Em Perigo

23 Capítulo 23 - Reações


Notas iniciais
Gente, estou aqui quase chorando sem realmente acreditar que estou de volta. Leiam as notas finais, que saudade disso!

Pisquei algumas vezes sentindo todo meu corpo latejar. Em uma simples fresta nos olhos pude visualizar apenas escuridão e uma pequena faixa de luz que entrava pela cortina entreaberta.



Foram necessários apenas alguns segundos para que os flashbacks tomassem conta da minha mente. Das duas, uma: Ou tinha sido atropelada por um caminhão e estava em um hospital após uma longa cirurgia de reconstrução facial ou tudo que havia afirmado para mim mesma como um pesadelo era a verdade: Transei com Edward Cullen em uma praia deserta, desmaiei de sono e agora estava em seu quarto com aquela águia me olhando do teto.



Foi em um estalo que lembrei da pior parte: havia me declarado para ele.



"Porra!" Levantei num pulo, ainda sentindo meu corpo latejar. "Que merda foi essa?" Andava beirando o desespero. "Não pode ser, não é possível, só posso ter alguma coisa errada nessa cabeça!" Espalhei tapas pela minha nuca. "Calma, Isabella, vamos manter a calma" Tentei abrandar a respiração. "Qual a possibilidade dele não lembrar de nada da noite passada?" Não demorou dois segundos para a resposta latejar. "Ah, é claro que ele lembra, inclusive é o cara que mais bebe nessa terra, como não lembraria de tudo depois?" O desespero voltou com tudo. "Meu Deus, o que foi que fiz?"



Estanquei perto da janela, abrindo a cortina com um solavanco que quase a arrancou.



"Chega!" Dei um grito, confirmando minha própria loucura. "Chega de besteiras, transei com um mafioso, e daí? Não significa nada!" Exclamei a mim mesmo.



Mas significava, sabia que significada, aliás, muita coisa. O mafioso mandão era o cara mais arrogante da face da terra e isso significava que se gabaria por toda vida, repetindo todas as palavras que disse na noite anterior, se fosse necessário — e se não fosse também. Entretanto, também havia as suas palavras. Soltei uma gargalhada lembrando que ele também estava em minhas mãos, afinal, também tinha dito que era alucinado por mim. Não tinha?



Passei as mãos pelo rosto, demonstrando toda a frustração que o monólogo de uma louca pode causar. Joguei meu corpo na cama, visualizando, com o quarto já iluminado pela luz que invadia a janela, toda extensão daquele que era o quarto mais masculino que já conhecera. O cara exalava testosterona!



Olhei para o meu braço direito, esticado sobre a cama, não podendo excluir da minha mente a lembrança do formigamento que o toque do Cullen havia causado. As mãos firmes pareciam ter nascido para tocar o meu corpo, sabendo onde tudo se encaixava. Sacudi a cabeça e balancei os braços tentando espantar os pensamentos sombrios, eu precisava ter foco.



A questão a pensar a seguir era: o que fazer depois da noite anterior?



A atração física que ambos sentiam era nítida, palpável e exalava em qualquer lugar, em qualquer hora. Não havia dúvidas quanto a isso. Entretanto, o resto não fora questionado, muito menos cogitado. Era impossível que fosse algo além disso, não era? Não havia a menor possibilidade de um romance entre os dois, disso estávamos certos, só de pensar em usar palavras como "amor" e "querido" em relação ao Cullen já me causava náuseas. Mas afinal, o que havia me impulsionado a persegui-lo em plena noite natalina? Como reagir ao cara mais babaca do mundo após ter me declarado? Porque não fazem um manual de como lidar com as merdas que fazemos?



Deferi outros golpes em minha cabeça desejando atravessar meu cérebro ou até mesmo arrancá-lo. Olhei ao redor sentindo o quarto estranhamente vazio. É claro que ele não estaria ali dormindo comigo e eu nem deveria desejar tal coisa, mas a estranha sensação de acordar sozinha naquele quarto enorme não era nada reconfortante. Será que havia me levado para lá ou pediu para que alguém o fizesse? Sacudi a cabeça novamente, não era hora de perder tempo com isso.



Levantei decidida a deixar todas as dúvidas e mandá-las para bem longe, pois não tinha a menor paciência para perder tempo com o Cullen. Estava ali para aprender a ser uma mafiosa, para pegar as missões difíceis, para fazer os mafiosos dos outros cartéis explodirem de ódio, não para me apaixonar, nunca para me apaixonar. Transei com o Cullen, disse que não o abandonaria, mas era só... agora teria que continuar com minhas missões e esquecer que ele existia. Pelo menos esse seria o plano. Qualquer possibilidade de namoro era inconcebível, não era? Bati na boca, assustada. Só de pensar em "namorar o Cullen" gerava um turbilhão de sensações bizarras, aquilo não tinha nada a ver conosco. O cara era um mafioso e eu também! Mafiosos!



Atravessei a porta do quarto com o que ainda restava de minha determinação, sentindo uma rajada de vento frio atravessar meu rosto. Já passava do meio-dia e minha cabeça parecia uma granada prestes a estourar. Mandei todos os pensamentos para bem longe e sai batendo o pé nas escadas, rezando, com a prece mais poderosa que conhecia para que não esbarrasse com o Cullen nos próximos trinta dias de existência. Em menos de um minuto cheguei na porta do quarto que dividia com Jenny, entrando devagar e notando que estava arrumando algumas coisas no armário quando escancarou os olhos ao me ver.

Soltei o ar com força notando que por todo o caminho eu havia travado a respiração. O alívio tomou conta de mim ao notar que havia concluído a missão de atravessar o cartel sem cruzar com o mafioso. Ponto para a Bella.



"Bella!" Gritou, correndo até mim. "Já está melhor? Alice me disse que passou mal ontem e acabou dormindo na enfermaria" Sorri sem graça, agradecendo aos céus por ter Alice e suas mentiras para me ajudar, só de pensar em explicar para todos onde dormi na noite anterior já me causava um súbito frio na espinha.



"Ah, já estou melhor, acho que tinha comido algo estragado, mas já estou bem" Sim, eu era cara-de-pau e simplesmente adorava isso.



"Que ótimo, então poderá levar o carregamento com a gente, Emmet nos incumbiu de levar um para Paris, advinha só, vamos de helicóptero" Sorriu empolgadíssima. "Vamos andar pela primeira vez" Quase me engasguei ao lembrar que já havia andado de helicóptero justamente com o homem que tentava evitar. "Ah, vamos logo almoçar, já está quase na hora"



Descemos mais uma vez as escadas caminhando ao refeitório, pois se chegássemos atrasadas Mabelle — mais conhecida como demônio - não nos deixaria entrar. Estávamos na metade do segundo lance de escadas quando o meu coração parou. Vi o rosto conhecido com os famosos olhos azuis que mais aterrorizavam aquele cartel. Estanquei o passo esticando todo meu corpo, apoiando minha coluna na parede. Vozes altas denunciaram que meu ex inimigo não estava só e ao focar os olhos no meio da escadaria era possível notar que havia dois homens bem vestidos e uma mulher com grande estatura ao seu lado. Subiram, passando por nós.



