Em Manhattan.
1 Rua 62.
Notas iniciais
Acordei com o pescoço doendo, definidamente eu não tinha dormido numa posição confortável o suficiente, apesar de ter sido confortável o bastante para mesmo naquele espaço minúsculo de um assento de avião eu dormir. Ainda sonolenta tentando prender meus cabelos desgrenhados em um rabo de cavalo senti um daqueles solavancos que indicam que o avião já está descendo, abri a persiana da janela rapidamente. Quando minha visão fez foco com tanta luz que veio da janela, vi Manhattan a meus pés, seus arranha céus, suas ruas movimentadas, seus taxis amarelos, as pessoas correndo, o cheiro de Pretzel no ar em cada esquina. Ok, eu não vi tudo isso, mas eu imaginei, minha imaginação é bem fértil.
O avião toucou no chão e a mulher que estava ao meu lado e que não tinha dado uma palavra o voo inteiro começou a agradecer a todas as entidades divinas que eu conhecia, e algumas que eu não conhecia também. Achei graça, nessa minha vida de ser de três países ao mesmo tempo nunca pude me dar ao luxo de ter medo de avião.
Desembarquei naquele conhecido aeroporto, duas malas lotadas, sem contar as milhares de caixas que estavam vindo pelo correio. O desembarque parecia mais cheio do que o usual, talvez porque fosse final de agosto, fim de férias. Olhei pelo salão lotado e vi meu pai meio desatento com um papel escrito “Bem vinda à sua nova casa”. Sorri, ele me viu. Logo largou o papel no chão e veio na minha direção. Depois de um abraço demorado de quem não se via pessoalmente há quase um ano ele pegou minhas malas e chamou um táxi. Aparentemente ninguém tem carro em Manhattan.
Quase uma hora depois lá estava eu, Rua 62 entre a 2ª e a 3ª avenida, numero 209 leste, minha antes casa de verão que agora era casa o ano inteiro. Quando o meu pai primeiro comprou esse apartamento eu impliquei. Falei que morar no Upper East Side era coisa de riquinho e que eu estava longe de ser uma Carrie Bradshaw ou uma Blair Waldorf. Mas depois percebi que eu gostava dali, eu estava à beira do Central Park, algumas ruas das Nações Unidas, meu lugar preferido de Manhattan e meu pai estava muito orgulhoso de finalmente poder pagar por um apartamento ali.
Subi as escadas correndo quando soube que ele tinha redecorado meu quarto. Ele não, Helena, a namorada dele que era arquiteta. Abri a porta e levei um susto. Achei que eu estava vendo a foto de um daqueles quartos de revistas. O quarto era todo branco, mas tinha uma parede vermelha ao fundo, minha cor preferida, em cima da escrivaninha tinha um Mapa Mundi com alfinetes verdes em todos os países que eu tinha visitado. Na outra parede os posters dos meus três filmes preferidos: “Adeus Lenin”, “Todos Os Homens do Presidente” e “Peter Pan”. Uma estante completamente vazia esperando pelos meus livros que iriam chegar pelo correio. E em cima da janela que dava pra a escada de incêndio 3 bandeirinhas, uma alemã, uma americana e uma britânica. O quarto gritava Elleonor, ou melhor, Elle.
Corri de volta para sala sem palavras, quando cheguei dei de cara com a Helena e dei-a um abraço apertado. Se eu já achava que ela era uma excelente madrasta, depois de hoje ela pode casar com o meu pai que eu não me importo. Ele surgiu da cozinha, sorriu e disse:
—Você gostou?
—Se eu gostei? Eu amei! – Disse enquanto abraçava ele.
—Bem Elle, nós temos outra surpresa para você. — Disse Helena.
—Mais surpresas? O que? – Disse animada.
Ela tirou da bolsa três ingressos e me entregou.
—TRÊS INGRESSOS PARA O JOGO DE ABERTURA DA NFL? QUE VAI SER EAGLES E GIANTS? É SÉRIO?
Eles riram como se não fosse nada. Mas era muita coisa! Era o primeiro jogo de Futebol Americano na temporada, o meu time contra o time do meu pai.
—Sim, mas você só pode ir se você usar isso aqui! – Disse ele tirando uma camisa azul dos Giants de uma bolsa.
Fechei a cara, meu pai nunca superou o fato de que eu ao escolher um time de futebol americano para torcer eu escolhi o rival do seu time. Mas a culpa não é minha se o capacete deles eram muito mais bonitos.
—Não vou então, você sabe que eu só uso verde meia noite.
— Oh não! – Disse ele sarcástico- Essa é a da Helena, a sua é essa aqui.
Foi quando ele puxou uma camisa verde esmeralda com o número 7, meu numero da sorte. Uma camisa do Eagles novinha para eu usar na estreia da temporada.
Não pensei duas vezes, corri no meu quarto troquei de blusa e já coloquei minha camisa nova. Cheguei na sala e ele meu olhou com aquele olhar que eu já conheço e falamos ao mesmo tempo:
—Ellen’s?
Depois de algumas estações de metrô estávamos lá, os três sentados no meu restaurante preferido, Ellen’s Stardust Diner, onde além de ter o melhor macarrão com queijo do mundo, o melhor Milk Shake de chocolate de Manhattan, os garçons cantam e dançam pelo restaurante. Era o nosso programa típico de primeiro e último dia de férias de verão quando eu vinha passa-las com ele aqui.
Saímos do restaurante e já estava escurecendo, estávamos andando pela Times Square quando olhei para a cabine que vende ingressos para musicais e foi quando eu vi: Ingressos para Wicked com 40% de desconto para a sessão de 20hrs. Saí correndo em direção ao meu pai:
—Por favor! Por favor! Porfavorzinho!
—O que? O que Elleonor, fala!
—Pai, você sabe o quanto eu te amo e o quanto eu amo passar tempo com você.
— Ah não Elle, Wicked de novo não!
—Pai, por favor! Papai! – Disse com voz quase que de choro.
—Elle, você já viu Wicked quantas vezes?
—Oito, mas dizem que nove é o número da sorte.
—Número da sorte do dia que eu vou ter que parar de levar você nisso?
—PAI! Não fala isso!
—Ta bom, mas á última vez que eu te levo, e dessa vez eu estou falando sério!
—Ta bom, prometo que vai ser última vez. – Falei tranquila, afinal ele tinha falado a mesma coisa nos últimos 2 anos.
No final chegamos em casa quase 23hrs, sendo que no meu fuzo horário eram mais ou menos umas 3hrs da manhã. Eu tinha aula no dia seguinte. Eu não sabia o que esperar. Muitas preocupações pairavam a minha cabeça. Se eu ia fazer amigos, se eu iria bem na escola, e outra questão: Faculdade.
Era certo que eu estudaria para ser diplomata, eu tinha decidido aquilo 3 anos antes quando eu participei do meu primeiro Modelo das Nações Unidas. Mas a grande questão era: onde eu faria faculdade? Berlim? Manhattan? Londres?
Se fosse um dia normal eu provavelmente viraria a noite pensando nisso, como já virei algumas vezes, mas depois de uma noite mal dormida e um fuzo horário descompensado tudo o que eu fiz foi me jogar naquela cama de casal perfeitamente arrumada e apagar.
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