Em Tom De Azul
6 Marcus // Ângela
Notas iniciais
Marcus
Marcus não gostava de ler grandes livros, ficava sempre recluso a eternas crônicas de no máximo cinco páginas – ele gostava apenas de histórias curtas. Dessas que já começam no meio de uma sentença pré-determinada, que possuem um ligeiro ângulo ao ápice e que não apresentam declives, apenas um final seco e salgado, que não seja precisamente um final.
Marcus não percebia, mas seu gosto literário era um reflexo de si: um menino mal-começado na história, sem passado ou futuro definido, que vaga por um presente ou outro, alcançado ápices momentâneas, que jamais possuem um significado completo. O que quero dizer é que Marcus nunca fora completo nem constante. Marcus não fora feito para durar. Ele era inseguro e medroso, cheio de pontos finais onde não deveria ter.
Ângela
Ângela devorava poesias. Amava-as como não amava a si, tocava-as como não fazia a outra epiderme, respirava-as como lutava pelo ar. Ela sentia-se confortável apenas na presença do complexo subjetivo das ordenadas palavras. Aquilo era tão mais interessante do que a corriqueira repetição dos dias, das horas e das faces aleatórias.
Ângela não se apegava. Ângela possuía um coração brando que ansiava por um aperto, por um suspiro, por pernas bambas e noites em claro que nunca vinham. Ângela era uma apaixonada sem um amante. Tinha tanto para dar, tanto pelo que receber, mas não podia se deixar levar por um pensamento romântico ou por uma batida mais forte no coração.
Ângela tinha medo de amar, por isso só amava a as palavras em verso, que a aquecia fracamente durante as madrugadas em que não se permitia dormir, apenas para ver o sol levantar e trazer mais um novo dia de monotonia.
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