Algumas horas mais tarde

Rebecca passou o restante do dia procurando pelo símbolo que sonhara, mas eram poucos os livros que ela tinha sobre o mundo da magia, a maioria havia sido queimada na noite em que seu pai foi morto. Esses no qual ela procurava informações foram os que sobraram do incêndio e como previsto não havia nada neles.

A porta do quarto se abriu de repente e Rebecca se levantou assustada. No dia em que presenciara a morte do pai, a porta de seu quarto havia sido aberta sem nenhum aviso e o assassino surgiu da escuridão, mas agora era apenas sua mãe.

– Não sabe que tem que bater antes, Samanta?

– Seria melhor milha filha me chamar de mãe na frente das visitas. – A mulher argumentou.

– Visita? – E Esteban apareceu na porta ao lado da mãe da garota.

– Oi, Tudo bem? – Disse o garoto.

– Acho que sim! – Rebecca respondeu confusa.

– Vou deixar vocês a sós, mas não façam nada de errado, entenderam? – Samanta saiu rindo e Rebeca corou ao olhar para colega de sala.

Esteban era o único garoto da turma que conversava com Rebecca, pelo menos às vezes. Não que os outros não tentavam se aproximar, mas a garota não achava muito conveniente ter relações amigáveis com ninguém de Fozlan. Ela sabia que tinha algo estanho naquela cidade. As meninas também não falavam muito com ela, só algumas que Rebecca considerava como quase amigas.

– É... Então por que está aqui? – A garota interrogou.

– Sua mãe achou que eu precisava conversar com você?

– Conversar o que? – Até mesmo ela sentiu a frieza de suas palavras. Não gostava de ver a mãe planejando as coisas pelas suas costas.

– Sabe sobre a marca da perseguição e...

– Minha mãe te contou sobre isso! – Exclamou a garota com uma expressão incrédula.

– Sim. Tenho que te contar uma coisa. – Esteban que estava de pé até agora se sentou na cama ao lado de Rebecca. – Eu também sou um portador da magia.

Os olhos da garota piscaram sem parar. Sua cabeça estava bem confusa ultimamente. As coisas pareciam ter resolvido acontecer tudo de uma vez.

– Por que você nunca me contou? – Indagou a garota.

– Eu não tinha certeza do que você era.

– E quando desconfiou disso?

– Quando você queimou o ventilador. Acho que é um bom exemplo?

Rebecca se lembrou do ocorrido. No começo do ano um dos alunos haviam pegado seu caderno de desenho e a garota não conseguiu controlar muito bem seus poderes. O ventilador explodiu soltando uma chuva de faíscas pela sala. Se você estivesse do lado de dentro da classe teria se queimado, mas se tivesse observando da porta teria achado lindo a chuva de luzes.

– Existem mais pessoas como nós?

– Conheço algumas. No instituto (faculdade) de Fozlan tem uma garota que é portadora que namora um humano.

– Mas isso é possível? Já ouvi falar sobre uma maldição que... – Antes que pudesse terminar Esteban a interrompeu:

– Eles conseguiram escapar da maldição.

– Qual o nome dela?

– Coraline e o do namorado é Charlie, ou algo assim.

Esteban encarou sua estante de livros e leu mentalmente alguns títulos até que retirou um exemplar de O Apanhador no Campo de Centeio.

– Já leu esse livro? Ele é bom? – Indagou.

– Não gosto que mexam aí!

Esteban pôs o livro de volta na estante.

– Você ter sonhado com essa marca significa que a perseguição está prestes a começar – Disse o garoto num tom vazio. Esteban parecia uns dois anos mais velho do que Rebecca.

– O que é essa tal de perseguição? – Sua cabeça já doía e isso estava fazendo com que ela tratasse Esteban mal.

– A cada vinte anos acontece uma espécie de corrida, na qual uma das espécies precisam atingir um objetivo.

– Qual objetivo?

– Os protetores das sombras precisam drenar os poderes de um portador da magia que esteja marcado com o símbolo da lua, antes que ela apareça. Enquanto a nossa raça deve proteger o marcado, se não uma maldição pode cair sobre nós. – Esteban pausou um pouco, mas retornou a falar – A maldição dos acorrentados, ela faz com que todos os portadores fiquem presos aos protetores das sombras, que é claro, nos tratarão como escravos.

– Tá, mas quem é esse marcado? – Indagou Rebecca.

– Você! – A resposta de Esteban foi curta e direta, assim como a pontada de dor que emergiu na cabeça da garota.

– Ai! – Gemeu de dor – Como eu posso estar marcada. Não tenho nenhuma marca em mim.

– Você foi marcada num sonho, provavelmente por um corvo ou uma pomba morta...

– Foi um corvo. O que você disse? Uma pomba morta? – Rebecca imaginou um fantasma de uma pomba perseguindo ela a noite.

– Você já leu tarô? – Ele perguntou.

– Não. Minha mãe disse que meu pai sabia fazer isso, mas não deu tempo dele me ensinar. – Ela pensou se seu pai estivesse vivo saberia de muito mais coisas.

Esteban retirou um uma caixinha do bolso da blusa de frio com toca. Dentro dela havia diversas cartas que ele espalhou pelo chão.

– Os tarôs dos portadores de magia funcionam de uma forma diferente desses que os humanos usam e que muitas vezes nem funcionam de verdade.