"Como podem ver a estrutura foi bem planejada, formada há anos e consistentemente de qualidade" Emmet explicava para o grupo estrangeiro tocando nas paredes no que parecia se um passeio pelo cartel, quando nos notou. "Bom dia meninas" O grupo estancou finalmente observando a nossa presença. O coração acelerado denunciava meu apego e o nervosismo quase me levou ao ponto de vomitar. Entretanto, só havia quatro pares de olhos voltados para nós. Estranhamente, Cullen continuou seu caminho sem lançar um olhar sequer para trás. Acenei com a cabeça, sentindo a frustração preencher todo meu interior enquanto Jenny deu um aceno. "Está melhor Bella?" Perguntou preocupado. Notei que o mafioso diminuiu o passo.



"Firme e forte" Sorri, sem graça e após a retribuição do sorriso, seguiram o seu caminho. Sem explicação, continuei andando com uma enorme onda de desanimo me atingindo aos poucos. Ele havia me ignorado? O desgraçado tinha a ousadia de me ignorar completamente?



Terminei as escadas pisando duro. Respirei fundo, decidida a ignorá-lo também. Afinal, era exatamente isso que eu queria, não era? Foda-se o mafioso. Não precisava dele. Tanto faz se na noite anterior havia me declarado, tanto faz se havíamos transado, aquele era o maldito Cullen, tanto faz!



Me joguei em uma das cadeiras do refeitório, batendo minha cabeça com força na mesa. O ódio e a frustração me preenchiam aos poucos, porque tinha ido atrás dele na noite anterior? A vergonha me atingia como um soco na boca do estômago.



“Bella, tudo bem?” Só então notei que havia outros novatos na mesa que me encaravam como se eu fosse um E.T.



“Se estou bem? Há-há-ha” Soltei uma gargalhada falsa. “Estou ótima, estou perfeita, nunca estive melhor!” Dei um tapa na mesa, gerando um estrondo que fez o olhar do Cullen, que já estava do outro lado do refeitório, atravessar até mim. O olhar era enigmático e beirava o desprezo. Maldito escroto. Agarrei as mãos do novato à minha frente. “Hoje é o melhor dia da minha vida, nada poderia ser melhor” Disse com o que deveria ser minha cara de maníaca, a julgar os olhos arregalados dos que estavam ao redor. Vi de longe um mínimo sorriso surgir no rosto do babaca. O maldito estava se divertindo com meu estresse. Ótimo, ótimo mesmo.



Encostei a coluna ereta no apoio da cadeira, enquanto meus colegas de almoço ainda pareciam estáticos.



“Vamos comer, não é?” Continuei com a histeria. “Afinal, quase não comemos nesse cartel” Senti um tapa em minha nuca.



“Porque você não cala a boca, não percebeu que está atrapalhando o almoço alheio?” Mabelle surgiu em minha frente.



“Porque não vai ser foder, já que gosta tanto de foder a vida alheia? ” Levantei num impulso a segurando pela gola da camiseta. Arregalou os olhos, espantada com minha reação exagerada.



“Opa, opa, opa” Jasper se meteu no meio de nós duas. “Não é hora para isso, a comida está uma delícia, já provou? ” Enfiou um pedaço de pão em minha boca, me afastando com rapidez. Mabelle continuou me encarando por alguns segundos, mas logo voltou ao seu lugar. “Vamos segurar a onda, esquentadinha?” Sorriu para mim. Respondi com um aceno e uma careta, sentando novamente.



“Já disse que é o melhor dia da minha vida?” Afirmei para o garoto à minha frente, que parecia querer sair correndo, enquanto engolia com força o pedaço de pão.



*



Do outro lado do refeitório a minha diversão estava garantida. Me contorcia na cadeira tentando escutar o que Bella dizia, mas era impossível. Somente a expressão de ódio da semi-mafiosa já me divertia ao extremo. Tem coisa melhor do que provocar Isabella Swan? Com certeza não.



“Algum problema com a sua cadeira, mestre?” Uma intrometida à minha frente reparou meu incomodo, olhando para trás, tentando encontrar meu ponto de visão.



“Se concentre em sua comida”. Exclamei, me recusando a sentir vergonha, Swan me fazia parecer um adolescente apaixonado e tinha que parar urgentemente com isso, antes que notassem minha situação vergonhosa.



Me sentia extremamente relaxado como se tivesse dormido por duas semanas seguidas. Não conseguia organizar meus pensamentos, a noite anterior havia sido extremamente turbulenta e ainda era difícil entender a situação. Só de pensar na garota e no furacão que tinha tornado a minha vida, o peso tornava-se ainda maior, mas ainda assim, não podia evitar de me sentir estranhamente... contente.



Depois da praia havíamos chegado ao cartel com rapidez. Escalei as escadas com seu corpo em meus braços, estranhando o cuidado ao subir cada degrau. Não queria acordá-la, talvez por arrependimento, talvez por vergonha, ou mesmo por aprovar a sensação de tê-la comigo. Então detectei o perigo: aquele sentimento intruso. Não podia gostar da sensação, não era para sem bom. Na máfia não havia espaço para “felizes para sempre”, lá nem sabíamos se realmente sobreviveríamos ao dia seguinte.



Chegando ao último lance de degraus surgiu a segunda dúvida: Ir para esquerda ou para a direita? Levá-la ao meu quarto ou ao dela?



Foda-se! Me agarrei a desculpa de que a colega de quarto a questionaria demais se a visse comigo e caminhei rapidamente e a passos largos ao meu quarto. Desde quando me importava com o que os outros pensavam sobre ela? Desde quando desejava jogá-la em minha cama e fazer com que o cheiro da maldita ficasse impregnado em tudo que era meu? Garota dos infernos!



Entrei jogando o furacão em minha cama sem me importar em ser cuidadoso. O sono dela era pesado, portanto, nem pestanejou. A cama era gigante para aquele pequeno corpo no centro. Uma criminosa de um metro e sessenta, uma estranha em minha cama, fazia questão de ficar estranhamente bem ali. Parecia ter sido feita exatamente para aquele lugar. Como conseguia gerar esses pensamentos em mim? Realmente estava a observando dormir?



Deferi o maior número de golpes que pude em mim mesmo tentando arrancar aquele formigamento demoníaco que ela me causava. Precisava de um um escape urgente. Entrei rápido no banho gelado, tentando fugir dos pensamentos que me assustavam mais que a própria morte. Tinha que dar um jeito naquilo, não podia ficar tão próximo de Isabella, teria de impor limites nas proximidades.



