Em Evidência
1 Capítulo 1 - Sob a Ótica do Pânico
Notas iniciais
Ouvir a voz da professora Kellen detalhar como um adulto deveria escovar os dentes, com os risos dos meus patéticos colegas de classe só me causavam mais ânsia. Atravessei a vista sobre a sala e vi ao longe que Ita torcia os dedos, salivando de puro ódio. Ela me encarou por um segundo e sabia que explodiria a qualquer momento.
Fica calma, foda-se eles.
Afinal, a garota patética da faculdade era eu, não ela. Mas eu sabia que tinha uma amiga para todas as situações, tão absurdamente louca e defensora que me dava medo muitas vezes.
Ela é nojenta.
Descreveu com a linguagem de sinais, nossa forma sigilosa de conversar. Sim, nessa faculdade elitista e preconceituosa ninguém se dava ao trabalho de interagir com deficientes auditivos, o que nos dava uma exclusividade incrível. Os pais dela eram surdos, e aprendi a linguagem com eles.
Sim, ela é, mas isso não me afeta.
Dei de ombros, tentando convencer minha amiga, ouvindo risinhos e sentindo minhas costas como um alvo.
É claro que afetava. Aprenda: se a faculdade inteira fala que você tem um hálito ruim e foi uma péssima namorada, isso absolutamente te afetará. Principalmente se for a mentira mais deslavada que seu estúpido ex-namorado conseguir inventar.
Sim, eu tive o azar de namorar um idiota chamado Stone, esse nome esquisito com referencias ainda mais idiotas de pais que queriam que o filho tivesse um nome único. Naquele dia que parecia nos derreter, só me perguntava o motivo de ter desperdiçado três anos inteiros da minha vida sem perceber que namorava um imbecil. O meu consolo era que talvez todos passassem por isso, ou só talvez eu.
Não tarde demais, após a terceira conversa mal intencionada no whatssap e várias verdades que lancei em seu rosto no meio de nossa discussão, sem que ele tivesse qualquer justificativa, entendi o motivo de meu desgaste emocional que parecia tão bem escondido dentro de mim: ele era um narcisista que não aceitava perder. Nunca.
Espalhar boatos falsos era só mais um dessas imbecilidades facilmente desenvolvidas pelo ego masculino. Desconhecer aquele ser humano era um fato. Quem eu tinha de fato namorado todos aqueles anos?
Eu sequer conhecia Stone, e era isso que me destruía.
O sinal tocou, fazendo com que a porta fosse praticamente derrubada, no meio da apresentação incrível de como escovar os dentes de forma eficaz. Ita encarou a professora com tanta intensidade, que sequer conseguiu me dar dicas, como imaginei que faria. De fato, era o menor dos meus problemas. Eram três semanas desse assunto interminável, o que seria mais um dia?
Era o segundo mês do ano letivo e eu deveria ter mesmo muita sorte para começar um ano dessa forma. Ita agarrou meu braço, puxando com força. As correntes da roupa causando pequenos barulhos enquanto andávamos. Ita era incrivelmente original: as roupas, o cabelo por vezes verdes, por vezes rosas, deixavam sua marca registrada. Sua beleza era estonteante, mas dificilmente alguém conseguia contato: ela deixava bem claro que odiava todos os mauricinhos e patricinhas daquele inferno. Frase dela.
Imaginem: éramos o total contraste da amizade moderna. Minha melhor amiga era alta, esbelta e cheia de personalidade. Eu era apenas... eu. Baixinha, na maioria das vezes preferia o anonimato, o que nos trazia para o último acontecimento novamente. Absolutamente não estava mais no maldito anonimato.
“Já disse que posso extinguir cada um deles, tenho técnicas boas de tortura aqui” Deu três batidinhas na cabeça, enquanto agarrava meu pescoço. “Não sei como passou tanto tempo com aquele idiota, sempre te avisei” Sim, ela adorava chutar um cachorro morto e eu meio que dava razão: odiou Stone desde o primeiro dia, quando o conheci na conveniência perto da minha casa. Ele era do grupo de futebol da faculdade, o que gerava ainda mais ranço em Ita. “Esse pessoal do futebol não é confiável, minha teoria está mais do que comprovada”
“Quer que eu diga o que, parabéns por estar certa?” Revirei os olhos, ouvindo três palminhas.
“Essa é minha garota” Simulou uma vaia. “Uma pena que só consiga ser estressada comigo, seria de grande utilidade com esse bando de infelizes” A essa altura estávamos no refeitório, com vários cochichos ao nosso redor. “Ah, não, não olha pra direita e...”
Tarde de mais, Kevin já caminhava em nossa direção em uma velocidade absurda, quase derrubando tudo que via pela frente. Sim, os quase dois metros de altura não facilitavam.
