Notas iniciais
Voltei õ/, confesso que pensei que fosse continuar escrevendo depois das atualizações rápidas, mas a minha mente foi bloqueada antes que eu pudesse tentar escrever algo. Mas deu um surto de ideias hoje e eu aproveitei, acho que aproveitei até demais, porque fiz o maior capítulo da fic '-' Bem, o capítulo anterior terminou bem dramático e misterioso... E o nome desse cap. combina bem com as situações que ocorrerão neste. Espero que gostem. Boa Leitura.

Elesis ON

Não deixei de olhá-la por um segundo sequer. Arme era minuciosa e analisava minhas reações, eu precisava me controlar para não acabar tendo uma briga ali no corredor do hospital em frente ao quarto de Ronan.

Arme deu um meio sorriso, o que fez minhas veias pulsarem de raiva pela provocação consciente dela.

–Diga logo! Não tenho o dia todo, aliás, eu preciso ver o Ronan. Se isso for um jeito de me prender aqui fora, eu não irei escutar o que você tem a dizer.

–Não, Elesis. Eu deixarei você ver o meu amigo. – Arme parecia ter a carta perfeita em suas mãos para me fazer desistir de algo, eu só não sabia o quê.

Cruzei os braços e fechei o semblante, demonstrando minha insatisfação e impaciência. Ela continuou em silêncio e aquilo me deixou com os nervos a flor da pele. Não estava mais aguentando participar do joguinho daquela insuportável.

Tomei uma decisão: Desfiz o braço e me virei em direção à porta. Levei minha mão até a maçaneta e, quando fui, finalmente, abri-la, Arme interviu com suas palavras.

–O primeiro beijo do Ronan foi meu.

Eu parei. Literalmente. Não movia um músculo. Não piscava os olhos, minha visão era a porta, mas eu não conseguia vê-la. Minha boca ficou aberta sem que palavras saíssem.

–O que foi, Elesis?

Permaneci inerte e sem dizer nada.

–Acho que te superei, não foi?

Eu precisava ver como Arme estava, eu precisava olhar aquela cínica. Juntei meu braço ao corpo e virei-me em sua direção.

–Não. – Mantive-me séria – Você não me superou, porque o Ronan não é nenhum tipo de prêmio em que precisamos disputar e superar uma a outra.

Arme, que estava sorrindo, ficou um tanto intrigada com o que eu disse, tanto que ela estava surpresa e abespinhada.

–Em todo caso, – Ela pigarreou um pouco, tentando voltar a ter superioridade sobre mim – dessa vez você não foi a primeira na vida do Ronan.

–Você beijou mesmo o Ronan? – Fugi um pouco do assunto, mas eu precisava fazer essa pergunta.

–E por que você acha que eu o beijei e não ele quem me beijou?

–Eu conheço muito bem o Ronan, ele não te beijaria.

–E por que não?! – Arme estava alterando a voz.

–Porque ele não te ama.

Senti que minhas palavras machucaram Arme, mas ela estava se iludindo muito e alguém precisava acordá-la disso, sorte a minha ter o prazer de fazer isso.

–Mesmo por um bom tempo separados, eu sei que o Ronan não beijaria uma amiga como você só por beijar, teria que ter um motivo.

–Como assim?! – Arme estava ficando com os olhos inundados de lágrimas, mas não estava prestes a chorar.

–Arme, eu e Ronan voltamos a ser amigos, se nesse tempo você e ele se beijaram, ele me contaria. Se ele não contou, não fora tão importante assim para ele.

Eu não media as minhas palavras. Se era para atingir, que fosse como um raio em um corpo condutor. Arme estava sentindo a dor que eu senti quando ouvi o que ela dissera para mim na primeira vez que nos encontramos.

FLASHBACK ON

O que essa Arme insuportável disse só poderia ser mentira. “Amiguinha que o ignorou”? Fala sério! Isso não é verdade, não poderia ser. Ronan não falaria isso...

Ouvi a porta se fechando e a baixinha carregando uns livros abraçados com ela.

–Ainda está aqui? – Perguntou ela, como se mandasse na rua.

–Sim. – Respondi friamente.

–Elesis, o Ronan não voltará tão cedo, a mãe dele disse que ele foi espairecer um pouco a cabeça. Ele não estava se sentindo bem aqui perto de certas pessoas.

