Em busca de abrigo

9 Epílogo: Memórias


Notas iniciais
hey! :^) esse é apenas um simples epílogo para dar uma fechada melhor em toda a historia! por causa disso, ele progride mais rapido do que os outros capitulos, mas espero que esteja bom

A primavera trazia consigo dias frescos com o sol sempre à vista. As árvores estavam mais verdes, algumas dando frutos suculentos. Havia vida em todo lugar; no chão, pequenos roedores se aventurando para fora de suas tocas em busca de uma pitada de calor e alimento. Pelos ares, aves voando aqui e acolá, piando melodicamente. Era uma das melhores épocas do ano.

Naquela bela região com vastos bosques e clareiras, também era possível encontrar Inna. A lince já não era mais uma pequena filhote indefesa ― tinha quase três anos de idade, e era uma caçadora voraz. Seu olhar era sério e intenso, sempre buscando por uma presa descuidada, exceto quando estava com seus quatro filhotes. Ainda eram novos, mas já saíam do abrigo da toca para explorarem e aprenderem junto da mãe lince. Exceto por um, de pelos castanhos escuros, todos eram de tons que permeavam o creme, assim como os da mãe. Eles eram lindos, e só o que Inna desejava era poder protegê-los.

Ela muitas vezes se perguntava se conseguiria dar conta de tudo. Admirava ainda mais sua mãe agora, que sempre parecia tão calma, quando por dentro deveria ter as mesmas preocupações que ela: comida e segurança.

Ainda se lembrava de quando, aos poucos, ela e seus irmãos seguiram caminhos separados de Nora. Fazia quase dois anos. Jouko foi o primeiro a partir, e Inna e Anika seguiram sua independência poucos meses depois. Elas ficaram juntas por algum tempo, até se separarem uma da outra também. Ainda podia sentir a tristeza de Nora, misturada com orgulho. Seu olhar suave e melancólico, lhes desejando boa sorte. Achou que nunca mais a veria, até que, numa noite, pouco antes de ter seus filhotes, pôde sentir sua presença. E após ter dado à luz, uma estrela desceu. Inna conseguia ver Nora sorrindo enquanto banhava ela e seus irmãos. Eles ainda eram muito novos, Soren ainda estava vivo, e ronronavam juntos, enquanto brincavam entre si. Nora pedia para que ficassem quietos, pois tinham de dormir. E com o seu ronronar tranquilo, rapidamente o sono se dissipava entre os pequenos. A estrela se foi, as visões também. Com aquela lembrança, Inna chorou silenciosamente, enquanto limpava seus novos quatro bebês.

Era assustadoramente difícil no começo, e por mais que ainda fosse um pouco agora, ela já sabia lidar de forma mais simples com muitas situações. Não se desesperava mais por ter que buscar mais alimento diariamente para alimentar as quatro boquinhas famintas, apenas acordava, buscava suas presas e as trazia para casa. Tornou-se uma caçadora invejável e precisa, a caçadora que nunca imaginou ser.

E, falando em caçar, era o momento perfeito para capturar um grande coelho logo a frente. Havia mais alguns por perto, todos comendo em conjunto, porém seu alvo era o com mais carne possível. Seus filhotes brincavam por perto, até ouvirem seu miado de atenção e ficarem alertas.

― Quietos. ― Avisou, agachando-se. Os felinos rapidamente entenderam que ela estava prestes a atacar, e se agacharam também, ansiosos para vê-la em ação.

Os movimentos de Inna eram rápidos. Num piscar de olhos, já estava correndo em direção ao coelho, que, inutilmente, tentou fugir com seus colegas de espécie. Já era tarde demais, a fêmea fechou a mandíbula em seu pescoço, matando-o depressa. Agradeceu à grande Mãe Natureza pelo alimento, sua ninhada ficaria bem por mais um dia. Eles iam animados em direção à carcaça, devorando-a.

