Em Perigo

10 Capítulo 10 - Aprendendo com o mestre


Notas iniciais
To simplesmente morta. Espero, do fundo do coração, que vocês gostem. COMENTEM E LEIAM AS NOTAS FINAIS!

O mundo gira sem nossa permissão, e se em um momento estamos firmes com os pés na areia, no minuto seguinte já submergimos, sem realmente saber o exato momento no naufrágio, o exato momento em que a água gelada nos toma e nos agarra com força nossos últimos suspiros. Submersos, o que se pode ver é a água, o solo firme não surge como opção, torna-se apenas um local distante e impossível.

Alguns profetas do passado ousaram afirmar que o mundo terminaria algum dia. Poderiam prever também que o destino, este ser poderoso que possuía um enorme senso de humor, poderia ter o prazer de pregar uma peça nos mais opostos indivíduos; que haveria uma determinada rotação da terra propondo um trégua para que os opostos pudessem se atrair, que as verdades seriam confrontadas e que as promessas e acordos, seriam finalmente quebrados, mas não aquele dia, não com o Cullen no posto de fiel escudeiro de seu próprio acordo. O destino teria que esperar quieto e calado, pois enquanto o mestre não permitisse, as promessas e acordos teriam de ser fielmente cumpridos ou cabeças iam rolar.

"Bella" O sussurro mostrava-se cada vez mais próximo, quase palpável. A voz de Jenny me incomodava de longe, fazendo com que um protesto saísse de minha garganta. "Bella, levanta"

Abri uma pequena fresta em um dos olhos e após alguns segundos com a vista turva, finalmente notei que o ambiente estava completamente escuro, não havia nenhum facho de luz que iluminasse a escuridão do quarto. Empurrei a mão de Jenny e novamente fechei os olhos.

"Bella, é sério, levanta" Os cutucões logo voltaram, fazendo com que o meu mau humor aumentasse. "Bella, você tem visita"

"Me deixa dormir" Virei para o outro lado tentando imaginar que tipo de doença mental minha colega de quarto teria ao me acordar de madrugada, com a desculpa de visitas. Finalmente entendi quando ouvi a voz grossa e arredia interromper qualquer quietude que residia no ambiente.

"Era de esperar que fosse preguiçosa" As mãos nada delicadas me empurraram, fazendo com que eu tombasse no chão. "Levanta Swan, não tenho o dia inteiro"

Encarei assustada o dono da voz que me atormentava, e encontrei meu inimigo levemente encostado na parede. Apesar do rosto severo, estava intacto e vidrado em minha direção com a expressão diferente, como um investigador ao analisar a cena de um crime. Jenny estava de boca aberta, assustada por vê-lo em nosso quarto, apenas dei de ombros e fui em direção ao banheiro com algumas peças de roupas em mão. Obviamente, não dei saudações receptivas ao meu inimigo, no máximo uns dois murmúrios de reclamação.

Ignorei minhas mãos que insistiam em ficar trêmulas, o sono e a lentidão logo deram espaço para uma leve inquietação que aumentava aos poucos. Esse era o efeito em meu corpo quando o Cullen estava por perto, todos os meus sentidos ficavam em alerta, angustiados, como se a qualquer momento pudessem me atacar, como se a qualquer momento eu pudesse cair em uma de suas ardilosas emboscadas, de fato era um perigo constante à minha sanidade.

Olhei para minhas próprias roupas soltando uma leve risada ao perceber que estava com uma roupa de dormir nada decente, o que explicava o olhar desconcentrado de meu inimigo, talvez nosso acordo fosse divertido, afinal.

Após uma ducha quente bem rápida, saí do banheiro já vestindo a roupa do dia. Jenny estava deitada em sua cama, petrificada e fingindo dormir, mas a conhecia bem, sabia que não nem perto da inconsciência e provavelmente exigiria uma explicação quando voltasse ao quarto. Meu inimigo estava apoiado na janela, analisando a escuridão, enquanto o Sol ainda não havia surgido. Não voltou-se para mim, mesmo após notar minha presença.

"Amanhã você terá apenas cinco minutos para estar pronta, se demorar um segundo a mais terá punições, entendido?" Virou-se para mim com sua típica expressão de arrogância. Não deixei minha mente imaginar como seria a tal punição.