Cada palavra de Arme veio como fagulhas em minha direção. Ela mandou uma indireta.Tive de ouvir tudo calada. O ódio estava transbordando em meus olhos em forma líquida, pronto para escorrer em minha face, mas eu não permiti. Fechei meu semblante. As lágrimas tiveram medo da minha expressão e retornaram para dentro de mim, juntando-se com todo o sofrimento que eu havia acumulado, voltando para todas as lágrimas não derramadas.

–Você irá se encontrar com ele? – Engoli meu orgulho e perguntei.

–... – Ela virou o rosto em direção oposta a minha – Não.

Ela mentiu! Eu tinha certeza... Ela... Não poderia estar dizendo a verdade... Não poderia!

–Esqueça o Ronan, será melhor para você e melhor para ele. – Dito isso, Arme foi embora, havia um táxi a esperando.”

FLASHBACK OFF

Você não sabe de nada! – Arme tirou-me das minhas lembranças.

–Ah! Pode ter certeza que eu sei mais do que você. Ou vai dizer que o Ronan quem a beijou? – Perguntei ironicamente.

Arme parecia ter perdido a fala e mexia muito com as mãos.

–Arme, essa briga não tem cabimento. Pare de implicar comigo. Aceite logo que eu apareci na vida do Ronan primeiro e que isso não é uma disputa.

–Por que você quer tanto ficar com o Ronan? – Arme não se conteve e deixou as lágrimas rolarem em seu rosto – Você já tem o Lass!

Comecei a discordar do pensamento dela, balançando a cabeça negativamente.

–O que você está pensando de mim? Que eu quero ter os dois? O Ronan é o meu melhor amigo.

–Então você não o ama? – Arme limpou seu rosto.

Aquela pergunta já tinha a resposta formada há tempos, mas eu não consegui dizer. Fechei os olhos e respirei fundo.

–Entenda uma coisa: Você e eu somos diferentes em vários pontos, mas temos uma coisa em comum.

Arme virou o rosto, acho que ela havia compreendido bem o que eu quis dizer com a minha resposta.

–Saiba também que você não foi a primeira a beijá-lo. – Decidi contar logo, para encerrar de vez com aquela conversa.

A baixinha me olhou com espanto, seus olhos chegavam a brilhar intensamente com a lágrima cristalina presente em seus olhos.

–Só não me diz que…

–Eu tinha dez anos quando aconteceu. Fomos tão inocentes e bobinhos que nem sabíamos direito o que estava acontecendo.

Arme levou as mãos até a boca.

–Estávamos na escola, num dia festivo, não lembro exatamente qual era a festa. – Uma enfermeira passou por nós duas e pareceu pensativa por ver duas adolescente “conversando" no corredor de um hospital. Assim que ela se distanciou, continuei – Eu e Ronan iríamos tirar uma foto perto de um mural, a minha mãe pediu que ele me beijasse na bochecha, mas eu havia entendido que era para eu beijá-lo. Quando Ronan se virou para realizar o pedido da minha mãe, eu virei no mesmo tempo e nos beijamos. Sei que foi só um selinho e para nós, que éramos crianças, foi algo bem engraçado, mas deu para presenciar vários sentimentos depois daquele beijo acidental.

Arme estava vermelha, seus olhos inchados, sua face úmida assim como suas mãos.

–Acho que não preciso contar mais nada, não é?

Ela negou com a cabeça.

–Eu não sou possessiva e nem quero que você pense isso, mas não tente querer se mostrar mais amiga do Ronan que eu, porque o que vivemos juntos não se perde na memória nem com milhares de anos.

–Bem, — Arme enxugou o rosto e sua voz estava um pouco grossa, como se o nariz dela estivesse entupido – então entre por essa porta e tente fazer com que o Ronan não se esqueça mesmo. Mas saiba que eu não concordo com isso, pois só eu sei o que o Ronan passou nesse hospital e isso, Elesis, você nunca saberá.

Abaixei o rosto.

–Infelizmente não. – Concordei.

–Uma vez eu teria que te vencer, não acha? Eu teria que participar mais da vida do Ronan que você em algum momento de nossa amizade. E, antes que você entre, pense muito bem o que fará, pois Ronan não queria que você soubesse o que ele tinha, não será agora que ele irá mudar de opinião.

Arme se virou e andou a passos rápidos pelo corredor, deixando-me sozinha, refletindo sobre o que ela me disse.

–Eu preciso arriscar… — Deixei as palavras soltas no ar e me virei para a porta. Abrindo-a.

