Em Meio À Guerra
2 Seis Amigos e O Desconhecido
Notas iniciais
POV Autora
Respirando com certa dificuldade, Magnus olha à sua volta, observando a falta de movimento em Londres. Para a infelicidade geral, chovia. Grossas gotas de chuva caíam ao redor deles e os encharcava, deixando-os também com frio. A chuva era tanta que era difícil de enxergar, somente o céu escurecido sendo iluminado por ocasionais relâmpagos. Naquele momento, foi iluminado por um forte relâmpago, seguido de perto por um trovão que parecia fazer o mundo tremer. O vento balançava tudo ao redor deles e curvava árvores próximas. Já não bastava a travessia corrida pelo portal, a perseguição e a segunda corrida para fechar o portal novamente, eles tinham agora de aguentar aquela tempestade. Dia perfeito para se perseguir um ser maléfico que queria a destruição de todos eles.
– Nós vamos ficar na chuva por muito tempo? Deu um pouco de frio –queixou-se Clary, tentando enxergar os amigos.
– Eu espero que tenhamos chegado ao lugar certo. Se nós viemos onde eu penso que viemos, podemos achar alguma ajuda e ter um teto sobre nossas cabeças somente dando alguns passos. Sigam minha luz –disse Magnus, fazendo algumas esferas de luz com as mãos; e então uma pequena trilha luminosa que se perdia em meio à escuridão e à chuva.
– Se não estivesse chovendo tanto, isso daria uma boa piada –Simon comentou, correndo na direção do caminho de luz.
– Como se isso te incomodasse, você não sente frio –Alec fala desgostoso enquanto corria ao lado de Magnus.
– Você anda bem comediante ultimamente, não? –Jace comenta de algum lugar à esquerda de Simon, sarcástico.
– Muito Gintama –Clary comenta à frente de Simon.
– Gin-quê? –Jace questiona confuso.
– Um desenho, esquece.
– É anime –Simon retruca brincando.
– Eu já disse que dá na mesma –Clary responde mal-humorada.
– Entre os fãs não dá.
– Crianças têm que se comportar para ganhar doces, e não ficarem brigando por qualquer assunto nerd que resolvam discutir –Magnus comenta sarcástico logo atrás de Jace. Os dois resolvem calar a boca e correr. Antes que qualquer um tentasse dizer algo mais, Isabelle, que era quem liderava o grupo, para abruptamente, fazendo Clary e Simon, que vinham logo atrás, baterem em suas costas. Por pouco a força do impacto não fez com que a garota desse de cara com as grades de ferro à sua frente. Outro relâmpago ilumina o céu e por poucos instantes é possível ver as grades do portão enorme que havia em sua frente. Jace, Magnus e Alec, que eram os últimos, param de correr, e as esferas de luz que haviam sido deixadas para trás se juntam num grande círculo luminoso acima do portão. O arco acima do portão tinha algumas letras gravadas. Apertando os olhos, tentando enxergar através da chuva irritantemente contínua, Clary olha com certa dificuldade para as palavras gravadas ali.
– Pulvis et umbra sumus?
– Somos pó e sombras –Jace, Alec, Isabelle e Magnus esclareceram simultaneamente.
– Horácio. Inteligente. Agora, estamos no Instituto de Londres por quê, exatamente? –Jace completa.
– É o Instituto que eu conheço mais próximo de lá. Aposto que não seríamos muito bem-vindos no de Berlim.
– Sim, certo. Mas agora... e aquelas suásticas lá atrás? Pensei que fossem um símbolo praticamente, senão é, proibido.
– Eu não sei se é uma boa ideia tentarmos entender isto agora, mas aparentemente estamos na época que fez aquilo ser proibido –Magnus comenta desconfortável.
– Eu não sei se tem algum problema entrarmos ou não, mas eu acho que podemos pensar melhor sem todo o barulho dessa tempestade, sabem –Clary comenta se encolhendo um pouco.
Magnus por um momento olha para um ponto logo à frente do portão, com um certo ar de desculpas. Sem deixar qualquer som sair de sua boca, ele parece dizer “não causaremos problemas”. Jace encara aquele mesmo ponto com leve mal humor, e cochicha algo para Magnus.
– Não, não vai. Acho que podemos entrar –Magnus fala, e Isabelle sem dizer nada abre o portão, que faz um pouco de barulho; provavelmente devido à ferrugem.
