Toque para mim.

Essas palavras haviam se tornado uma rotina na vida de Celaena sempre que retornava de missões distantes nas quais Arobyn a enviava como a maior assassina do mundo, a assassina de Adarlan. Sempre que passava muito tempo longe da guilda dos Assassinos, seu mestre dizia sentir falta da melodia que ela compunha e tocava. Era para isso, afinal, que colocara o piano ali. E embora nunca tivesse dito isso para ela, Celaena sabia que por trás de toda a pompa de dizer que ela precisava de uma habilidade refinada além de matar, aquele era o real motivo: para que sempre estivesse disponível para tocar para ele quando desejasse.

Mesmo nos piores dias, quando Celaena fazia algo que conflitava com os interesses de Arobyn, mesmo nas piores surras que ele lhe dava, jamais ousava a ferir suas mãos. Não de uma forma que jamais pudessem ser curadas, que jamais pudessem ser usadas novamente. Celaena só conseguia se lembrar de uma única vez, durante um treinamento, onde ele a fizera inutilizar a mão hábil para que aprendesse a usar a canhota com tamanha perfeição que agora tinha mais facilidade em manusear as armas com ela do que com a destra.

Naquela época, a tristeza pairava sobre os olhos cinzentos do homem como uma chuva interminável. Em sua inocência, havia chegado a pensar que era porque o mentor se preocupava com ela e com o que havia feito, mas quando recuperou-se completamente e os ossos estavam calcificados, aquelas três palavras ressoaram ao pé da porta de seu quarto, a voz forte e imponente que muitas vezes a fizera se encolher antes de uma surra que sempre deixava marcas e cicatrizes estratégicas para que ninguém visse; as partituras de Arobyn.

Toque para mim.

Havia algo de vivo, dizia ele, quando Celaena tocava piano. Como se o instrumento fosse uma extensão de seu corpo, como se cada nota que ressoasse fosse um pedaço da sua alma que se revelava. Revelava a verdadeira Celaena.

Mas mal sabia ele que quando Celaena tocava em sua presença, tudo o que conseguia se lembrar era daquela umidade fria e pegajosa, da chuva que batia contra a janela e havia molhado a cama de seus pais onde havia se deitado porque sentira medo.

Exceto que não se tratava de chuva, mas o sangue dos seus pais. Sempre que tocava, o grito desesperado de Lady Marion ecoava em seus ouvidos. Sempre que tocava, a imagem dela sendo assassinada ecoava em sua mente junto com os gritos e a coragem de quem acreditava que ela faria o certo. Que se tornaria a herdeira do trono e a verdadeira salvadora de seu povo.

(Eu acredito em você, pequena Aelin)

Então expressava a fúria conforme se lembrava de cada surra que Arobyn lhe dera, de cada pequena cicatriz deixada em seu corpo, cada marca que formava a sua própria partitura, uma partitura de dor e ódio. E cada marca deixada expressava aquela melodia lúgubre que preenchia o ambiente como um réquiem da morte, fazendo-a recordar de cada vida que já havia tirado em nome do mestre dos assassinos, condenando-a por elas, salvando-a por um futuro onde pudesse, algum dia, fazer a diferença.

Mas era uma assassina e quando a melodia terminava, as mãos que entoavam canções também se manchavam com sangue, o sangue que ela derramava.

Toque para mim.

Um dia, pensava Celaena, teria o dinheiro para pagar suas dívidas. Um dia estaria livre de Arobyn. Agora, enquanto escutava seus passos se afastarem ao fim da melodia, apenas conseguia fechar os olhos. Fechar os olhos e lembrar-se de seus pais. Fechar os olhos e lembrar-se de cada morte, de cada pessoa que já havia partido em sua presença.

Ela voltou a tocar, desta vez uma nova canção. Não uma preenchida de ódio, mas por cada marca que havia deixado no mundo. Uma canção preenchida com tristeza e lamento, com o pedido de perdão por todas as coisas ruins que um dia já havia feito, por cada vida que um dia havia tirado, por não ter sido capaz de proteger as pessoas que amava. Uma canção aos mortos. Os mortos que um dia seriam responsáveis por ela reconstruir aquele mundo. Nem que tivesse que fazer isso das cinzas. E cada cicatriz que Arobyn ou uma batalha lhe deixavam estava ali como prova. Como prova de que jamais se esqueceria daqueles que partiram.

Notas finais
Quando comecei a ler as várias cenas com Celaena envolvendo música, já tinha em mente que teria que escrever uma fic sobre isso. Ainda tenho umas duas ou três com o plot que quero escrever, até porque essa saiu completamente diferente do que eu imaginava, mas gostei bastante.

Essa série é magnífica, nada mais a dizer.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!