Em busca da bicicleta perfeita
1 15/03/2018
DETALHE ANTES DE TUDO: EU NÃO SOU LOUCA E VOCÊ PENSARÁ O CONTRÁRIO. ATÉ EU PENSEI O CONTRÁRIO.
“Não dava mais!
Peguei minha bicicleta, coloquei os fones no ouvido, o celular no bolso e uma caneta também. Último volume. Nem mesmo a minha consciência era ouvida.
Desci da calçada e pedalei com força para me afastar de casa.
Ironia eu estar saindo de casa, sendo que todo o meu dia se inicia nela.
Mas não dava mais. Não naquele momento.
O vento se movimentava por mim. As árvores ganhavam vida e corriam enquanto eu passava por elas.
Apertei o guidom, inclinei meu corpo para frente e aumentei minha velocidade. Não queria parar. Não podia parar. Não dava mais.
Minha rua era extensa e demorava um pouco para se encontrar com outro quarteirão. Era como estar no fundo do mar em busca de ar e tentando a todo custo voltar à superfície.
O asfalto era liso, com os desenhos de sinalizações quase apagados. Uma ou duas pessoas estavam em frente as suas casas, não foquei direito. Mas também não era de meu interesse saber.
Parei de pedalar e deixei que a física guiasse minha bicicleta, até sua velocidade diminuir.
Um carro vinha em minha direção, posicionei a bicicleta para mais perto da calçada e voltei a pedalar.
Virei à esquina e segui até uma praça. O vento se aquietou quando cheguei. Estava vazia, por ser de manhã ainda.
Desci da bicicleta e comecei a conduzi-la até um dos bancos. Deixei-a cair no chão, criando um som desconfortável. Foi como ter jogado meus problemas junto.
Sentei no banco de madeira, abaixei o rosto apoiando-o em minhas mãos cheias de linhas que eu não faço ideia do que sejam. Não que eu não acredite nisso de “destino traçado em nossas mãos”. Eu não acredito. Por isso, para mim, se tornam apenas “não faço ideia do que sejam”. Apesar de eu saber que para cada traço em meu ser há um significado, mas não me prenderei a isso agora.
Apertei meus olhos. Nenhuma lágrima saiu. Não tinha motivos gritantes para tal, eu acho. Eu só queria sair de casa e apoiar minha cabeça confusa em algum lugar macio. O travesseiro foi descartado, pois está em casa. Só restaram minhas mãos naquela praça.
Talvez, se eu falasse “pombês”, pediria para apoiar minha cabeça nas penas cinza ou preta e nojentas de um pombo, afinal, tinha tantos que eu poderia testar qual era o mais confortável e menos imundo.
Não querendo ofender a "Associação dos Pombos", seja lá o que for isso, mas não gosto muito deles. O seus "gru" são irritantes, ainda mais numa praça silenciosa.
Fui escorregando minhas mãos em meu rosto até os dedos tocarem meu queixo e parei para observar a praça.
O tempo estava mesclando entre virar um lindo dia (24h) ou apenas um dia (manhã) lindo. Não importava a cor de seu céu, mas, sim, o que ele veria ao longo da tarde e o que estava começando a ver. Um vento gélido soprou e reclamei mentalmente por ter esquecido um casaco.
Tirei a caneta do bolso e sua tampa. Posicionei a ponta da tinta para frente, indicando uma árvore. Contornei-a. Dei uns retoques a mais, impedi que uma folha caísse no chão como várias outras, pois, no meu desenho, aquela era especial.
Desenhei-a flutuando pela praça, passando por uns passarinhos. Descendo e subindo, mas nunca tocando o chão. Parecia que tinha asas.
Segui...
Que inveja daquela folha desenhada! Tão livre!
Até que um pombo infeliz bateu de frente com ela. A inveja tinha acabado de acabar.
Parei com a folha e seu desenho se desfez.
Uma senhora, com uma bengala, vinha em minha direção. Desenhei um bigode à lá Charlie Chaplin e um chapéu. Ri imaginando aquela senhora andando e imitando o Chaplin. Quando ela olhou para mim, abaixei a caneta e olhei para outro ponto.”
— E o que mais aconteceu?