Vigiava-os comendo, tranquilamente, enquanto manchavam seus pelos com o sangue escarlate. Era tão bom vê-los felizes. Desejava que nada perturbasse a calmaria da pequena família, como ocorreu com ela mesma na juventude. Não conseguia pensar em algo assim acontecendo a alguma de suas crias, morreria de tristeza. Sacudiu a cabeça, com o objetivo de afastar os pensamentos. Estava tudo bem.

Enquanto os pequenos se deliciavam com a refeição, Inna pôde notar uma presença por entre as árvores que estavam por perto, na floresta fechada. Eles ainda estavam numa área aberta, sentia-se mais segura por avistar qualquer perigo de longe. Colocou-se em alerta, com os olhos atentos a qualquer sombra. Os filhotes notaram sua mudança de postura, e passaram a comer com mais cautela, sabendo que talvez precisassem correr a qualquer instante. Até que um odor estranhamente familiar preencheu suas narinas.

Um odor que a levou de volta a seus tempos de filhote. Mas não era sua mãe, ou nenhum de seus irmãos. Teria reconhecido. Ao observar a entrada da floresta com mais atenção, conseguiu identificar um enorme urso pardo. Ele parecia estar comendo algo, também. Seu primeiro pensamento foi correr com sua ninhada, seus instintos berravam para que os protegesse. Porém, o cheiro embaçava suas decisões.

Então teve um estalo mental.

Não.

Não poderia ser.

Mas se não fosse, como teria farejado?

Era Fen. Seu velho amigo que a ajudou a encontrar sua mãe, e salvou sua vida. Por algum tempo, ele até mesmo se tornou um guia, mas nunca mais havia surgido na noite. Ele era um adulto agora, e estava realmente muito grande. Ela não sabia como reagir. Talvez ele não a reconhecesse, e poderia tentar atacar os filhotes. Sem perceber, seus olhares se encontraram. Os olhos escuros do urso pairavam sobre a esguia lince.

― Filhotes, para a grama alta. Levem o coelho. ― Ordenou num fraco miado. Não precisaram ouvir duas vezes, e se esconderam onde acharam apropriado. Dois deles carregaram a carcaça juntos, apreensivos. Ainda estavam muito perto da mãe, porém camuflados.

E, obviamente, assustaram-se ao terem a visão de um urso pardo saindo do aglomerado de pinheiros. Queriam correr, mesmo sem saber para onde, entretanto, Inna não havia dado nenhuma outra ordem. Então, somente se encolheram o máximo possível.

― Inna? É você? ― Fen grunhiu, intrigado.

― Fen! Sim! Minha nossa, faz... faz tanto tempo... ― Ela se sentou em sua frente, permitindo-se baixar a guarda.

― É verdade... Você está crescida. Até tem filhotes, pelo que pude ver. ― Ele também se sentou, acanhado. Ficou curioso para ver os pequenos felinos de perto, porém não insistiria. Sabia que os instintos maternos de Inna estavam à flor da pele naquele momento. Ela não iria permitir.

― Sim, eu tenho... Mas, eu, crescida? Acho que não é nada comparado ao seu tamanho!

― Bem, eu disse que iria crescer.

Os dois riram, e puderam, por um breve instante, aproveitar a companhia um do outro. Sentiram-se com poucos meses de idade outra vez pelo tempo em que conversavam. Mas tudo era diferente agora. Tinham seus próprios nichos, seus próprios afazeres. Inna tinha de zelar por sua ninhada, e Fen estava cortejando uma fêmea há algum tempo. Precisava ir vê-la novamente para garantir que nenhum macho havia se aproximado, e, com sorte, ter filhotes.

Após alguns minutos imersos no passado, os dois se levantaram e trocaram afagos. Acharam que seria esquisito, mas não foi. Ela quis rir com a diferença gritante de tamanho entre eles. Por dentro, era como se nada tivesse mudado, mesmo que soubessem que sim. Era como se ainda fossem os melhores amigos.

Talvez fossem.

E então, era hora de voltarem a seus respectivos mundos. Hora de se despedirem. Não era mais tão triste como da última vez, mas ainda assim, causava um sentimento de estranheza, devido às memórias.

― Adeus, Inna.

― Adeus, Fen.

