Em Suas Mãos

8 Capítulo 7 – Arrisque-se


Em Suas Mãos

Capítulo 7 – Arrisque-se.

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Caroline preferia ir de voo comercial. Ir no avião particular de Klaus soava pretencioso demais, até para ela. O Mikaelson gostava de esbanjar riqueza, ela sabia, assim como todos que nascem em berço de ouro, mas Caroline faria as coisas da sua maneira e queria viajar sozinha. E passar um início de dia inteiro na companhia de Klaus seria o suficiente para ela, não queria ficar mais que o necessário perto dele. A tensão entre os dois já havia se tornado mais pesada e se imaginar passando mais de 2h dentro de uma caixa suspensa no ar sozinha com ele parecia perigoso e poderia realmente leva-la às alturas já imaginadas por ela. Mas para a sua total surpresa, não precisaria. A cidade que sua mãe morava não “passa de uma hora daqui, Caroline”, ele disse enquanto colocava sua mala no carro.

― Se quiser pode ir comigo. – Klaus sugeriu enquanto fechava o porta malas e encarava Caroline.

― Não, obrigada. Preciso de uma hora de folga para me recuperar de ter que te aturar além do escritório. – Alfinetou e Klaus riu. Com aquele sorriso logo pelas primeiras horas da manhã a oferta aparentava tentadora, mas ainda assim, queria se manter distante dele.

Klaus dirigia na frente enquanto Caroline o seguia. Ao avistar a placa da cidade uma estranha sensação lhe fez arrepiar-se por completo. Por todo esse tempo, mesmo estando por perto, sempre evitou ir por esse caminho. E prosseguir era tão necessário quanto respirar, mas o ar se tornou pesado, o nó formou-se em sua garganta e um tremor tomou conta da sua carne. Se ela pudesse, encostaria o carro se permitindo respirar desenfreadamente ou daria meia volta, mas tinha algo em jogo do qual não poderia ignorar por caprichos pessoais. E assim ela o fez. Engoliu a dor e seguiu até a casa, ou mansão, dos Mikaelson. Uma enorme construção rústica e, embora as paredes brancas e bege lembrem a modernidade, a arquitetura era, ainda assim, antiga.

Ela desceu do carro e suspendeu seus óculos de sol observando todo o local. Era silencioso, lindo e passava uma calma indigna para ela.

― Caroline. Bom vê-la longe do escritório. – Elijah desceu as escadas da entrada principal com um sorriso e cumprimentou-a beijando sua mão como o cavalheiro que é. ― Devo dizer que fica ainda mais bonita com roupas informais.

― O terno te dá um charme a mais, confesso, mas te ver assim... Uau! – Ela olhou Elijah de cima abaixo e se abanou com as mãos. ― Digo o mesmo. – E riram.

Elijah havia se tornado um bom aliado na empresa, sempre atualizando Caroline sobre as políticas, novos colaboradores e principalmente lidando com a instabilidade do chefe, que a essa altura ela já havia acostumado a trocar farpas sutis involuntárias até em ocasiões informais e perceber os olhares se intensificando em outras situações.

― Bonita é um mero apelido para uma mulher como ela. Ela é linda e incrivelmente gost...

― Kol! Mantenha os modos. Se é que você ainda possui algum. – Elijah o advertiu e Kol riu debochado.

― Eu perco o pouco que me resta na presença de tanta beleza. – E fez o mesmo que Elijah, só que dando uma piscadinha e um sorrisinho para a loira após demorar mais que o necessário no gesto, o que a fez rir.

Kol é um misto de Elijah e Klaus. Jovem, com um ar rebelde, cabelos arrepiados castanho médio, olhos escuros, sorriso cafajeste e incrivelmente charmoso. E sabia disso. Não se importava em usá-lo a torto e a direto.

― Modos? Nunca teve, na verdade. – Klaus pareceu atrás dele como um fantasma. ― Kol se acha por ser um desenvolvedor de projetos tecnológicos e investidor na empresa. Um típico moleque que quando vê uma mulher de verdade fica assim. – Debochou.

Caroline não sabia dizer se era um elogio ou não, então se ateve em rir da cara que o mais novo fez.

