Em nenhum mundo...
1 Capítulo 1 - Antes de tudo
O que você pode dizer sobre você? – O sotaque era bem carregado. Estranho, era a primeira vez que via alguém que tinha certeza que não era brasileira.
Meu nome é Camila, tenho 14 anos e moro com meus pais na Vila Nova...Meu pai se chama José e minha mãe Ana.
Onde você estuda e por que está aqui hoje? – Camila não fazia idéia de onde ela pudesse ter nascido.
Sempre estudei na escola estadual Graça da Lima, mas meu professor de matemática acha que eu poderia estudar aqui por que eu sou muito esforçada e ele acredita que posso ganhar uma bolsa. Mas de verdade estou aqui porque eu quero um futuro melhor pras pessoas e se eu puder ajudar será estudando.
Quantas crianças passavam por aquele tipo de entrevista para concorrer a uma bolsa de estudos nos colégios particulares da cidade? Pela primeira vez o Colégio Americano Saint Patrick abria a possibilidade de admitir algumas crianças de origem humilde. A proposta original era aceitar somente crianças a partir dos sete anos, mas por insistência de uma ONG da região a srta Lily havia concordado em conversar com Camila, mas como aceitar qualquer adolescente para cursar o colegial se todas as aulas eram em inglês? A certeza que aquela garota iria chorar ao ouvir a primeira pergunta em inglês lhe fez começar aquele teste em Português para que ao menos ela não saisse tão decepcionada.
Ela havia chegado sozinha, sem motorista, taxi ou pai preocupado que seu filho ou filha fosse aceito, nem mesmo a mãe lhe acompanhava. A srta Lily não fazia idéia de onde seria a Vila Nova e pensando bem ela preferia acabar logo com aquilo – tantas outras escolas na cidade e se não fosse pela amizade com seu velho amigo Oscar um dos voluntários da ONG, Camila não estaria ali – ela sabia que seria praticamente impossível um aluno novo vindo de uma escola pública acompanhar as aulas do Saint Patrick, um dos colégios mais conceituados na cidade.
— Camila, eu tenho receio que seu professor de matemática não tenha lhe informado que nosso colégio é de origem americana e todas nossas aulas são realizadas em inglês. Acredito que em sua escola as aulas são ministradas em português. Além da prova escrita que você fez ontem acompanhanda de outras crianças, necessito checar seu nível de compreensão oral e fluência na língua inglesa.
Camila respirou fundo, não deveria ser nada díficil, como ela gostaria que sua mãe estivesse por perto, mas ela precisava terminar uma encomenda e ela sabia que ela não poderia se dar ao luxo de recusar um pedido.
A srta. Lily mudou a expressão, de uma certa forma lhe doía ser a responsável por encerrar sonhos – talvez ao final ela poderia pegar os contatos daquela jovem e tentar indicá-la para alguns outros colégios. No final ela estava admirada pela coragem da menina.
— Dear, can you tell me about your daily routine?
— Sure, madam – Usually I wake up around 5.30, help my mom to prepare our breakfast, have a shower and pack all my books to go to my school – Cada palavra era dita com muito cuidado, ela não queria errar nenhuma palavra – só lhe preocupava se a pronunciação estaria adequada para explicar que sua rotina não era nada diferente das suas amigas da escola.
— Can you tell me what you do on your free time?
Lily morava no Brasil há uns 10 anos, havia se apaixonado pela beleza e jovialidade do país de sua mãe, que jamais havia entendido porque ele decidiu trocar uma vida acadêmica nos Estados Unidos para trabalhar numa escola bílingue numa cidade populosa e complicada como São Paulo.
— Well, I like to study Maths, help my mom doing… — Por um instante Camila se assustou, ela não conseguia lembrar nenhuma palavra próxima do que seria aquela bolinha de chocolate, seria tudo ou nada admitir que não sabia — ‘Brigadeiros’ – I am sorry as I have no idea how to translate this word – and help some children with school homework in the neighborhood library on Saturdays.
Era verdade que Camila não tinha uma pronúncia perfeita, porém para a srta Lily era louvável que mesmo com alguns erros consideráveis aquela garota de pouco mais de um metro e meio continuava a falar como se estivesse contando as novidades após um mês de férias da escola.
— Obrigada dear. Em breve alguém de nossa secretaria entrará em contato com sua mãe para lhe entregar os resultados de sua avaliação.
— Thank you very much.
Após sair de uma das salas de aula em que a entrevista for a feita, Camila olhou em volta – como era tudo tão diferente da Gracinha (esse era o apelido da sua escola), muros limpos, árvores frondosas haviam lhe chamado a atenção, além da quadra de esportes que podia ser vista assim que ela saiu em direção ao portão de entrada – um sorriso maroto em seus lábios fazia questão de rir imaginando o porquê das salas de aula serem tão longe da entrada do colégio – ficou imaginando centenas de crianças caminhando em fila para entrar às oito da manhã todos os dias. Será que poderia vender brigadeiros no intervalo como fazia em sua escola? Talvez pudesse cobrar um pouquinho mais caro?
Já dentro do ônibus para voltar para casa, ela aproveitou para olhar as mensagens no celular – seu grande tesouro – primeiro avisou a mãe que estava indo para casa, a chave como sempre estava na vizinha – Outra mensagem: Julia sua melhor amiga da Gracinha já lhe havia enviado mais de vinte mensagens querendo saber como era essa escola e se os garotos eram bonitos como nas novelas – afinal Camila já havia ido em três escolas diferentes e todas eram de gente rica como a vizinhança dizia. Como a filha de uma doceira poderia sonhar em estudar em um lugar desses? Pequena decepção, não havia nenhum aluno na semana do saco cheio como Lily havia lhe explicado. Mas o que era uma semana de saco cheio para alguém de 14 anos?
Tato também estava curioso – e como ela gostaria que ele estivesse preocupado com a possibilidade deles não estudarem mais juntos – uma coisa era certa, mesmo que sua mãe não gostasse dele, ela não queria deixar a Gracinha para qualquer outro lugar sem ter seu primeiro beijo com ele, ele era sua grande paixão desde os sete anos e esse era o primeiro ano que estudavam juntos. Maldita idéia de seu professor de matemática em indicá-la para bolsista em algumas escolas que tinha conhecidos e mais maldita ainda o desejo que ela tinha de estudar em um lugar melhor. Melhor fechar os olhos e pensar como conseguir antes do final do semestre seu tão esperado beijo.
Notas finais
Se não gostou, obrigada por tentar ler :)
[]s
Lana
Fale com o autor