A doutora Cristina Fernandez me perguntou assim que me calei.
— Depois... – Olhei para ela e em seguida desviei para a janela de seu consultório, o céu estava azul, eu tinha certeza, mas o enxergava cinza – Como posso saber? – Tornei a olhá-la – Tive de vir para cá. Meu dia acabou quando olhei para outro ponto e vi meus pais com uma camisa de força!
— Ninguém a trouxe numa camisa de forças, pelo que sei. – Disse ela num tom paciente e batendo com a caneta na sua mão livre.
— Você nem me viu chegando!
— Mesmo assim, não acho que seus pais lhe trariam numa camisa de força. Aqui é apenas um consultório, não um hospício.
Estreitei os olhos para ela, anunciando que não havia gostado do que disse.
— Eles levaram meu casaco, pois estava frio, o.k.?! — Cristina sempre me convence a contar a verdade e quebrar toda a hipérbole que crio com as situações — Mas eu considerei como uma camisa de força, pois me tratam como um ser louco o bastante para precisar de cuidados psicológicos!
— Por que está gritando, senhorita Gabriela? – Perguntou ela, estagnando a caneta na mão.
Calei-me.
— O que você está querendo com tudo isso? – A doutora questionou, retomando a sessão e colocando a caneta em cima de uma mesinha, perfilando-a com outras da mesma marca e da mesma tinta.
DETALHE: AS CANETAS ERAM MINHAS. ELA SEMPRE PEGAVA MINHAS CANETAS. DEPOIS EXPLICO O MOTIVO.
— Eu... não... sei. – Respondi pausadamente, como se a minha respiração estivesse se esvaindo.
— Por que você sai todo dia de casa às seis da manhã?
— Eu não sei.
— O que aconteceu para você começar a agir desta forma?
— Eu não sei.
— Por que você se sufoca tanto?
Levantei-me.
— Para onde vai?
— Não sei. – E saí da sala.
Passei pela secretária Melissa.
DETALHE: NÃO IREI DESCREVÊ-LA AGORA, POIS A MESMA APARECERÁ MAIS A FRENTE.
Ela estava atendendo um cliente. Acho que eram pai e filho. O menino me olhou triste. Sorri triste também.
Já é a quarta vez que saio assim do consultório da psicóloga e ela nunca veio atrás de mim ou tentou me impedir. Nunca soube o porquê e nunca parei e voltei para perguntar.
Reparei que as perguntas que ela faz sempre mudam. Porém, minhas respostas são sempre as mesmas.
Saí do prédio. Tirei o fone do bolso do casaco e tentei desenrolá-lo. Nessa tentativa frustrante, vi um gato, pessoas, dois cachorros, carros, prédios, uma árvore ao meu lado e um ser me olhando como se eu fosse... Sei lá. Ele me olhava como se tentasse descobrir o que eu realmente era. Como se eu estivesse fantasiada e ele tentasse desvendar o que estava por trás da fantasia.
— Tá olhando o quê?
Ele desviou o olhar.
— Eu hein... – Esperei o sinal fechar e atravessei. Guardei o fone no bolso do casaco novamente, todo embolado. Não sou muito paciente.
Olhei para trás e o ser havia voltado a me encarar.
DETALHE: ESTE SER, O QUAL EU NÃO NOMEIO, INTECEDERÁ POR MINHA VIDA E SERÁ CONHECIDO POR MIM E POR VOCÊ PARA SEMPRE.
Continuei a andar. Vi meu ônibus se aproximar do ponto e fiz sinal. Adentrei-o. Paguei e, quando fui passar pela catraca, ela ainda esta travada. Encarei a trocadora, que me olhou com desdém, como se eu fosse obrigada a pedir "Por favor", para que ela destravasse a catraca.
Assim que me foi permitido passar, sentei no primeiro banco vazio que vi.
— Ah... – Suspirou o senhor que se sentou ao meu lado – Eu não tenho mais fôlego para correr atrás desses transportes.
— Na sua idade, nem eu teria. – Olhei para a janela.
— Na sua idade, eu respeitava os mais velhos.
— Na minha idade eu tento sobreviver à pressão dos “mais velhos”. – Fiz o sinal das aspas com as mãos.