Seguiram seus caminhos. Fen em direção à fêmea que cortejava, e Inna para seus queridos filhotes. Ambos olharam uma última vez para trás, soltando grunhidos de despedida, para enfim seguirem em frente. Fora um encontro tão inesperado, mas que deixou Inna feliz. E embora ela não tivesse como saber, Fen também estava igualmente contente.

― Mamãe, por que você falou com um... com um urso?! ― Um dos filhotes indagou com incredulidade. Era Kirse, com seus grandes olhos escuros, que revelavam suas dúvidas.

― É, mamãe! Vocês pareciam que eram amigos, mas ficamos com medo! ― mais um filhote adicionou. Dessa vez foi Juho, o único macho da ninhada, e o mais acanhado. Inna imaginou o pavor que deve ter sentido ao ver Fen, pobrezinho.

As fêmeas restantes, Aulikki e Lise, permaneceram quietas, terminando de comer o coelho que fora esquecido. Porém, também estavam num misto de medo e confusão. Entreolhavam-se, esperando alguma resposta.

― Aquele era Fen. Ele é um... velho amigo. ― Ela explicou calmamente, enquanto retornavam para a toca. ― Nos conhecemos quando éramos filhotes.

― Como você ficou amiga de um urso? ― Lise resolveu perguntar, curiosa. ― Você disse que temos que ficar longe.

― E devem mesmo. Essa foi uma situação um pouco... diferente.

Assim, Inna lhes contou de quando se perdeu de Nora, e como Fen a ajudou quando se conheceram. Nunca havia contado simplesmente por falta de um momento propício, afinal, era uma ótima história. Uma história que começa em tons tão tristonhos e sem esperança, mas que termina com um final feliz... na medida do possível. Os filhotes ficaram elétricos após ouvirem tudo com toda a atenção do mundo. A mãe lince teve flashbacks dos seus próprios irmãos no dia em que reencontrou Nora e lhes contou tudo.

Ao fim da tarde, e ao finalizar sua história, estava chorosa, deitada com os pequenos linces na toca. Eles logo iriam dormir, e ela tentaria também. Caso acordasse no meio da noite, tentaria caçar mais uma vez. Aninhando as bolinhas de pelos, começou a lambê-los e afagá-los. Todos ronronavam em conjunto, criando uma atmosfera agradável e segura.

― Não fique triste, mamãe. ― Aulikki disse, sonolenta, ao ver uma pequena lágrima escorrer pelo focinho de Inna. ― Fen foi um ótimo amigo.

Com aquelas palavras, Inna caiu no sono. Nos seus sonhos, estava numa floresta de estrelas. As folhas das árvores eram escuras e brilhantes, como uma galáxia. Todos os animais também eram meio brilhantes e muito majestosos. De repente, pôde encontrar seus filhotes, que corriam sem parar. Antes que pudesse chamá-los, seus irmãos surgiram. Até Soren estava ali! Ela o abraçou, com saudades, antes que ele se transformasse numa constelação estática. Impossível de ser tocado novamente, mas bom de ser apreciado e lembrado. Encontrou Nora, que abraçou ela e todos os seus irmãos, lambendo suas testas. E, por fim, Fen também apareceu, mas ele era um pequeno filhote. Antes que percebesse, ela também era.

Eles correram sem parar pelos campos noturnos, cheios de estrelas e nebulosas. Seus pelos voavam com o vento, e eles riam sem parar. Não havia nada a temer. Nada para se preocupar. Ali, eram só filhotes.

Despreocupados, risonhos, e revivendo todas as suas memórias felizes.

Notas finais
caso não se lembrem do soren, ele foi o irmão da ninhada que morreu. a inna descobriu quando se reencontrou com a familia. basicamente é isso! acho que a grande mensagem dessa historia toda é que tudo bem seguir caminhos diferentes. às vezes você faz grandes amigos, mas chega uma hora que cada um toma seu rumo, seja por estilos de vida muito diferentes, objetivos, ou qualquer coisa. e tá tudo bem :^) vocês sempre irão guardar as boas memórias um do outro. <3
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!