"Sim, senhor" Bati continência com ironia o que veio seguido de um longo suspiro de irritação, virou-se de costa com seus passos duros em direção à porta. Tratei de segui-lo, mas antes de sair do quarto, pude ver o olhar de Jenny cortante em minha direção, apenas pisquei de volta. Um leve descontentamento passou por meu corpo ao pensar que seria acordada todos os dias antes do sol surgir, apesar de já estar acostumada a despertar cedo com as rotinas do Cartel, em Clivee Hill o horário tornou-se mais flexível, o que gerava um tampo a mais de descanso, era como se estivéssemos de férias ou algo parecido.

"Será que a gente não pode acordar um pouco mais tarde amanhã?" Seus músculos moviam-se enquanto continuava com seus passos rápidos. "O sol ainda nem apareceu"

A única resposta que tive foi um barulho esquisito que saiu de sua boca, mostrando sua irritação matutina, revirei os olhos pensando no quanto meu inimigo era previsível, era como se o mau humor já fizesse parte de sua própria personalidade, como alguém conseguia viver assim?

O jardim era iluminado por fracas luzes dos postes, fazendo com que o ambiente ficasse um pouco mais iluminado que o interior da torre. O mafioso andou rapidamente até o estábulo, enquanto eu o acompanhava, porém, quando abriu a porta, estagnei: aquele local não me trazia boas lembranças.

"Está com medo de entrar?" Virou seu sorriso zombador para mim, percebendo minha hesitação.

"É muito quente ai dentro" Dei de ombros, juntando toda a minha cara de pau para falar. "Além do mais, é muito apertado"

Deu um risinho e entrou no local sem protestar, o nervosismo invadia meu corpo aos poucos, a proximidade do Cullen causava diversas reações dentro de mim, quando estava por perto eu não me conhecia, não sabia como reagir e isso não me agradava nenhum pouco.

Seus sapatos de couro logo surgiram com o resto de seu corpo, em seus braços estava um enorme alvo antigo já desbotado com o tempo. Todos os músculos do braço tencionados devido ao peso, mas, nem por um momento mostrou sinal de exaustão, pelo contrário, era como se estivesse carregando um pacote de arroz e não um objeto que provavelmente teria mais que o dobro de seu peso.

Acompanhei seus passos em direção ao jardim novamente em seu encalço, tentando imaginar o faríamos com tudo aquilo. Os iniciantes já tinham diversas aulas de tiro com Jasper e Emmet, apesar de não estar tão bem em relação à pontaria, meu desempenho era razoável, o que tornava completamente desnecessário que acordássemos tão cedo para fazer aquela atividade. Entretanto, após fixar o enorme alvo com os canos de ferro no chão, puxou algo que estava encravado no alvo fazendo com que a surpresa me atingisse.

"Só pode ser brincadeira!" Exclamei enquanto observava um enorme arco em uma de suas mãos e algumas flechas na outra. "Viramos índios agora?" Me ignorou enquanto terminava de posicionar o alvo a uma distância considerável. "Não me diga que voltamos para o século dezenove" Debochei com os braços na cintura.

Andou vagarosamente em minha direção levantando as firmes órbitas azuis, se posicionou em minha frente e soltou uma flecha, que alcançou estrategicamente o pequeno ponto vermelho do alvo.

"Não estou te treinando para brincar de boneca, Swan" Virou-se imponente colando seu corpo ao meu, fincando firmemente o arco em minhas mãos, com suas mãos fixas sobre as minhas. "Estou te treinando para ser uma assassina" O hálito quente contrastava com o vento frio que soprava, gerando breves arrepios em meu corpo. "Você não será boa Swan, você será a melhor" Sua voz rouca era tão firme que realmente acreditei em suas palavras, acreditei que o homem que segurava firmemente minhas mãos poderia me transformar em qualquer coisa que quisesse. "Para evoluir, você precisa ter precisão e técnica"

Puxou uma de minhas mãos para trás e após alguns segundos de concentração e respirações nada confortáveis do traficante perto do meu pescoço, a flecha voou acertando exatamente o centro do ponto vermelho, a precisão de meu inimigo era simplesmente impecável. O jeito do Cullen me divertia, apesar de mandão e egocêntrico, era realmente dedicado e parecia um ótimo professor, mostrando quais eram os pontos exatos que um bom atirador precisava saber e as falhas inadmissíveis em uma luta de verdade.