Enquanto a água escorria imaginava o quanto estava satisfeito de tê-la por perto. Não era somente mais uma, ela era útil. Seria usada em meus planos. Talvez não soubesse, mas havia entrado na maior enrascada de sua vida. Isabella Swan e Edward Cullen não eram uma combinação sadia, eram uma explosão. Eram uma faísca que incendiava o lugar inteiro. Era exaustivo e elétrico e assim sempre seria pois não tínhamos para onde correr, pelo menos por enquanto. Não enquanto meus planos não estivessem concluídos.



Treinaria, ensinaria como ser uma mafiosa, como ser útil à máfia. Faria dela um braço direito, que possivelmente seria arrancado depois de tudo. No Cartel era assim, nenhum posto era eterno, ninguém durava para sempre e com Swan não seria diferente. Não, eu não me apegaria a ninguém. Apensar da aparente conexão que tínhamos, não poderia ser muito mais que aquilo. Enquanto fossemos úteis um para o outro, estaríamos juntos, de um jeito torto e doentio, mas juntos. Depois disso, nada nos restaria. Nós éramos como um contrato, que tinha tempo determinado para terminar. Enquanto fosse possível, enquanto o destino nos ligasse, ela seria minha.



Ignorei a estranha sensação que o afastamento da Swan me causava, saindo do banho enrolado em uma toalha. Olhei para cama, notando que ainda permanecia na mesma posição envolta em um sono profundo. Parei por alguns segundos. Tudo veio como um flash. Uma praia chuvosa, a noite turbulenta, o furacão em forma de gente e finalmente as palavras que disse. Como podia ser tão destemida? Como podia confiar em alguém como eu?



Analisei sua respiração calma chegando um pouco mais perto. Era inacreditável o quanto era determinada, o quanto sabia o que queria. Me encontrou em um lugar que ninguém conhecia e disse as malditas palavras que ninguém ousara dizer. Escolheu confiar no maior fodido de Londres e por isso eu a pouparia. Faria dela meu braço direito, faria ser uma mafiosa. Antes de tudo terminar a tornaria uma verdadeira mulher da máfia. Essa seria a minha retribuição pela confiança depositada de forma tão despreocupada.



“Jamais terá meu coração, Bella” Afastei uma mecha de seu rosto. “Você não sabe, mas nem tenho um” Uma nostalgia me invadia enquanto sussurrava, com a constante sensação de estar mentindo a mim mesmo. “Maldição de garota” Soltei um pequeno sorriso, afastando minha mão.



“Mestre?” Numa reação involuntária puxei o revolver que pousava em minha escrivaninha. “Calma, calma, sou eu” Emment levantou as mãos para o alto, mais branco que papel.



“Está querendo morrer, Emmet? ” Abaixei a arma tentando falar baixo.



“O que a Bella está fazendo aqui?” Um finco pendia no meio de sua testa, enquanto tentava compreender o que a garota fazia em minha cama. Boa pergunta Emmet, o que essa garota está fazendo em minha vida?



“Desde quando lhe devo satisfação?” Revirei os olhos.



“Você estava...” Sussurrava, quase soltando um sorriso. “...vendo a Bella dormir?”



“Emmet...” Respirei fundo usando meu pior tom de voz, já sentindo vontade de puxar a arma de novo. “...juro que estou afim de matar alguém e não me importaria se fosse você. ”



“Tudo bem, tudo bem” Levantou os braços em sinal de rendido, ainda com o sorriso zombador. “Não está mais aqui que falou”



“Fale logo o que quer” Me afastei da cama caminhando em direção ao guarda-roupa, enquanto a pseudo-mafiosa dormia que nem uma pedra. Num instante a expressão de Emmet mudou.



“Tenho notícias sérias senhor, por favor, me acompanhe à sala de comando. ” Me virei com lentidão sentindo todo meu corpo paralisar.



“Vocês o encontraram?” Não pude ver minha expressão, mas a julgar o olhar atônito de Emmet não deveria ser nada boa.



“Sim senhor, o encontramos.”



Esta frase me fez sair do quarto com a pressa de um garoto, mas com a determinação de um mafioso. Ali, naquele refeitório, olhando para a mulher que me tirava do sério, finalmente pude ter um descanso da madrugada cansativa. Ela tinha esse poder de me fazer esquecer de todo o resto. Olhei para o lado encarando a chuva que caia lentamente na lateral do refeitório.

Em breve seria a hora de agir.



*



Não demoramos muito a sair do refeitório, após lançar o sorrisinho ridículo, o Cullen logo saiu com seus capangas. Notei certa preocupação rondando o ambiente. Edward, apesar de sorrir das minhas loucuras e não perder uma oportunidade de me provocar, parecia estranhamente... inquieto. É sério que estou percebendo o estado de humor de meu ex-inimigo?



Sacudi a cabeça, provavelmente estava ficando louca. Não, não me interessava o estado de humor do mafioso, apesar da noite anterior, não éramos nada um para o outro. Nada havia realmente mudado entre nós. Permanecíamos na estaca zero. Lancei minha cabeça para trás, enquanto esperava Jenny terminar de arrumar suas coisas.



“O que está pensando, afinal?” Sorriu para mim. “Estou quase ouvindo seus neurônios daqui”



“Sabe Deus” Dei de ombros. “Nem eu entendo minha própria mente, acho que preciso mesmo é de um psiquiatra”



“Larga de besteira” Gargalhou. “Vai dizer o que nas consultas?” Levantou do chão deixando a pequena mala que arrumava aberta. “Doutor, me desculpe, mas trabalho em um cartel de drogas, não consigo dormir de noite, passa o remédio se não te mato?” Fez a posição de uma arma, apontando em minha direção.



“Há-há-há”. Revirei os olhos. “Certamente ia ajudar bastante”



“Médicos não tratam mafiosos” Deu de ombros. “Aliás, deveria ter algum aqui no cartel, vai que alguém passa mal” Continuou tagarelando, mas minha mente percorria outros lugares, mais especificamente um lugar que continha um belo mafioso que possuía incríveis olhos azuis.



Após muito papo furado finalmente estávamos prontas. Deixei uma corrente de empolgação percorrer o meu corpo, afinal, finalmente acompanharíamos um carregamento de drogas para outro país. Bem, a França não era lá um país tão distante para gerar tanta empolgação. Entretanto, era um país de difícil acesso, a Guarda Costeira era praticamente imbatível o que anulava totalmente a hipótese de utilizar qualquer meio de transporte marinho. Porém, quando se tratava de vias terrestres, Emmet e Jasper eram os melhores e era exatamente por isso que iriamos em um ônibus de excursão. Sim, um ônibus de excursão! Jenny proferiu alguns muxoxos quando descobriu não andaria mais em um helicóptero.



