Em Paris
1 Em Paris...
Estávamos meses como namorados, da minha parte muito confortável aquela situação apesar das brincadeirinhas de amigos e parentes. Da parte dela, eu achava meio estranho, será que ela apenas estava comigo por não ter outra opção ou não queria cobrar um compromisso com medo da relação desandar, coisa que anda muito comum nesses dias de muitos gays, poucos machos e quase nenhum homem como os de antigamente! Mas para falar a verdade, eu gostava muito mais dela do que ela de mim, nunca havia declarado isso, mas eu sentia nos seus lapsos de ausência ocasionais, aquelas horas que você está com a pessoa e ela estava longe. Sabia que o seu grande caso de amor, havia sido um cara que deixou ela completamente maluca, que a fez sair de casa por causa dele, e que todos avisaram que aquilo era uma fria, mas ela era muito autoconfiante. Bonita, muito bonita, esguia, educada como uma princesa dos colégios internos suiços, falava três idiomas fluentes, bem humorada e seus defeitos aparentes eram a autoconfiança excessiva e uns ataques de fúria... mas isso deve ser coisa de mulher. Ah, quase esqueci, seu caso de amor! Após ter brigado com meio mundo, ela saiu de casa e foi morar com o sujeitinho que eu me recuso a pronunciar o nome. Ela estava naquela época no auge da sua felicidade, e eu a acompanhava a distância, morria de inveja do cara, pois sempre amei essa mulher. Um belo dia ela diz para o cara que ia viajar para um lançamento de um revista da editora em que trabalhava como consultora de moda. Um imprevisto e o vôo cancelado fizeram que ela voltasse para casa, querendo fazer surpresa para o traste, ela chegou de táxi sem avisar e viu o carro de um amigo dele. Quando ela abriu a porta e gritou o nome dele, um silêncio estranho envolveu o ambiente. Ela chamava: — amor...onde você está? se dirige para o quarto, chegando lá, ela viu o inimaginável! Os dois nus deitados na cama dela, no ninho de amor dela! Ela gritou palavrões e saiu em disparada com o carro feito uma louca! Chorava muito, me ligou e gritava: — Aquele viado! Vocês sempre falaram que ele era um gay e eu nunca acreditei. Soluçava e gritava que o cara estava com o Marcelo de viadagem na minha cama!! Eu não acreditava, e falava: — pelo amor de Deus, me diz onde você está, calma! Ela apenas me perguntava: — Você sempre me amou...ainda me ama?? Eu não escuto mais nada, fiquei louco, liguei o aplicativo e peguei o carro e parti a toda atrás dela. No caminho acionei o voice control e liguei para os bombeiros e pedia que me rastreassem passando o meu número! Quando cheguei próximo ao local, vi uma freada brusca e um rastro do carro, ela havia caído no rio, o carro estava submerso! Procurei pelos bombeiros e nada! Tirei um canivete tático que deixava no porta-luvas do carro e mergulhei. A profundidade devia ser uns 5 metros no máximo, e quando avistei o carro debaixo d’água, mergulhei o mais rápido que podia, cheguei mas não consiguia abrir a porta! O interior estava tomado de água e ela inconsciente! Usei o cabo do canivete e começei a golpear o vidro lateral que era o mais fraco, a merda do insulfilm, impedia a quebra total! Usei o cotovelo num golpe mais forte, e o sangue do corte no meu braço esparramou na água, mas consigui abrir a porta e cortar o cinto! Já sem ar nenhum, comecei a puxá-la o mais rápido que podia! Quase na superfície, na ânsia pelo ar, enguli muito água e apaguei! Quando acordei, vi os bombeiros a minha volta e eu vomitei muita água. Meio tonto, perguntei por ela, e eles diziam que tinha sido levada às pressas para o hospital, fizeram ressucitação artificial mas ela estava instável! Passados dois dias e eu ficara direto no hospital quando ela finalmente se recuperara. Ela perguntou se estava sozinha e os médicos diziam que o seu marido ficou na sala de espera todos os dias. Ela assustada disse que não queria saber dessa pessoa, mas eles disseram que eu havia tirado-a de dentro do rio! Num lapso ela lembrou de mim, e pediu para me ver. Quando entrei no quarto, ela sorriu e disse brincando: — esse não é meu marido, por burrice minha...mas deveria ter sido.