"Você não pode pegar no arco assim" Levou as mãos ao rosto com frustração. "Estou cogitando que tenha algum problema de audição" Há alguns minutos eu tentava atirar algumas flechas sem a ajuda dele, mas sua voz exaltada atrapalhava minha concentração.

"Você pode ficar calado e deixar eu atirar?" Não desviei o olhar do alvo, mas pude ouvir um pequeno rosnado de sua garganta, agoniada com a insistência do Cullen, soltei a flecha com muita força, fazendo com que o forte cabo elástico, se partisse em dois.

"Nunca, na história do cartel, alguém quebrou um arco" Olhava com deboche para mim. "Incrível como você consegue quebrar todos os recordes"

"Considerando quem é o professor, só posso concluir que o incompetente aqui é você e não eu" Lancei o que sobrara do arco no chão irritada pelas palavras do Cullen. Estupidamente, a voz de Mabelle ecoou mais uma vez em minha mente, o arco quebrado aos meus pés apenas comprovava as malditas palavras que havia vomitado para mim, o que só aumentava minha frustração. Virei o corpo em direção a torre com passadas bruscas a torre, mas a mão firme de meu tutor me alcançou sem esforço.

"Esqueceu com quem está falando?" Sua voz estava uma oitava acima e suas veias saltavam de irritação. "Posso ser seu professor, mas não hesitaria nem dois segundos em dar um fim na sua história aqui dentro"

"Então porque não atira em mim e acaba logo com isso?" Levantei o nariz e o encarei firmemente, suas órbitas azuis cintilavam de puro ódio e as minhas de pura insubordinação. "Você só sabe falar, não tem coragem de fazer metade das coisas que diz" Não foram necessários nem dois segundos e eu já estava no chão, presa debaixo do corpo do Cullen.

O sol nascia tímido, e alguns raios de luz tocavam a pele alva do mafioso, iluminando seu rosto contorcido, as mãos me agarravam com força impedindo qualquer movimento e apesar do nervosismo que insistia em se alojar em meu corpo, o encarava com firmeza mostrando que não tinha medo.

"Eu deveria acabar com você agora mesmo" O rosto estava a centímetros do meu e os olhos azuis faiscavam para mim. "Devia fazer você calar essa boca e ver quem é que manda"

"Então faça" Encarei esperando por sua reação, não me importaria com suas atitudes estúpidas ou se até mesmo apontasse um revólver em minha direção, esse era o tipo de reação que se podia esperar do Cullen: brutalidade e ódio, isso era o que todos esperavam do homem mais temido do país, mas a surpresa veio logo em seguida, pois seus olhos ainda me encaravam firmemente, porém, de uma hora para outra, o ódio não era o único sentimento que passava pelas profundas órbitas azuis, me espantei a notar um outro sentimento intruso perpassando por elas, um sentimento que fez com que todo o meu corpo tremesse: os olhos do Cullen cintilaram de desejo.



Os olhos perversos varreram todo meu corpo e foram em direção ao meu busto, que subia e descia rapidamente com minha respiração debaixo da blusa agora colada ao corpo devido ao esforço da atividade. A atenção voltou novamente para o rosto, agora carregado de desejo nítido, explícito, paupável. Diante daquele maldito olhar minha mente entrou em pânico, não podia pensar em mais nada. Soltei a respiração, presa por alguns segundos, no rosto do meu inimigo o que fez com que ele olhasse firmemente para meus lábios, mas antes que qualquer movimento acontecesse um pigarro nos despertou.



Foi simultâneo o movimento de nossos rostos que voaram para o lado a tempo de assistir bem desconfortavelmente o esbelto corpo de Stela estático, analisando toda a cena improvável. Com rosto nada agradável e claramente constrangido Cullen se levantou em um segundo me deixando pateticamente só no gramado frio. Um rosnado irritado saiu de sua garganta e caminhou com irritação até o arco quebrado ignorando a mulher que dividia a atenção entre nós dois.

"Estou interrompendo alguma coisa?" Uma irritação crescente me alcançou ao ouvir o tom acusador da mulher ao meu lado, quem ela pensava que era ao exigir explicações?