― Eu sou um nerd lindo, charmoso e pegador. É muito para você digerir, Nik? – E encarou o irmão.

― Você é apenas um babaca, Kol. Nada além. – Caçoou.

― Nossa, Nik, sempre amargo. Você precisa transar! – Kol mordeu o lábio inferior e percorreu o corpo de Caroline com os olhos sem ao menos tentar disfarçar. ― E eu também.

― Kol! – Vociferou Klaus. ― Eu acho bom você manter o mínimo de respeito! – Irritou-se e se aproximou de forma intimidante dele.

Klaus conhecia o irmão o suficiente para saber que não pararia de perturbá-la até conseguir algo e Caroline era o tipo de mulher livre que não se importava em fazer o que for do seu desejo. E ele não estava disposto a deixar a aproximação acontecer o suficiente para ela querer isso. Afinal, ele deveria lembra-la que só está ali a trabalho e nada mais.

― Kol, sutil como uma britadeira. – Uma jovem loira de olhos claros e boca incrivelmente marcante se pôs entre os dois e virou-se para Caroline. ― Perdoe a idiotice masculina do meu irmão. Dos meus dois irmãos. Mas creio que já esteja acostumada com o mais insuportável de todos. – Apontou para Klaus e riu. ― Me chamo Rebekah. – E estendeu a mão.

― Caroline. – Fez o mesmo, recebendo um sorriso de Rebekah.

― Caroline, Caroline... Então essa é a Forbes, sua nova Diretora! – Pronunciou Kol, surpreso.

― Se ao menos aparecesse na empresa saberia disso antes. – Klaus falou sério.

― Nik... como está bem servido. Eu definitivamente apareceria mais vezes se soubesse que está contratando mulheres inteligentes além de bonitas, não só ajeitadinhas como aquela sua secretária sem graça. – Klaus olhou mais uma vez de cara feia para ele e Rebekah revirou os olhos, entediada pela cara de pau do irmão.

Aquilo seria realmente divertido, não só em relação ao trabalho, ela pensou.

― Venha. Você não precisa ouvir isso. – Rebekah enlaçou seus braços no de Caroline e levou-a para dentro da casa.

― Nunca resisti a uma mulher boa, em todos os sentidos, mas essa aí... – Assoviou vendo Caroline entrar na casa com Rebekah. ― Nik, Nik, se não quiser, eu quero. Toda séria, comportada... mas deve ser soltinha em outros aspectos, se é que me entende. – Provocou o mais novo.

Klaus o encarou e sorriu de lado. Kol era abusado e o desafiava o tempo todo, mas se davam bem no final das contas e essa era só mais uma das provocações para chamar a atenção dele ao ponto de irritá-lo. Ele deu dois tapinhas debochados no ombro do irmão e virou de costas para pegar as coisas no carro.

― Você precisa conhecer o lago e os estábulos. Podemos andar a cavalo no final da tarde. – Rebekah falava sem parar enquanto passava pela sala. ― O pôr do sol daqui é simplesmente sensacional. – E parou na cozinha.

― Droga! Quem foi o idiota que deixou essa merda aqui? – Disse uma mulher de avental sacudindo as mãos no ar.

― Mamãe! Modos! Depois fala de Nik e Kol. Temos convidados. – Rebekah chamou-lhe a atenção e ela imediatamente olhou para cima.

― Oh, me desculpe! – Se aproximou de Caroline e lhe deu um abraço apertado.

Elas sorriram uma para a outra e Caroline se sentiu estranhamente bem. Não estava acostumada a nenhum tipo de interação desse tipo, ainda mais com uma mulher mais velha que a fazia lembrar sua mãe. E ela esperava encontrar alguém frio, arrogante e teimoso como Klaus, mas tudo o que viu foi uma mulher cozinhando algo que cheirava terrivelmente delicioso com um sorriso iluminado e acolhedor.

― Onde estão suas malas, mocinha? – Perguntou a mulher tirando-a do devaneio.

― Bom... eu... Eu não ficarei aqui, Sra. Mikaelson. Reservei um hotel no Centro, não se preocupe. – Sorriu educada.