Demoramos apenas alguns segundos para chegar ao térreo, já presenciando toda a empolgação dos novatos, que nem eram mais tão novos assim. O plano inicial era parecermos uma excursão para Paris e continuar rodando até o carregamento chegar em Lyon, interior da França, que fazia fronteira com a Itália. Observando o ônibus era impossível perceber que pertencia a um Cartel de drogas: havia bandeiras da França estampadas em todos os lados, com a expressão “Travels Toor” o nome da empresa fictícia criada para aquela missão. Fitei orgulhosa os dois líderes que realizavam um trabalho tão impecável. Estranhei a sensação.... Realmente estava orgulhosa de um carregamento de drogas? Desde quando me sentia parte de tudo ali? Soltei um sorriso pensando que a vida realmente dava voltas e dessas bem grandes.



Demoraríamos duas horas para partir rumo ao destino. Nesse meio tempo estávamos livres, então, prontamente decidi atirar. Para evacuar todos os pensamentos da mente, para acalmar o coração, para relaxar o turbilhão de emoções que travavam guerra dentro de mim, buscando espaço. Por tudo isso, atirava. Segurar firmemente a arma em minhas mãos e apontar para um alvo era simplesmente uma das incríveis sensações que a vida havia me proporcionado. Era finalmente se sentir livre, era o escape. Ali, olhando para o alvo, sentia que finalmente minha vida tinha uma finalidade. Nem que fosse por alguns minutos, ali, eu tinha uma finalidade.



Passávamos a infância inteira buscando por uma finalidade. Os anos passavam e tudo que imaginávamos era que a vida adulta era simplesmente incrível. Ter seu emprego, seu carro, filhos, marido, tudo isso era sinônimo de felicidade. Sim, na inocência da infância imaginávamos um futuro invencível, momentos incríveis, tudo aconteceria quando crescêssemos. Ah, se simplesmente soubéssemos que os melhores momentos são aqueles que nem imaginamos. Se soubéssemos que o melhor momento é aquele segundo da viagem de férias, é aquela gargalhada com a família, é aquele abraço no parente distante.



Soltei o primeiro tiro, bingo. Bem no alvo.



Levantei uma das mãos aos olhos protegendo a vista do Sol e observando o dia que insistia em ser perfeito, sentindo uma estranha paz. O presente era tudo o que tínhamos, portanto, agradeceria aos céus e aproveitaria o máximo possível.



Soltei o segundo tiro, bingo. Bem no alvo.



Lancei um sorriso, aproveitando o ambiente silencioso e solitário. Guardei as preocupações no espaço mais fundo que tinha dentro de mim. Me recusava a perder momentos de paz por causa do mafioso. Aquele dia era tudo o que tinha, o amanhã não era garantido, portanto, deveria me sentir o melhor que poderia. Faria o melhor que poderia, seria a porra de uma mafiosa incrível. Dane-se o maldito que continuava me ignorando, a minha felicidade era de dentro para fora, não o deixaria interferir em minha vida.



Soltei o terceiro tiro, bingo. Desviou do alvo por um braço musculoso que bateu em meu braço. Virei-me pronta à gritar com o idiota que bateu em uma pessoa armada, encontrando os famosos olhos azuis que me encavam com ousadia, um pequeno sorriso pendia nos lábios do mafioso.



“Ora, era de se esperar que fosse você” Revirei os olhos, virando novamente em direção ao alvo. Foram necessários apenas alguns segundos para que todo o meu corpo formigasse com a aproximação do ex-inimigo. Meus batimentos cardíacos instantaneamente aumentaram e senti toda aquela porcaria de sensação que ele sempre me trazia.



“Bom dia para você também” Soltou um riso nervoso. “Uma mafiosa não deve se assustar, deve estar sempre alerta, nunca sabemos se tem algum filha-da-puta por perto.”



“Nunca teve esses momentos?” Perguntei, levantando novamente a arma e me concentrando no alvo. “Nunca se sentiu tão em paz que esqueceu onde estava?” Sorri. “Nunca ficou tão despreocupado que esqueceu que era mafioso?”



“Nunca.” Notei que também olhava para o alvo, ao meu lado, com o olhar distante. Num movimento rápido puxou seu revolver descarregando todo o cartucho no alvo. Um, dois, três, quatro, cinco. Continuou apertando o gatilho, apesar das balas terem acabado. Segurei suas mãos, apontando o revolver para baixo enquanto concentrava sua atenção em mim. Não sabia o que estava fazendo, mas precisava fazer.



“Parece cansado” Encarei seu rosto enquanto os olhos azuis me analisavam. O rosto estava pálido e algo apertou em meu coração ao ver sua expressão. Deveria ter algo errado.



“Sou o maior mafioso do país, é normal estar cansado” Apesar da forma rude de falar, não estava nervoso ou estressado. Só parecia exausto. “É hora de ir, o ônibus vai partir” Estava realmente se despedindo de mim? Uma hora me ignorava, outra vinha me desejar boa viagem? Esse homem simplesmente não se decidia.



“Indeciso da porra” Afirmei, dando de costa e caminhando em direção ao pátio. Senti logo em seguida sua mão me puxar, depois de uma gargalhada. Não tive tempo responder, pois sua boca me prendeu em menos de um segundo. Novamente, tudo em meu corpo eletrizou. Sua língua percorria minha boca de forma voraz, como se clamasse por atenção, como se descontasse toda sua preocupação ali. O beijo apesar de intenso, foi curto.



“Somos isso Bella...” Disse à centímetros do meu rosto, com a testa encostada na minha. “...essa porra de indecisão”. Sua voz era leve e carregava um sorriso nos olhos cansados. Por um momento me permiti sorrir também. O encarei por alguns segundos, virando novamente.



“Tchau para você também, Cullen” Não pôde notar, mas eu sorria enquanto guardava a arma na cintura.



“Vê se não faz merda” Escutei sua voz de longe, o que fez meu sorriso aumentar um pouco mais.



Logo depois cheguei ao ônibus, todos aguardavam a minha chegada para partir.



“Não quer passear mais, não, bonitinha?” Mabelle apareceu furiosa, devolvi com um sorriso cínico.



“Não, não, estou ótima” Lancei um beijo no ar, entrando no ônibus e procurando um lugar vago. Estava com um estranho bom humor e me odiando bastante por permitir que Edward Cullen dominasse tanto minhas emoções. Guardei as preocupações e pensamentos sobre o mafioso no bolso: agora era hora de ser uma mafiosa.



*



Passava de onze horas da noite e estávamos prestes a entrar no território Frances. Era possível notar o clima de tensão nada agradável dentro do automóvel, os iniciantes estavam apreensivos, afinal, finalmente entraríamos em território estrangeiro.