Ela se recuperava, com vergonha dos amigos e parentes. Apenas dissemos que foi um acidente, e o traste havia sumido depois de toda a confusão...mas uma dúvida eu sempre tive? Ela acidentou mesmo ou se jogou naquele rio? Apreensivo, eu perguntei isso pra ela e ela me respondeu: você me ama?? Nunca mais pergunte ou duvide disso.... e continua. — Que tal realizar o nosso antigo sonho... viajar para Paris e celebramos que eu sou sua mulher agora??
Esqueci de tudo, e radiante de felicidade, providenciei tudo! Finalmente estávamos em Paris, caminhando no lado direito do Sena, num corredor de árvores com uma roda gigante iluminada ao fundo, ela me dizia: — me leve a um café e peça aqueles pratos estranhos que só você gosta e me convence a acompanhar.... atendi seu pedido e sentados como os nativos, ficamos apenas apreciando a comida, o ambiente daquele café, e eu olhava ela com um sorriso de criança! Ela muito perspicaz, me perguntou: — o que foi? Eu respondi enfiando a mão no bolso do sobretudo e tirei um par de alianças e disse: Senhorita Igraine, quer casar comigo ou ficar enquanto durar o amor?? Ela sorriu e brincou e disse: — Aff, demorou!!! Dei um beijo apaixonado e terminanos aquelas horas com vinho. Na volta para o hotel, nos amamos loucamente e nem em um milhão de sonhos poderia imaginar que seria tão bom! Estávamos como crianças na manhã de natal....No outro dia, acordamos e o roteiro seria exaustivo, iríamos ao Louvre. Era meu dia de dizer: — vamos ver sua sabichona, quero aquelas aulas de história da arte e moda que só você me faz aguentar.... ríamos e ficávamos encantados com todo aquele acervo. Depois de horas, convidei-a para comermos algo num bistrô parisiense típico... ao entrar, escolhi um local bem discreto e ao fundo, só que o imbecil aqui sentou de costas para a porta do bistrô e ela de frente. No maior papo sobre a arte renascentista, ela ficou muda de repente! Me virei para ver o que ela viu e vijo o traste do ex, abraçado com o tal de Marcelo. Eles ficaram sem graça e sairam rapidamente. Ela se calou, e eu perguntava: — você não superou isso ainda?? Ela me respondeu: — meu Amor, você me tirou daquele rio, sempre me amou e me esperou! Nem pense mais em besteiras, mas ficou estranha. Fomos para o hotel, fizemos amor loucamente! Me exauri e caí num sono profundo, mas ela não. Acordei com o recepcionista gritando ao telefone me pedindo para descer urgente! Procurei por Igraine e nada, quando cheguei ao saguão do hotel, vi polícia, paramédicos e fiquei muito assustado! Eles me levaram a uma maca com aquele maldito cobertor metalizado. Ela havia entrado sorrateiramente na piscina do hotel e se prendeu embaixo da escada, até morrer! Fiquei desnorteado e voltei ao quarto. Encontrei um bilhete dizendo: — Nunca ninguém havia me tratado como você meu amor. Você é um fofo, mas eu preciso acabar o que comecei naquele rio, a dor de ter sido trocada por um homem havia despedaçado minha alma! Você resgatou meu corpo, mas a alma e a vergonha deviam ter ficado naquele rio. Com amor, Igraine. Olhei para a janela do quarto e vi a Torre Eiffel.... uma sensação de inutilidade, de impotência me tomaram por não ter salvo quem me fêz mais feliz nessa mísera existência.....
Fernando Takeo
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