― Com tantos quartos vazios aqui? Por favor, eu insisto. Adoraria que ficasse. Afinal, você é a...

― ...mulher que atura todo o mau humor diário de Niklaus sem perder a cabeça ou querer mata-lo. Pelo menos em teoria. – Interrompeu Rebekah em tom de brincadeira.

Caroline riu pela ironia. Se ao menos elas soubessem...

― Então... Qual quarto prefere? – Perguntou a Mikaelson mais velha.

― O do final do corredor tem uma vista maravilhosa para o jardim dos fundos. – Disse Rebekah.

― Além de ser ao lado do quarto de Niklaus. – Completou a matriarca piscando para a loira.

Caroline já tinha pensado nisso. Passar mais tempo com a família na casa deles daria uma melhor noção das coisas. Mas as circunstâncias na presença do Mikaelson tinham uma certa tendência em sair do controle. E essa proximidade exagerada poderia ser instável demais. Antes de ela negar o pedido Klaus entrou na cozinha e abraçou a mulher.

― Mãe, não seja indiscreta. Caroline e eu estamos aqui a trabalho. – Enfatizou o Mikaelson. ― Somente... – E encarou a loira.

― Mas... Eu pensei... pensei que... – Ela olhou para os dois, confusa. ― Qual é o lance de vocês? – Questionou.

― Nós não temos um lance. – Enfatizaram juntos.

Rebekah olhou para a mãe em confidência e riram.

Estranhamente, o clima descontraído se tornou pesado, carregado demais. Klaus repousou a mão sobre o ombro da loira como se quisesse protege-la instintivamente de algo ou alguém. E logo ela descobriu.

― Niklaus. – Vociferou um homem entrando na cozinha. ― Pensei que não nos daria o ar da sua graça como nos outros anos, mas vejo que finalmente o filho pródigo retornou.

O semblante de Klaus ficou frio, distante e a postura arrogante, como na MC³. Rebekah cruzou os braços e a mãe deles continuou a cozinhar como se fosse um evento natural pai e filho se encararem daquele jeito.

― Mikael... – Klaus cumprimentou-o friamente.

― Quem é a bela jovem ao seu lado? – O homem se direcionou para Caroline e Klaus se aproximou ainda mais da loira.

Minha Diretora Financeira. – Respondeu seco. Quase como um rosnado.

― A que substituiu o incompetente do Liam. Me sinto honrado em finalmente conhece-la. – O homem beijou a mão da loira e Klaus o encarou ainda mais. ― Soube que o infeliz quase derrubou a empresa.

― Sim. É verdade. Mas Klaus e eu daremos um passo de cada vez de acordo com o planejamento e dentro de um ou dois anos é possível estabilizar todas as finanças. – Disse em um tom sério, porém brando, algo próximo ao profissional.

Klaus sorriu de lado com a postura da loira e a forma como ela se posicionou perante o patriarca Mikaelson, deixando-o sem uma resposta.

― Um passo de cada vez... – Repetiu Mikael. ― Não parece muito com o feitio de Niklaus. Impulsivo, insolente... – E ficou de frente para Klaus, que o fitava sem desviar os olhos.

Sempre que ficavam juntos, algum tipo de discussão severa se iniciava e todo o clima ficava pesado na presença um do outro. Talvez seja porque monstros reconheçam monstros, ainda mais quando um cria o outro. E Mikael não era lá o melhor exemplo de pai no mundo.

― Águas passadas. Esqueçam esse infeliz incidente com Liam pelo amor de Deus! – Irritou-se Rebekah e Mikael se retirou com uma desculpa qualquer. Ao menos ele tinha o mínimo de consideração pela esposa e não queria estragar o dia dela.

― Niklaus, por que não pega as malas de Caroline e coloca no quarto dela? Vocês podem escolher um mais apropriado... juntos. – Insinuou a mulher mais uma vez, encarando Klaus de forma divertida.

Caroline percebeu o sorriso de lado de Rebekah e tentou argumentar antes que ela falasse algo.

― Sra. Mikaelson, não é necess...

― ...Esther, por favor. E nem pense em fazer desfeita, mocinha. Adoraríamos que passasse o dia aqui. – Ela tirou rapidamente o avental e se dirigiu para o lado de fora com Rebekah. Provavelmente era mais uma van chegando com a decoração e ela precisava recepciona-los.