Elesis OFF

Ronan ON

Eu não entendia o motivo, mas meu coração estava acelerado e minhas mãos suavam. Eu estava no quarto sozinho, podendo a qualquer momento ter um lapso e esquecer de tudo. Minha vida não estava sendo uma das melhores e eu estava em cima de uma cama no mais tedioso tédio de todos os tempos. Tendo comigo apenas uma amiga: a dor.

Mas tudo isso passou – e piorou – quando a porta foi aberta. A tempestade que se encontrava dentro de mim deu espaço para brechas do céu azul em meio a tantas nuvens carregadas.

Um sorriso surgiu em meu rosto; porém, durou pouco, pois um descontentamento se tornou visível em meu semblante segundos depois.

Agora eu sabia o motivo de o meu coração não se inquietar.

–Oi. – Elesis se pronunciou, adentrou o quarto e deixou a porta aberta.

Eu queria levantar e abraçá-la, envolvê-la em meus braços, ou simplesmente olhá-la como quem admira um herói salvando o dia. Mas uma parte de mim, que me dominava, não gostou de sua presença e perguntou à ela, da forma mais grotesca possível:

–O que você está fazendo aqui?! – Sentei-me na cama e a encarei.

A outra parte de mim, que queria Elesis por perto mais do que tudo, tentava lutar o máximo possível para não me deixar reagir daquela forma novamente.

–Ronan, eu…

–Quem te contou que eu estava aqui, hein?! Não era para você saber! – Minha raiva era tanta que eu queria levantar da cama e arrastar Elesis para fora do quarto.

–Ronan! Para com isso! Eu sou sua amiga, eu preciso estar com você no momento que você mais precisa. Você nem deveria ter escondido isso de mim!

–Eu não precisei de você quando eu sofri o acidente, não será agora que precisarei! Então, — Meu corpo tremulou de leve, ele estava consciente do que eu diria e foi uma forma de me impedir de fazer, mas fracassou – saia do meu quarto!

Elesis estava firme em se manter ali, não se moveu nem um centímetro.

–Não pense que me expulsará daqui facilmente!

–Sai daqui! – Apontei para a porta e fiquei encarando-a.

Mentalmente eu torcia para que a batalha entre meus sentimentos terminasse, e a parte de mim que não queria que eu agisse daquela maneira vencesse. Mas parecia que essa parte estava sendo massacrada pelo ódio.

–Ronan, eu sei que é difícil para você e…

–Você não sabe de nada, Elesis. Você não estava aqui quando tudo isso aconteceu!

–Para de gritar comigo! – Ela deu dois passos para frente, se aproximando um pouco da cama.

–Então saia daqui e esqueça de mim, pois não tardará muito para eu esquecer de você.

Fechei os olhos. Senti meu coração se acalmar de uma forma como eu nunca imaginei que fosse acontecer enquanto Elesis estivesse no quarto. Ao abrir os olhos, vi que ela estava ao meu lado. Sua mão envolveu a minha e ela me olhava com serenidade.

–Você não vai se esquecer de mim. Eu não deixarei.

–Dessa vez sua autoridade sobre mim não surtirá efeito.

Eu falei sério, mas Elesis deixou escapar um riso. Recuei minha mão para cima de meu abdome, tirando-a debaixo da mão de Elesis. Se eu pudesse me afastar dela, faria o máximo para ter sucesso nisso.

Elesis, teimosa como sempre, pegou novamente a minha mão e a segurou com força.

–Você não cansa de lutar contra o destino? – Perguntei.

–E por que eu lutaria contra ele?

–Porque ele tenta nos separar e você parece não se importar com isso. Quero dizer, eu te mandei embora do meu quarto e você está segurando a minha mão, sem contar com tudo o que nos aconteceu até agora. Isso não faz sentido. Era para você querer distância de mim…

–Eu não desisto fácil, Ronan. Você ainda não percebeu isso, nesses anos todos de amizade?

Fiquei em silêncio, eu conhecia bem aquela ruiva, mas eu não a queria perto de mim naquele momento. Na verdade, parte de mim não queria, pois a batalha ainda acontecia.

–Ronan, não deixe que o seu orgulho nos afaste de novo.

Voltei a olhá-la e, fazendo força, arranquei minha mão da dela e cruzei os braços.

–Por acaso foi com o MEU ORGULHO que nos afastamos?!

Elesis deu um passo para trás, não esperando pelo meu ato.