“Assim vai ser fácil prender todos vocês” Mabelle batia na parede do ônibus, irritada. “Bando de frouxos, dá para notar o medo de vocês à quilômetros de distância. ” Apesar de ser uma escrota, tinha razão. Maior parte dos iniciantes estavam assustados demais com a possibilidade de serem pegos. Era a primeira missão de muitos ali. No total éramos cinquenta, quarenta iniciantes e dez efetivos. Os líderes da missão eram Jasper, Mabelle e Emmet. Alice, apesar de estar lá, era encarregada da parte burocrática, resolvendo os possíveis problemas. Cullen havia permanecido no cartel, pois era uma missão relativamente simples para sua presença. Bem, isso foi o que disseram, nada tirava minha impressão de que havia algo acontecendo no cartel.



O plano inicial era atravessar da fronteira antes da meia noite como um simples ônibus de excursão, caminhando para Lyon. Entretanto, caso nos parassem na barreira estávamos avisados, ao mínimo sinal de Emmet, sacaríamos as armas e a ordem era não deixar ninguém vivo. Essa era a grande apreensão. O horário escolhido era devido ao menor número de guardas na barreira.



Eram guardas. Gente que trabalha o dia inteiro para sustentar a família. Pessoas que nada tem a ver com tráfico, não são bandidos, traficantes. Compreendia a apreensão que se instalara. Ninguém ali queria pôr um ponto final na vida de ninguém, mas porra, éramos mafiosos, faríamos se necessário. Não demorou muito para que avistássemos a barreira.



“Prestem muita atenção no que vou dizer” Mabelle gesticulou como toda sua irritação. “Provavelmente teremos que parar na barreira, se algum estragar essa porra de disfarce vai morrer junto com os policiais, estamos entendidos?” Revirei os olhos, ouvindo um breve murmúrio dos iniciantes. “Agora todo mundo coloca o sorriso na boca, pois estamos nos divertindo nessa excursão” Ao terminar a frase, já estávamos na fronteira, com um policial movendo as mãos em direção ao acostamento, solicitando nossa parada. Juro que ouvi alguém rezando atrás de mim. Jenny fez o sinal da cruz e antes que o policial colocasse os pés no último degrau no automóvel éramos o grupo de viajantes. Em um minuto todos passaram a travar conversas com seus companheiros, fingindo a empolgação de uma viagem.



“Boa noite” O primeiro policial surgiu, com o segundo logo em seu encalço. “Posso verificar os documentos?”



“Claro, seu policial” Alice surgiu saltitante de seu lugar estendendo um bolo de papéis. “Ah, que farda maneira, sempre quis usar, será que não podem me dar uma?” Dava uns pulinhos, era simplesmente fantástica mentindo. O policial, chamado Marcus, nada respondeu, apenas afastando a garota com uma das mãos.



“Essa empresa é recente? Não lembro de ter ouvido falar de vocês”. Olhou desconfiado para Emmet, que parecia mal caber no ônibus.



“Relativamente recente” Deu de ombros com uma naturalidade impressionante.



“Bem, vocês estão dentro dos padrões, podem seguir viagem” Afirmou e ouvi uns três suspiros de alívio.



“Falta um documento” O segundo policial fincou os olhos, aturdido. “Falta a autorização do presidente da empresa para descarregar” Analisou até o fim do ônibus. “Como conseguiram sair de Londres sem uma autorização escrita?”



Tudo aconteceu muito rápido: Alice lançou um olhar nervoso para Emmet e de sorrateiramente consegui perceber que Jasper já estava com a mão na cintura, pronto para engatilhar o revolver. Falta pouco para que Emmet finalmente emitisse o sinal, quando tive a melhor ideia da minha vida.



“PARA TUDO” Gritei, ficando de pé num salto. Todos me olhavam atônitos. “Não me diga que não sabe, senhor...” Me aproximei do segundo policial, usando minhas mãos atrás da costa para dar um sinal de paz aos outros. “... senhor Victor” Terminei de ler o nome do crachá. “Não me diga que não conhece a nova lei que revogou a necessidade de autorização formal do presidente da empresa para sair do país?”



“Não sei não” Respondeu invocado. Por incrível que pareça, realmente existia a tal lei, entretanto, ainda não estava em vigência. Torcia para que aquele homem não soubesse nada sobre leis, para o bem dele e de sua família. Para poupar sua vida moço, não fale nada, por favor.



“Nossa, já está em todos os jornais essa nova lei, você deve ser bem desinformado” O policial mais velho lançou um tapa na nuca do mais novo.



“Pirralho desinformado” Revirou olhos. “Me desculpe senhora, ele é novato. ” Dei de ombros, sorrindo sem graça. “Pode seguir em paz, boa viagem a todos, sejam bem-vindos à França”.



Os dois desceram do ônibus, com o segundo me lançando um olhar mortal, provavelmente muito chateado de ter levado broca do superior. Salvei sua vida, acredite, iria querer agradecer. Quando voltamos a rodar, deixei meu corpo escorregar, ouvindo o gritinho de alguns, junto com algumas palmas. O alívio que dominou meu corpo era indescritível.



“Parabéns Bella” Emmet piscou para mim, oferecendo sua mão para me ajudar a levantar. “Mas podia não ter dado certo, sempre espere minhas ordens”.



“Desculpe Emm, de verdade” Reconheci minha precipitação, mas ainda feliz por ninguém ter morrido. Mabelle lançou um olhar revoltado, caminhando até o fundo do ônibus. Voltei ao meu lugar recebendo alguns agradecimentos de uma novata que estava quase tento um ataque cardíaco de tanto medo. Ri jogando minha cabeça para trás. Finalmente, agora, poderia descansar um pouco.



*



De repente estava dentro de uma tubulação. Não havia muita iluminação, mas, por uma fresta conseguia ver um pequeno garoto dentro de uma jaula. Minha visão era de cima, portanto, só conseguia ver a nuca do pequeno garoto e por mais que tentasse chama-lo, minha voz não saia. O desespero foi, aos poucos, tomando conta de mim. Não conseguia entender porque estava ali, nem o motivo do garoto estar preso. Quem havia o colocado ali?



Me movi tentando abrir a estreita trava que me impedia de sair da tubulação, sem sucesso. Num movimento rápido o menino virou-se, revelando seus amedrontados olhos azuis. Lágrimas rolavam por seu rosto e sua voz frouxa, apenas um sussurro, clamava por ajuda. Tentei mais uma vez, com o desespero exalando de cada poro de meu corpo, quebrar a trava da porta, mas por mais que usasse toda minha força, a porta não se movia. A voz do garoto ia ficando cada vez mais alta, aumentando minha preocupação. Sentia que a qualquer momento ia me desmanchar em lágrimas, mas permaneci firme, o menino precisava de mim.



Entretanto, foi no momento seguinte, quando voltei meus olhos novamente para baixo que o vi. Não era mais um menino. Na gaiola estava Edward, que lançava um olhar mortal para mim. O susto me levou a paralisar, o garoto era o Edward?