Eles dão alguns passos e Clary só não tropeça nos degraus que aparecem à sua frente devido à esfera de luz que cresceu um pouco mais a cada pequena esfera que se juntava à ela. Logo eles se encontravam encarando duas portas grandes, de aparência velha e pesada.
– Eu deixo agora à critério de vocês. Podemos invadir; ou tocar a campainha e esperar. A porta abre àqueles que têm Sangue Angelical em suas veias.
– Não seria mais educado tocar a campainha? Além do mais, se invadirmos, podemos ser considerados intrusos –Clary pergunta se encolhendo em direção à Jace, que a abraça.
– Talvez, mas simples intrusos não conseguem abrir esta porta –Alec pondera.
– Não conseguem abrir a porta, talvez. Mas, se me lembro bem, Alemanha e Londres estavam em lados diferentes durante a Guerra; podemos ser atacados antes de dizermos sequer “oi”.
Isabelle, que continuava estranhamente em silêncio, toca a campainha, encerrando a pequena discussão por causa do som. O som alto que reverbera pelo Instituto dá um pequeno susto nos cinco, que não prestavam muita atenção ao que Isabelle estava fazendo.
– Izzy, você está bem? –Jace pergunta franzindo o rosto para a irmã de criação.
– Claro –ela responde levemente alegre.
– Com licença, mas quem são vocês? –Um homem alto, parecido com Jace, porém de cabelos pretos, segurando um bebê, pergunta. Ao notar Magnus ele parece um pouco surpreso. –Magnus –fala com certo respeito, cumprimentando-o com a cabeça.
– Olá, James –Magnus responde com um leve sorriso.
– Pensei que você estivesse com minha mãe em Paris...
– Com todo o respeito, acho melhor discutirmos isto com calma e de preferência em algum local aquecido.
– Claro, perdão –o homem responde, abrindo espaço para passarem. O bebê que ele segurava olha curiosamente para eles enquanto mastiga um bolinho. Seu olhar os segue enquanto entram no Instituto e sobem dois lances de escadas após passarem por um longo corredor, iluminado por pedras enfeitiçadas.
Após as escadas, eles seguem por outro longo corredor; enfim parando em frente à outra grande porta, esta que é aberta com facilidade por James, com sua mão livre. Um garotinho vem correndo na direção da porta, parecendo curioso com os visitantes. Ele para a poucos metros de todos, semiescondido atrás de uma cadeira onde sentava-se uma mulher muito bonita, de olhos e cabelos escuros. Uma mulher que parecia ter a mesma idade de James olha-os com espanto e sai rapidamente do cômodo, que após uma breve olhada é facilmente identificável como uma biblioteca.
Ela não é a única que os olha com espanto. Um homem se dirige até onde James estava e pega o bebê de seu colo. Num sofá próximo à lareira estavam uma senhora de idade e outras duas que conversavam entre si, que se calam; e na mesa, próximo às janelas altas, estavam um casal, um homem e o menininho -que parecia decidir se ficava escondido atrás da mulher, provavelmente sua mãe, ou se ia até eles- que param de ler o que quer que estivessem pesquisando e olham para eles com curiosidade. A mulher que havia saído da sala volta com algumas toalhas, e vem seguida de uma moça, que possivelmente era a empregada, carregando algumas roupas.
– Troquem-se nos quartos aqui perto, antes de tentarem nos explicar o que estão fazendo aqui –a mulher sugere com um tom gentil e um sorriso acolhedor.
Magnus diz para os outros irem, pois secaria sua própria roupa com magia.
Quando Jace, o primeiro a terminar de se trocar, volta à biblioteca, Magnus falava sobre como eles haviam chegado ali; quando terminou, o homem de cabelos pretos e olhos dourados pareceu ao mesmo tempo estar curioso e duvidando da história.
– Então, você é como uma versão do futuro do Magnus que conhecemos? “Você” está agora em Paris com minha mãe ao mesmo tempo que está aqui conosco?
– Basicamente sim, para as duas coisas –responde ele enquanto Isabelle e Clary entravam no cômodo.
– E como vocês pretendem voltar para o seu tempo, Magnus? –a senhora de idade se pronuncia, com a fala surpreendentemente clara para alguém que aparentava ter seus oitenta anos.