― Espero que aceite. Ela tende a ser muito persuasiva quando quer. Além disso... – Ele se aproximou da loira e sussurrou. ― eu também gostaria que ficasse. Precisamos resolver alguns problemas nossos... – E sorriu de lado. ― com a empresa. – Aquele sorriso sínico que Caroline tanto odiava.

Ele apontou a escada e eles subiram mesmo contra a vontade da loira. Sua intuição dizia que algo poderia dar terrivelmente errado mesmo dando muito certo. Ao final do corredor, Klaus parou em frente a uma porta e virou-se para Caroline.

― Existem apenas dois quartos perfeitos nessa casa. O meu, claro, e o que escolhi para você. – E abriu a porta. ― Espero que goste. Tomei a liberdade de trazer suas coisas para cá antes mesmo de pensar em aceitar o convite.

Caroline se pegou admirando a decoração rústica do quarto e não pode deixar de notar que ele era exatamente ao lado do de Klaus.

― Impulsivo, insolente... Por que isso não me surpreende, Sr. Mikaelson? – Provocou Caroline olhando para ele, que permanecia na porta.

― E eu gosto de vigiar de perto quem lida com o meu dinheiro. – Deu de ombros, sonso.

― Claro que não, Sr. Mikaelson. Pode dar um de stalker a hora que quiser. Só não me vigie no banho, por favor. Isso é muito rude. – Continuou com a provocação, fazendo Klaus fechar os olhos e respirar fundo.

― Caroline... – Bufou Klaus, aproximando-se mais do que deveria dela. ― Não abuse da minha paciência.

― Soube por Elijah que você colocou um freio em Niklaus. – Pronunciou um moreno alto atrás deles, cortando a tensão.

― Eu não diria isso. Ele tem saído bastante ultimamente. – Brincou a loira.

― No entanto, tem dado mais atenção às responsabilidades da empresa.

― Isso é realmente inegável. – Concluiu Caroline.

Finn se apresentou e eles desceram para o almoço. Caroline sentou-se ao lado de Rebekah e a sua frente, um pouco mais distante, estava Klaus. E Caroline observou tudo entre as risadas e provocações divertidas que eles faziam entre si. Em todas as brincadeiras, Mikael era o que permanecia mais sério e evitando tocar nos assuntos da empresa, Klaus preferiu passar a maior parte do tempo calado, apenas fixando os olhos na loira de vez em quando.

― Bom, Caroline... Já que estará sozinha essa tarde, gostaria...

― Kol, como você é ridículo. – Interrompeu Rebekah caçoando o irmão.

― Qual o problema? Ela está sozinha mesmo! – Reagiu Kol.

― Tirando o fato de você ser dez anos mais novo que ela, nada. – Foi a vez de Finn debochar.

― O amor não conhece idade. – Retrucou o mais novo.

― E nem você, limites. – Concluiu Klaus, enfim descontraído, e todos riram.

Após a refeição Esther anunciou a sobremesa e levantou-se em direção a cozinha. Caroline se ofereceu e elas foram juntas enquanto as piadas ainda rolavam.

― Fiquei feliz em saber que Niklaus viria. Ele é tão temperamental e Mikael também não ajuda. – Suspirou Esther tirando um bolo do forno.

― Confesso que ele estava um pouco relutante em vir.

― E o que o fez mudar de ideia? – A matriarca retirou o sorvete do freezer e entregou uma colher a Caroline, que pegou alguns potes no armário.

― Talvez ele quisesse ver a família, só não conseguia dar o braço a torcer. – Deu de ombros enquanto enchia as taças e as colocava na bandeja.

Caroline acreditava nisso e, no fundo, o invejava por ter laços de sangue que ligam e se importam com ele.

― Niklaus nem sempre foi assim. Ele era um menino doce e sensível, como seu pai. Mas então aconteceram algumas coisas que mudaram tudo.

― O que houve? – Caroline a olhou com certa curiosidade e indagou, interessada. Não imaginava que alguém como Klaus poderia ser “um amor”, muito menos com a criação de Mikael. Seria coincidência demais alguém ter sido como foi e ter se tornado alguém exatamente como ela.

