Em meio as sombras da noite
1 Prólogo
Notas iniciais
12 de novembro de 1998
As luzes dos postes estavam todas queimadas e a escuridão havia tomado conta das ruas. Samanta que só podia recorrer aos faróis de seu carro teve dificuldade em estacioná-lo em frente sua casa. Assim que conseguiu tal feito seguiu até a entrada da frente, quando escutou o choro de sua filha vindo do segundo andar.
A porta da frente estava destrancada, mas Samanta estava muito preocupada com a filha para achar isso estranho. Apertou o interruptor e notou que as luzes de sua casa também estavam queimadas.
Barulhos de passos eram ouvidos acima da escada junto com os gemidos da filha. A mulher tirou seus sapatos de salto alto e se agachou na tentativa de chegar até sua estante onde havia uma lanterna, mas no percurso bateu em diversos objetos, ocasionando futuras manchas roxas em seu corpo.
– Pare, por favor! – Ouvia a garota dizer.
Samanta entrou em desespero e saiu em disparada pela escada com a lanterna ligada, mas quando chegou no corredor do segundo andar estava tudo em silêncio.
– Rebecca, onde você está? – Chamava pela filha, mas não se tinha resposta.
A luz lanterna iluminou o canto da porta do gabinete do marido onde um líquido escuro escorria. A mulher abriu a porta bem devagar temendo o que podia ter acontecido.
Algo grudou em sua perna e fez com que todo seu corpo ficasse bambo.
– Mamãe tem um homem mau no meu quarto! – Disse a menina tremendo e com um ar febril.
– Cama filha! – E deu um abraço na garota. – Sua mãe chegou!
O líquido denso chegou aos pés de Samanta que estremeceu como Rebecca.
Posicionou a lanterna na mancha no chão e percebeu que era sangue, quando a luz iluminou o corpo de seu marido estendido com várias facas espetadas em seu corpo Samanta desabou a chorar, mas sua filha permaneceu em estado de choque.
O homem mal do qual sua filha disse apareceu na porta com vestimentas impecáveis e sem nenhuma mancha de tinta.
– Poderíamos ter evitado tudo isso! – Disse ele.
Samanta parou de chorar e se pôs na frente da filha.
– Você não vai levá-la! Nunca! Ouviu, Nunca! – Os olhos da mulher ardiam de raiva que a certo ponto dava para imaginar o fogo dentro de suas íris.
– Você não passa de uma mortal inútil, – O homem bravejou – Sem nenhuma condição de cuidar dela. Admita isso, afinal ela é uma portadora de magia.
Agora a mulher agarrava Rebecca com todas as forças.
– E como um protetor das sombras teria condição de cuidar de uma criança? – Perguntou num tom debochado e ao mesmo tempo esbanjava transtorno.
– Poderia fazer com que ela fosse forte! – Respondeu o homem.
– Ela já é forte Henrique e você sabe disso – Afirmou a mulher – Mas você quer levá-la para as sombras porque também sabe que ela pode te derrotar no futuro.
Henrique ficou enfurecido com o que Samanta havia dito e foi para cima dela, mas se conteve apenas dando um tapa em sua cara que fez com que ela caísse em cima do corpo ensanguentado do marido.
– Seus pais eram portadores e seu marido também e agora estão todos mortos. – Disse com superioridade – Não terei problemas em matar você e sua filha também.
Rebecca estava em choque a ponto de nem chorar mais. A garota apenas observava espantada perante a cena que presenciava.
O homem foi até onde sua mãe estava ajoelhada e a levantou pelos cabelos.
– De todo jeito iria te matar. – Henrique sussurrou no ouvido da mulher – Você podia ter sido minha e aquela menina podia ser uma protetora agora, mas você preferiu esse portador idiota! – Disse apontando para o cadáver que chutou em seguida.
– Não ia manchar a raça dos meus pais, mesmo que a magia não tenha se manifestado em mim. Você não valia a pena Henrique! – Lágrimas escorriam no rosto de Samantha enquanto dizia isso.
O homem de terno impecável prensou a mulher na parede e encostou seus lábios em seu pescoço. Ela tentava gritar, mas ele tampava sua boca com uma das mãos, com a outra acariciava um de seus seios.
A chuva começou a cair do lado de fora ao mesmo tempo em que as lágrimas de Rebecca surgiram novamente. A garota pressionou os pulsos e de repente o chão começou a encharcar de água. Ela estava canalizando a chuva.
Henrique não percebeu o que estava acontecendo, pois ainda agarrava Samantha a força e já tinha tirado quase todas suas vestes a deixando com a parte de cima sem nenhum vestígio de pano.
A água chegou até os sapatos envernizados de Henrique e foi só ai que ele percebeu o que a garota estava fazendo, mas antes que pudesse fazer qualquer coisa toda a água da chuva se transformou e fogo cobrindo todo o corpo dele e destruindo o ambiente.
Samanta conseguiu escapar do homem em chamas e pegou a filha pelos braços e saiu do cômodo em desespero.
As duas chegaram até o carro do lado de fora da casa. A mulher ignorou o fato de estar quase nua e estar caindo uma tempestade e entrou no veículo com a filha.
A rua estava toda iluminada devido ao fogaréu que estava sua casa e que aumentava com a chuva.
Rebecca tossia e tentava tirar o excesso de água dos cabelos.
– Como você fez isso filha? – Perguntou a mulher assustada.
– Não sei apenas imaginei e aconteceu – Foi a resposta da menina.
– Quem era aquele homem? – Rebecca perguntou com medo.
– Alguém mau filha, só isso.
– Mas agora ele está morto! – Disse a garota tentando amenizar o nervosismo da mãe.
– Ele não vai morrer assim – A mãe respondeu com desanimo – A partir de agora você vai ter que tomar muito cuidado!
A menina fitou a estrada que vinha pela frente e viu pelo retrovisor a cidade de Fozlan ficando para trás.
– Pra onde vamos mamãe? – Perguntou a menina encostando a cabeça no banco e fechando os olhos.
Samanta olhou a filha caindo no sono e sussurrou.
– Eu não sei.
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