“Você não me ajudou” Declarou cheio de mágoa, finalmente abrindo o portão, saindo facilmente da jaula. “Agora, só me resta matá-la” Puxou o revolver e apertou o gatilho em minha direção.



Num salto notei que havia dormido por tempo demais, um cochilo que durara aproximadamente duas horas. Minha respiração ofegante e meus batimentos cardíacos acelerados denunciavam a aflição que um simples pesadelo conseguia me causar. Claro que não era um simples pesadelo, ele estava no meio. Segurei a cabeça nas mãos, inclinando meu corpo para baixo. Não era possível que me atormentasse até nos sonhos. Afinal, o que aquilo significada? Por que Edward estava preso? Porra, até meu subconsciente estava fascinado pelo maldito?



“Vamos Bella, vamos descer” Jenny me chamou da porta. Só então notei que o ônibus estava praticamente vazio, todos haviam descido. Olhei pela janela e diversas barracas estavam armadas, enquanto cinco iniciantes zelavam pela segurança, armados, sobre a supervisão de Mabelle.



Demorou algum tempo para que eu entendesse a situação. O pesadelo ainda estava latejando demais em minha mente, me fazendo ficar atordoada. Todos desceram para levantar acampamento, iríamos passar a noite para descansar e só então continuar ao destino.



“Quem vai ficar de prontidão no próximo turno? ” Desci do ônibus ouvindo a voz exigente de Mabelle. Todos os iniciantes permaneciam estáticos, exaustos demais para se prontificarem. “Nennhum voluntário? ”



“Eu” Levantei uma das mãos com rapidez. Me sentia extremamente descansada pelo longo cochilo e tinha muito o que pensar. A demônio-em-forma-de-gente revirou os olhos e mais dois iniciantes se estimularam com minha coragem, se disponibilizado.


“Ótimo, querida, Bella” Sorriu falsa. “Fique informada que estará na escala de amanhã também, só trocaremos os iniciantes. ”



“Sim senhora” Devolvi o sorriso falso, mandado, mentalmente, tomar no cú.



Com as barracas espalhadas com seus respectivos donos, finalmente pude dar uma olhada no local. A vegetação era rasteira, possibilitando nosso acampamento. O local ficava exatamente na metade do caminho para Lyon, que era uma parte da cidade nada agradável para quem estava de guarda, por ser tão deserto. Uma emboscada seria facilmente bem-sucedida naquele lugar. Entretanto, por não haver tantas colinas, era difícil se aproximar sem certo barulhos. Conclui que necessitaria ficar atenta a qualquer movimento, precisava evitar que qualquer imprevisto nos pegasse de surpresa, afinal, os outros cartéis não estavam nada satisfeitos com nossas constantes entregas.



“Você está aqui a muito tempo?” Um iniciante meio amedrontado me questionou.



“Não, mas parece uma vida” Suspirei. “Qual o seu nome?”



“Josué” Sorriu sem graça. “Nome bíblico, sabe como é, minha mãe é da igreja” Sorri de volta. O garoto parecia simplesmente perdido.



“Quantos anos tem?” Avaliei de cima abaixo. Era alto, mas apesar do tamanho, carregava um rosto infantil.



“Dezoito” Segurava a arma com destreza. “Entrei há uma semana no cartel” Se virou novamente para mim, ansioso. “Me disseram que você é uma das melhores do cartel, que é a única a conseguir colocar o Cullen no seu lugar, por favor...” Se ajoelhou, com pressa. “... por favor, me treine” O susto aos poucos tomava conta de mim.



“Ei, para com isso, levanta daí” Tentei puxá-lo, mas não houve sucesso. “Levante, agora!” Ordenei e num segundo estava de pé.



“Sim, mestre” Me olhava urgente.



“Ah, não, não, não...” Sacudi uma das mãos. “Não me venha com essa história de mestre” Dei um tapa em sua nunca. “Não sou sua mestra, ouviu? ”



“Sim senhora” Bateu continência. O garoto estava batendo continência para mim! Puta que pariu, quanto mais rezava, mais fantasmas me perseguiam.



“Olha garoto, volte para sua posição inicial antes que me estresse”



“Sim senhora” Disse com a voz arrastada, voltando à sua posição, extremamente satisfeito, enquanto quase me fazia rosnar. Era só o que me faltava, a porra de um iniciante no meu pé. Revirei os olhos, voltando à posição, quando ouvi uma voz estridente.



“Olha lá, já tem até seguidores” Alice surgiu em meu lado, carregando sua metralhadora. Se enganavam ao imaginar que tamanho era documento. Alice conseguia fazer um estrago com uma habilidade impressionante. “Deixa o Edward saber disso” Soltou uma gargalhada.



“Alice, estamos aqui para proteger quem está dormindo, não para acordá-los” Rosnei, com a simples menção do nome do mafioso. Simplesmente estava angustiada por não ter notícias, parecia que estávamos sem nos ver a séculos. Porra, não tinha nem vinte quatro horas sem vê-lo e já estava com frescura. “Se aquieta”



“Sim, senhora” Bateu continência, gozando do novato. Não demorou a quebrar o silencio novamente. “Aliás, acho que alguém me deve umas explicações sobre a noite anterior”.



“Explicações? ” Bufei. “Não tenho nada a explicar”.



“Claro, nada a explicar” Continuou olhando fixamente para pontos vazios na escuridão. “Apenas o fato de ter dormido na cama do meu primo” O garoto nos olhou de relance tentando ouvir parte da conversa.



“Fala baixo” Puxei seu braço, com desespero.



“Ora, ora, ora, não é você que não tem nada a esconder?” Gargalhou. Essa família era difícil demais. Soltei seu braço, voltando à minha posição, logo ao seu lado. Voltei meus olhos para a escuridão, me questionando como explicar algo que nem eu mesma entendi. Nossa relação era embaralhada e sem nexo. Não fazíamos o menor sentido, mas ao mesmo, não conseguíamos nos distanciar. “Qual o problema de dizer que...” Fuzilei com o olhar. “Ok, ok, parei” Levantou uma das mãos.



"Eu disse..." Comecei timidamente, após certo tempo em silencio. “Disse que não o deixaria, ainda que fosse um mafioso, disse que não o deixaria” Inclinei o rosto, admirando o céu. "Que foi isso que fiz, Alice?" Encarei com certo desespero. "Como posso ficar com ele, se nem sei o que temos, como vou saber se é suficiente?"



“Nunca saberá” Deu de ombros, sem me encarar de volta. “Nunca sabemos dessas coisas, no fundo, o amor é uma grande aposta” Seu olhar estava distante e por um momento, pensei que poderia estar falando sobre si mesma. “Principalmente com Edward” Voltou-se para mim. “Nunca saberá o que esperar dele” Deixou um sorriso espalhar em seu rosto. “Mas quer saber?” Arqueou as sobrancelhas. “Dane-se, não tem nada a perder”



“Ah, claro, só a minha dignidade” Revirei os olhos.