"Não, só estávamos treinando" Disse, levantando-me do chão.

"Desculpa, mas não estou falando com você" Nunca tinha passado por isso antes, mas ouvir Stela com seu tom de deboche fez com que minha irritação duplicasse, o rosto questionador estava voltado para o Cullen que tentava consertar o arco com o rosto ainda retorcido em uma careta. "Estou falando com você, mestre" Revirei os olhos ao ouvir o patético adjetivo, assistindo as mãos firmes do meu inimigo tremerem de raiva. "Não é legal se esfregar em qualquer uma por ai"

Não consegui me conter, em segundos, impulsionei meu corpo para frente e meu punho fechado voou em direção ao rosto, agora assustado, da mulher que me insultara, acertando-a em cheio, cambaleou, mas rapidamente se recompôs, voltando o olhar furioso para mim e a surpresa estava estancada no rosto do mafioso, enquanto partia em minha direção.

"Vou te matar, sua pirralha mimada" Stela veio voraz em minha direção, mas o Cullen enfiou-se no caminho, impedindo que chegasse até mim.

"Pare com isso Stela, volte para a torre, já deu seu show por hoje" A voz grave mostrava que estava falando sério, tudo que eu queria era descontar toda a raiva que transbordava dentro de mim no rosto da maldita mulher. Tentei me esquivar, mas as mãos firmes do Cullen me seguraram e me lançaram em sua costa, fazendo com que eu ficasse de cabeça para baixo. Stela me encarava cheia de cólera, decidindo se obedeceria ou não à ordem do Cullen. "Agora!" A voz do meu inimigo soou autoritária e logo ela sumiu.

Sacudi os braços e pernas tentando me soltar do Cullen, que continuou me carregando sem nenhuma dificuldade até o celeiro. Entramos e ele fechou a porta com força me jogando brutalmente em um pequeno monte de palha.

"Além de irritante, você também é louca?" Me encarava incrédulo. "Ela é uma lutadora, Isabella, está no ramo do Cartel a anos e você acha que com esse seu nariz empinado e sua suposta valentia vai destruí-la?" Revirou os olhos. "Pensei que fosse mais esperta do que isso"

"Desde quando você dá uma de pai protetor?" Cruzei os braços, encarando o rosto carrancudo.

"Desde quando me tornei seu professor" Aproximou-se alguns passos em minha direção. "Esse é o seu problema, você é impulsiva e isso vai te matar quando estiver em uma luta de verdade"

"Isso não é da sua conta!" Gritei voraz.

"Ah, é sim" Se agachou, me encarando com intensidade. "Vai ter que controlar a porra do seu gênio ou não será nem metade do que Stela é"

"Que seja" Dei de ombros me levantando e indo em direção à porta, algo nas palavras do Cullen me incomodaram fazendo com que uma avalanche de emoções me incomodasse, no fundo não suportava a ideia de ser comparada a outras pessoas.

"Onde pensa que vai?" Sua mão segurou um de meus braços novamente. "Vamos continuar com o treinamento"

"O arco está quebrado" Relembrei.

"Vá buscar outro no meu escritório" Ordenou e permaneci imóvel, precisando mais do que tudo ficar longe daquele homem o mais rápido possível. "Terceira porta à direita, no último andar" Disse e sumiu entre o jardim, provavelmente fendo alguma atividade enquanto eu buscava o objeto.

Atravessei o jardim com passos firmes e entrei na torre, subindo as escadas, a voz do Cullen ecoava em minha mente e eu me odiava por dar tanta importância para o que o maldito criminoso pensava, mas de alguma forma queria ganhar, queria me tornar uma competidora à sua altura, queria encarar Stela de frente para que ele visse que ninguém me falaria o que ser ou não ser, desde pequena havia sido criada assim, minha mãe deixava bem claro que não se devia mostrar fraquezas diante do inimigo, todos deveriam olhar com admiração e respeito e não com pena, pena era um sentimento patético e eu não queria que o Cullen sentisse isso por mim.

Entrei na terceira porta e logo encontrei a típica águia no teto, símbolo de meu inimigo. O local era simples, não havia muitas coisas, apenas uma enorme mesa e uma cadeira giratória; olhei para o canto, e encontrei o arco idêntico ao que havia sido quebrado por mim, encostado na parede, agarrei o objeto e caminhei em direção à porta, mas algo me parou: estava no escritório do Cullen e aquela era minha chance e as três gavetas embaixo da mesa me chamaram como um letreiro.

