Apenas olhei para ela – a maresia inoculada nos olhos, os lábios presos em uma linha comprida, desagradável, avermelhada. Ela equilibrou o copo com as pontas finas dos dedos finos, balançando-o de forma imprecisa, e levou-o a boca, derramando o líquido tóxico em sua boca. O rosto dela contorceu-se por um momento, um rosto de tortura impávida altoinfligida, um rosto de mil dias à espera da próxima primavera; no momento seguinte, estava encarando o copo, refletindo a bela metáfora que ele era de sua existência vazia feita para ser desaguada em pessoas passageiras.

- Queria saber escrever poesia – sussurrou ela, esfregando os olhos para se manter acordada. – Mas, não sei como fazer os meus sentimentos fluírem para além de mim, mesmo quando eu tento muito, eles parecem ficar retidos em alguma parte entre o começo e o fim da minha epiderme, sem serem jamais capazes de atravessar a fragilidade de tal linha imaginária. Também não gosto de sentimentalismo, minto, até gosto, quando preso a uma existência paralela a minha, como nas letras impressas dos livros ou como nas personas das imagens caleidoscópicas da TV. Detesto sentimentalismo na vida real, em gente com carne e osso e sangria; detesto fala mansa, palavras atropeladas, conversa sem sentido no telefone de madrugada e coisas clichês, como assistir, grudadinho, filme de sessão da tarde e sexo fofinho. Detesto sexo fofinho! Detesto apelidos fofinhos, ursinhos de pelúcia fofinhos, cantigas fofinhas, detesto pessoas fofinhas! Um homem tem que agir como um homem, e uma mulher tem que agir como uma mulher; não como crianças dando voltas no parquinho da praça da Igreja.

- Você é muito ressentida, muito sofrida, por isso não consegue escrever poesia – disse. Ela não escutou.

- Eu não tenho paciência para procurar palavras, gestos, rimas, só sei transpirar na página e profanar a alvura pura dela com os meus devaneios ontológicos e devassos. Sou uma mulher que gosta de sexo, quem iria ler as coisas que eu tenho para dizer em forma de versos? Ninguém! Todos esses homens egocêntricos não querem acreditar que mulher também tem desejos! Não me leriam nunca, e, caso o fizessem, as queimariam, pois ficariam atordoados com as minhas palavras. Talvez, eles queimar-me-iam também. Talvez, nem ardesse... Talvez, para mim, fosse somente a lembrança de um carinho teu... E meu...

- Ou, talvez, você gritasse em agonia, pedindo perdão por todas as suas heresias.

- Também, não tenho paciência para escrever poesia nem sei arrumar minha bagunça em linhas, tudo o que eu sei é pegar o meu âmago e revirá-lo sobre o papel, para ver no que vai dar. Às vezes, saí um quadro dadaísta, outras vezes, é algo um pouco mais impressionista. Tem dias, ainda, que sou barroca, neoclássica, gótica, apaixonada pela vida; tem dias, porém, que acordo, saio rastejando meio morta meio viva da cama, meto-me no chuveiro, noto que esqueci a toalha, saio nua e molhada pela casa, a cortina bate contra a janela, o vento da manhã me faz tremer toda e correr para o quarto, olho para a cama, tão grande, tão larga, tão vazia, penso em ti, e perco o dia inteiro assim, em uma única palavra – teu nome. Teu nome nas letrinhas na televisão, teu nome na tela do meu celular vibrando, teu nome no adesivo da farmácia envelhecido untado à geladeira, teu nome nas bifurcações da minha chave, teu nome nas placas de trânsito, teu nome sendo o nome de umas muitas lojas, teu nome na capa do livro, teu nome na contra capa do livro, teu nome na orelha do livro, teu nome repetido para sempre nas páginas do livro, teu nome engarrafado em polímero sintetizado do outro lado do mundo, teu nome nas palavras que escrevo na minha agenda, teu nome sendo desfeito e refeito nas nuvens, teu nome adornando minha xícara de café frio, teu nome encarando minha face deprimida no banheiro da firma...

