebendo algo de errado, o que é improvável. Daman seria o único a sentir minha falta, acredito. Mas ele sabe se virar, iria sair pelas ruas e acabaria encontrando uma casa nova. Não vejo nada de muito importante em tudo isso.

Olhei para baixo, parecia mais alto do que realmente era. Dei um passo para frente. "Vou?", pensei.

Sentia o vento me chamando, me puxando, convidando-me para um salto em direção à morte.

E então, sem pensar, dei mais um passo. Eu ia pular.

Por milésimos de segundo, não sentia mais o chão debaixo de meus pés. E no fim desses mesmos milésimos, uma mão agarrou meu pulso direito. Olhei então para cima e meus olhos arregalaram-se.

Impossível.

– Chegou mesmo a esse ponto? — sorriu — Desculpe, mas meu egoísmo não vai te deixar ir tão fácil assim, lamento estragar o momento — puxou meu corpo

Era ele. A forma da presença, em pé, diante de mim, no meu mundo, na realidade. Eu não tinha palavras.

– Acho que vou ser forçado a dar uma explicação — riu

– ....eu — as palavras não saíam

– Tudo bem — assentiu — Agora, vamos pra casa, seu pai deve estar esperando por um almoço — estendeu a mão — Chega de drama por hoje. Digo, por enquanto.

Aceitei a ajuda e andei ao seu lado até chegar à casa.

Ele então subiu as escadas. Fui para a cozinha esquentar a comida do dia anterior.

Coloquei o prato na mesa, chamei David, o ajudei a sentar e fui em direção ao quarto. Com pressa. Ansiedade. Havia me acalmado, mas agora outro tipo de nervosismo me consumia: dúvida. Eu queria saber, queria entender. Sentia vontade de correr, mas não o faria.

A porta estava aberta. Ali estava, sentado no tapete felpudo olhando em direção à sacada.

– Oh — virou o rosto — Terminou?

– ...sim.

– Ótimo. Sente ao meu lado.

– Não, obrigada — sentei na cama

– Prefere que eu comece pela parte simples ou complexa? — sentou de frente para mim, abraçando os próprios joelhos

"Você não é simples em um nenhum aspecto", pensei.

– Ahn, pela complexa. Que o mais fácil finalize a conversa.

– Certo. Você está vendo Daman em algum lugar do quarto nesse momento?

– Como você conhece meu gato? — ele manteve silêncio — Não, não o vejo.

– É porque ele está bem na sua frente.

– Isso é ridículo — ri

– Chegue mais perto — desci da cama — Mais perto — me aproximei — Eu não mordo — me puxou para perto de si — Você nunca teve problemas em se relacionar comigo quando dormia, não sei qual o problema agora — resmungou.

Senti meu rosto ficar quente.

– ...e agora?

– Me olhe nos olhos — disse sério

Tudo já era anormal demais, não questionei.

Olhos alaranjados. Fortes, expressivos, como os de Daman.

– Mas... como? — fiquei pasmo — Não consigo entender.

– Existe uma lenda budista... — hesitou por um momento — De que durante a morte de Buda, todos os animais se reuniram para chorar e lamentar sua perda, menos o gato. O gato não derramou sequer uma lágrima, manteve seus olhos secos. Isso foi considerado um ato de desrespeito e o gato foi rebaixado, sendo expulso do círculo de animais sagrados — olhou-me mais uma vez nos olhos — Acontece que esse gato sou eu. Venho vagando pelo mundo a séculos, vivendo como um gato comum. Não posso morrer. E no fim das contas, acabei parando aqui.

Estava perplexo. Havia sido rápido demais. Meu gato era imortal e possuía uma forma humana. Não posso entender. Era demais para um único momento.

– Por que eu o enxergava quando dormia?

– Porque assim eu quis, apesar de não ser mais uma divindade completa, ainda tenho meus dons — encostou sua cabeça na minha — Você parecia triste. Como um gato, não posso fazer nada. E não podia lhe contar nada, seria absurdo.

– Pode voltar à forma de gato? Mesmo sabendo que você não é humano, me sinto estranho encostando em outro cara.

Ele se afastou, vermelho — Ah, perdão — Em um piscar de olhos, estava novamente em sua forma original.

Sorri. Ele veio até mim e se aninhou, mexendo sua cauda e ronronando.

Não sabia exatamente em quê pensar, não é exatamente todo dia que se tentar pular de um prédio, é salvo pelo menos corpo que aparece nos seus sonhos e na verdade ele é seu gato, uma divindade das lendas budistas.

Mas, de certa forma, acho que me sinto feliz.

Notas finais
Então, como disse, vou continuar. Opiniões?
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.