Encostei a porta com cuidado e voltei sorrateiramente para o local sentindo o coração bater mais forte com a ansiedade de estar escondida, sentando na cadeira, forcei a primeira gaveta e logo ela abriu relevando vários documentos: pagamentos, contas, relatórios de entregas, era tudo o tinha nas duas primeiras gavetas, estranhamente não havia nada pessoal, e ao abrir a terceira gaveta me deparei novamente com os mais diversos papéis, todos inúteis, mas antes que pudesse desistir, fechando a gaveta, percebi a ponta de um envelope vermelho que cintilava para mim.

Senti a adrenalina eletrizando meu corpo e abri com cuidado excessivo o envelope, revelando um manuscrito bem antigo dentro, um leve cheiro de mofo atingiu meu olfato e me surpreendi ao notar que se tratava de uma foto antiga, um pequeno garoto de enormes olhos azuis segurava a mão de uma garota que possuía os mesmos olhos, os cabelos um pouco mais claros e na outra mão, a garota erguia um troféu com um semblante vitorioso.

Primeiro campeonato de Tiro ao Alvo da academia de treinamento infantil de London:
Edward e Catherine Cullen: vencedores olímpicos.


Me espantei ao perceber que o lindo garoto era meu inimigo e possuía um enorme sorriso no rosto, como se aquela vitória fosse o maior prêmio que ele pudesse conquistar. Atestei, impressionada, que até mesmo o Cullen tinha sido criança um dia e provavelmente teria sido agradável em alguma época de sua vida, mas o que teria acontecido para que ele se transformasse no que é hoje?

Novamente analisei sua irmã na foto, Cida havia comentado sobre a garota, mas nunca tinha mostrado uma foto, era impressionante a semelhança dos dois, só não pareciam gêmeos porque a garota era um pouco maior que o Cullen.

"Eles são lindos, não são?" Uma voz invadiu meus ouvidos fazendo com que eu pulasse de susto. "Desculpe, não queria assustar você" Alice sorriu traiçoeira para mim.

"Me desculpe" Guardei os papéis novamente na gaveta. "Não deveria estar mexendo, só vim aqui para pegar o arco" Meu rosto assumia um tom de vermelho com a vergonha me atingindo por ter sido pega.

"Não, tudo bem" Deu de ombros, pegando novamente o certificado de dentro da gaveta. "De vez em quando eu venho aqui só para mexer nas coisas dele" Soltou um risinho cúmplice fazendo com que me sentisse mais confortável. "Faz uma falta enorme" Ela deu um sorriso triste, enquanto observava a foto.

"Não precisa responder se eu estiver sendo indiscreta" Falei cheia de curiosidade, mas preocupada em tocar em um ponto indiscutível. "Mas, como foi o acidente?" Após vários minutos de espera, ela finalmente respondeu, parecendo um pouco abalada.

"O carro pegou fogo" Deu de ombros. "Não foi descoberto o motivo, só se sabe que elas estavam andando e o carro simplesmente explodiu" Toquei a pequena mão de Alice, lembrando de como havia sido doloroso perder o meu pai. "Catherine era puro fogo" Ela deu uma curta risada. "Você iria adorá-la, ela odiava ficar parada, estava sempre fazendo algo, sempre sorrindo, levava alegria por onde passava" Dei um sorriso imaginando que realmente gostaria de conhecê-la. "Edward costumava ser mais feliz antigamente, mas várias coisas aconteceram e ele simplesmente mudou, acho que nunca soube lidar com a morte delas"

Nunca tinha pensado no quanto Edward provavelmente já havia sofrido após perder a mãe e a irmã no mesmo dia, imaginar que um dia havia sido uma pessoa espontânea era uma impensável para mim.

"Ele sempre cuidou de mim, mesmo sendo quase da mesma idade que eu, sempre me protegeu" Soltou uma gargalhada. "Espantava todos os meus namorados da escola, dizia que ia matá-los caso chegassem perto de mim novamente" Revirou os olhos. "Acho que ele realmente mataria, mas nenhum foi louco suficiente para desafiá-lo"

Levantei um pouco desconfortável com a conversa íntima, não queria saber sobre o passado do Cullen, não queria ver suas fraquezas ou nutrir qualquer compaixão, já possuía informações suficientes para encher minha cabeça por horas ao ponto de me atormentar.