–Se você quer falar alto, OK! EU FALO! EU ADMITO QUE A CULPA FOI MINHA! SATISFEITO?!

Engoli em seco. Eu sentia que a qualquer momento eu iria apanhar da Elesis, mesmo no meu estado.

–Eu não quero falar do passado. – Disse – Não tenho mais motivos para pensar nele.

–Você quer que eu saia mesmo daqui?

–Quero.

Elesis caminhou até a porta.

–Se eu for, Ronan, eu não volto mais.

–Eu nunca quis que você viesse aqui.

Sério, eu queria me socar depois dessa. Eu estava com um ódio que não era meu. Acho que tudo o que havia acontecido (o nosso afastamento, nosso reencontro, as várias brigas que eu tive com a Arme, o agravamento do meu traumatismo, escola, o fato de eu não poder mais ir à festa da Elesis), foi sendo acumulado e estou jogando fora de uma vez só que, infelizmente, estou acertando a pessoa que mais amo.

Depois dessa, nem mil desculpas faria Elesis olhar para mim novamente. Elesis ficou de costas para mim.

–Você é um completo idiota! – Ela se virou, com os olhos marejados, com os lábios mais vermelhos que o normal, assim como seu rosto – Como você tem coragem de dispensar a minha ajuda!? Você sabe como eu… — A primeira lágrima escorreu e Elesis a enxugou o mais rápido possível – Você não imagina como eu me senti ao saber que você estava assim! Eu queria tanto estar no seu lugar agora, porque… — Outra, mas Elesis não limpou o rosto – Já sofremos tanto, que isso é injusto com você. Ronan, eu não tive culpa por você estar aqui, mas tenho culpa por não estar com você. Não me trate rudemente, porque eu sei que você não é assim, você só está com medo, mas… Quem não estaria?!

Elesis estava argumentando de todas as formas possíveis e parecia que isso afetava a batalha interna que estava tendo em mim. Além disso, ela estava mais paciente comigo, como se já soubesse que eu reagiria repulsivamente com a presença dela aqui no Hospital.

–Deixe-me recuperar o tempo perdido, permita que eu fique aqui com você, como a Arme ficou. Ela te fez lembrar, deixe-me te ajudar a não esquecer. – Ela ficou em silêncio e passou a mão em seu rosto – Então… Você quer mesmo que eu vá?

Eu queria muito responder que não, eu queria que ela ignorasse tudo o que eu disse e ficasse comigo. Mas eu estava cedendo ao ódio que eu tinha da minha vida. Olhei para ela, lutando muito para fazer isso, pois, se dependesse do meu eu-dominador (o ódio), eu nem a olharia sequer uma vez.

Elesis aguardava pela resposta, pacientemente. O que me fez ficar surpreso. Desvencilhei os olhos para a porta aberta e, consequentemente, para a vista do corredor. Vi uma pessoa conhecida numa cadeira de rodas sendo empurrado por um dos enfermeiros do Hospital.

Assim que olhei para a pessoa, ela também olhou para mim e sorriu. Até aqui no Hospital esse maluco me persegue…, pensei, fugindo um pouco do que estava acontecendo ali.

Elesis percebeu que eu focava em outro ponto e olhou para trás, avistando o professor de Geografia.

O enfermeiro continuou a empurrá-lo, mas ele forçou a roda para permanecer parado. Falou alguma coisa com ele, mas não deu para ouvir e, com isso, o enfermeiro virou a cadeira de rodas em direção ao meu quarto.

–Saiba que o senhor não deveria estar fora do seu quarto. – O enfermeiro parecia brigar com o meu professor e eu, assim como Elesis, não entendia nada.

–Eu vou morrer, meu filho, então me deixe vagar por lugares menos desagradáveis, porque, convenhamos, não é agradável ficar naquele quarto tedioso. – Ele falou como um murmuro, mas deu para ouvir, afinal, ele já estava dentro do meu quarto.

Com certeza o que ele estava falando era palhaçada. Mas uma coisa estava me deixando com uma enorme dúvida e Elesis fez o favor de tirá-la por mim.

–O que o senhor faz aqui? – Ela indagou.

O professor riu. Ele começou a manusear as rodas, vindo em direção a minha cama.

–Ruiva, peço que sente-se em algum lugar, pois o que contarei para este jovem de cabelos azuis irá tomar-lhe o tempo. – Ele olhou para mim e eu não estava entendendo nada – Pensei que a cor do cabelo da sua amiga fosse lilás.