– Por mais estranho que pareça, vou tentar entrar em contato comigo mesmo e me chamar para cá. Tenho alguns livros que quero consultar sobre o assunto, e algumas anotações sobre os portais que perdi após alguns anos. Talvez eu lembre a mim mesmo de nunca sair com elas para a Austrália.
Ambos grupos olhavam com curiosidade para ele.
– Como pretende se contatar? –um dos homens que estava ao redor da mesa pergunta. Alec e Simon finalmente entram no cômodo, fazendo com que Magnus desvie o rumo da conversa repentinamente.
– De qualquer modo, eu conheço vocês e vice-versa, mas não posso dizer o mesmo para meus amigos aqui. Este garoto alto e loiro é Jace Herondale; ao seu lado estão Clary Fairchild e Alec Lightwood; ao lado de Alec, a moça alta e morena é Isabelle Lightwood, e ao lado dela, Simon Lewis.
Todos murmuram um “prazer em conhece-los” antes que os outros se pronunciassem.
A senhora sentada no sofá se apresenta como Cecily Lightwood, e diz que ao lado dela estavam Lidia Herondale, e na outra ponta do sofá, Lucie Blackthorn. O homem de costas para a janela diz ser Alexander Lightwood, e em sua frente estavam Isidore, Catia e o pequeno Andrew Lightwood. O homem que pegara o bebê dos braços de James se apresenta como Owen Herondale e diz que o garotinho se chamava Marcus. Por fim, James se apresenta e diz que a mulher ao seu lado, que buscara as toalhas, é Cordelia Herondale, sua esposa.
Jace parece se assustar com algo, mas não fala para os outros quatro o que era. Magnus fica em silêncio, sabendo exatamente do que se tratava. Ao lado de James, em pé, uma fantasma os encarava. Jace se surpreendeu quando ela apareceu repentinamente, e ficou mais surpreso ainda ao notar que James, Cecily, Owen e até mesmo o pequeno Marcus também olhavam para ela. Ela diz algo baixo, que somente James e Owen ouvem, e torna a desaparecer. Magnus sente uma pontada de tristeza ao pensar na pobre menina Lovalace, que tinha existência agora dedicada à proteção do Instituto.
– Interessante saber que temos aqui um vampiro capaz de permanecer dentro do Instituto sem, sabem, queimar até a morte –James ironiza, olhando para Simon.
– Sou judeu –o Diurno responde, como se isto fosse explicar tudo para os outros.
– Eu não sairia espalhando esta informação por aí, se fosse você –Alexander comenta, se espreguiçando em frente à janela e pegando um bolinho.
– Tenho de concordar que não é uma boa ideia – Simon responde dando um sorrisinho.
– Esta marca na sua testa é mesmo a marca de Caim? – James questiona se encaminhando para a cabeceira da mesa. –Acho que vocês gostariam de sentar-se –ele completa, fazendo um sinal em direção às cadeiras vazias ao redor da mesa.
– Sim, é ela –Simon replica, seguindo Magnus em direção às cadeiras que haviam sido apontadas. Isabelle pega um lugar próximo à Catia e Andrew, que olha com curiosidade para a garota e sorri para ela. Ele cochicha um pouco alto demais para sua mãe um “ela é bonita”, que deixa suas bochechas avermelhadas e faz Isabelle sorrir para ele também.
Eles começam a discutir vários assuntos diferentes, e a questão de como Magnus contataria a si mesmo retorna. Eles ficam sabendo do número crescente de relatos de aparecimento de demônios; a situação da guerra; a divisão em que se encontrava o mundo das Sombras devido a ela; entre outras coisas. A partir de agora, eles tinham muito o que fazer. Reconhecimentos, patrulhas, pesquisas; eles agiriam como se pertencessem àquele tempo até encontrarem uma maneira de voltarem, ajudando nas tarefas e serviços do Instituto. Eles não sabiam o que poderia acontecer. Todos temos uma breve noção do que faremos nos próximos anos; eles, agora, se deparavam com um grande vazio à sua frente. Aquele vazio poderia ser chamado propriamente de vazio, poderia ser denominado como O Desconhecido, ou somente como um abismo, fosse chamado como quisessem, ele era incômodo e possivelmente perigoso; mas era tudo que eles tinham por hora.
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