Ainda recordo-me de tua feição Angelical...

Pintavas maravilhosamente bem, sempre alegre...

Lembro-me de cada detalha de tua casa. Das tuas costumeiras saias compridas e de teu cabelo preso com uma piranha.

Teu rosto alegre, uma pele macia, algumas pintas.

Achava lindos os sabonetes especiais que fazias, enfeitavam a mesinha de canto de tua sala, em um lindo pote de vidro. É engraçado lembrar que achei que seriam de comer...

Estava sempre em tua casa. As vezes brincando com tua filha, Rebeca, outras vezes fazendo-lhe companhia.

Lembro-me de minha cara quando usei meu primeiro Boris. Sim, lembro-me dele, um Boris em tons róseos, da Lilica Repilica... Uma malha gostosa... Senti-me uma bailarina com o tutu. Levou-me ao parquinho e tomamos sorvete...

Para minha mãe tirar-me de tua casa era difícil. Recordo-me de pular em tua cama enquanto procuravas algo em teu quarto, ou então, enquanto colocavas roupa no varal da sacada.

Fiquei contente quando Rebeca presenteou-me com uma casinha de bonecas, e ainda mais feliz quando ela deu-me um quadro. Sim, lembro-me do quadro. Um quadro pequeno. No centro um golfinho envolto em azul. Eu lembro-me de ficar triste quando via meus desenhos tu dizias que eram bonitos...

Comia macarrão quando lhe perguntei onde estava teu marido que nunca viras.

‘’Ele tem a própria casa pequena’’ – disse-me com um sorriso no rosto. Dei de ombros e voltei a deliciar-me com o macarrão enquanto fazias cafuné em minhas madeixas castanhas.

–-

Passará um bom tempo desde a ultima vez que fora em tua casa.

Brincava na rua, com Evelyn, quanto te avistei varrendo tua garagem.

"Bom dia Dorinha’’- Eu disse sorrindo, ela sorriu de volta.

"Bom dia pequena... Faz tempo desde a ultima visita...’’ – ela disse um pouco triste

"Hm...Quando posso te visitar então? ‘’

‘’Venha amanhã’’- disse sorrindo – ‘’Promete que vem? ‘’

‘’Prometo!’’ – disse sorrindo e logo voltando a brincar.

–-

Porém, aconteceu que não pude te visitar no dia seguinte. Sim, fui a tua casa, chorar juntamente a Rebeca.

Você tinha partido. Em teu velório mais lágrimas, meu pequeno rosto banhado por elas. O teu rosto antes alegre, agora me parecia sereno. Pálido. Os lábios eram antes rosados... Agora, arroxeados. Sangue seco marcava o canto de teu delicado lábio. Não tive coragem para toca-la, mas por dentro tinha certeza que tua pele, antes quente, devera de estar gélida. Não me recordo ao certo se fui ao teu enterro , perdoe-me a fraca memória.

Não me recordo de tua voz. Mas tenho certeza que deveria ser melodiosa. Mas lembro-me do seu doce jeito de ser. Meiga...

Ainda sinto-me culpada por não te ter feito companhia aquele dia.

Ainda fico um pouco triste ao olhar pra tua casa, em frente a minha; porém sorrio ao lembrar-me de ti.

É com os olhos querendo marejar que escrevo estas palavras.

Dora Félix,

Obrigada por ser uma grande mulher, na minha pequena vida. Deves estar ao lado dos Anjos espero que lembres de mim , assim como sempre forçarei a memória para não esquecer-te...

Talvez um dia te encontre, mas sei que não sou tão boa pessoa como um dia tu foste.

Obrigada.