O comentário inocente; porém, venenoso, do professor, fez com que eu e Elesis trocássemos olhares incômodos um com o outro.

Ele tossiu um pouco, talvez porque tinha percebido que tinha falado besteira. O professor de Geografia olhou para trás e viu que seu enfermeiro continuava na porta.

–Feche-a, quando eu terminar de falar com o meu aluno, te chamarei.

Eu não sabia que esse cara era tão autoritário e debochado.

–Enfermeiro, pode levá-lo daqui, acho que só posso receber uma visita. – Comentei, mostrando minha insatisfação de tê-lo ali no meu quarto. Eu já não queria a Elesis.

–Posso falar logo o que vim fazer aqui, ou você vai ficar reclamando aí que nem menininha?

Mais uma vez tive vontade de levantar da cama e arrastar alguém para fora do meu quarto.

O professor gesticulou com a mão, mandando o enfermeiro sair. Ele bufou pela ordem recebida e saiu, fechando a porta.

Elesis estava em silêncio, esperando pela minha resposta e pelo o que o professor iria falar.

–Já não bastava a Elesis descobrir tudo, agora você vai ficar tirando sarro da minha cara aqui no hospital, é isso?

Ele abaixou o rosto e apertou as mãos.

–Ronan, — Fiquei surpreso por ele ter me chamado pelo nome – eu já sabia que você estava aqui, por coincidência eu… Bem, eu tive que vir para cá.

Elesis assentia positivamente a cabeça como se soubesse do que o professor estava falando. Desviei meus olhos dela para ele.

–Eu acho que já vi o senhor neste hospital.

–Não ache, tenha certeza. Eu também o vi adentrando o carro de seu pai.

–Você o conhece? – Perguntei.

–Sim, assim como a sua mãe.

Atentei-me mais na conversa. Eu não sabia onde o professor queria chegar, mas ele iria me revelar algo, não sei, mas eu sentia isso.

–O que o senhor tem para estar aqui? – Indagou Elesis – O senhor passou mal na sala de aula.

–Bem… — Começou ele – Ronan, quero que preste bastante atenção no que eu irei te contar, pois responderá todas as suas perguntas, inclusive a de Elesis. – O professor apoiou suas mãos na beirada da minha cama e manteve o olhar fixo para baixo – Há mais ou menos um ano, a minha mulher perdeu a mãe dela num acidente, foi um choque muito grande para toda a família, porque foi repentino. Depois de uma semana e meia após a morte, eu estava me sentindo muito mal, não comia, me sentia cansado sempre, tinha dores nos ossos frequentemente, ficava com febre, tinha sangramento nasal… Enfim, não estava bem e decidi procurar um médico, por indicação de uma amiga de trabalho, conhecida como a diretora de vocês.

O professor pausou brevemente e olhou para mim, eu não estava entendendo bulhufas e o achava mais maluco que o normal. Tipo, ele entrou no meu quarto para contar da vida dele… Parei de conversar comigo mesmo e prestei atenção nele para ver se ele falava algo relacionado às minhas dúvidas.

–Eu marquei uma consulta médica e fui, fiz alguns exames sem minha mulher saber, mas ela percebia tudo o que acontece a sua volta e percebeu que eu não estava bem, contei à ela que não queria falar nada, para não preocupá-la, afinal, ela estava se recuperando de uma perda. Mas ela insistiu em me acompanhar para saber o que eu tinha. Quando saiu o resultado do exame eu não queria avisá-la que estava indo buscar, mas ela soube mesmo assim, pois ligaram para a minha casa avisando que o Hemograma que eu havia feito estava pronto e minha esposa havia atendido o telefone. Fomos para a clínica e eu recebi a notícia: Estava com Leucemia Aguda, ou seja, estava perdendo as defesas do meu corpo, na verdade, leucemia envolve muitas complicações sanguíneas.

Eu esperava por qualquer coisa, menos isso que o professor de Geografia acabou de contar. Fiquei completamente surpreso, deu um frio na barriga e, pela reação de Elesis, ela estava tão espantada quanto eu. Agora eu entendo quando ele me disse que sabia o que eu estava passando…

Com certeza ele começou a se tratar neste Hospital e me viu quando dei entrada aqui, ao sofrer o acidente..., deduzi em pensamentos.

