Dois dias depois.

– Eles já devem estar chegando! – Disse Samanta.

– Eles quem? – Perguntou Rebecca ao passar pela porta e encontrar a mãe e Esteban na sala.

– Eu entrei em contato com Coraline, – disse o garoto – e ela está vindo pra cá.

Rebecca tentou se lembrar de quem era a garota a qual Esteban tinha pronunciado o nome.

– A portadora da magia que estuda no instituto. – Disse o garoto quase que lendo seus pensamentos. Foi quando lembrou que já havia lido sobre membros de sua espécie que conseguiam realizar tal feito.

– Você consegue ler mentes? – Perguntou Rebecca.

– Não. – Esteban respondeu – Somente alguns portadores conseguem fazer isso. Caroline por exemplo.

A porta sofreu três batidas e todos ficaram em estado de alerta. Poderia ser outro Tormentador ou algo pior. Esteban se aproximou da porta e olhou pelo olho mágico. Em seguida abriu a porta com um sorriso que ia de orelha a orelha.

– Coraline, quanto tempo! – Disse abraçando a garota que entrava em sua casa.

Junto de Coraline estava um garoto com uma blusa do Grenn Day. Rebecca achou estranho que Esteban só tivesse cumprimentado a garota e ignorado totalmente o rapaz.

– Oi, meu nome é Charlie. – Disse o garoto ignorado.

– Oi. – Rebecca o cumprimentou. – Você é o namorado de Coraline?

– Sim. – E isso foi a única coisa que ele disse.

Então as apresentações foram feitas. Rebecca se sentiu bem à vontade perto de Coraline e achou Charlie bem engraçado, não aquele engraçado forçado, mas sim o que não precisa fazer nada para ser. Já Esteban não se sentiu muito à vontade de ver o garoto.

– Então, agora alguém pode me contar o porquê disso tudo? — Rebecca disse querendo soar de forma simpática, mas a pergunta em si na frente de qualquer convidado não surge esse efeito.

– É bem provável que seja hoje a perseguição filha. – A voz de Samanta era quase um grito de desespero.

– E estamos em um número bem pequeno. – Disse Esteban.

– Consegui ter contato com um amigo de seu pai, ele disse que nos ajudará – Disse Samanta para a filha em vez de se dirigir ao garoto.

– Ou seja, precisamos montar um plano. – Coraline se pronunciou. — Pelo que já ouvi falar, a perseguição começa há alguns instantes para o início do crepúsculo e termina assim que a lua aparece.

– Mas tem vezes que a lua aparece quando ainda nem escureceu. – Rebecca contestou.

– Não hoje. Olhe lá fora. – Disse Charlie.

Realmente o tempo estava tão nublado que às uma da tarde não se via nem o sol. A lua era capaz de demorar um bom tempo para aparecer.

– O melhor que temos a fazer é seguir para um lugar onde teremos como absorver o máximo da natureza. – Falou Coraline.

– A floresta parece um bom lugar. – Disse Samanta.

– Mas é lá onde as maiorias dos escravos dos protetores das sombras vivem, como tormendores e... – Começou Esteban, mas foi interrompido por um homem que entrou pela porta sem anunciar.

– Acho que a floresta é um lugar perfeito. – Disse o homem de casaco marrom.

– Samuel, que bom que veio. – Disse Samanta como se seu nível de preocupação elevado estivesse diminuindo.

– Mas... – Esteban começou e foi interrompido pelo homem:

– Mesmo que na floresta haja muitos escravos dos protetores das sombras, existe também uma enorme quantidade de opções de força para drena-los.

– Então pronto! – Caroline se pronunciou – Vamos todos para floresta.

O tempo estava tão nublado que dentro da floresta já parecia noite e por isso todos ficaram em um campo aberto rodeado por árvores. Não havia sinal da lua e nem dava para saber quando começaria o crepúsculo, pois durante o dia todo parecia que o sol já estava se pondo.

– Quando vamos saber que a perseguição vai começar? – Indagou Rebecca para ninguém em específico.

– Assim que os portadores das sombras começarem a te rastrear e virem pra cá. – Foi Coraline quem respondeu.

A atmosfera estava pesada. Rebecca podia sentir o nervosismo em cada um que estava ali. O mais tranquilo era Samuel, que estava sentado em um toco de árvore olhando para o céu.

– Estão demorando muito. – Disse Esteban.

– Devem estar armando algum plano, o que deveríamos ter feito. – Comentou Coraline.

Um som estranho veio de dentro da floresta e de repente as nuvens ficaram ainda mais escuras e numa piscada de Rebecca, sua mãe estava sendo levada para dentro da mata densa.

– Mãe! – Rebecca gritou, mas a boca de Samanta estava selada.

Os outros correram para dentro da floresta assim que escutaram a garota gritando. O escuro do lugar deixava Rebecca ainda mais tensa, mas a escuridão não durou muito. Esteban e Samuel pegaram alguns galhos de árvores caídos e fizeram que suas extremidades ficassem em chamas como uma tocha. Por um instante a garota se sentiu mal por não saber fazer essas coisas para ajudar a mãe.

Um Tormentador bem maior do que o de seu quarto apareceu diante deles. O escravo se expandiu em uma massa pegajosa por toda aquela parte da floresta impedindo que eles passassem, mas o bloqueio logo foi desfeito.

Do alto das árvores, frestas de uma luz entorpecedora surgiram atingindo o Tormentador em cheio, que começou a dissolver. Rebecca olhou para Coraline e viu que era ela quem estava fazendo aquilo.

Após passarem pelo obstáculo retomaram a correr, mas a mãe da garota já havia desaparecido. Rebecca escutou um barulho estranho e os outros também. Do nada uma nuvem de corvos, como o de seu sonho, tomou conta de toda a floresta. Eles bicavam e arranhavam todos.

Esteban e Samuel tentaram mover os galhos das árvores enquanto Coraline de alguma forma manuseava o vento, mas os corvos eram muitos e os ataques não faziam a menor diferença.

Rebecca pensou em fogo e fez seu pensamento ficar cada vez mais forte. Pensou nas folhas das árvores caindo e virando faíscas, como uma chuva. Lembrou-se do ventilador explodindo e da mãe sendo puxada pelas sombras e tudo se transformou em luz.

Foi como se fogos de artifícios estivessem sendo estourados e seus restos caiam pela floresta. Rebecca sentiu alguém te puxando pelo braço e fechou os olhos. Quando abriu estava deitada no chão e Esteban mexia em seu rosto tentando te acordar.

– Você não pode dormir agora! – Disse Esteban.

– Tudo bem! Já estou acordada. – Disse a garota se levantando.

Os dois se encaram por um longo tempo, até ouvirem os gritos de Coraline.

– O que aconteceu? – Perguntou Rebecca.

– O Charlie sumiu! – Disse a garota ofegando.

– Tudo o que precisávamos era ter duas pessoas desaparecidas. – Disse Esteban e Rebecca o encarou com um olhar de juízo final.