Enquanto Esteban explicava sobre o desempenho de um tarô de portadores, Rebecca reparou bem nos traços de seu rosto e em seus olhos que chegavam a um tom quase lilás. Ela nunca havia reparado em Esteban antes. Não era muito de reparar nas pessoas, mas estava fazendo isso com o garoto em seu quarto que a olhava com intensidade. Ele não era alto e nem baixo, também não tinha uma aparência forte, mas não era um garoto franzido. Ele era um equilíbrio, assim como ela. Rebecca não era nem de perto feia, porém não era bonita que nem as garotas da sua sala. Os dois tinham sua maneira de serem bonitos.

– Ainda está aí? – O garoto disse tentando despertar Rebecca que estava perdida em seus pensamentos.

– Sim. Pode continuar.

– Então como estava dizendo, esse tarô possuí Figuras diferentes, pois essas representam a roda das metáforas.

– Roda das metáforas? – Rebecca já havia lido sobre ela em seus livros, mas as informações eram muito vagas.

– É um conjunto de histórias que metaforicamente representa algo em nosso mundo. Cada uma é representada por uma pintura na roda que simboliza o universo.

– Ata! Acho que entendi. – Ela já havia lido aquilo, daquele mesmo jeito, que até decorara e achava que ele também tinha decorado.

Esteban distribuiu as cartas pelo chão em forma de um círculo.

– Agora entre dentro da roda. – E ela entrou. – Agora feche os olhos e pise em alguma delas.

Rebecca pisou em uma das cartas e em seguida abriu os olhos, mas o garoto já havia pegado. Ele virou para ela a carta onde estava um coelho dentro de uma toca escura onde escorria sangue de dentro.

– Esse é a carta do destemido.

– O que ela significa?

– A carta mostra um coelho que era uma presa bem fácil para os predadores da floresta e por isso ficava o tempo todo em sua toca escura. Morrendo de fome aos poucos o coelho saiu de sua toca um dia e na mesma hora foi atacado. – Esteban continuou contando a história – Era uma raposa. Um animal maior que o coelho e mais forte também. Ela o atacou sem nenhuma piedade, mas esse conseguiu fugir para toca, contudo a entrada era larga e dava para raposa passar sem nenhuma dificuldade, só que o lugar era dominado pela escuridão. O coelho que já vivia ali por muito tempo sabia como se locomover pela toca, mas a raposa não e foi aí que o mais inusitado aconteceu o coelho cravou seus dentes na raposa, estes que eram afiados de tanto que o animal roía a parede de pedra. Os dentes afundaram no pescoço da raposa que morreu cuspindo sangue.

– O coelho usou a escuridão como arma – Disse Rebecca pensando na fábula que tinha acabado de ouvir.

– Sim. A metáfora aí é que às vezes é necessário que enfrentemos nossos medos ou o que nos coloca em perigo. Nem que para isso precisemos usar a escuridão. É como se tivéssemos que negar nossa natureza do bem para vencermos o próprio mal, como o coelho que negou seu papel de preza para se proteger do predador.

Rebecca imaginou se um dia teria que abrir mão do que realmente era para se salvar.

– E o que você acha que isso significa para mim?

– Sinceramente... – Esteban parou para pensar – Eu não sei!

O garoto pôs sua mão no rosto de Rebecca e ela não a retirou, pois o toque de Esteban a fazia parecer que estava mais segura, mesmo que nunca tivesse dependido de alguém para se proteger, exceto da mãe, mas ela queria sentir isso, a confiança a partir de Esteban.

O momento calmo que se seguiu durou pouco, pois uma sombra surgiu na janela, esta que se espatifou de repente. A sombra passou para parede do quarto e adquiriu uma forma densa e pegajosa.

– Corra e proteja sua mãe! – Disse Esteban para garota e foi o que ela fez.

Ao passar pela porta a Rebecca deu de cara com a mãe, que havia escutado o barulho dos estilhaços do vidro.

– O que está acontecendo no quarto? – Indagou Samanta apertando o braço da filha.

– Uma sombra negra invadiu o quarto, mas Esteban vai cuidar dela. Temos que sair daqui!

As duas saíram do apartamento e ficaram paradas na escada próxima a porta. Alguns segundos passaram e Esteban não apareceu.

– Deve ter acontecido alguma coisa com ele, – disse a mãe – vamos ver.

– Não posso deixa-la ir!

– Eu fui casada com um portador – Disse Samantha – Eu já vi muitas sombras invadindo coisas.

As duas subiram e quando chegaram ao quarto Esteban estava sendo engolido pela sombra, que agora era uma massa negra encrustada em seus membros. Rebecca não sabia o que fazer, não tinha instrução para isso. Foi quando pensou em um quarto todo iluminado apenas com ela, o garoto e a mãe. Quando abriu os olhos era onde estava.

A luz foi se enfraquecendo aos poucos e a sombra já não estava lá mais. Somente os três habitavam o quarto agora.

– Nossa! O que foi aquilo? – Perguntou Rebecca ofegando.

– Um tormentador, – Esteban respondeu – muito deles ainda virão!

Notas finais
Tormentador - Essa espécie é como um escravo usado pelos protetores das sombras. Eles podem assumir diversas formas, sólida, gasosa... Seu habitat natural é nas sombras das florestas e matas.