― Você não sabe. – Esther olhou para ela surpresa e encostou no balcão. ― Ah... Paris. Paris aconteceu. – Suspirou Esther, saudosista, e Caroline riu. ―

Você não conhece a França. Dizem que é a cidade dos apaixonados, mas é muito mais que isso.

Foi... arrebatador, alucinado, insano, febril. Talvez seja por isso que Niklaus seja tão... intenso. Ansel era assim.

― Ansel...

― Seu pai. Mikael o assumiu como filho. Nós sofremos uma crise no casamento. Sua obsessão por poder o enlouqueceu. – Esther virou-se e continuou cortando as fatias do bolo. ― Ele nunca chegou a me agredir, que fiquei claro, mas chegou a um ponto que eu não o reconhecia como o homem ao qual me casei e fui para outro lugar. Esse lugar me deu o melhor presente da vida. Mas Niklaus sempre sofreu com isso. Não foi justo com ele, não foi... – Sorriu entristecida com lágrimas nos olhos e Caroline a abraçou.

Não sabia exatamente porque fez isso, mas parecia o certo. Esther segurou o choro e sorriu para ela, que retribuiu, e saíram da cozinha em seguida.

― Mãe, a senhora deveria aprender a botar o sorvete junto com o bolo.

― Isso foi culpa minha, querido. – Pronunciou Caroline atrás de Kol, beijando-o no topo da cabeça como uma esposa. ― Desculpe.

― Meu Deus. Estou excitado. É pecado ficar excitado na mesa do almoço? – Pronunciou o mais novo observando Caroline e todos reviraram os olhos.

― Só se for no dia do aniversário da sua mãe. – Disse Finn arrancando uma risada de todos, menos de Klaus que permanecia olhando para Caroline até ela se sentar novamente.

A companhia dela, até então, tinha sido melhor do que o esperado ou ele mesmo já teria dado uma desculpa logo pela manhã para evitar o trabalho de ter que lidar com a sua família desajustada. Irmãos desunidos, um pai destrutivo, uma mãe omissa e ele... O lobo na pele do lobo. Já nem fazia mais questão de disfarçar ou tentar esconder. Mas Caroline tinha o dom de fazer as coisas parecerem mais leves. Não que fosse proposital, nem para ela era. Apenas acontecia.

Mesmo receosa com as interações e investidas na família Mikaelson, Caroline permaneceu tranquila. Precisava adquirir a confiança deles para avançar. E fazê-los abaixar a guarda desse jeito era a melhor maneira de obter cada vez mais informações relevantes sobre o passado do reservado e discreto Klaus. Aquele olhar calculista e distante dele a fez lembrar de todos os caras que teve que derrubar para chegar até ali. Tudo muito profissional para se manter uma proximidade. Um bom cargo de destaque como disfarce, algumas reuniões, alguns jantares e o trabalho estava feito. Tão rápido que a preocupação com o tempo era mínima. Mas nunca antes ela se permitiu interagir dessa forma. Tinha algo nesse caso em especial que tornava tudo diferente. Não o suficiente para interferir em sua excelência, mas o bastante para ela se arriscar um pouco mais do que deveria. E ela teria que passar uma tarde inteira na companhia dele. Mas não se preocupava nem um pouco com isso. Pelo contrário. Irritar Klaus havia se tornado seu hobbie preferido depois das saideiras com as meninas.

Após uma intensa troca de olhares, ambos pediram licença e se dirigiram para fora enquanto alguns convidados da festa da tarde chegavam em grandes grupos.

― Vamos. Quero te mostrar algo. – Klaus sussurrou no ouvido de Caroline, recebendo um olhar raivoso de Kol. ― Me acompanhe. – Ele se dirigiu para os fundos, pegou duas taças, uma garrafa de espumante e seguiu para fora.

Passaram pelo caminho em silêncio observando a propriedade. Embaixo de uma das árvores perto do lago, Klaus sentou-se em um banco e convidou Caroline a fazer o mesmo, estourando o espumante e entregando uma taça cheia a ela.