“Não quero estragar seus pensamentos, mas você já a perdeu ontem” Gargalhou, tentando moderar a voz. “Bella, pode ser uma enorme bola de neve, mas também pode ser incrível, só saberá se realmente tentar”



“Somos dois opostos” Fiz sinais negativos, inclinando o pescoço de um lado para o outros. “Isso vai dar merda com certeza, mas não sou mulher de voltar atrás” Dei de ombros, engolindo toda a insegurança que ainda me atormentava. “Já sou uma mafiosa, o que pode piorar?”



“É isso aí garota” Sorriu. “Nossa única esperança para dar um jeito nesse mafioso é você”



“Me sinto bem confortável com isso” Joguei a cabeça para trás, revirando os olhos.



“Podem parar de cochichar aí?” Um novato gritou de longe, fazendo Alice virar o rosto para nota-lo.



“Claro” Sorriu, sem graça. “Esse novato vai aprender bons modos amanhã” Voltou à guarda, surgindo novamente o silêncio.



Não demorou muito para que finalmente amanhecesse. Todos os outros iniciantes logo estavam de pé, uns responsáveis por providenciar o café da manhã e almoço e outros, pela limpeza do ônibus e dos equipamentos. Enquanto a maior parte das barracas eram guardadas, entramos para finalmente descansar da noite em claro. Me lancei no colchonete relaxando a mente, expulsando todo e qualquer pensamento sobre o mafioso que pudesse me impedir de descansar.



Minha mente voltou ao pesadelo que tinha tido momentos antes. O sentimento era desesperador. Uma angústia me preenchia ao vê-lo dentro de um cubículo, sem conseguir respirar, clamando por minha ajuda. No sonho, não conseguia ajuda-lo. Não conseguia sequer esticar minhas mãos centímetros à frente. O via, transformando-se de menino à adulto, mas não conseguia ajuda-lo. O medo era absurdo, não poderia ser o sonho uma previsão do próprio mundo real, poderia?



Não admitia a possibilidade de, estando ali por perto, não conseguir livrá-lo da vida que o aprisionava. No fundo, sabia que era isso. Meu próprio subconsciente me alertava, implorava por meu raciocínio lógico, desmanchado diante da proximidade do mafioso. Jamais conseguiria ajuda-lo, não o alcançaria. Porra, mas não poderia aceitar que fosse verdade. Fechei os olhos com força, tentando ao máximo excluir qualquer pensando sobre aquele assunto e logo em seguida apaguei.



*



No meio de um dos sonhos, passei a ouvir um estranho barulho, com a estranha sensação de algo vibrando perto de mim. Demorei apenas alguns segundos para identificar o celular de Alice perto da minha perna direito.



“Alice, desliga essa merda” Para variar, o toque o telefone aumentava o volume gradativamente.



“Hmmm” Nem se moveu, apenas murmurando.



“Inacreditável” Revirei os olhos atendendo o celular querendo matar quaisquer pessoas que se atrevessem a incomodar meu curto período de sono. “Que foi?”



“Que foi?” A voz era conhecidíssima. “Atenda direito esse telefone quando for eu, Swan” Paralisei completamente olhando com desespero para a tela, constatando que quem ligava era justamente o homem que gostaria de esquecer e que parecia fazer tanta questão de me perseguir que até conhecia o som da minha voz.



“Bem, como pode ver, a dona do celular não está disponível” Embolei as palavras com pressa. “Sendo assim, estou desligando, tchau” Desliguei sem ouvir resposta, me questionando que porra de resposta era aquela que tinha dado. Parecia uma adolescente nervosa por falar com a paquera da escola. Bati na minha testa três vezes seguida quando o celular voltou a tocar, é claro que ele não desistiria.



“Ai caramba” Sacudi a Alice. “Atende essa merda, atende, atende, atende” Juro que estava tremendo por dentro.



“Meu Deus, o custa você...” Identificou o nome, com um sorrisinho. “Ah, entendi” Gargalhou. “Bom dia, querido primo, está um belo dia, não acha? ”



“Foda-se o dia, passa para a Swan agora!”
Exclamou tão alto que ouviria à quilômetros de distância, mas claro que estava bem do lado de Alice tentando ao máximo ouvir a conversa, para confirmar meu diagnóstico de retardada. Fiz sinal de negativo com as mãos implorando para que Alice não me entregasse o telefone.



“Ah, que amor, sempre tão educado pela manhã” Continuou rindo. “Sinto lhe informar, mas sua subordinada não deseja falar com você e como ainda não conheci nenhum método para obrigar essa garota teimosa a fazer algo contra sua vontade, não posso lhe ajudar”



“Alguém tem que ensinar uma lição a essa mulher”
Bravejou ao celular. Deixei um sorriso escapar notando o quanto sentia falta por não o ter por perto, ainda que de forma rude, ainda que tivéssemos esse relacionamento torto que nem sabíamos ao certo o que era, ele preenchia tudo ao meu redor. Fazia com que nada fosse tedioso. “Mande ela tomar no cú”



“Ele mandou você tomar no cú” Fiz sinal de legal com o polegar e voltei a deitar, me negando a ficar na expectativa de ouvi-lo.



Logo depois de minha participação patética na conversa Alice passou a informa-lo sobre a missão, afinal, era para isso que tinha ligado, obviamente, não para falar comigo, mas para saber os detalhes do seu precioso carregamento. Revirei os olhos sufocando meu rosto com o travesseiro. Desde quando me tornara patética o suficiente para ficar nervosa por simplesmente ouvir sua voz?



Fechei meus olhos por mais alguns segundos, pensando na bagunça que minha vida estava. Um sorriso escapou sem permissão. No fundo, gostava desse embaralhado de emoções que insistiam em estar por perto. Pouco importava se éramos dois opostos sem direção, a sensação de estar vivendo era indescritível. Levantei num salto, enquanto ouvia os murmúrios dos novatos, era hora de comer para logo então partirmos.



*



Rodávamos dentro ônibus há mais de três horas seguidas. Era possível notar, ao longe, o entardecer incrível que o céu francês nos proporcionava. A óbvia inexatidão da vida do cartel, contrastava com a natureza, que insista em se repetir fixamente dia após dia. Os novatos, apesar de cansados, aproveitavam a vista. O dia já estava bem perto de terminar, mas antes entregaríamos as drogas em um ponto de encontro nada familiar: um posto de gasolina abandonado. Se havia empolgação diante do primeiro carregamento sendo entregue, o medo certamente também estava presente, afinal, não conhecíamos os receptores, nem que tipo de problemas poderíamos encontrar numa simples entrega. Entretanto, confiávamos na experiência e eficiência do grupo que liderava, sem nunca baixar a guarda.