O senhor ficou quieto.
— Desculpe-me. – Pedi – Hoje não está sendo um bom dia.
— Não só para você, minha jovem. – O senhor lançou um sorriso amarelado para mim.
Agora eu suspirei. Às vezes o silêncio é melhor do que algumas palavras aleatórias, ainda mais entre uma jovem e um senhor.
Seguimos viagem como dois desconhecidos. De fato, éramos. Mas éramos dois desconhecidos mais parecidos do que muita gente por aí.
Como eu sei? Ah, talvez por ele ser agradável como eu. Do nosso jeito, é claro. Entendemo-nos com poucas palavras, alguns olhares e suspiros de fadiga, tanto de correr atrás do ônibus como da vida. E o grande silêncio nos acalmou e nos definiu naquele momento.
Desci primeiro e acenei em despedida. O senhor balançou o rosto vagarosamente e sorriu, dessa vez sem os dentes amarelados.
Nunca mais nos vimos. Bem, não até hoje. Amanhã eu já não sei.
Caminhei até em casa. Simple Man foi minha trilha sonora. Em homenagem ao senhor que nada disse depois do meu suspiro. Ri comigo mesma.
A rua estava com pessoas que também são conhecidas como meus vizinhos, ou melhor: seres intrometidozinhos. Odiava a maioria. Não, eu não sou uma pessoa amarga e antissocial. Talvez só antissocial. E sei que "odiar" é uma palavra forte, ainda mais para mim, mas muitos ali me irritavam demasiadamente e muitas das vezes propositalmente.
Parei no meio da rua para apreciar a música. Eu entendia um pouco de inglês, depois de terríveis anos sendo massacrada nas aulas torturantes, consigo compreender algumas frases.
DETALHE: UM DOS MEUS VIZINHOS ESTAVA COM O SOM DO CARRO LIGADO. ELE TEM BOM GOSTO — o único com bom gosto — E EU GOSTO DELE. ELE TAMBÉM APARECERÁ MAIS A FRENTE.
Um minuto ouvindo algo que não fosse só batida, palavrões, palavras aleatórias e ritmos que não combinavam nada comigo. Fechei meus olhos e balancei a cabeça com a melodia da música ao som de Johnny Van Zant, antes de eu ser quem eu sou, eu escutava essas músicas. Aliás, esse meu vizinho me fazia escutar e gostar. Ele nunca mudou o repertório das músicas quando lava seu carro. E isso já faz dois anos desde que moro aqui.
O volume foi diminuindo... Abri os olhos.
— Já para dentro, mocinha.
A música não diminuiu, foi minha consciência – idiota, diga-se de passagem – que ficou mais atenta ao que minha mãe dizia do que ao som que vinha do carro.
Olhei para a porta de casa e depois olhei para o meu vizinho, que lavava o carro. Ele acenou e sorriu. Eu fiz sinal de “joinha”, mas não sorri.
— Pensei que fossem me buscar. – Soltei ao me aproximar de minha mãe.
— Não acha que está grandinha? – Ela me deu passagem na porta e eu entrei em casa. Ela entrou logo em seguida, deixando a porta aberta.
— Para irem até a praça me obrigarem a ir à consulta ninguém lembra que sou grandinha o bastante para tomar minhas próprias decisões, né?
— Chega, Gabi, chega.
—“Chega, Gabi, chega”. – Repeti com voz irritante de criança respondona.
Minha mãe suspirou e foi para a cozinha.
— Conversou com a doutora desta vez? – Perguntou ela gritando, digo, em voz alta.
Acho que minha mãe só ouviu a porta do meu quarto fechando forte.
DETALHE: ELA VIRÁ AO MEU QUARTO, BRIGARÁ COMIGO, MAS NÃO IREI COMENTAR COMO FOI, POIS IRÁ SE REPETIR SEMANAS DEPOIS E, ACREDITEM, COM AS MESMAS PALAVRAS.
Não que eu esteja empurrando tudo mais para frente, só estou poupando-lhes de uma repetição desnecessária de fatos que virão a acontecer.
Se quiser parar por aqui, tudo bem, eu vou entender.
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