― Então. O que é? – Perguntou já preparada para ouvir qualquer coisa relacionada a finanças, lucros, vendas e até alguma piada idiota só para deixa-la irritada. Mas Klaus olhou com um sorriso de canto para ela e depois para frente da sua casa. ― Ah, meu Deus! Você é pior do que eu pensava! – Ela olhou para o aglomerado de pessoas que se formavam na entrada da residência e deu uma gargalhada. ― Está me usando para se afastar... Daquilo. – Riu ainda mais alto, divertida, e Klaus percebeu ter sido uma ótima ideia ir para longe de todos. ― Niklaus Mikaelson fugindo de pessoas. Que vergonha. – Debochou.

Ele sempre foi relutante com esse tipo de convenção formal. Preferia mil vezes estar em uma sala fechada fazendo algo que o fizesse afastar todas as sensações que considera ruim. Mas a companhia fazia ele sequer desejar isso. Trocar farpas sinceras com Caroline soava muito mais divertido do que estar rodeado de pessoas que só tem interesse na sua situação financeira e de conversas fúteis sobre qualquer coisa estúpida.

― Eles me dão tédio. – Revirou os olhos. ― E estou bem mais interessado em te ouvir, amor. – E levantou uma sobrancelha de um jeito sexy enquanto enchia a taça de ambos novamente.

― Me ouvir? – Perguntou, realmente curiosa.

― Você é nova na empresa e, de certa forma, comigo. Todos já sabem quem você é e o que faz lá dentro. Mas eu não te conheço. Seu passado é praticamente inexistente, Caroline. – Ele se aproximou da loira e a encarou. ― E convenhamos, amor, há bem mais de você debaixo dessa máscara de excelência profissional que veste. Só você não percebe o quanto instigante é.

Caroline olhou para Klaus com certa surpresa e no princípio, mesmo tendo as respostas atravessadas mais rápidas direcionadas a ele, não soube o que responder instantaneamente. Ele havia procurado sobre ela. Pior. Ele estava realmente interessado nisso.

― Você tem toda a internet e pessoas que podem investigar isso a sua disposição. Use. – Disse despreocupada, porém, claramente irritada.

― Não há nada além de escolas e a Universidade que frequentou até o doutorado, algumas fotos em reuniões, aniversários e festas de todos os tipos. Inclusive as de república. Você é igualmente divertida e séria, pudorosa e não moralista... – Caroline bebeu mais um gole espumante e ficou na defensiva, quieta. ― Vamos lá, Caroline. Arrisque-se. Deixe-me conhece-la. Fale comigo. – Klaus se aproximou ainda mais dela.

― O que quer saber? – Falou baixo. Um pouco cautelosa. Nada do que viesse de Klaus poderia ser muito bom.

― Eu quero saber tudo. Seus planos, seus sonhos... – E sorriu daquele jeito irresistível.

Caroline soltou uma risada e pensou em não responder, mas preferiu permanecer no jogo onde no fim, ela sai vencedora de qualquer forma. E revelar algumas coisas a Klaus não seria um problema. Pelo contrário. Fazia tempo em que ela não pensava além das suas necessidades e convicções. Dinheiro, sexo, status, poder. E compartilhar algumas das suas dores poderia não ser tão ruim assim. Mas não agora.

― Bom... Eu sonho em entrar de férias e ir para uma ilha paradisíaca onde eu não precise te ver ou ouvir sua voz durante quinze maravilhosos dias. ― Sorriu debochada, recebendo uma risada alta e deliciosa de Klaus. ― Na verdade meu sonho atual é muito complexo. Um dia, talvez, eu te conte.

E realmente era. Seu caminho, mesmo tortuoso, não chegou ao fim. E ela precisava dar o melhor de si para alcançar seu objetivo para além de fazê-lo parar de respirar uma hora ou outra. Trabalhar na companhia de Marcel como escudeiro e conselheiro, Matt na linha de investigação e amizade, o companheiro do seu amigo da Narcóticos para coisas obviamente muito erradas, traçava a cada passo, a proximidade do seu real objetivo de vida. E ela não podia parar. Nem queria. Não agora. Nem por Lockwood, nem por Klaus, por ninguém.

