Em dois atos
1 Ato I - Hogwarts.
Notas iniciais
Você observa a fila de crianças com rostos ansiosos e iluminados. Há um bocado delas esse ano, encarando o teto estrelado ou as mesas longas cheias de veteranos impacientes. O potencial ali é enorme, e o começo é imutavelmente aquele: a seleção. A lista de nomes ganha feições enfim, e só basta aqueles poucos minutos de análise para que deseje o melhor para todos eles. São crianças esperançosas querendo histórias longe de casa.
Passa por rostos que um dia serão o palco de lendas – porque todos os seus alunos são lendas no fim das contas – e imagina como serão no futuro. Espera que os sorrisos largos demais não desapareçam, e que o medo se torne curiosidade. Você tem uma parte de cada vida ali em suas mãos, tem as chaves para todo o mundo daquelas crianças, tem uma chance de mudar os finais. Com a tempestade se erguendo no horizonte, parece que haverá muitos finais a serem mudados e incontáveis conselhos a serem dados.
Lá no fim da fila, há Lily Evans, unhas compridas pintadas de um tom de rosa vibrante e tudo mais, e você sabe que o destino tem algo glorioso para uma garota assim, com todo esse fogo mascarado de luz gentil. O mundo nem sempre é um lugar bom para meninas que ainda acreditam nos finais felizes e que seu trabalho duro pode conquistar tudo o que desejarem, mas há um brilho no olhar dela que lhe faz ter cega e tola fé, por uma fração de segundo, nos velhos contos de fada.
A criança que levou ao Beco Diagonal não tem medo das coisas estranhas e mágicas que irá encontrar ou já encontrou. Quando você a chama e ela caminha de queixo erguido para a mesa da Grifinória, há uma sensação de que a trouxe para casa.
Lily Evans é louca dizem nos corredores, e você quase revira os olhos, a decepção queimando dentro de si. Lily Evans é brilhante, perseguindo tudo o que quer sem um mísero segundo de hesitação amedrontada e lutando com unhas e dentes por tudo o que merece. Mas há dois fatos que a tornam louca ao invés de grande: é uma mulher impondo seus ímpetos de rainha de mundo sobre todos e, acima de tudo, é uma nascida-trouxa no topo das classes. Ela devora sua oposição sem piscar.
Você a entende melhor do que qualquer outro professor, melhor que mesmo Horace com seu seleto clube de alunos selecionados para a grandeza. Entretanto, ninguém está preparado para alguém como aquela garota ardente, ainda com as unhas pintadas de rosa vibrante e brincos pesados e vestidos rosados na primavera. Espera que ela não tome as primeiras negações como uma prova de que não é capaz, espera que os comentários maldosos não apaguem sua crença cega no futuro melhor que o agora.
Porque Lily Evans é uma das mais dedicadas e imponentes alunas que já ensinou, escalando o abismo das oportunidades e gritando suas opiniões em um mundo que tenta quebrar suas mãos e costurar sua boca. Você entende aquele desejo e aquela incansável aspiração, a fome por uma chance que seja de provar-se mais do que qualquer pessoa acha que é. Seu velho histórico é cheio dessas ocasiões e, a cada letivo ano que passa, o histórico dela também se enche de tudo o que fez com o próprio esforço insaciável.
Os olhos dela, tão impossivelmente verdes, reluzem como facas, prontos para cortar as amarras que tentam lhe prender com, e você vê tudo em primeira mão, maravilhada com a resolução brutal. É quase como se não houvesse uma guerra lá fora.
James Potter e Lily Evans são insuportáveis juntos e ainda mais insuportáveis quando separados, o amor queimando em todas as palavras que trocam e a teimosia brilhando em cada discussão. Você sabe que sentimentalismo não muda garotos que tem a cabeça nas nuvens e ouro nas veias, mas o realismo sim. Assiste-os com certa curiosidade, duas crianças caminhando sobre o mundo em frangalhos sem se importar com as cinzas em seus sapatos. Eles são um casal formidável, ainda que estranho.
Estranho porque Lily Evans despreza arrogância cega e porque James Potter abomina pragmatismo ambicioso. Ainda assim, você não vê os sinais de um fim próximo para aquela relação feita de flashes luminosos e risadas escandalosas. E a felicidade de ambos é tão óbvia que as incertezas parecem mínimas, irrelevantes no cenário final.
O que é o mundo para duas pessoas pintadas de dourado e vermelho? As várias conquistas dos dois brilham em seus belos sorrisos tão largos e não há ninguém capaz de quebra-los. Os sussurros ainda ecoam – James Potter perdeu a cabeça, Lily Evans é uma vadia, os dois vão morrer no instante que pisarem fora dessa escola —, talvez mais altos do que jamais estiveram, e mesmo assim nada os abala. Para um garoto que voa mais alto que as nuvens e uma garota que construiu as próprias asas, é tudo... é tudo insultos vazios.
Você não fala sobre Ícaro e Midas porque eles provavelmente já sabem que o mundo é perigoso para mentes tão brilhantes, e porque Lily Evans merece tudo o que guarda com cuidado objetivo e implacável sob seu olhar afiado. Ela é ouro e ouro de novo, aguçada como uma navalha nova e prestes a provar para todos que é imparável mesmo no meio do furacão que a guerra do lado de fora é.
Fale com o autor