O professor passou a mão por debaixo dos olhos, que estavam com resquícios de lágrimas. Eu não o interrompi, apenas esperei que continuasse. Elesis havia sentado um pouco distante, mas aproximou mais a cadeira da minha cama, sem eu perceber, só fui ver quando ela já estava quase ao meu lado.

–Eu não fiquei desesperado por mim, eu me preocupei imediatamente com a minha esposa. Ela começou a chorar no consultório, falando que não aguentaria mais perder ninguém. Eu e o médico tentamos acalmá-la, dizendo que eu iria me tratar para amenizar o meu estado e me fazer ter mais tempo de vida. Quando voltamos para casa, ela não dizia nada, fiquei com medo que ela pudesse entrar em depressão, mas o que aconteceu foi bem pior.

A história do professor estava se tornando mais comovente a cada palavra que ele dizia. O ódio que me dominava deu espaço para uma fortificação interior, para que eu pudesse consolar o professor assim que ele precisasse, o que estava prestes a acontecer.

–No dia seguinte, eu vim nesse Hospital para ver sobre o meu processo de tratamento, mas minha mulher não veio comigo, ela havia saído cedo de casa, pensei que havia ido trabalhar, mas não foi… — O professor passou o braço por cima dos olhos, para enxugá-los antes que as lágrimas tomassem o seu rosto – Quando eu saí do Hospital, recebi uma ligação desesperada da irmã dela, que a minha esposa estava tentando se matar e que ela havia desaparecido, foi isso que eu entendi na hora, a irmã dela estava tão aflita, que nem sabia exatamente o que falava, mas a minha esposa havia mesmo sumido naquele dia, ninguém sabia onde ela estava. Eu comecei a procurá-la. Rodei o quarteirão da nossa casa todo, o nosso carro estava com ela, eu não tinha muita disposição para passar a noite toda andando pelas ruas da cidade. Já estava anoitecendo e eu recebi uma ligação e era o meu cunhado, avisando que haviam a encontrado, na verdade, avistaram-na e ele disse que estava se dirigindo para o local onde a viram. Eu peguei um táxi e fui me encontrar com os irmãos da minha esposa e, ao chegar no local, percebi que era um bar, desci do carro e fui até eles, tanto o irmão como a irmã dela pareciam aflitos. Eu perguntei o que havia acontecido e eles contaram que, ao chegarem, ela correu até o carro e arrancou com ele, saiu ultrapassando todos os sinais e eles não sabiam para onde ela poderia ter ido.

Eu comecei a ouvir a voz da minha mãe me gritar, como no dia do acidente. Aquilo era angustiante, balancei a cabeça afastando aquilo e foquei novamente no professor.

–Foi tudo tão rápido, eu nem sabia ao certo o que estava fazendo, eu só queria encontrá-la. Eu entendia o lado dela, era difícil perder alguém que ama e, logo depois, descobrir que poderia perder outra pessoa de novo.

Olhei imediatamente para Elesis, ela não conseguiu suportar e estava chorando silenciosamente, mas… Quem conseguiria ser forte depois de ouvir o que o professor disse e tendo passado por algo semelhante?

Tentei alcançar, com a minha mão, as mãos dela, mas não consegui. Então me contive em apenas olhá-la.

Depois voltei a olhar para o professor e ele prosseguiu, já não aguentando segurar a emoção.

–Eu corri para dentro do carro... — Ele suspirou pesadamente — e pedi para o taxista ir para uma praça, a Praça 7 de Setembro. Minha mulher amava aquela praça como amava a mim.

Dei um suspiro surpreso, pois essa praça era depois da rua da minha casa. Meu peito estava apertado, eu sentia calafrios.

–Pedi para o motorista ultrapassar todos os sinais, eu não poderia perder tempo. – Continuou ele – Quando eu estava próximo à praça, vi um carro parado no sinal aberto e percebi que era o meu pela placa. Tinha ambulância e viatura da polícia no local, pessoas curiosas para ver o que havia acontecido. Eu desci do táxi e corri até onde estava o carro. Alguns policiais vieram me parar, então eu disse que o carro era meu e que minha mulher estava nele, um dos policiais perguntaram o nome dela e, quando eu disse, os dois se olharam e chamaram um enfermeiro que estava junto de outros colocando uma pessoa na maca e levando para a ambulância, só deu para perceber que era um garoto, pois a mãe falava toda hora “Meu filho, salvem o meu filho!”, eu tentei ver se tinha mais alguém ferido, mas só avistei o menino de cabelo azul.

Notas finais
Até o próximo capítulo '-'