― Hm... Meu único alívio em também te aturar é que menos sei que contratei a pessoa certa. – Debochou Klaus.

― Como assim? – Curvou as sobrancelhas, curiosa.

Klaus levantou-se com um sorriso vitorioso no rosto e retirou um papel do seu paletó.

― “Presidente da organização financeira, Diretora de embelezamento e decoração da Boston University”. Eu sei que isso é apenas uma maneira mais bonita de dizer que elaborava festas para tarados e drogados de fraternidade. Mas tudo bem. Eu te aceito assim. – Riu alto, zombador.

― Muito engraç... – Ela deu um gole no espumante e depois engasgou. ― Espera. – Levantou desesperada. ― De onde tirou isso?

― “Quando eu for contratada pretendo redefinir...” – Continuou Klaus ainda rindo.

― Isso foi apenas um texto ridículo para deixar no RH. Não acredito que teve acesso a isso. Vou matar Elijah!

― “...Excelência”. – Olhou para ela e prosseguiu.

― Klaus me devolve isso aqui agora! – Caroline foi para cima dele, que desviou.

― “E sobretudo, pretendo aspirar, inspirar e transpirar”. Obviamente, há carência em palavras terminadas em “pirar”. E gostei do modo que usou o “quando” aqui. Muito confiante. – Caçoou.

― Sim, Klaus. É muito engraçado. Hilário! – Caroline vociferou um pouco irritada. ― Agora que sabe que sou um poço de humildade quer fazer o favor de queimar essa droga? – Klaus a olhou de um jeito engraçado e ela não conseguiu controlar a risada. ― Deixa que eu mesma queimo. – Tentou novamente pegar o papel da mão dele, que recuou e caíram na risada.

― Você não pode, amor. Isso agora me pertence. – Provocou. ― E você é subordinada a mim. – Sorriu de canto, maldoso, cínico.

― Querido. – Caroline se aproximou dele e segurou firme em sua gravata, alisando-a. ― Você falou que não me conhece. Deixe-me apresentar um lado meu que você não sabe, mas que talvez já imagine que exista. – Ela puxou-o mais para perto do seu rosto e encarou-o. ― A única forma de você me ver submissa é de joelhos... entre as minhas pernas. – Sussurrou. ― E nesse jogo de quem geme mais eu saio vencedora sempre. Mas garanto que quem mais gostará é quem está por baixo. E um pequeno segredo: não sou eu. – Soltou sua gravata bruscamente e sorriu de lado.

Klaus precisou fechar os olhos e imaginar o motivo torpe de estar ali para não prosseguir com o que queria. Mas abri-los e dar de cara com aqueles orbes azuis da loira provocando-o em silêncio não ajudava em nada.

― Caroline... – Seu nome soou como uma repreensão. E com aquele sotaque delicioso a ameaça se tornou ainda mais excitante.

― Apesar disso ser um investimento a curto prazo, precisa-se de algumas pequenas e sutis estimulações para encontrar brechas e entrar com o ato, Klaus. – Caroline mudou discretamente de assunto e sorriu sínica. ― E não acredito que isso seja seguro no momento. – Levantou uma sobrancelha e apontou com a cabeça para a direção contrária.

― Isso não é hora de falar de negócios. – Intrometeu-se o mais novo.

― Kol. O que quer? – Questionou Klaus irritado.

― Eu? Eu quero Caroline. – Piscou para a loira que somente continuou com o sorriso sarcástico por ver Klaus nessa situação sem poder fazer algo. ― Mas mamãe pediu para chamar vocês. Você sabe Nik, pessoas chatas que ela gosta de nos apresentar. – E se retirou.

Sem nem ao menos se olharem pelo caminho, seguiram Kol até antes da ponte que ligava o lago a casa. Klaus seguiu para a entrada, mas Caroline permaneceu distante de todos. Não era sua obrigação ter que lidar com pessoas que ela não tinha o menor interesse em socializar.

O que ela não imaginava, no entanto, era alguém interessado nela e se aproximando o suficiente para lhe causar um pequeno arrepio.

― Por que isso não me surpreende? – Ela virou-se para trás e deu um sorriso sombrio.