Em Lugar do Frio
4 Envolta em pensamentos
Notas iniciais
Okay, você pode dizer que minha sorte é zero.
Por quê?
Porque simplesmente minhas aulas foram canceladas. É, pode me chamar de louca. Não ter aulas significa folga, no conceito das pessoas normais. E para mim também significaria isso, se não fosse meu aniversário. Mas hoje é o meu aniversário. E eu estou presa, pelo resto do dia, à um cara insuportável.
E, claro, eu não sou uma pessoa normal.
Poderia acontecer algo pior?
É, claro que pode. Chuva.
Corro pelo estacionamento até chegar ao meu carro. Surpreendo-me ao ver Joseph lá dentro, no banco do carona, com os pés no painel. Por um momento, permito-me observá-lo, e logo depois faço a irritação vir.
Não pergunte, não sei por que faço isso.
Aproximo-me e abro a porta do carro.
– Já?! Aula boa essa, hein? Não durou nem meia hora – ele me provoca.
– Cale a boca – retruco, entrando no carro e fechando a porta. – As aulas foram canceladas. E o que você faz aqui ainda?
– Eu disse que estaria aqui. – Dá de ombros.
– Fico me perguntando o porquê – resmungo e dou a partida. Sei que ele está me encarando, mas não o olho de volta.
– Você é muito mal agradecida.
Encolho-me por dentro. Okay, ele tinha salvado minha vida. Mas não precisava ficar jogando isso na minha cara toda hora.
– Obrigada – digo. – Muito obrigada por me lembrar.
Acho que ele percebeu o que fez, por isso se cala. Não é a memória do acidente que me machuca. É o que aconteceu depois. Passar cerca de oito horas num hospital, sozinha, fazendo uma bateria de exames. Quer dizer, não totalmente sozinha. Joseph estava comigo. Mas Joseph não era os meus pais. E eu precisava deles.
– Desculpe – diz Joseph. – Não foi minha intenção.
– É claro que não – respondo com sarcasmo, mesmo sabendo que realmente não fora intenção dele.
Saio do estacionamento. Minha cabeça está cheia, pensamentos de momentos felizes e engraçados com Joseph. No dia do meu acidente, ele me contava piadas ou ficava imitando os médicos falando. Depois, lembro que fiquei triste no dia seguinte por que ele não estava lá. Fiquei chamando por ele, mas me disseram que não havia nenhum Joseph ali. Eu não quis acreditar, mas as provas eram incontestáveis. Acebei aceitando e o esqueci.
No meu aniversário de catorze anos, lembro da volta dele. Eu estava no parque, e ele vinha na minha direção, sorrindo. Lembro que fiquei feliz em vê-lo. E aquele foi um dia incrível. Nós rimos e andamos pela cidade. Ele me pedia para contar sobre minha vida, e eu contei tudo o que me havia acontecido. Então, à noite, ele foi embora e não voltou mais. Lembro de sentir uma dor engraçada, no dia seguinte.
Acho que o meu aniversário de quinze anos foi o pior. Meus pais fizeram uma festa para mim, e eu teria que dançar a valsa. Joseph apareceu logo de manhã, ficou ao meu lado todos os momentos, dizendo-me o quanto eu estava linda. À noite, ele usava um fraque. Eu dançava e ele me observava. Esperei que ele fosse dançar comigo. Mas a valsa acabou, e ele não foi. Sorriu e, exatamente à meia noite, foi embora.
Naquela noite, corri para o banheiro, pedi para ficar sozinha, e chorei. Pelos anos seguintes, toda vez que eu o via, sentia-me feliz e irritada ao mesmo tempo. Eu era nova demais para entender. Agora eu sei.
A verdade é que eu estou apaixonada por ele. E é tarde demais para mudar isso.
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