Antes que eu pudesse sair, ela apertou os dedos em meu pulso, me segurando.

"Não seja tão dura com ele, Bella" Lançou um olhar suplicante. "No fundo, ele é uma pessoa maravilhosa"

"Não sei porque está falando isso para mim" Soltei um riso nervoso.

"Acho que você sabe" Sorriu novamente e sei foi, sumindo no corredor, me deixando sem entender sua última frase.

*

O dia passou rapidamente e após várias tentativas, finalmente havia acertado algumas flechas, mas o Cullen sempre afirmando que ainda estava muito distante de qualquer pessoa meramente medíocre, o que fez com marcasse treinos para todos os dias. Em minha mente as palavras de Alice ainda latejavam por vários momentos do dia: a imagem de um Edward pequeno descobrindo que a mãe e a irmã haviam morrido em um acidente era de apertar o coração, mas isso não poderia me abalar. O caso de perda de pessoas queridas não deveria ser uma desculpa para se transformar no que quer que ele tenha se tornado, os erros não se justificavam com outros e eu precisava lembrar a todo instante que independente do que soubesse sobre o mafioso, minha visão sobre ele nunca mudaria, não relativizaria sua brutalidade.

O céu e a noite fria cobriam Clevee Hill como um manto e nem os mais treinados policiais do exército londrino desconfiavam que naquele pequena cidade tranquila e pacata em que todos se conheciam existiam corridas. O convite chegou rápido e cortante: Jenny estava entediada e precisava se ocupar e coincidentemente Emmet tinha o local perfeito, pois em quase todas as noites eram patrocinadas disputas de moto nas ruas da cidade pacata, a rota começava na fazenda ao lado e terminava quase na fronteira da cidade vizinha.

Chegamos com certa timidez, mas o local estava lotado e movimentado, diversas pessoas espremiam seus corpos tentando achar um pequeno espaço no aperto da multidão, as motos alinhadas possuíam a numeração de seus donos e vários motoristas viciados em adrenalina se preparavam para apostar em mais uma corrida.

"Isso aqui é incrível, porque não viemos antes?" Jenny estava boquiaberta, declarando seu prazer em presenciar um evento com tantos homens tatuados por metro quadrado.

A pista estava fervendo e passear os olhos entre as diversas motocicletas, localizei uma incrível suzuki preta que pertencia a um certo mafioso bem conhecido, seu dono revezava me avistava de longe enquanto conversava com outros motoqueiros, pateticamente, senti o nervosismo me alcançar.

"Acho que você já encontrou o seu homem" Jenny deu uma gargalhada e fiz minha melhor cara feia em resposta, desviando minha atenção do inimigo, após a visita do Cullen ao nosso quarto na noite anterior, minha colega afirmava de dois em dois minutos que havia algo entre nós só para me irritar, o que basicamente confirmava minha tese de que Jenny tinha algum retardo mental.

Estávamos em pé no meio da platéia, enquanto os motoqueiros já se organizavam para em breve dar a partida e iniciar a famosa corrida. Dentre o amontoado de pessoas, a enorme fileira havia reduzido pela metade, transformando-se em duas enormes e organizadas filas de motocicletas.

"Veja quem está aqui" Notei a voz e encontrei o rosto debochado de Stela que possuía um machucado na bochecha. "Acredito que tenha se confundido, a parte infantil é para o outro lado querida" Disse, apontando para o lado contrário.

"Porque você não vai se foder?" Virei para corrida, sem paciência de encará-la.

"Vai dizer que veio só para ficar olhando?" Puxou meu braço com força, me encarando. Jenny e Emmet ainda não sabiam da confusão anterior e estranhavam o comportamento agressivo de Stela. "Vamos, mostre que é mulher de verdade e entre na corrida"

"Não fale besteiras Stela, ela não participa dessas coisas" Emmet voltou-se rígido para ela.

"Ah, não me diga que você tem medo" Me encarou firme e soltou uma risada, acompanhada por duas outras garotas que estavam atrás dela.