- Já fez poesia!

Ela suspirou, os lábios e as mãos azulados, manchada toda ela de saudade apertada.

- A gente nunca foi feito para ser. Eu até sabia fazer uns versinhos tímidos, até te conhecer e te perder. Fechei a mim mesma para as cores e para as melodias da vida, tudo culpa minha, verdade! Não soube te deixar, eu sou sempre tão egoísta, sabia que o amor nunca tinha enraizado, mas continuava a empurrar as ilusão pela minha garganta, como se fosse remédio para verminoses. Eu pensei que fosses curar minha solidão, mas não. Tu não podias, tinha repetido várias vezes: Você é quem você tiver coragem de ser. Pois bem, sou fraca, galinha despenada, quero ser simpática, graciosa, amável, mas, a cada dia que passa, fico mais fria, mais na minha só comigo mesmo; até rir eu desaprendi. Eu estou ficando roxa de amargura! Eu estou virando um reflexo do meu passado.

- Você sempre tem esse discurso narcisista de quem está convicto de que suas dores são as maiores dores do mundo – disse, batendo os dedos com força na mesa. Ela não escutava. – Tudo é sobre você! Esse é o seu problema!

- E eu nunca sei terminar. Bem, é simples, eu acho, basta um ponto final, e eu até sei como fazer um pingo no canto da página, apesar de nunca saber realmente quando é hora de acabar. Na minha vida, tudo sempre se esvaiu muito sorrateiramente, um dia eu atravesso uma rua estreita, e o rosto que me cerca é familiar, mas anda em reto diante de mim, como se eu fosse feita de material translúcido. Eu não sei reconhecer o clima de final... Tem gosto de quê? Quero saber! É azedo, é salgado, é nostálgico, parece com chocolate? E o cheiro? Lembra girassóis ou lembra rosas amargas? E a tonalidade? É da cor do céu sem nuvens ou é da cor da tempestade nos teus olhos castanhos? E a textura? E a sensação? E a despedida? Flutua no ar ou é cuspida?

- Final não tem cheiro de nada, é morte de corpo, é morte de momento, é morte de beijo, é morte de tormenta; final é final, não é feito para se apreciar, para saborear, é feito para cada um migrar para uma latitude oposta no globo e desfalecer, esquecido em qualquer boteco, com um copo sujo de bebida barata.

- Eu queria ter dito adeus, te amo, até uma tarde quente de verão... – suspirou. Ela empurrou a cadeira para trás, desajeitada, e ergueu-se com dificuldade. Cambaleou pelo cômodo, enquanto eu a assistia, e desligou a luz. Ela arrastou-se até o quarto, deixando-me sozinho na pequena cozinha do seu apartamento. Eu olhei de um lado para o outro, sentindo-me terrivelmente perdido. Levantei. Olhei a vida passando pela janela.

- Eu também não me despedi de ti. Nós dois fomos orgulhosos demais, por isso nunca fomos mais do que uns encontros casuais. Eu não te amei, porque eu era muito recluso, muito metido a literato frio intelectual. Tu nunca me amaste, porque era muito fragmentada para se permitir ser tocada – disse. – A gente viveu de romances passageiros, de cartas e de postais rabiscados com acasos. A gente não foi feito para durar duas semanas, tu quase não sobrevive intacta um dia inteiro sem correr rapidinho para o aperto do teu quarto para derramar as tuas lágrimas de saudade pelas coisas que nunca poderão ser. Contudo, eu sinto a tua falta também.

Ela não pode me ouvir.

Notas finais
Geralmente, não gosto de explicar as coisas, mas quero deixar isso claro: ele é um fantasma .-.
Mais um conto existencialista em tom de azul, como o meu âmago. Espero que gostem!