“Veja quem encontrei, minha gracinha” Ita mostrou o dedo do meio, virando de costas para ele, tipo aluna quinta série. “Confesso que já estava com saudade”
“Desculpa, mas não posso dizer o mesmo” Kevin era oficialmente o ex-ficante de Ita, mas quase ninguém sabia disso. Sim, ele era louco por ela desde a escola, e em uma recaída – palavras dela— teria ficado com ele na festa de formatura. Oficialmente, foi onde começou a fixação de Kevin por ela, quase sempre correspondida por um vá se foder, bem no estilo da minha melhor amiga. “Porque não almoça com seus amiguinhos?”
“Oli está vindo aí” Senti meu coração congelar. Oliver, melhor amigo de Kevin era da minha turma, e o responsável por meu pânico ultimamente. Ele tinha presenciado o momento mais patético de minha existência três semanas atrás: minha briga autodepreciativa com Stone, onde só fui humilhada com várias mentiras, sem conseguir responder uma palavra sequer.
Por Deus, aquele dia já era humilhante o suficiente, ter uma testemunha dos momentos patéticos só me fazia me sentir mais como perto de ser um lixo humano. Oliver sentou ao lado de Kevin e senti que também se esquivava de meu olhar, tão constrangido quanto eu.
Legal, só me faltava mais esse sentimento de pena que via em seus olhos.
Sentou na mesa, tímido, acenando minimamente, vendo algo no telefone. Ele era tão alto quanto Kevin e ambos faziam parte do time de basquete, o que os tornava especialmente populares na faculdade. Andar com eles era mais um motivo para atrair atenção, o que particularmente não me agradava.
“Só eu estou sentindo essa tensão no ar?” Kevin sacudiu as mãos no ar, como se tentando pegar no ar. “Não se preocupe, Martina, sabemos que você não tem mau hálito”
Ita rosnou, tentando alcança-lo, mas ele era sempre mais rápido.
“Por isso que é insuportável”
“Só estou falando a verdade, conheço nossa garota” Mexeu em meus cabelos, bagunçando. Ok, confesso que gosto um pouco de Kevin. Era o folículo de serotonina que faltava em minha personalidade nos últimos dias. “Você é melhor que isso, Mar” Piscou, voltando a rodar em volta da mesa, sendo perseguido por Ita.
Oliver era uma incógnita. Era seu primeiro ano na faculdade e por ser amigo de infância de Kevin, automaticamente andava com ele para todo o lado, o que obrigava a se juntar conosco. Sua particularidade eram as diversas tatuagens pelo corpo que trazia um certo ar de mistério, já que quase nunca abria a boca. Como olhos castanhos e um olhar distante, era como se nem estivesse ali.
Isso se sua presença não fosse um lembrete constante da minha humilhação.
“Disse para você ficar longe de Stone, era só ter me escutado” Kevin desistiu de fugir e apenas aceitou alguns tapas, antes de sentar na mesa, me usando como escuto.
“Era só o que faltava, ter que receber essas palavras de você” Ita retrucou.
“Obrigada pela parte que toca” Tentava abrir a vasilha com alguns doces que tinham sobrado do jantar passado, sem sucesso. “Mas quanta hipocrisia, pois é praticamente o que você diz diariamente, aliás, porque ainda estamos falando nisso?”
“Deve ser porque é o assunto da escola inteira?” Lancei a cabeça na mesa, quando senti algo proteger minha testa do baque: era a mão de Oliver. Encarei intrigada, e ele apenas voltou a visão para o celular, com indiferença. Agradeci mentalmente.
“Obrigada por lembrar, Kevin” Deu de ombros.
Oliver era quase sempre tímido e silencioso, mas tinha gestos gentis como esse quase o tempo todo. Sim, ainda existiam pessoas educadas e gentis no mundo, apesar de minha mãe quase sempre afirmar que essas virtudes nunca estavam associadas ao sexo masculino.
Ele gosta de você.
Ita fez em libras, me fazendo revirar os olhos.
Não comece, ok?
“Ah não, vai começar?” Kevin detestava quando ficávamos com segredos conversando em libras.
Ele só tem pena de mim por assistir a cena patética do meu término.
Ela colocou a língua para fora.
Na minha terra essa pena gera até herdeiros, sabia?
Senti Oliver levantar, parecendo irritado. Kevin acompanhou, eles teriam treino no próximo horário.
“Até logo, miladies” Reverenciou, saindo. Oliver sequer olhou para trás.
“Juro que se ele souber falar libras, vai ser ainda mais vergonhoso do que assistir meu término” Ita apenas gargalhou, quando notei que meu pote de doces estava aberto sobre a mesa. Um último olhar para trás e foi rápido o suficiente a tempo de ver Oliver me encarar por uma fração de segundos.
Sacudi a cabeça.
Garotos era a última coisa que eu queria naquele momento.
Fale com o autor