"Não trouxe minha moto" Devolvi o olhar.

"É só isso que te impede?" Confirmei. "Então, problema resolvido" Movimentou-se rapidamente chamando por alguns seguranças e logo uma moto estava aos meus pés. "É toda sua" E apontou para a estrada, onde os outros motoqueiros já aguardavam.

O enorme segurança grudou um número em minha camisa e outro na traseira da moto e eu empurrei a moto até a fileira sem muita opção, não ia deixar Stela me desafiar tão facilmente, me posicionei ao lado de Stela que olhava para mim com excitação.

"Você pirou Bella?" Jenny gesticulava para mim, com Emm em seu encalço. "Você mal aprendeu a dirigir, não pode participar da corrida"

"Dane-se, não vou perder para a Stela" Soltei entre os dentes e subi na moto, me posicionando firmemente.

"Bella, ela está fazendo isso de propósito, sabe que você não tem chance de ganhar, esses corredores são profissionais!" Emmet tentava me convencer com desespero.

"Não me importo, vou tentar" Dei de ombros, ligando o motor da moto, fazendo com que rugisse.

"Você não vai" A voz grossa do Cullen surgiu ao lado de Emmet, interrompendo a conversa. O rosto impassível e a postura cruel eram tão másculas que tornavam-se atraentes de tão firmes.

"Sim, eu vou" Continuei firme.

"Desce dessa moto agora" Se aproximou de mim com uma expressão zangada. "Não quero ninguém do meu Cartel cometendo suicídio"

"Uma pena, pois não estou com paciência para aturar a sua opinião, eu vou nessa corrida" A esta altura do campeonato minha única vontade era esfregar na cara da Stela que não era a garotinha que ela pensava. Um grunhido de ódio saiu da garganta do Cullen e ele voltou para a sua moto sem falar absolutamente nada, apenas me encarando.

Todos estavam a postos, esperando que o juiz finalmente desse o tiro. O nervosismo e a adrenalina aos poucos preenchia todo o meu corpo, fazendo com que um boa sensação tomasse conta de mim. Tinha absoluto conhecimento que perderia a corrida, mas ao menos provaria que era capaz de participar, lancei um olhar de tranquilidade para Jenny e Emm que pareciam apreensivos e após alguns minutos o tiro soou.

Pisei no acelerador e a moto voou junto com todas as outras, em apenas alguns segundos já havia alcançado uma velocidade incrível, vendo Jenny e Emm já distantes, a moto que Stela tinha me entregado era realmente veloz, e ao olhar para o lado esquerdo encontrei com o olhar questionador do Cullen à centímetros, como se o objetivo dele ali não fosse ganhar a corrida e sim tomar conta de mim.

Me irritei e pisei com força no acelerado fazendo o motor da moto rosnar, mas depois de alguns segundos o Cullen estava na minha cola novamente.

Tudo aconteceu muito rápido e não tive tempo de pensar. Em um momento estava veloz na moto emprestada, logo atrás dos outros motoqueiros, e ao lado esquerdo, como guarda, estava meu maldito inimigo, e no outro momento eu estava voando.

Uma batida inesperada surgira do lado direito da minha moto, fazendo com que eu fosse lançada à metros de distância.

A última coisa que vi foi o sorriso diabólico de Stela ao me ver no chão e logo depois eu apaguei.

Notas finais
Minhas meninas lindas, eu já tava com saudade de vocês. Esse capítulo foi simplesmente desgastante de escrever, tem uns que dão bloqueios e essas coisas, e esse foi um deles... espero que o próximo saia mais facilmente! Bem, a partir de agora a história vai tomar alguns rumos diferentes, então fiquem atentas heheheehhe Eu tenho uns agradecimentos especiais pra fazer, mas vou deixar pro outro post porque estou muito cansada! POR FAVOR MENINAS, É MUITO IMPORTANTE QUE VOCÊS COMENTEM, PRECISO SABER O QUE ESTÃO ACHANDO, ENTÃO NÃO ESQUEÇAM DE COMENTAR! Eu tenho uma tara por recomendações, então que quiser fazer uma, me fará MUITO FELIZ =) Não esqueçam de seguir @EMPERIGO Muito obrigada por todo o apoio, sem vocês eu já teria desistido. Um super beijo, Bia.