Em nome de Você
1 Questão de Fé
Numa tarde chuvosa no centro de São Paulo, moradores de rua procuravam abrigo para se proteger nas proximidades de um templo localizado perto da avenida Ipiranga . Homens e mulheres olhavam para um céu nublado naquele dia frio. Observando a situação delicada daquelas pessoas, uma jovem mulher saiu do templo carregando uma com guarda-chuvas e casacos, distribuindo-os gentilmente,olhando nos olhos de cada um.
Pedro, um morador de rua com cabelos castanhos encaracolados e uma barba comprida retribuiu o olhar com admiração e um sorriso bobo,deixando por um momento a moça inibida. Os olhares deles se cruzaram por instantes que pareceram minutos e Carol teve a impressão de conhecer aquele rapaz de outro lugar mas absteve-se de perguntar.
Carol ajudava no templo todos os dias em que tinha folga no trabalho de garçonete,enquanto sua mãe revezava com ela os cuidados de sua filha Sofia de oito anos. Mas ela não se conteve e virou-se para olhar o rapaz novamente, pensando da onde o conhecia.
—Com licença, nós já nos conhecemos de algum lugar? —Tomou coragem de perguntar.
—Pode ser que sim, eu também tive essa sensação. —Respondeu antes de ser puxado para longe por um amigo embriagado, lhe oferecendo uma cerveja, que ele aceitou prontamente.
A moça o viu se distanciar e resolveu seguir seu caminho, voltando ao templo para recolher seus pertences e ir para casa. Já eram dezoito horas, logo iria escurecer e ficar mais complicado o trânsito. Despediu-se antes de sair, entrando no primeiro ônibus lotado que apareceu. Na correria perdeu o tênis de um dos pés, ficando espremida dentro do coletivo, com um pé descalço. Incomodada, abaixou o rosto ao ouvir risinhos zombeteiros dos outros passageiros por estar com uma uma meia de desenho infantil. Para piorar escutou o um click de celular, alguém estava tirando uma foto. Ficou envergonhada ao pensar que mais tarde certamente estaria nas redes sociais. A maldade dos outros ainda a assustava.
Enquanto isso, no ponto de ônibus, Pedro encontrou o tênis guardando-o em sua mochila, com a esperança de reencontrar aquela mulher bonita. Precisava saber seu nome..
A chuva estava intensa e ainda maltratava os paulistas, apesar de deixar as flores felizes. Vários pontos da cidade já estavam alagados quando Carol recebeu o alerta da defesa civil dentro do ônibus. Sua mãe também ligou, preocupada por estar na rua.
—Oi vou demorar —Avisou — Vou informando a senhora,fica tranquila. A Sofia está bem?Então está tudo bem.
Olhou a janela, seu pensamento a levou aos desabrigados de rua,eles sofriam mais que todo mundo. Tinha fé que Deus ajudaria aquelas pessoas a saírem daquela situação em um momento oportuno.
Depois de três horas cansativas e de muito desvio de caminho, Carol chegava na residência com a meia suja e as costas cansadas apesar de ainda ser jovem.
—Demorou- Reclamou Dona Maria — Estamos te esperando pra jantar.
—A cidade está um caos,poderiam ter jantado sem mim.
Sofia correu e abraçou a mãe.
—Trouxe um chocolate pra mim?
—Hoje não,filha.
Sofia mudou a expressão ficando emburrada.
—A vovó falou que você me traria um grande chocolate se eu fizesse a lição.
—Você falou isso para ela?—Questionou a moça.
—Não sei do que está falando —Desconversou Dona Maria se sentando na cadeira em torno da mesa para jantar.
Carol foi ao fogão e pegou a panela com a sopa de Cebola pronta, colocando em uma travessa para servir.
—Eu não gosto de sopa.— Esbravejou Sofia.
—Vamos ser gratos pelo o temos— Respondeu incentivando a todos fazerem uma oração antes da refeição.
Lá fora a chuva continuava forte e vários pontos de São Paulo estavam em estado crítico,incluindo a rua que se encontrava Pedro. Uma enxurrada passava e o moço foi obrigado a subir em um muro de cimento para se proteger,ficando no desespero. A água levava sacos de lixos, e tudo que encontrava pela frente com velocidade e agressividade.Os bueiros estavam entupidos. O rapaz pretendia não sair dali enquanto aquilo não acabasse mas sua convicção mudou quando avistou um cachorro sendo levado pela água.
Sem pensar duas vezes o homem se jogou nas águas para salvar o bicho. E nadando contra a correnteza conseguiu alcançar o animal ,ambos ainda vivos.Segurou o Cachorro com um braço e com outro segurou fortemente um poste,enquanto pedia socorro. Por sorte os bombeiros estavam na região trabalhando com um helicóptero. Viu uma luz,apagou e depois era só escuridão.
Continua
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