Em Defesa da Triseza
1 Capítulo Único
Notas iniciais
A capacidade de ser humano é conseguir sofrer. É se arrastar, arrasado, pela vida. É chorar, entristecer. É ter aquele peso na cabeça no final de um dia difícil. É sentir desânimo ao se levantar da cama, se segurando nas cobertas como se fossem bóias, que impediriam que você se afogasse no oceano da vida social. Ao mesmo tempo, a capacidade de ser humano é também conseguir sorrir, feliz. É rir e se divertir com amigos, com estranhos, com até mesmo gente que você não gosta, caso exista a possibilidade. De continuar vivendo dia após dia, atrás de algo melhor, atrás de algo pior, atrás de algo. Não fez sentido? Deixa eu explicar melhor.
A gente tem a mania de dividir nossos sentimentos como ou bons ou ruins. “É melhor ser feliz! Otimista!”, dirá quem quer que você pergunte. E realmente, a felicidade é linda. Aquece a alma, o ambiente, as pessoas. Uma fagulha brilhante solta em meio à neve. Passamos nossa vida inteira atrás de felicidade, ou daquilo que pensamos que nos fará felizes. Mas aí que está. Só porque esse sentimento em particular é maravilhoso, isso faz de seu oposto algo horrível? O que tem de tão errado sobre a tristeza — tirando o leve desconforto — que faz com que tentemos de tudo para nos livrarmos dela?
A tristeza nos faz sentir. Realmente sentir. Uma doce dor que nos lembra que estamos vivos. Uma perspectiva que pode fazer com que enxerguemos o mundo de uma forma completamente diferente. Quando você perde algo, ou alguém, nunca parou, por um instante que seja, para curtir essa tristeza? Para sentir o poder desse sentimento, o peso que ele tem? O jeito como seu coração queima? De saudade, de razão, de memórias, de palavras ditas ou palavras não ditas. Pessoas, a todo momento, sentem pena daqueles tristes. Eu sentiria pena de alguém que nunca ficou triste em primeiro lugar.
Consegui ilustrar minha visão? Excelente. Agora pensem que tristeza e felicidade são apenas dois dos sentimentos que encontramos em vida, o que quer que venha depois. Temos Inveja, rancor, raiva, pena, orgulho… E a lista assim vai. Cada um desses variados sentimentos tendo o seu próprio sentido, sua própria força, seu próprio peso; uns vistos como bons, aceitáveis, e outros vistos como ruins, indesejáveis. Mas no fim, todos sentimentos. Todos importantes. Únicos. Potentes. Perfeitamente imperfeitos. E acima de tudo, todos nossos.
Chego por fim no ponto dessa fala ignóbil. Para mim, a capacidade de ser humano é a de ter esses sentimentos em primeiro lugar. É o sentir. Por vezes, é até mesmo o demonstrar. Às vezes mais, às vezes menos. Às vezes melhor, às vezes pior. Às vezes vários sentimentos de uma só vez, às vezes apenas um. Mas sempre belo, qualquer que seja a forma que se apresente.
O sentir para o ser humano é algo sempre existente. Sempre significante. Significante o bastante pra manter o mundo girando. Pra fazer com que ignoremos a futilidade da vida material. Pois afinal, vamos virar poeira algum dia, e ainda assim dançamos, ainda assim amamos, ainda assim entristecemos. Ainda assim sentimos e, a partir desse ato, damos sentido à nossa vida e à nós mesmos.
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