“Bella, você e Alice estarão de prontidão, dentro do ônibus” Emmet nos chamou em particular, momentos antes de estacionarmos no ponto de encontro. “Estão autorizadas a atirar em qualquer movimentação suspeita, ok?” Acenei com a cabeça e logo ficamos na escolta. De longe era possível visualizar um homem alto, com aparência esbelta, escoltado por dois seguranças de perto e mais uns quatro ao longe, dentro do carro. Provavelmente era o encarregado por receber a mercadoria. Seis iniciantes carregaram os quatro malotes para fora. O tramite inteiro, da contagem até o pagamento foi surpreendentemente tranquilo, trazendo certo alívio. Seguido de um breve cumprimento da parte de Emmet e Mabelle, logo voltaram ao automóvel e prosseguimos no mesmo caminho anterior, agora em direção contrária.



“Algo está estranho” Um finco pendia na testa de Emm. “Entregas nunca são simples, acredite Bels, se nada acontecer é sinal de que ainda acontecerá” Me alertou, voltando ao seu acento. Havia grande responsabilidade sobre quem escoltava.



Fizemos a parada no meio da madrugada, pois o motorista realmente precisava descansar. Por ter dormido quase a noite inteira, me sentia bem para ficar de guarda. Mabelle, Alice e eu ficamos nas extremidades do acampamento, enquanto Emmet ficou de tocaia entre os iniciantes, observando qualquer movimento.



O céu continuava estrelado e o silencio dominava o local. Foi mais ou menos às quatro da manhã que vi, ao longe, a passagem de um carro que me deixou extremamente preocupada. Não era comum que houvesse passagem naquele local. Nos momentos posteriores houve apenas um silêncio mortal, o que me fez aguçar ao máximo minha audição para qualquer movimento.



Foi quando, exatamente meia hora depois, senti um braço passar por trás de mim e tapar minha boca com força. Olhei para o lado e vi Alice me lançando um sorriso e logo depois se afastando. Mais que porra, onde Alice estava indo? Num movimento rápido, meu agressor laçou minha arma ao chão. No outro momento, estava no chão, com o maldito agressor por cima de mim.



“Pensou que ia se livrar de mim assim tão fácil?” O maldito agressor tinha os famosos olhos azuis que liam até a alma. “Maldição de garota, avisei que não era para desligar na minha cara” Sorriu e de repente me vi preenchida por um sentimento de satisfação que me transbordou. Só ali, diante dele, notei o quanto ficávamos bem juntos. “Aliás, é fácil demais imobilizar você, sério que está fazendo a segurança dos meus iniciantes?” Dei um golpe em seu antebraço, trocando nossas posições.



“Ora, sabia que era você” Dei de ombros, me recusando a aceitar a acusação de ser péssima em defesa pessoal.



“Mentira” Relaxou uma das mãos em minha cintura. “Se soubesse mesmo disso, teria atirado” Piscou, dando um rápido selinho em minha boca, nos fazendo ficar de pé em um instante. Virou-se de costa, me puxando pelas mãos.



“Onde vamos?”



“Só fique quieta, não quero acordar esses malditos iniciantes” Se virou, parecendo lembrar de algo. “Que ligação foi aquela?” Deixou escapar um sorriso zombador. “Estava me evitando?”



“Há-há-há”. Larguei sua mão, tentando andar um passo à frente. “Por favor, né, Cullen?” Revirei os olhos, vendo que logo estava ao meu lado.



“Tão fácil ler você” Sentei em um banco próximo e logo me acompanhou. Um silêncio agonizante dominou o ambiente e notei que era uma das primeiras vezes que o via calado, talvez até distante. Era a mesma impressão de tinha tido no anteriormente no cartel ao vê-lo de longe na mesa do almoço. Enormes olheiras tomavam conta de sua expressão, parecendo extremamente exausto.



“Você está bem?” Só percebi o tom de preocupação e intimidade da pergunta após soltá-la. Não deveria fazer aquilo, não deveria me importar, mas foda-se, ele estava ali, sabe Deus por que e não me conteria em aproveitar aquela oportunidade. “Por que veio aqui, mestre?” O mestre agora saia com plena naturalidade pois era fácil, depois de algum tempo, notar que aquele homem exalava autoridade. Não só por seu jeito rude, mas por realmente ter no cartel a sua vida. Logo virou-se, com a menção do adjetivo, me encarando profundamente.



“Sou o seu mestre, Swan?” Seriedade presente em cada palavra, naquele momento não havia espaços para brincadeiras. Não estava falando com o Edward ao qual tinha me declarado noites antes, estava falando com o mestre, com o dono do cartel mais bem-sucedido do país. “Arriscaria sua vida por mim?” Continuou me encarando. “Pelo Cartel?”



“Sim, estou aqui por isso” Estava disponibilizando a Bella mafiosa, a que deixara seus sentimentos na sua antiga casa para transformar-se em uma estranha.



“Teremos muito trabalho quando voltarmos ao Cartel” Finalmente desconectou seu olhar do meu, tornando para frente. “Finalmente poderá me ajudar, Isabella” Não sabia o que estava acontecendo, mas algo não parecia certo. Ele parecia tão exausto. Parecia falar para si mesmo.



“Quer ser normal essa noite?” Virou-se, estranhado a pergunta. “Quer dormir?” Apontei para as minhas pernas nem imaginando que tipo de pergunta era aquela. Estava agindo simplesmente por extinto. Sem notar nossa proximidade cada vez maior. Demorou apenas alguns segundos pensando e inclinou-se sobre mim, sem dizer uma palavra. Só então percebi como estávamos: sentada num banco com um dos mafiosos mais perigosos deitado sobre o meu colo, sem dizer uma palavra. Que porra era aquela?



Mandei todas as dúvidas para o espaço e levantei uma das mãos, passeando por seu cabelo. Naquele momento deixávamos todas nossas resoluções e pensamentos para apenas ser um casal normal. Por uma só noite, seríamos Edward e Bella, sem mistificação.



“Amanhã, voltamos ao normal” Murmurou, relance de para cima. “Amanhã, recobramos o juízo. ”



“Sim mestre, amanhã”.



Só amanhã, porque aquela porra de noite era nossa.

Notas finais
Gente, nem sei explicar como estou postando. Foi do nada, simplesmente comecei o capítulo e consegui terminar. Foi exatamente três anos sem postar. TRÊS ANOS! Eu sei, é uma vida. Me perdoem. Aconteceu tanta coisa, minha vida deu tantas voltas que nem sei explicar. Mas o que sei é que estou extremamente feliz em estar de volta. AGORA MAIS DO NUNCA PRECISO DAS OPINIÕES! Realmente ainda tem gente que ler EP? Estou louca para saber de vocês, conversem comigo nos comentários e no twitter, continuo lá no @emperigo. Estou pensando em fazer um grupo no facebook, o que acham? Um beijo! Bia, com vocês, agora é Bia de novo :)